Não? Não é verdade? Tudo bem. Mas a suspeita fica, ok? Até porque é de graça, e tem graça.
Ou há moralidade ou suspeitamos de tudo e de todos.
Antes do jogo com a Fiorentina, Paulo Bento disse que o Sporting não precisava de milagres para vencer os italianos. Chegou ao ponto de falar de Fátima, só para dizer que não tinha lá ido. Isto é de uma estultícia que devia merecer processo disciplinar interno. Porque toda a gente sabe que o futebol transcende a cognição humana, é o resultado de forças sobrenaturais. Se não o fosse, Queiroz e o seu caderninho já estavam no Tussauds e os 3-6 não teriam vindo embaciar os 7-1.
Um italiano agride Liedson. Agressão que justifica vermelho. Vukcevic corre para a escaramuça. O italiano não é expulso. Vukcevic leva amarelo. Vukcevic marca golo. Vukcevic tira a camisola. Vukcevic é expulso. Vukcevic não vai jogar a 2ª mão. Bento, faxavor, chega aqui. Acaso esta sequência não é um milagre ao contrário? Hã?
E o golo do Veloso, aquele efeito marado na bola? Só possível por causa de Vukcevic, como é fácil de correlacionar. Aliás, tudo no Sporting se resume ao Vukcevic. E quando, um dia, Bento perceber que a equipa deve ser organizada à volta de Vukcevic, de forma a que ele passe a maior parte do tempo com a bola nos pés junto da baliza adversária, um milagre terá acontecido. Bento voltará a ter fé, nós voltaremos a ter Sporting.
Já tinha acontecido no ano passado, na comunicação ao País que deixou o tal país num estado de ansiedade totalmente despropositado. Foi uma exibição gratuita de poder, indicadora de irresponsabilidade, inconsciência ou soberba. Voltou a acontecer nos meses seguintes, com a colagem entre a Presidência e o PSD, com a desestabilização das fugas de informação originadas na Presidência, com a pressão dos cavaquistas na comunicação social e também com o boicote legislativo ao Governo. Finalmente, temos a utilização de um jornal, outrora independente, para lançar a maior suspeita política de que há memória viva em Portugal. E, durante o dia, o Presidente da República não se dignou esclarecer os portugueses do que os seus assessores publicaram na forma de boato. Um boato absurdo, nascido da paranóia e da indigência moral.
Esta ofensa não pode ser esquecida, Cavaco não pode ser reeleito.
A polémica entre o João Galamba e o João Gonçalves é um dos mais interessantes episódios da campanha até agora, porque espontâneo e significativo. O Gonçalves vem de lançar um livro que teve dois passarões do sistema na sua consagração: Medeiros Ferreira e Pacheco Pereira. Justamente, o Gonçalves tinha razões para acreditar ter chegado lá, àquele sítio que só ele sabe onde fica por ser interdito aos impuros, o santíssimo onde a divindade é feita à nossa imagem e semelhança. Galamba também tinha chegado lá, é a mais nova promessa do PS, estrela independente em ascensão, conquistando simpatias e empatias. Uma dupla polaridade explica a atracção e o choque: movimento de ligação causado pelas cargas diferentes, PSD-PS; movimento de repulsão causado pelas cargas iguais, ambos machos Alfa num pico de confiança e fama. [introduzir bocejo antropológico]
O nevoeiro da guerra fez vítimas nos observadores. Quem saiu a correr para atacar o segundo atacante teve de atravessar um campo minado que estava, nesse preciso momento, a ser bombardeado em conjunto pela aviação, marinha e exército, e onde também se realizava o campeonato mundial de snipers. Se foi o teu caso, lamento dizer que não sobreviveste, podes seguir em frente por esse túnel de luz. É que não vale tudo. A regularidade dos fenómenos naturais, que está na origem da agricultura e dos Rolex, prova que existe uma ordem. Nem que seja a ordem do tempo. Como neste caso, em que o Gonçalves antecede o Galamba na utilização do substantivo filho. Pode perguntar-se: mas que mal tem a expressão filho do outro? Poder pode, mas muito mais poder tem a pergunta: que sentiria eu se fosse tratado como filho do outro? São muito poucas as situações em que a audição ou leitura de filho do outro, calhando-nos ser o filho, não desperte os demónios ctónicos, as erínias, que se alimentam da honra. E este é um caso de honra ― ou, para ser conceptualmente exacto, um caso de filha-da-putice.
Então, sai-me já daqui e vai para ali.
O que mais surpreende no Pacheco é a sua debilidade intelectual. Ser intelectual não se afere por títulos académicos, aclamações de terceiros ou número de recensões por trimestre. Ser intelectual é um ofício metafísico, consiste em dizer o ser de muitas maneiras. Eis um dos pilares da tradição ocidental, ligando a ontologia à retórica, servindo a retórica para iluminar a ontologia. O seu ethos é essa perene busca da verdade como ideal. E daqui decorre essoutra sapiência de nunca reclamar a posse da verdade, de saber que não se sabe. O máximo permitido ao filósofo é ainda, e apenas, aproximação ― ou um nada, na sua versão mística, se a meta for o infinito. A glória está na procura, no fazer caminho e nos encontros dos que se procuram. No amor, acertaste. Tudo isto é lana caprina, por isso surpreende (choca?) não se encontrar nem um vestígio destes princípios no Pacheco.

