O triunfo dos escaganifobéticos

Vai para dois anos que ando a remoer numa sugestão da Catarina Campos. Missão difícil, sempre adiada, até ao dia em que li esta declaração. Nela, uma das coqueluches da política-espectáculo anunciava, em registo confessional, a candidatura para uma bolsa de estudo no valor de 7665 euros brutos por mês:

[…] quando alguém próximo me pergunta o que iria eu fazer para o Parlamento Europeu, a minha resposta é “aprender”. Talvez não seja a resposta mais “política” mas é certamente a mais sincera. Aprender é aquilo que sempre mais gostei de fazer. Aprender em público é o que eu tenho feito nos últimos anos. O que vou escrevendo nos jornais ou dizendo na televisão não são opiniões fechadas; são momentos dessa aprendizagem em público. O Parlamento Europeu é provavelmente um dos melhores lugares no mundo para continuar a fazê-lo e tudo o que eu aprender será devolvido ao debate público e, por essa via, aos cidadãos.

Aprender é belo. Não ter opiniões fechadas é lindo. E vender a sonsa balela de que se devolve ao cidadão o que se anda a aprender com os nossos impostos é de subir aos postes e apalpar o cu às lâmpadas. Então, bute lá aprender no Parlamento Europeu, o qual tem magníficas instalações de ensino e refeitórios de encher a pança. Até o Pacheco, outro insigne historiador da cepa do Tavares, quer voltar para lá. O nosso estudante teria companhia no avião e bom conselho em Bruxelas sobre hotéis a evitar e restaurantes a não perder.


Antes deste passo, que me deu fundada esperança de vir a conseguir explicitar a noção de escaganifobético, topei uma antecipação difusa da promessa. Consistiu no modo como avaliou o voto dado ao Miguel Portas; o qual se terá portado muito bem por, e principalmente, ter convidado o novel candidato para umas cenas porreiras:

É menos conhecida a Rede de Reflexão Europeia que ele criou, com a participação de pessoas de diversos campos, da academia à imprensa, da sociedade civil à política. Aceitei participar nessas reuniões, como é meu hábito fazer, e verifiquei que decorriam num ambiente aberto, anti-dogmático e consequente que fica a milhas do que os partidos costumam fazer neste tipo de fóruns. (Foi também aí que conheci Marisa Matias, que será a segunda candidata da lista, e que é uma académica e política promissora com quem será um gosto trabalhar.)

Em retrospectiva, percebemos que o Rui foi para essas reuniões aprender. E o que, neste preciso balanço, devolve ao cidadão consubstancia-se na recordação de um certo ambiente. Um ambiente bem fixe, diz-nos, porque anti-dogmático. Anti-dogmático e aberto, óptimo para opiniões que não estejam fechadas. E consequente, não esquecer, consequente. Maneiras que o Portas está de parabéns, dado que ambientes assim não se encontram nos partidos. Ah pois é, azarinho, temos pena, lalalá.

Com estes dois anteriores momentos de supina relevância política, estava já confiante de poder avançar seguro em direcção ao conceito de escaganifobético. Eis senão quando, fui transportado para uma epifania de arrebimbomalho:

O nosso papel, do meu ponto de vista, deve ser o de compreender a mudança e nunca fugir a essa obrigação intelectual. Politicamente, porém, o nosso papel deve ser mais profundo ainda. Tentarei resumi-lo numa expressão um pouco arrevesada: é mudar a própria mudança. Que quero dizer com isto?

