Descodificar PCP e BE

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Sócrates já disse, faz tempo, que governará em minoria. E de Sócrates sabe-se que fará qualquer aliança que permita a melhor governação possível, Portugal pode contar com ele. Assim, e paradoxalmente, a posição do PS é a mais esclarecida antes das eleições. Todos os outros partidos é que estão dependentes dos resultados para fazerem contas à vida. O que não é uma falha deles, antes uma necessidade nascida de duas circunstâncias: terem limitações ideológicas e lideranças fracas. As limitações ideológicas e fraquezas dos líderes serão diferentes, mas existem e explicam a ausência de propostas, ou irrealidade das mesmas, que caracteriza a oposição.


O caso mais interessante é o do PCP e BE. Ambos têm de anunciar a sua recusa radical a qualquer coligação por este singelo motivo: não podem perder os votos de protesto para o concorrente. Nestas eleições, milhares de votos serão exclusivamente emocionais ou irracionais, como o dos professores. Nenhum deste dois partidos se pode permitir baixar o lume da indignação, da fúria, quanto mais racionalizar um cenário futuro de governabilidade. Se algum admitisse uma aliança com o PS, de imediato passaria a cúmplice do Engenheiro e suas perfídias quotidianas. Todavia, nenhum destes dois partidos irá permitir-se perder a oportunidade de fazer coligação com o PS, eis o resultado mais espectacular de dois minutos a pensar no assunto com razoável concentração. Porque ao irem para o Governo poderão reclamar vitórias para a base eleitoral respectiva, inscrevendo-as nas promessas eleitorais subsequentes, assim se justificando a coabitação com o inimigo. E mesmo que a experiência corra mal, levando a partilha breve da governação, eles serão sempre a parte pura da mixórdia, os que nada terão a perder. No caso do BE, então, a tentação do poder é tão alta como a pulsão para a roleta russa. O BE deseja ser Governo para que se saiba que o BE pode ser Governo e porque o BE nunca foi Governo. A retórica negacionista de Louçã é simétrica da sua desmesurada ambição ― e também da vibração eléctrica que percorre o seu exército, o qual já se vê a entrar na cidadela.

Recusarem alianças com o PS e provocarem eleições dentro de pouco tempo? Essa gulodice foi a maldição que acabou com o PRD, e deu origem ao cavaquismo. O eleitorado não perdoaria o prejuízo causado pela ingovernabilidade e penalizaria PCP e BE no acto eleitoral seguinte.

Não há códigos indecifráveis.

8 thoughts on “Descodificar PCP e BE”

  1. Valupi, olha que os códigos precisam de uma Pedra da Roseta e que eu saiba a Escrita do Sudoeste ainda está cheia de mistérios por desvendar. Mas é um bom texto e também me parece certeiro – a Drago utilizava hoje um novo adjectivo: inusitada, a propósito de eventual coligação com o PS, ora dir-se-ia uma fresta. Ainda bem.

  2. Exactamente, z. E até se pode conceber uma situação em que PCP e BE concorressem um contra o outro para entrarem no Governo. Isso, inclusive, até já poderia estar a ser preparado nos bastidores, apesar da retórica de campanha.

  3. Com o PCP penso que não há hipóteses porque colocou a coisa mais uma vez em termos brejeiros: o ‘nariz do pinóquio’ e trocar lugares de governo por não sei quê.

    Enfim o que eu queria era uma vitória expressiva do PS e da esquerda em geral sobre aquela coisa jurássica ou cretácica de direita que anda aí, toda enfronhada em golpaças financeiras, e, não tendo maioria absoluta, que é o que me parece mais provável, um entendimento de esquerda, progressista, que desse um fôlego de esperança e desenvolvimento a Portugal, agora tão colorido na sua multirracialidade que é um gosto de ver e ouvir. Sou lírico? Não me importa. Prefiro ser lírico a cínico e embora goste de cães dou-me melhor com gatos.

    E não haverá quem, além do Nik, dê uma bicada à manela que ainda consegue fazer valer uma imagem de isenção absurda, que caía pela base assim que se contassem alguns negócios enferrujados que terão lesado, e bem, o Estado?

  4. Caro amigo Z, a tua esperança dá-me alento. Vou mergulhar na leitura de” Salé et ses corsaires” (1666-1727) onde a heroicidade indígena anda pelas ruas da amargura e dar descanso a hipertensão. Acreditas em frestas? Eu só vejo buracos. Mas por causa destas e de outras é que eu toco assiduamente à porta desta pharmácia. Continuem a existir e servir fármacos, se faz favor.

  5. amigo Afonso, a esperança é gratuita e se te lembras foi a única que não saiu da caixa que a bela Pandora abriu, por isso é de todos. Também ando ali a ler uma monografia da Tereza, mãe do Afonso Henriques, a rapariga era bonita ao que todos dizem, e tramada, a jeiteira que ela tinha para os pactos e alianças, mas também andava à bicada com a irmã Urraca, enfim irmãs&poder dá quase sempre bronca. Mas só consigo ler uma página por noite, porque depois coça-se-me uma pulga e lá vou eu.

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