Sócrates já disse, faz tempo, que governará em minoria. E de Sócrates sabe-se que fará qualquer aliança que permita a melhor governação possível, Portugal pode contar com ele. Assim, e paradoxalmente, a posição do PS é a mais esclarecida antes das eleições. Todos os outros partidos é que estão dependentes dos resultados para fazerem contas à vida. O que não é uma falha deles, antes uma necessidade nascida de duas circunstâncias: terem limitações ideológicas e lideranças fracas. As limitações ideológicas e fraquezas dos líderes serão diferentes, mas existem e explicam a ausência de propostas, ou irrealidade das mesmas, que caracteriza a oposição.
Há um enigma à volta do Crespo. Esta figura assina textos onde ofende a honra de instituições e pessoas, fazendo insinuações generalizadas, como nesta recente opinião. Simultaneamente, recebe as mesmas pessoas e instituições ofendidas enquanto jornalista. Para maior estranheza, ele não se inibe de expressar as suas insídias no exercício da função jornalística. E, para completo desconchavo, alguns dos convidados, simultaneamente ofendidos, fazem-lhe bacocos e gordurosos elogios. Que é isto?… mas que… fosga-se… que… cum caralho… Que é isto?!
O Público, na edição digital, aproveita para o citar numa passagem onde ofende o Governo, o PS e um sem-número de entidades públicas e privadas, mais os seus responsáveis. Crespo talvez não descanse até ser processado por difamação, para que finalmente possa cumprir-se como mártir do seu delírio paranóico. Ser chamado à razão judicial, ser obrigado a provar as acusações que ininterruptamente bolça enquanto publicista e jornalista, seria para ele a confirmação da narrativa: todos à sua volta são corruptos e querem abafar a única voz que os denuncia. Não? Se não, o Crespo está a prestar um serviço público inestimável. As suas crónicas de um Portugal desgraçado e sem salvação, disputando com Medina Carreira o título de agoirento-mor do regime, atingem um valor político que se sobrepõe ao conjunto dos partidos. O povo fará bem em se unir à sua volta, partindo para a revolta e subsequente limpeza do Estado. E sejamos sinceros: com um lenço na cabeça e um xaile pelos ombros, o Crespo dá uma Maria da Fonte bem jeitosa.

Mas, felizmente, o Arrastão tem leitores generosos, com tempo para explicar aos escravos da esquerda imbecil que não queremos a sua novíssima polícia dos costumes.
A quem é que tu compravas um automóvel?
a)
Sou uma pessoa competitiva, odeio perder. Prefiro fazer batota.
Carolina Patrocínio 22 anos
b)
Este é filho do outro. Um pouco de pudor deveria refrear-lhe os instintos. Expele exactamente o mesmo estilo de flatulência política do papá. Não aprenderam nada. Não esqueceram nada. Estão bem em casa. Em família.
João Gonçalves 49 anos
c)
Sócrates tem uma visão retrógada e sovietizada, que não dá liberdade às pessoas, não confia nelas nem na iniciativa privada.
Aguiar-Branco 52 anos
d)
Acontece, no entanto, que voltou a convidar Joana Amaral Dias para cargos de Estado em troca de um eventual apoio, seja a chefiar um instituto público na área da Saúde, seja num qualquer lugar de Governo. Isto é uma vergonha, é a forma de governar em maioria absoluta, é pensar que o Estado é de um partido, mas não é. A democracia não permite traficâncias. Um partido que em vésperas de eleições anda a distribuir mordomias é um partido que não merece governar.
Louçã 52 anos
e)
José Sócrates é perigoso porque está muito discretamente a construir um estado policial. Esconde um projecto totalitário, reforçando os poderes da polícia e contentando o grande capital. As posições assumidas pelo Chefe de Governo são fascistas, mafiosas e têm intuitos ditatoriais.
Jardim 66 anos
f)
Os problemas nacionais são os que devem interessar a todos os portugueses, e eu pergunto: já nos esquecemos que não temos resposta para a questão do Eurojust? Como está essa questão? Como está o facto de termos uma pessoa que está a representar mal Portugal, que está a humilhar as instituições internacionais, que está acusada de uma forma grave de manipular o sistema de Justiça? Sobre isso calámo-nos todos, eu estou à espera da resposta e espero que os portugueses também estejam porque isto é que são as questões nacionais, vamos pôr as coisas no verdadeiro ponto em que devem estar. É isto que vai estar em causa nas próximas eleições.
Manela 69 anos
g)
Face às dúvidas instaladas, neste momento, na opinião pública, é importante que os responsáveis pela empresa expliquem aos portugueses o que está a acontecer entre a TVI e a PT. É uma questão de transparência. A transparência e a ética nos negócios são duas ilações importantes a tirar nestes tempos de crise.
Presidente da República 70 anos
h)
Entendo que fui nomeado conselheiro de Estado pelo senhor Presidente da República porque ele achava em mim qualidades.
