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A piscina da Soledade

A nossa amiga, e ex-colega, Soledade Martinho Costa, convidou-me para os festejos do segundo ano do Sarrabal. Escrevi um mui humilde texto, e recebi de volta uma apresentação que me parece um primor de objectividade e rigor, vendo nela o esboço de uma futura, inevitável, biografia. Acima de tudo, a piscina da Soledade, miragem que nos encantou dois anos atrás, está agora à vista de todos.

Mergulha a bel-prazer.

História Universal da Infâmia

Aqueles que passaram as informações relativas a depósitos nas contas bancárias de Carlos Guerra são criminosos. Os jornalistas que publicaram essas informações são difamadores. Os que promoveram a notícia são irresponsáveis. E os que se regozijaram com ela são pulhas.

Haja alguém que lhes faça um desenho. A eventual culpa de Carlos Guerra, seja do que for, não apagará as pulhices daqueles que envergonham Portugal ao alinhar nesta decadência moral e cívica. É penoso ter de conviver convosco, mas em caso algum aceitaria fazer-vos o que fazem a outros.

A notícia do Sol termina com esta oração dilacerante: uma explicação considerada frágil. Repare-se, frágil. Nem adequada, nem inadequada, nem verosímil, nem inverosímil, nem falsa, nem verdadeira. Ficamos suspensos. Até a respiração se interrompe. Estamos no âmago da investigação, o destino de um nosso concidadão está exposto na sua extrema imponderabilidade. E, súbito, um caudal de imagens, recordadas e supostas, enche-me de uma tristeza também frágil ― quantos inocentes não foram assim expostos e gozados enquanto esperavam que a tribuna não fosse tão cega como a plateia?

O que é um mulherengo?

A nossa amiga Sabina pede que se defina o conceito de mulherengo. É possível que haja mais definições válidas do que sociais-democratas excluídos das listas de deputados por Ferreira Leite não concordar com o que eles fazem de manhã. Repito, possível. Mas sem certezas.

Ora, uma das melhores definições calha ser a minha, a Sabina está cheia de sorte. E reza assim: mulherengo é todo o homem heterossexual, independentemente da quantidade e qualidade das suas relações sexuais, que não gosta de mulheres. Este conflito resolve-se numa constante fuga para a frente, cuja suprema matriz literária se encontra em D. Juan. Ao nível mundano, o conflito está na base do consumo de pornografia. Assim, o mulherengo é pródigo em elogios às mulheres, ligando-se aos mais díspares elementos, dos corporais aos psíquicos, dos eróticos aos simbólicos. Contudo, o mulherengo é incapaz de conhecer as mulheres que descreve nas suas partes ou abstracções, a sua busca de novidade comprovando a superficialidade das sucessivas experiências.

Tem isto algum mal? Nenhum. E mais: as mulheres gostam de mulherengos, dão excelentes divórcios.

Manelismo e a duração da verdade

Aquando da última entrevista de Manuela Ferreira Leite, observatórios europeus e norte-americanos registaram um curioso fenómeno cósmico. Primeiro, apareceram estas afirmações nos seus monitores:

J – Mas a Alemanha, a França, saíram esta semana da recessão técnica, assim como Portugal…

M – Mas isso não tem o mínimo dos significados do ponto de vista… isso são significados estatístico. Não tem o mínimo dos significados em termos do que efectivamente está a acontecer à economia.

De seguida, foram detectadas estas afirmações:

J – Mas os elevados números do desemprego em Portugal decorrem da crise internacional…

M – Não decorr… Não, não, não, não, não… Não decorrem da crise internacional.

J – Mas como é que não decorrem?

M – Como é que não decorrem?… É vermos as estatísticas e vermos que ainda a crise não tinha surgido e os nossos números já estavam a aumentar.

