O que mais surpreende no Pacheco

O que mais surpreende no Pacheco é a sua debilidade intelectual. Ser intelectual não se afere por títulos académicos, aclamações de terceiros ou número de recensões por trimestre. Ser intelectual é um ofício metafísico, consiste em dizer o ser de muitas maneiras. Eis um dos pilares da tradição ocidental, ligando a ontologia à retórica, servindo a retórica para iluminar a ontologia. O seu ethos é essa perene busca da verdade como ideal. E daqui decorre essoutra sapiência de nunca reclamar a posse da verdade, de saber que não se sabe. O máximo permitido ao filósofo é ainda, e apenas, aproximação ― ou um nada, na sua versão mística, se a meta for o infinito. A glória está na procura, no fazer caminho e nos encontros dos que se procuram. No amor, acertaste. Tudo isto é lana caprina, por isso surpreende (choca?) não se encontrar nem um vestígio destes princípios no Pacheco.


Leia-se:

Nos blogues, hoje cheios de gente que trabalha para as agências de comunicação que o governo e o PS empregam e de assessores do governo e das autarquias PS, actuando com pseudónimo, […]

De que blogues está ele a falar? De que pseudónimos? Não se vai conseguir obter essa informação, porque ela iria impedir o efeito pretendido, haveria contraditório ao fel: esses que criticam o PSD nos blogues são pagos para o fazer, não existem cidadãos livres contra o PSD nos blogues. A difamação corre solta e desavergonhada, raivosa.

Leia-se:

Basta dizer que em qualquer país democrático um governante que à sua volta tem uma investigação policial sobre um caso de corrupção (há gente arguida, não há?) associada a uma decisão que foi sua e que envolve familiares seus, tem que aceitar que se discuta o seu papel, por acção ou omissão, tanto mais que sabia que havia uma tentativa de corrupção e não a comunicou ao Ministério Público. E não se pode ignorar que há uma nuvem de “casos” por esclarecer, quanto ao seu currículo académico, às “casinhas” que assinou, até aos casos que estão em tribunal associados a decisões que tomou como Secretário de Estado e como Ministro do Ambiente.

Pacheco anda há meses, ou anos, a repetir que Sócrates não aceita que se discutam os casos onde aparece referido por alguém, casos que se ligam com a sua actividade cívica, profissional ou política. Mas de onde vem essa acusação? Quem é que recorda qualquer acção ou discurso de Sócrates, sequer de alguém por ele, que confirme o que se afirma? Mais: como poderia Sócrates recusar a discussão, seja do que for, sem com isso aumentar as suspeitas? O que o Pacheco está a fazer tem um nome: distorção. Distorce uma legítima procura de respeito e justiça e diz que estamos perante actos censórios.

O modo como fala dos casos por esclarecer é obsceno e revoltante. Que há para esclarecer em relação ao percurso académico e às casas depois do que já foi extensa e profusamente investigado e divulgado? O quê? Fala, Pacheco. A ti ninguém te cala, fala, conta o que sabes. É teu dever explicitar a insinuação. Ou só importa deixar a suspeita no ar porque é assim que se destrói o carácter?

Ainda mais grave, estabelece como provado o que não passa de suspeita. Como pode alguém garantir que Sócrates não declarou ao Ministério Público uma tentativa de corrupção ou sequer que tomou conhecimento da sua existência? Ou terá o Pacheco acesso às investigações e fala a partir do que o MP já estabeleceu para lá de qualquer dúvida? Por mais provável que seja essa possibilidade, à luz das informações divulgadas na comunicação social, incluindo a reacção de Sócrates, um intelectual nunca se permitiria abdicar da verdade. Já um pulha, sim. E de pulhas que condenaram inocentes está a História cheia.

Leia-se:

Os casos referidos por Aguiar Branco, todos eles tendo suscitado perguntas e esclarecimentos, até agora por responder, quer por parte do Tribunal de Contas, quer da opinião pública, quer de todos os partidos da oposição – “os contratos dos contentores de Alcântara, (…) o financiamento dos computadores Magalhães, (…) a Fundação das Telecomunicações para as Redes Móveis”, caem sob esta alçada e são exemplares de uma maneira, chamemos-lhe assim, muito “desenvolta” de governar face à lei.