De facto, que raio quererá isso dizer? A explicação que rebola até ao final do parágrafo, por haver mínimos de qualidade argumentativa neste blogue, será ignorada. Mas a invenção diabólica do mudar a própria mudança não pode passar incólume. Bem sei que não se trata de uma opinião fechada, e que o autor a elaborou num contexto, afinal, de aprendizagem (pelo que não é para levar a sério), mas, foda-se senhores ouvintes, mesmo assim, que caralho quer aquilo dizer? Mudar a mudança poderá ser apenas uma forma retórica para veicular inane banalidade: a de que as mudanças devem ocorrer de acordo com o que ele, Rui Tavares, prefere. Só que isso é esperar pouco de quem ambiciona levar o BE a meter 3 deputados no PE, pelo menos. Melhor será entender essa expressão adentro do seu dinamismo dialéctico programático e reconhecer o óbvio: não tarda, o homem virá anunciar que isto de mudar a mudança é curto, nós temos é de pensar em mudar a mudança da própria mudança. Hã? Que tal? É ou não é? Coisa do carvalho, fosga-se. E repara como esta fórmula surge, a uma só voz, anti-dogmática e consequente. Porque se a tanga não pegar, salta logo um acrescento: mudar a mudança da mudança da própria mudança. E depois é sempre a dar-lhe, sempre a meter mais uma mudança, até que a revolução arrebente com os carretos do capitalismo. Os camones, lá em Bruxelas, vão ficar malucos com a luminária!

Só há uma palavra, em toda a língua portuguesa, capaz de nomear este grau lunático de tonteira vaidosa: escaganifobético. Ei-la, finalmente, ilustrada.

17 thoughts on “O triunfo dos escaganifobéticos”

  1. ai Valupi és esperto que nem um raio!, e olha que eu sou suposto ser um drus dos raios e trovões, mas ando manso convenhamos, e também já tenho casca para isso. Eu nas europeias não me apetece votar, por agora, e muito provavelmente na hora. Fiquei chateado com o Tavares, aceitar ser o simpático tapete da miquelina, preço de saldo.

  2. Essa de ser eleito para ir aprender é curiosa. Os eleitores dele devem ser parvos. Eu prefiro um candidato já ensinado.

  3. Como diria Michelangelo “Sono ancora imparando”, há, no entanto, uma diferença susbtancial, o homem fartou-se de fazer coisas enquanto aprendia.

  4. Eu também quero uma bolsa de estudo para percorrer o mundo. Prometo que depois devolvo tudo à sociedade, na forma de cds com fotos digitais, ou então em três ou quatro pens recheadas de coisas boas !!!

    cumprimentos,
    Joao Melo

  5. Como há dias alguém cujo nome esqueci (mas deveria lembrar) disse: menos do que indignação, os portugueses sentem inveja dos corruptos. Neste post e comentários, observo uma variante dessa constatação. Vejo aqui mais inveja do salário de eurodeputado do que outra coisa.

  6. z, não vais votar na Europeias? Shame on you.
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    claudia, ainda não foi tudo.
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    Nik, é curiosa e sonsa.
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    Joao, pois fartou. Aliás, outro que também disse muita coisa enquanto estava na escolinha foi o Sólon. A última frase que se lhe conhece reza assim: “Morro aprendendo.”
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    Joao Castro, inscreve-te no BE e vai às reuniões muito fixes que eles organizam. Com sorte, quem sabe…
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    JVC, cada um vê na medida da sua capacidade visual.
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    catarina, andava inquieto por não corresponder ao teu repto. Felizmente, tudo se compôs.

  7. Valupi: votar é um direito porque existe o direito de não votar, e tão só. Quereres transformar o direito de votar na obrigação de votar é algo sobre que te deverias interrogar. Se vou ou não vou só à última da hora é que saberei e vê lá se não é shame on you too.

  8. Pois, é um direito não votar, z. Mas esse lado da questão não tem interesse, pois se esgota no vazio assim assumido. O que é interessante (para mim, claro) é a dificuldade da escolha para o voto que realiza a nossa responsabilidade cívica.

  9. A nossa responsabilidade cívica pode definir-se, para quem assim achar, em não ser cúmplice por acção numa votação que se pode considerar pervertida no seu fundamento. Não estou a dizer que é já a minha conclusão, mas é uma formulação lícita, admissível.

  10. Claro, se consideras a votação ilegítima, não ires votar deixa de ser uma demissão e aparece como uma afirmação. Não previ essa possibilidade, e também não a referiste.

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