Vinte Linhas 390

«Um poeta recorda-se» de Armindo Rodrigues

Estas «Memórias» (Edições Cosmos) são a vida de Armindo Rodrigues (1904-1993) em 330 páginas. Nelas o poeta lembra o lugar onde nasceu («Nasci no Campo das Cebolas»), as viagens da infância («Custava oito tostões o bilhete») e as comidas: «Eu era um comilão capacíssimo de devorar a um almoço ou a um ceia três bifes de trezentos gramas». Recorda a mãe («Sonhava que eu me casasse rico») e as suas zangas com o pai («não cessavam e levaram o meu pai a sair de casa») além de aspectos do quotidiano: «Os muito asseados lavavam os pés todos os dias num alguidar de barro. Mesmo no Verão os banhos de mar não eram como hoje». Registou as aparições de Fátima («Em 13 de Outubro à roda das três da tarde houve um grande milagre em público na Cova da Iria») e recordou a sua vida de médico: «Levava eu pela consulta na Farmácia cinco escudos e por uma visita domiciliária trinta». As memórias são povoadas pelas figuras mais diversas: artistas plásticos como Bernardo Marques e Manuel Ribeiro de Pavia, políticos como Afonso Costa ou Sidónio Pais e tarrafalistas como Bento Gonçalves ou Alfredo Caldeira além de escritores, ensaístas e poetas: Manuel Mendes, José Gomes Ferreira., José Rodrigues Miguéis, Mário Beirão, Raul Proença, Afonso Lopes Vieira, Sebastião da Gama, Bento de Jesus Caraça, Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, Tomás de Figueiredo, David Mourão Ferreira, João Gaspar Simões e Aquilino Ribeiro – entre outros. E Salazar, sempre: «Aos opulentos protegia mas haviam de lhe comer à mão. Ao povo rasteiro de que provinha desprezava-o. Perante a Igreja comportou-se sempre como um Papa autocrático e ao Bispo do Porto expulsá-lo-ia do País».

57 thoughts on “Vinte Linhas 390”