Dias Loureiro 57 anos

Suspeita-se do que está por detrás dos contratos dos contentores de Alcântara, suspeita-se do que está por detrás do financiamento dos computadores Magalhães, suspeita-se do que está por detrás da Fundação das Telecomunicações para as redes móveis, suspeita-se do que estaria por detrás do negócio da TVI, suspeita-se porque há alegadas pressões sobre magistrados no chamado ‘caso Freeport’ e que deu origem a processo disciplinar. Temos em Portugal um Governo sob suspeição e isto corrói as instituições e mina a autoridade do Estado.
Cavaco Silva tem um perfil passivo-agressivo. Há vários sinais deste comportamento. Mas também podemos resumir tudo à sonsice. Como agora em Viseu. Disse que João Lobo Antunes é uma das figuras mais prestigiadas da medicina portuguesa e um cidadão com comportamento exemplar. Mas porquê dizer que a água é líquida? Para largar o veneno, acrescentando que a polémica à volta de Lobo Antunes é tema de campanha político-partidária. Ora, como o caso foi criado na Presidência da República, temos que Cavaco foi ao Cavaquistão confirmar que pretende atacar o Governo e o PS sem descanso. E que está metido até ao pescoço na campanha político-partidária; que tenta, por todos os meios, influenciar.
É, o cavaquismo não foi um acaso.
A esquerda imbecil ― actualmente representada pelo PCP, BE e borboletas que saltam de um para o outro conforme o vento ― é mais religiosa do que a Igreja Católica. Porque os católicos aceitam a ciência e advogam o ecumenismo, mesmo que a contragosto, enquanto as seitas marxistas são fundamentalistas e ultramontanas, e fazem gala disso. Em consequência, PCP e BE disputam a posse da verdadeira esquerda. E vão mantendo uma guerra fria feita de picardias melhor ou pior abafadas. A última nasceu com um texto de João Teixeira Lopes. Nele, o bloquista diz várias banalidades, uma delas que entre o PCP e a Máfia a diferença é menor do que entre o Cornetto Love Chocolate e o Cornetto Choc Disc. Isto pedia uma resposta, ou muitas, mas é mais rápido ficar por este espasmo. Vítor Dias começa impecavelmente: Os tontos nunca dizem a verdade. Depois desta entrada a pés juntos, deixou-se tomar pela emoção e nunca mais conseguiu acertar uma, de tão trôpego de raiva estar.
Os camaradas odeiam-se. E pela mais lógica das razões: os tiranos não partilham o poder.
Pedro Sales, dedicado censor de serviço no Arrastão, resolveu expor na sua malignidade um poderoso inimigo da revolução, a Carolina Patrocínio. E o que Sales descobriu chega para acabar com ela e com todo o PS: a chavala é esclavagista.

Talvez um dia este Sales presenteie a Humanidade com a sua definição do que deve dizer uma rapariga para não ser carimbada como tonta imatura e arrogante. Se for um tipo porreiro (e é, não se duvida), fará a destrinça entre tontas imaturas e tontas maturas, ambas arrogantes, e também entre as tontas imaturas e maturas não arrogantes. Vai ser de um gajo ficar tonto, mas vai valer muito a pena. E sublinho pena.
Entretanto, o esclavagismo acaba de entrar no debate eleitoral. A questão impõe-se obrigatória: quantos mais no BE consideram que a Patrocínio obtém a fruta descascada graças ao trabalho escravo? Não nos esqueçamos de que há uns tempos valentes isso tinha um nome: escravatura. [sick] Portanto, está a explicar-nos o Sales, não há cá merdas, estamos mesmo a falar de escravatura, daquela dos tempos valentes. Resta só saber quantos bloquistas ficaram indignados com a situação e estão prontos para lutar contra a extracção de grainhas das uvas, e caroços das cerejas, na casa da menina.
Todavia, e para lá da supina relevância política da denúncia, o Sales está apenas a exibir o seu termómetro. É que estamos em Agosto. Faz um calor de ananases. Tem ainda mais razões para se excitar com a fruta da Carolina.
Ontem, enquanto ouvia José Miguel Júdice explicar à Ana Lourenço que a estratégia do PSD passa por dizer o menos possível aos portugueses até à votação, pois ao revelar as suas ideias perde votos, ficou claro que o PS tem de se preparar para um Bloco Central sem o PSD; isto é: pedir, insistente e entusiasticamente, nova maioria.
Devem já ser dezenas de milhares os eleitores tradicionalmente votantes no PSD que não poderão, em consciência, dar o voto à desgraça política e intelectual que Ferreira Leite e seu grupo manifestam. Essas dezenas precisam de se transformar em centenas até às eleições. E garantir que o PS tenha de novo condições para continuar o que teve apenas dois anos e meio para fazer: governar para o bem comum.
O nosso amigo Manuel Pacheco anda a oferecer as suas memórias nestas catacumbas. Seis textos que levaram a nossa amiga claudia a propor-se para a revisão, e ainda para o prefácio (creio que se chama a isto: “excesso de zelo”).
Pelo que só falta o editor; pois, quanto a termos escritor, não restam dúvidas.