Com recurso a relógios atómicos, estabeleceu-se a diferença temporal que medeia entre as duas afirmações da fonte cósmica M: exactos 46 segundos. Os investigadores debatem acaloradamente se este será o tempo médio de validade para as afirmações da fonte M ou um seu extremo de duração, por sorte captado pelos instrumentos. Arrojada é a opinião de Tony Black, da Universidade de Verão do PSD, famoso instituto especializado em estudos lunáticos, o qual advoga serem os tempos de exposição à verdade na fonte M o resultado de uma forte presença de gesso algures na nebulosa que a envolve. Próximas observações poderão esclarecer se esta hipótese merece a sua assinatura ou se o melhor será enfiar a tese na mala e dedicar-se à especulação noutras áreas de actividade.

Verdadinha – Existir ou não existir

Há aqui um ponto que eu quero afirmar categoricamente, é que este tipo de ambiente que se está a criar, este tipo de clima que está a ser criado no País, e que só foi criado no Governo do Engenheiro Sócrates, não me intimida nem me condiciona. Eu não serei intimidada nem condicionada por um ambiente que está a ser criado de que existe medo, de que nós não podemos falar, de que existem retaliações. E pior do que existir ou não existir, é o facto de existir esse sentimento na sociedade portuguesa.

A Manela não podia ter dito algo mais conforme à verdade: o clima de medo só foi criado no Governo do Engenheiro Sócrates. Por manifesta falta de tempo, não chegou a dizer que o clima de medo foi criado pelo PSD. E que tal clima existe para benefício do PSD, trata-se do seu programa: política de terror. Do Público ao Sol, da TVI à SIC, do Pacheco ao Marcelo, da oposição à Presidência da República, são inúmeras as vozes que não se calam a denunciar a falta de liberdade de expressão.

A Manela não mente. Verdade verdadinha.

Pacheco jura destruir a heteronímia em Portugal

Para o Pacheco Pereira escolher como alvo um comentário do João Coisas, num blogue qualquer, podemos ter a certeza de que a coisa está Preta. O que faz com ele tem tanto de caricato como de nojento. E faz isto:

Soube-se esta semana que havia gente paga pelo PS em blogues “espontâneos“, e que foram ingénuos ao ponto de admitirem que o faziam profissionalmente, “até porque não iam votar PS…”.

Petição de princípio é o nome dado pelos carolas a esta filha-de-putice. João Coisas em lado algum disse que era pago. Ninguém do SIMplex disse que ele era pago ou que alguém era pago para lá escrever, pelo contrário. Contudo, o Pacheco diz que ele, e outros!, são pagos. Vamos lá ver: somos 10 milhões de almas em Portugal, alguém há-de ter alguma ideia de como obrigar o Pacheco a assumir as suas responsabilidades nesta calúnia. E, de caminho, levá-lo a dar nomes aos bois nestas afirmações:

muitos tricky dickies em acção, uns com bandeira do PS e outros com “bandeira falsa”, fazendo de conta que são de direita, muitos empregados em agências de comunicação, a trabalhar sempre no mesmo sentido útil

os blogues mais entusiastas de apoio ao governo, os blogues que fazem não só a propaganda do governo como disseminam informação e desinformação sobre seja quem for que ataque o governo (PSD, dissidentes do PS, BE, PCP, por esta ordem), estão cheios de gente com pseudónimos

Porque só profissionais é que não podem revelar a sua condição, para não se perceber ao que andam e quem são. Porque só isso pode justificar tanto pseudónimo e nome falso

Pacheco nunca concretiza as denúncias, tanto para não ser contraditado, como para manipular os acólitos, os quais propagam a calúnia e nela encontram refúgio em situações de frustração e desorientação. O debate fica envenenado, como pretende o Pacheco, aumentando drasticamente a violência emocional e só restando, cego, o império da suspeita. Todos os que aparecem contra passam a mercenários, a diabolização é completa e radical. Pacheco sabe muito bem o que faz, e por isso o faz tanto.

O PSD recorre a empresas de comunicação, como qualquer partido tem o direito de fazer. É normal, e até desejável. Acontece no Ocidente desde os primórdios do século XX, pelo menos. Seja o que for que o Pacheco diga que PS e Governo estejam a fazer no campo da comunicação, o PSD já o fez e pode estar a fazer. Mas esse nem é sequer um aspecto relevante. O que urge desmontar é esta aliança reaccionária entre uma líder que despreza a política e um seu conselheiro que despreza a liberdade. Quando se descreve a comunidade como um lugar infecto, e se fazem ameaças de futuras e inevitáveis vinganças, cai a máscara: desapareceu a pessoa.