  1. Já agora uma nota complementar – o livro está à venda na Lello (Rua do Carmo) por 2 euros. É uma oportunidade única.

  2. Manhã de 17 de Abril de 1971, de sol quente, daquelas manhãs que apetecia ir à praia. Estou no barco Vera Cruz, contemplando as pessoas ao longe a acenar-nos com os lenços em sinal de despedida. Antes fizemos um desfile e uma parada militar, onde não faltou o discurso de partida, de boa sorte e a entrega de aerogramas, que as senhoras do Movimento Nacional Feminino nos ofereceram. O canudo do Vera Cruz dá o sinal de partida, com três toques impressionantes. Os lenços agitam-se com mais rapidez, ouvem-se gritos e choros de familiares de soldados. Ainda bem que ali não tenho ninguém, se já é custosa a partida, mais seria, se tivesse ali algum familiar. Deviam de ir no Vera Cruz uns dois mil soldados, o nosso destino era Angola. Quando já não avistávamos mais ninguém, fomos chamados para nos ser distribuído os nossos aposentos. A mim calhou-me no porão, nunca percebi como fui lá parar. Era dos soldados com mais tempo de serviço e talvez dos mais velhos do batalhão. Quando fui mobilizado estava a cumprir serviço militar no C.I.C.A.1, – à beira do Palácio de Cristal, hoje faz parte do hospital do S. António. A maioria dos soldados era do 4º. Turno de 70, eu era do terceiro. Fui para o campo de treino militar de Santa Margarida, para incorporar a companhia 3341, do batalhão 3838. As companhias CCS, 3340 e 3342, também faziam parte do mesmo batalhão. Era um estranho, a maioria dos soldados foram do R.I.2 de Abrantes. Eram conhecidos dos sargentos e oficiais, só por isso compreendo a minha ida para o porão. Na ida e volta para o porão, passava-se perto da cozinha e do depósito de géneros, era um cheiro insuportável, por esse motivo, saía de manhã e só regressava quando ia dormir.
    O barco Vera Cruz era imponente, estava um pouco abandonado. Outrora um barco de transportar turistas, agora servia para transportar carne para canhão. À medida que nos íamos distanciando, avistávamos coisas que nunca tinha visto – golfinhos, baleias e peixe voadores. Todos os dias os meus colegas deitavam carga ao mar, eu felizmente nunca enjoei. Alguns punham-se em tronco nu a apanhar sol, ganharam bolhas de água nas costas e não conseguiam dormir. À noite não tínhamos nenhum passatempo a não ser jogar à batota. Uma noite vi soldados sentados no chão do corredor a jogar à lerpa, não conhecia nenhum. Pedi autorização para jogar. Autorizaram. O jogo começou-me a correr bem. A certa altura havia muito dinheiro em jogo, vários soldados lerparam. Foram dadas cartas para nova jogada, três soldados disseram que iam ao jogo e puseram a respectiva quantia, era o quarto a receber cartas e quando as recebi tinha lerpa real. Mostrei as cartas e quando me preparava para arrecadar o dinheiro foi-me dito para não lhe mexer. Disseram que não tinha nada que mostrar as cartas, devia deixar correr o jogo para outros lerparem. Argumentei que era assim que procedíamos na minha terra e quando olho para o lado estava o Matosinhos, era bem constituído fisicamente, soldado condutor auto – rodas, da minha companhia, que me deu um sinal para pegar no dinheiro. Eram três mil escudos, assim fiz. Ninguém repostou, sabiam que eu tinha razão. Passado pouco tempo acabou o jogo. No total ganhei quase quatro mil escudos, em 1971 era muito dinheiro, dei uns trocos ao Matosinhos. Passados uns dias uns colegas meus foram apanhados a jogar à batota e foram castigados com uma carecada, tive receio de me acontecer o mesmo, acabei por não mais jogar. A viagem decorria bem, aproximávamos de Luanda.
    Desembarcamos na manhã de 26 de Abril de 1971. Havia muita gente à espera da chegada do Vera Cruz, não estava nenhum meu conhecido. Era habitual, soldados que cumpriam o serviço militar em Luanda, irem esperar os amigos, para saberem novidades da terra. Eu tinha vários mas nenhum apareceu. Seguimos para o Grafanil numa carruagem de comboio, que qualquer animal irracional se negava a entrar. Ali chegados, fomos para uma formatura com a finalidade de haver uma parada militar, o que não veio a acontecer, a maioria dos soldados começaram a desmaiar, estava um calor horrível. Ao outro dia à tardinha apareceu o Henrique Costa, meu colega – nascemos no mesmo dia, 28 de Janeiro, mas em anos diferentes, ele em 1947 eu 1949 – soldado mecânico, que cumpriu todo o serviço militar no quartel do ASMA, em Luanda. Levava-lhe uma lembrança dos pais, 500 escudos e um pacote de amêndoas, a Páscoa tinha sido no dia 11. Nessa noite saímos, fomos jantar à churrasqueira Alvalade ele queria pagar não o deixei, tinha ganho muito dinheiro à batota. Convidou-me para ir às prostitutas ao bairro de S. Paulo, disse-lhe que tinha medo. O capitão da minha companhia avisou-nos que nos bairros de noite era muito perigoso, por não conhecermos nada. Disse para fazer confiança que conhecia Luanda como as palmas das mãos. Acabei por ir, o vício era muito. Ao outro dia voltamos a encontrar-nos e levou-me ao hospital militar de Luanda, visitar o Ernesto Pereira, Furriel miliciano, estava ali internado, tinha partido um braço a jogar futebol em Zala, estava bastante magro. Ficamos contentos por nos encontrar, éramos os três, colegas de brincadeira e de futebol, na nossa terra e no nosso Freamunde. Perguntou-me para onde ia. Disse-lhe que ia para Balacende. Fez má cara, mas não me disse nada. O Henrique Costa levou-me a casa do Abílio (Rangel) meu amigo e amigo de meus pais que me convidou a pernoitar em casa dele, em Vila Alice, – atrás do cinema Império – o que aceitei. No Grafanil dormíamos numas tarimbas, os colchões eram de colmo (palha) e estavam cheios de percevejos, optei por ficar em casa do Abílio. No dia 3 de Maio despedi-me dele e da esposa, ao outro dia de manhã partia para Balacende.
    Contunua

  3. Belo texto camarada. Eu sou do 2º turno de 1972 entrei em 25-2-72 nas Caldas da Rainha, fui «padeiro» como os outros chamavam ao pessoal de Contabilidade e Pagadoria por causa do trigo que aparecia no emblema. Sem os padeiros não havia pão – isso apendi na Escola Prática de Administração Militar no Lumiar…

  4. também gosto de ler, imagino-me lá no meio, já fui parar ao porão,

    com que então muito dinheiro à batota? Felizardo.

    esticar patas

  5. Também gostei do que escreveste, Manuel. Só para informação, o C.I.C.A de que falas levou com uma explosão esta semana (obras). A área de protecção abrangeu uma parte do Palácio de Cristal. Só saí da biblioteca após sentir a terra a tremer :-D Os seguranças disseram-nos que já podíamos circular à vontade.

