O ovo e a galinha

A polémica entre o João Galamba e o João Gonçalves é um dos mais interessantes episódios da campanha até agora, porque espontâneo e significativo. O Gonçalves vem de lançar um livro que teve dois passarões do sistema na sua consagração: Medeiros Ferreira e Pacheco Pereira. Justamente, o Gonçalves tinha razões para acreditar ter chegado lá, àquele sítio que só ele sabe onde fica por ser interdito aos impuros, o santíssimo onde a divindade é feita à nossa imagem e semelhança. Galamba também tinha chegado lá, é a mais nova promessa do PS, estrela independente em ascensão, conquistando simpatias e empatias. Uma dupla polaridade explica a atracção e o choque: movimento de ligação causado pelas cargas diferentes, PSD-PS; movimento de repulsão causado pelas cargas iguais, ambos machos Alfa num pico de confiança e fama. [introduzir bocejo antropológico]

O nevoeiro da guerra fez vítimas nos observadores. Quem saiu a correr para atacar o segundo atacante teve de atravessar um campo minado que estava, nesse preciso momento, a ser bombardeado em conjunto pela aviação, marinha e exército, e onde também se realizava o campeonato mundial de snipers. Se foi o teu caso, lamento dizer que não sobreviveste, podes seguir em frente por esse túnel de luz. É que não vale tudo. A regularidade dos fenómenos naturais, que está na origem da agricultura e dos Rolex, prova que existe uma ordem. Nem que seja a ordem do tempo. Como neste caso, em que o Gonçalves antecede o Galamba na utilização do substantivo filho. Pode perguntar-se: mas que mal tem a expressão filho do outro? Poder pode, mas muito mais poder tem a pergunta: que sentiria eu se fosse tratado como filho do outro? São muito poucas as situações em que a audição ou leitura de filho do outro, calhando-nos ser o filho, não desperte os demónios ctónicos, as erínias, que se alimentam da honra. E este é um caso de honra ― ou, para ser conceptualmente exacto, um caso de filha-da-putice.


Gonçalves reduz o pai de João Constâncio ao outro, um ser que de tão desprezível nem se nomeia. É a forma mais ancestral e violenta de exclusão, é o ostracismo, o apagamento do nome. Continua por ali fora, escudado numa imaginária Guarda Pretoriana que lhe faz prefácios e apresentações, e reduz o filho do outro à sua condição de infante, aquele que não fala. Quem fala é o papá, João Constâncio também não pertence à Cidade, é uma excrescência, um eco. Termina com uma ambiguidade semântica, cuja interpretação é por demais familiar. E, de repente, não se trata só da honra de pai e filho que está a ser maculada, é toda a família. Literalmente. Que terá levado o Gonçalves para este exercício difamante? O mesmo que o levou para a publicação de um livro: ele está convencido de que os outros, à sua volta, são iguais a si, com quem se deita e acorda. Pelo que, no Gonçalves, a alteridade é sempre uma cópia da mesmidade, ele nunca se engana. Mas a patologia não pode desculpar a ofensa, como muito ranhoso e imbecil defendeu. Em boa hora o Galamba fez aquilo que a sua inteligência pedia: deu nome às coisas.

Quando Eduardo Martins, no Parlamento, chamou palhaço ao Primeiro-Ministro e mandou para o caralho, e ofereceu porrada, a um deputado, foi celebrado como herói dentro do PSD e elogiado por todos os cobardes. Tinha sido um valente, nas duas ocasiões, merecia continuar a ser um rosto do PSD na Assembleia da República e na comunicação social. Ao apresentar desculpas no episódio com Candal, acto de que excluiu o visado pela sua violência, postulou: da maneira como eu fui criado não se deixam passar em claro as ofensas à honra. Temos, então, que o Gonçalves foi agraciado com um dom especial, aquele que consiste em não lhe dar na mona para ofender a honra do Eduardo Martins, seu colega de luta. Mas temos, também, a bitola para medir a hipocrisia de todos os que são incapazes de dar razão a quem a tem. A nomeação de João Gonçalves como filho da puta é um acto de justiça em perfeito acordo com o escrito que assinou. Foi ele que escolheu o terreno da filha-da-putice, esse território de calúnia, insídia e difamação para onde todo o PSD se mudou com bagagens e muitas armas. Estão lá barricados, é já só o que lhes resta.