Prémio João Gonçalves

Comecei a ver o debate na TVI24 ainda só com o Zé Manel e o Gonçalves presentes. Ia ser um debate sobre política e os social media. Naquela que talvez tenha sido a primeira intervenção do Gonçalves, esclareceu que não tinha nada a dizer acerca da social media. Ele tinha um blogue, e chegava. Complicações como Facebook e Twitter, as referências da moda para os jornalistas, não eram com ele. Ora, como estávamos no começo do debate, e cada um dos convidados tinha uma cadeira vazia ao lado, fiquei convencido de que a minha tia Gracinda ainda acabaria por se sentar num dos poisos vagos. Esta ideia surgiu-me porque a minha tia Gracinda também não percebe um caralho de social media. E, em comparação com o Gonçalves, a tia Gracinda tem a supina vantagem de nunca ter apagado nada do que escreveu em 87 anos de honrada e viçosa vida, nem sequer um bilhete que ficou a meio, dirigido a um cabo da GNR em 1952, e que começava assim: Miau, miau… Que bigodes tão farfalhudos tem o polícia mau…

Pois o Gonçalves é um bronco, pois. Um bronco com uma pulsão destrutiva. O Zé Manel escapou por pouco. Foi quando o Gonçalves lhe disse que a notícia das escutas em Belém tinha sido criada pelo Público. O Zé Manel reagiu de imediato, protestando que não, criada é que não. E este diálogo das criadas teria sido genial, não fora tratar-se do Gonçalves. Porque o Gonçalves é bronco. Tem problemas graves por resolver na relação consigo próprio, como se viu pela escolha da camisa. E, enquanto não os resolve, vai incomodando quem passa. Diz mal dos outros porque não gosta de si, é só isso, faça ginástica e saia mais de casa, são 70 euros pela consulta. Prémio? Para o momento em que resolveu entalar a audiência manifestando-se escandalizado pela possibilidade de se fazer propaganda viral. E reforçou várias vezes, não fossem os bípedes à sua volta estarem desatentos e a passar ao lado da magnitude da ameaça: viral, viral!

O blogger mais importante em Portugal/comentador político de referência/reserva moral da Nação/grande amigo do Pacheco foi convidado para um debate onde se discutia a social media e acabou alarmado a pedir para se interditar a comunicação viral na Internet. Isto tem de ser premiado, nem que seja à força.

Mulherengos

A capa da Sábado, 13 a 19 de Agosto, diz que Solnado tinha um lado mulherengo. Solnado era heterossexual, actor e celebridade. Talvez o contrário é que fosse de espantar: não ter sido mulherengo dadas as circunstâncias.

António Lobo Antunes tem um lado mulherengo. Fala das mulheres como um mulherengo, um esteta, um guloso. Aos 66 anos, diz-se que vai casar com uma mulher de 31, com quem namora há dois meses.

Miguel Sousa Tavares tem um lado mulherengo. Terá sido um dos machos mais cobiçados pelo mulherio. Ser escritor, e escritor de sucessos, só aumentou o fenómeno, porque o mulherio adora escritores, vá lá saber-se porquê.

Alexandre O’Neill tinha dois lados mulherengos. Pelo menos, a fazer fé em Maria Antónia Oliveira, que passa duas metades da sua biografia a dizer que o Xana foi um incansável marau com as damas.

Miguel Esteves Cardoso e Pedro Paixão rivalizavam em mulherenguismo. Chegou a ser um circuito fechado, um viveiro de musas.

Pedro Mexia tem blogues mulherengos. E também uma escrita. E um lado, claro.

