Do adubo

A bosta é natural e alimenta muito bicharoco. Entra na economia do sistema vegetal e sai da vegetação dos economistas. Também a real bosta que é a TVI veio enriquecer as nossas opções lúdicas na versão 24. Nada se perde.

É o caso do Prolongamento, onde se encontram reunidos Pôncio Monteiro, Fernando Seara e Eduardo Barroso, os três sob a desculpa de irem falar de futebol. Mentira. Eles são mantidos naquele espaço apenas para não andarem à solta na cidade. Pelo menos durante duas horas, uma vez por semana, ficam num ambiente controlado, monitorizado por um auxiliar de enfermagem e vigiados por várias câmaras de televisão; assim descansando familiares e amigos que podem aproveitar para ir jantar fora, ao cinema ou pôr a conversa em dia.


É o caso do Cartas na Mesa, onde Constança Cunha e Sá se dedica ao passatempo de convencer os entrevistados a verbalizarem o que ela pensa – sendo que o seu pensamento se resume a uma única ideia: Sócrates é o coveiro da Pátria. Na entrevista a Garcia Leandro, que passou despercebida por causa da sensatez das respostas, calhou o general elaborar um bocadinho sobre o ímpeto reformista do Governo. Ao ouvir dizer que algumas reformas precisariam de mais tempo para além dos 4 anos da legislatura, Constança arregalou os olhos, teve um assomo de entusiasmo e quis saber onde é que Sócrates tinha falhado. A resposta foi extraordinariamente relevante. Leandro explicitou a sua opinião dizendo que as reformas na Saúde e Educação teriam corrido melhor, e chegado mais longe, se tivessem tido – como deveriam ter tido – o apoio da oposição. Isto porque mudar culturas e mentalidades é muito difícil, seja onde e quando for. Este raciocínio levou ao regresso da face anestesiada da entrevistadora, onde se pendurou um sorriso que dizia És mau, não queres brincar… Passou logo para outro assunto.

É o caso do Contas à Vida, indiscutivelmente o programa mais importante da TVI24. Junta Perez Metelo, moderador e conversador, Pina Moura e Braga de Macedo. Pina Moura está lá só para ficar a olhar para o palácio. Metelo é agradável, como sempre. E o espectáculo responde por Jorge Avelino.

A crise global tem várias vantagens, que me perdoem os desempregados. Uma delas é levar os portugueses, povo avesso à racionalidade capitalista, a interessar-se um pouco mais sobre estas matérias. Isso só nos irá fazer bem, dando frutos em pouco tempo. Outro benefício está na constatação de que a economia é, de facto, uma ciência humana. Ou seja, que ninguém se entende sobre o que deve ser feito, nem sequer os especialistas mais reputados. A estupidez de acusar o Governo por não ter previsto a crise é o prato do dia que se repete em todo o lado, porque não se anteciparam os acontecimentos em parte alguma do Mundo, nem sequer onde eles tiveram origem, os EUA. Uma das primeiras conclusões deste fenómeno, a qual já estava estabelecida desde a crise do preço do petróleo em 2008, é a de que os sistemas financeiros e económicos são complexos demais para os modelos e agentes que os tentam analisar. Isso faz dos economistas, de repente, aristocratas deserdados. Perderam as propriedades cognitivas, os bens intelectuais, andando também na sopa dos pobres das teorias. E isso é bom, confere humildade que tanta falta faz.

Este quadro permite desfrutar melhor do acontecimento Braga de Macedo (filho). Trata-se de uma figura fisionomicamente cómica, a que acresce ser histriónica na expressão. Perfeito para funções lectivas, com traços e pose facilmente caricaturáveis. Por dentro, é um representante da elite nacional, rodado internacionalmente, conhecedor a fundo da lógica dos sistemas de poder e dos limites do regime. Este composto poderia não ter nada de notável não fosse a veia irónica que o comanda. E que o próprio não controla, é pulsional. Como exemplo anedótico, lembrar uma entrevista algures enquanto ministro das Finanças de Cavaco. À pergunta, salvo erro pela Maria Elisa, sobre se determinada circunstância monetária iria levar os portugueses a sentir na carne essa alteração, usando a expressão no seu inequívoco sentido figurado, a resposta foi que Sim, e também no peixe e no pão, continuando a falar sem se desmanchar. É este artista que aparece agora todas as quartas-feiras para fazer gato-sapato do atarantado Pina e deliciar o babado Metelo. E também para nos mostrar que até ele, puta velha e finória, não faz ideia do porquê e para quê dos acontecimentos. Eis a suprema encenação de um mestre da ironia, autofágico até à última caloria.

9 thoughts on “Do adubo”

  1. Só li as primeiras linhas , V. Se não gostas , para que é que insistes? És masoquista? Trata-te , pá , procura um psi…

  2. (Pró Z :
    achas que ainda vamos demorar muito a perceber que se planta , espera-se bué pela cabeça da sementinha , bué para que crie raízes ,e mais ainda para que dê flores e depois frutos? e sempre a regar , e a cuidar com montes de paciência ? e ops , as vezes não vinga porque o terreno , ou a estação do ano , não eram os adequados? , falta de conhecimentos nossos , neste caso…)

  3. A TVI não é isenta nem o pretende ser. A TVI encarrila as notícias e os seus programas com um objectivo só – denegrir o Ps, o seu Governo e o seu líder José Sócrates.
    A necessidade desesperada que alguma comunicação social sentiu de contrabalançar as coisas assim que estourou a barracada-Bpn, não é inocente. Os homens de confiança de Cavaco e do Psd estão atolados numa autêntica cratera de fraude – são 1.800 milhões de euros!
    1.800 milhões de euros – é o everest das fraude em Portugal e arredores.
    E qual foi a concertada acção de alguns pasquins e tv de serviço??
    Lançar o Free-Não-Sei-Das-Quantas para contrabalançar as coisas.
    Mas a urdidura era frágil demais, a carta anónima, a condenação de 2005, o feedback inglês, as fugas selectivas e orientadas para atingir a pessoa, semeadas às pinguinhas…tudo isto assim tão à descarada começou a lembrar ao povo que a Comunicação Social não é virgem nestas matérias de assassinatos políticos, O POVO NÃO ESQUECEU O QUE FIZERAM À DIRECÇÃO DE FERRO RODRIGUES. Em boa hora recordo a entrevista de Marinho Pinto dada a Judite de Sousa, na grande entrevista 31 de janeiro 2008, para perceber que tipo de gente tomou conta da Direita em Portugal.

  4. mf, estás muito críptica, mas tens aqui,

    Valupi: achas mesmo que essa gente não previu a crise? Era inevitável creio que qualquer um diria, por causa da escalada de amplificação que sucedeu à guerra do Iraque que só podia dar derrocada. Estava à vista imediata quando o petróleo chegou a $150 e um euro a mais de $1,5. Cá para mim isso são tudo farsantes, pagos para entreter.

    A Wave fala ali na cratera de 1800 milhões de diâmetro, a cratera do regime,

  5. mf, ok!
    __

    Caty Waves, pois, o objectivo não tem sido o de expor ou investigar os já indiciados por corrupção, antes a procura de um golpe de Estado mediático. É isso, e é muito revelador.
    __

    Z, tu também não previste a crise. Podes constatar, frequentando a comunicação social estrangeira: repetem-se as mesmas conversas por todo o lado.

  6. Estás com azar Valupi, previ sim, por escrito, em 2003 disse que seria inevitável a não ser que se invertesse a lógica de amplificação com o esquema de atenuação. E aqui no Aspirina fui gritando consecutivamente que estava mesmo a chegar. Contestas?

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