Primeiro o ovo, a pesporrência asinina do Gonçalves. Só depois a galinha, a reacção instintiva do Galamba. E agora? Agora, trocaram-se os papéis. Gonçalves saiu do Jamais em estilo prima donna, disparando em todas as direcções, incluindo contra os companheiros. Ao chegar a casa, começou logo a aplicar as lições aprendidas com a Manela, rasgando e rompendo o próprio trabalho. Uma galinha tonta não conseguiria errar tanto. Já o Galamba terá recolhido fértil experiência deste teste às forças e fraquezas do ovo onde está a crescer. Sim, a casca grossa é a melhor defesa contra as aves de arribação.

7 thoughts on “O ovo e a galinha”

  1. sobre isto, não tenho, nem preciso de ter, creio, opinião – excepto de que é sempre um exercício neuronal ler-te, retórica fulva e anil. Não conheço os joões.

    Se quiseres um dia conhecer, até para descansar destas coisas chãs, tens aqui, eu próprio conheço mal.

  2. (mas portanto o Gonçalves é psd e o Galamba do ps, espero não ter trocado o básico; só que depois apareceu um Constâncio que não faço idéia quem é; Valupi: acho que ficas contente com isto, do Brasil contactaram-me porque querem editar um livro meu com ensaios que nadam por aí em pixels, só que depois chegámos à conclusão que tenho de escrever mais um por causa do volume total de páginas, lá fiquei eu com dor de pinha e ainda estou de birra.)

  3. muito esgatanhados e promete, mas o psd perde e bem! Até me fizeste ir ao jamais, eu que tinha aproveitado a sugestão do nome para me descartar logo: jamais Jamais.

  4. Oh que duas peças.

    O João Gonçalves não conheço, o Galamba não passe de um bobo da corte, que faz de tudo para aparecer. Enfim, a nova classe do PS. Coitado daquele que herdar esta tralha.

  5. Belo texto.

    Eu gostei sobretudo de ver o João piqueno, andar aos papeis. Devia saber que jogador que não aceita uma carga de ombro não devia ser seleccionável. Se estivesse na pele dele tinha dado muito mais atenção à resposta do filho do outro. Ele preferiu atirar-se para a piscina para ver se alguém o salva.

    Eu apetecia-me classificar isto. Huum, não sei?…
    (talvez a ida para o caralho que já foi sufragada pela AR. ninguém perde nenhuma fineza de recorte.)

    Pois é. A vida!

  6. Sobre o ovo:
    Um dia, um sujeito foi a uma tasca lanchar e pediu ovos fritos. Quando pediu a conta achou-a exagerada, pediu que lhe explicassem o motivo.
    Foi-lhe dito que o motivo de tal soma era; os ovos dão pintos, de pintos passam a galinhas e as galinhas põem ovos, voltam a dar pintos, etc., etc.
    No meio desta confusão resolveram ir para tribunal. No dia da decisão, perante o juiz, apareceu o João Gonçalves a defender a tese, de ovos dão pintos.
    Para defender o sujeito que contestou a conta foi João Galamba. Passava mais de meia hora, da hora marcada, quando este entrou na sala, o juiz perguntou o motivo de tal demora. Diz João Galamba com ar cansado. Saiba Meritíssimo, a minha demora deve-se ao facto, de ter uns jornaleiros a semear nos meus terrenos, castanhas assadas, para dar castanheiros. O João Gonçalves levanta-se e questiona. Meritíssimo como pode castanhas assadas dar castanheiros! Diz João Galamba, da mesma maneira, como ovos fritos dão pintos.
    E, assim vai o mundo.

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