Deve haver muitos actores, escritores, pintores, escultores e músicos que sejam, ou tenham sido, mulherengos hiperactivos, daqueles que antigamente ficavam tísicos, mas que hoje, graças aos complexos vitamínicos à venda em qualquer farmácia e à política de preços do McDonald’s, lá se vão aguentando, e eu não tenho tempo, nem pachorra, para os estar a nomear agora. Quero é perguntar o seguinte: tirando Pessoa, que se casou com a Pátria, e Saramago, que fugiu para uma ilha espanhola ― do Camões à Ana Zanatti, haverá algum português famoso que não tenha sido mulherengo?

Sozinhos em casa

O que impressiona mais no relato das actividades do nosso agente no Funchal não é o ridículo que São José Almeida e Luciano Alvarez assinam como se fosse uma notícia, antes o subtexto. O discurso identifica com precisão milimétrica o evento fundador do conflito: Rui Paulo Figueiredo, persona non grata em Belém, foi enviado por Sócrates na visita presidencial à Madeira. Afronta imperdoável. Tudo o que se segue não é mais do que a racionalização da hostilidade. Quem conta o episódio está cego de raiva, perde a noção das conveniências. Ao censurar a violação de supostas regras protocolares relativas a mesas e cadeiras, a fonte da Presidência baixa as calcinhas e põe-se a jeito. É a falta do respeitinho que não se admite, a presença que não se tolera, a liberdade que se castiga. Acossados pela asquerosa proximidade ao bandalho que ousou investigar o Professor, entraram em alergia colectiva, reagindo com crescente paranóia à sua presença, fosse onde fosse: Na altura houve quem considerasse que o adjunto de Sócrates se comportava como se quisesse escutar conversas para que não fora convidado. Ah, bom, houve quem considerasse como se! Temos espião.

A Casa Civil do Presidente fantasia-se a merecer escutas e vigilância. Os outros, os porcos do Governo, não descansam e farão qualquer coisa para descobrir os segredos da Casa Civil do Presidente e seus poderosos generais. Como deve ser emocionante ir todos os dias a caminho da Casa Civil do Presidente sabendo que Sócrates espreita cada um dos nossos passos, não dorme a pensar no que nós pensamos. Até já houve quem considerasse, na Casa Civil do Presidente, que a auto-estima cresceu muito desde que começaram a fechar janelas e reposteiros, para depois ficarem a falar baixinho, juntinhos, uns com os outros. Bichanando.

Ex silentio

A ser verdade que estes blogues representam parte significativa da direita portuguesa:

31 da Armada

Abrupto

Blasfémias

Cachimbo de Magritte

Corta-Fitas

O Insurgente

Jamais

Mar Salgado

Então, o silêncio que os habita quanto às peripécias que a Presidência da República Portuguesa e o jornal Público protagonizaram, em conluio, não permite saber se aprovam ou reprovam a acção. E essa ausência de afirmação, este silêncio acabrunhado, cria a suspeita de não estar aqui a direita. Porque a direita não se agacha perante os que desprestigiam os símbolos mais altos da Nação.

Mas se a direita não está neste grupo de blogues, por onde anda?

Clima parapsicológico

E espero, espero mesmo, que não haja gente dos serviços de informação também nos combates blogosféricos, nas caixas de comentários, em blogues, usando todos os recursos e potencialidades da desinformação.

Pacheco recuperou uma suspeita antiga para a destacar e reforçar: os serviços de informação estão a ser usados pelo Governo para actos de desinformação em blogues e caixas de comentários, os palcos decisivos do combate político. Escolheu o momento em que alguém da Presidência da República lança a suspeita de haver espionagem do Governo no Palácio de Belém e, pelo menos, numa visita presidencial à Madeira, para alargar o espectro da conspiração. Ontem, Constança Cunha e Sá, na TVI24, lembrou a declaração de Ferreira Leite, de Maio, acerca do seu telemóvel poder estar a ser escutado. Aguiar-Branco disse que a notícia das escutas comprovava a existência de uma asfixia democrática. E, dias antes, já Jardim se tinha antecipado a todos dizendo que Sócrates estava a construir um Estado policial.

Que se vai seguir? Algum assessor da Presidência irá mandar um sms ao Zé Manel e este, minutos depois, irá tuitar que Sócrates foi visto a roubar o rádio dum automóvel junto ao Palácio de Belém?