Pacheco veio defender Aguiar-Branco. Fazer coro. E, no seu sentimento de impunidade, consegue esse feito maravilhoso de ir ainda mais longe, mais fundo, na chungaria. Pacheco diz que estamos perante exemplos de desvios à lei, apesar de reconhecer no mesmo passo ainda não ter recolhido os esclarecimentos respectivos. Ou seja, o Pacheco está a dizer que não precisamos dos esclarecimentos das autoridades em causa, a prevaricação é já um facto. Porquê? Porque ele o diz.

Esta desenvoltura do Pacheco é o seu grande contributo para a campanha e para o consulado de Ferreira Leite. E se isto é um intelectual, então o Aguiar-Branco, sem surpresa, é um Aristóteles.

11 thoughts on “O que mais surpreende no Pacheco”

  1. Val,

    Estás a ver como falas bem e depressa, ou seja, sem recorrer à estética do palavrão.
    Texto bonito, que merece atenção e comentários à altura.
    Pacheco tem um problemas de ETHOS. Depois de ser ML, tudo começa e acaba no PSD. No PSD que é o seu, porque, como muito bem sabes, há vários.
    Bate-lhes com elevação.
    Quem te disse a ti, caro Val, que os comunistas dizem palavrões?

  2. Belo texto Valupi. Mas antes do mais tenho de fazer uma declaração de interesses. O Pacheco, o Crespo e o Sr. Silva são os meus ódios de estimação, no entanto…. Há muitos anos era Pacheco um passarito não ainda um passaralho a tentar com alguma timidez emitir uns trinados,procurando um galhito onde soltar o seu pedacito de matéria fecal, Eduardo Prado Coelho em polémica se o bestunto não me falha no Público de saudosa memória chamou-lhe P.P.P.. Foi uma premonição.

  3. E Pacheco Pereira, tão cioso de verificar a honestidade de Sócrates, devia também fazer o mesmo em relação aos deputados que a Ferreira leite nos quer impor ao parlamento. Mas a coerência não é a sua virtude.

  4. «Deixa-se a suspeiçãono ar» e depois fica-se um país inteiro a comentar suspeições como se de factos tratassem. Quem lança as suspeições, por não ter factos, sabe muito bem que é assim que isto funciona. Depois é só utilizar os meios de que dispõe,especialmente uma certa comunicação social, manipulada e sustentada por estes interesses.
    Tudo isto se faz, impunemente, ao abrigo duma visão muito distorcida do que deveria ser uma democracia responsável. E há muita gente, que por falta de sentido crítico ou porque
    duma maneira ou doutra lhe dá jeito esta suspeição, vai alimentando este logro.
    Assim vai este país, em que se torna mais apeticível, para uma classe partidária, tirar dividendos políticos do que resolver os seus reais problemas.

  5. De facto, valupi, nos intelectuais, infelizmente não te conseguimos incluir-te, pois, retórica não te falta, segundo a tua definição só te falta o conhecimento do ser.

    A espaços lá vens tu tocado, até parece que o PP também fala de ti. Será?, se tal carapuça não te assentasse também, provavelmente, não reagirias de forma tão virulenta.

  6. E eu que me pareceu que isto era baile por causa do Moita Flores e do Miguel Relvas. Ia jurar que vi o Aguiar Branco de batuta a ensaiar uma filarmónica local e o Pacheco a tentar o sapateado. Ou o fandango?
    Ou era um grupo de forcados a treinar as récitas para incentivar alguma besta?

    Sou mesmo distraído. Vou ter que pôr na agenda deixar de fazer comentários.
    Mas esquece-me.

  7. Claro que o Pacheco fala (também) do Valupi.

    Pode não ser intelectual, mas não é parvo.

    Já o Valupi não é intelectual mas é parvo. E trabalha numa agência de comunicação.

    (Pacheco fala também do famoso trio João Magalhães, Miguel Abrantes e o recentissimo João COISAS. Camara Corporativa reciclada em Simplex.

    E de outros. E de outros.)

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