  6. O JCF foi instruendo no RI POP FIVE!!!!!!!!!
    Também lá estive no Outono de 1973. E fui muito infeliz. Abraço.

  7. Continuação
    4 de Maio de 1971. De manhã chegaram ao Grafanil umas camionetas de mercadorias, para nos transportar para à zona dos Dembos. Só foi metade da companhia, a outra metade, foi, passados oito dias assim como os soldados Angolanos, que iam fazer parte da 3341. Até ao Caxito fomos bem, estava incluído no percurso que se podia transitar sem vigilância. A partir do Sassa começamos a ter receio e chegamos a Quicabo onde iam ficar as companhias CCS e 3340, a 3341 seguia para Balacende e a 3342 para a fazenda Maria Fernanda. Estava um pelotão de soldados que nós íamos render, à nossa espera. De Quicabo a Balacende tínhamos que passar pelas famosas sete curvas, quando ali passamos o receio era enorme. A companhia que fomos render tinha lá outro pelotão a fazer segurança. Queriam nos fazer uma recepção tranquila o que acabou por acontecer. No batalhão que rendemos encontrei o Alcino, meu colega de futebol, no Sport Clube de Freamunde, foram para a fazenda Tentativa acabar a comissão de serviço. Fomos alojados em camaratas, eram de madeira, estavam bem conservadas. Durante oito dias andamos a receber instruções, fizemos alguns reconhecimentos à floresta do Quifuso e outras circundantes. Sentíamos como pintos protegidos pela galinha. Mas a galinha estava prestes a partir. A partir daí ficávamos à mercê das nossas capacidades e sorte, que nessas situações também se precisa ter. Na chegada dos nossos colegas também os fomos esperar às sete curvas. As sete curvas era uma picada, com morros altos, se o inimigo quisesse ou lembrasse armava-nos uma emboscada, mesmo à pedrada, davam cabo de nós. Para lhes fazer frente, só se fosse com tiros de bazuca ou lançamento de granadas, não tínhamos outro armamento de tiro curvo. Na despedida da companhia que rendemos fez-se um jogo de futebol. O campo era pequeno e a minha companhia perdeu. A maioria dos soldados atiradores eram conhecidos e formaram a equipa. Vi o jogo e notei logo que era uma equipa fraquinha. Um dia andava um grupo de soldados a jogar a bola e o guarda-redes foi chamado para algo que não posso precisar. Ofereci-me para ir para a baliza, fui olhado com desconfiança. Passados uns minutos renderam-se à evidência. Continuamos a fazer jogos de futebol entre pelotões e como o campo tinha muito pedregulho deixei de ser guarda-redes e passei a jogar a médio. Tinha habilidade, passei logo a ser a vedeta da equipa – terra de cegos, quem tem um olho é rei. Fez-se um campeonato entre as companhias do batalhão, os jogos eram realizados em Quicabo, a minha companhia foi campeã.
    A minha especialidade era rádio telefonista. Eram cinco rádios telefonistas, três rádios telegrafista e dois criptos. Foi-nos dada uma escala de serviço pelo Furriel de transmissões. Os rádios telefonistas foram incorporados nos pelotões de atiradores – eram quatro pelotões – faziam o serviço destinado fora do quartel; patrulhamentos, operações, protecção à J.A.E.A., Junta Autónoma Estradas de Angola, estavam a asfaltar a futura estrada de Quicabo a Nambuangongo. Os rádios telefonistas andavam mais expostos ao perigo que os rádios telegrafistas, esses só faziam serviço no posto de rádio – eram chamados aramistas. Os postos de transmissões em Angola comunicavam entre si em fonia e não em grafia. Não achava certo e um dia falei com o Furriel de transmissões, sobre este problema dizendo que os rádios telefonistas também tinham direito a fazer serviço no posto de rádio, porque se transmitia em fonia. Nunca resolveu a questão. Um dia numa reunião com o comandante de companhia, capitão Lofgren Rodrigues, coloquei-lhe o problema. Foi logo ali resolvido. Um mês, quatro faziam serviço no posto de rádio, os outros quatro faziam operações, reconhecimentos, patrulhas, etc., etc., no mês seguinte invertia-se a situação.
    Havia animosidade entre mim e o furriel de transmissões. Em Santa Margarida, quando se apresentou a nós, fez um discurso em que dizia que se sentia responsável por nós e se nos acontecesse algo, tinha que dar satisfações aos nossos pais. Sorri. Ele apercebendo-se do meu sorriso e como não sabia o meu nome, ainda não estava familiarizado connosco, disse, ao de quico branco – o meu quico era branco – não sei o motivo porque se ri. Disse-lhe, no que tocava a mim, os meus pais não lhe pediam responsabilidades, quando muito era ao Ministério do Exército ou ao Governo. Não gostou que o contrariasse. A partir daí tive sempre a sua antipatia.
    Continua

  8. Havia três camaratas, fui alocado na do meio, onde ficaram a maior parte dos soldados especialistas. As camas eram em beliche, ficava na de cima. Por baixo ficava o soldado condutor auto-rodas, Rocha. Éramos amicíssimos e partilhávamos todos os nossos pertences. Um dia assaltaram-lhe a caixa de guardar os haveres – era um utensílio em madeira pertencente ao exército – substituía o armário – colocávamo-la debaixo do beliche. Logo que soube, foram objectos de valor e consideração assim como uma boa quantia em dinheiro. Fiquei atrapalhado porque só eu e ele é que tínhamos acesso a ela mas, tinha a consciência tranquila. Notando a minha preocupação disse-me que em mim fazia toda a confiança. Mais tarde disse-me, quando foi chamado ao capitão para averiguações, pôs-me fora de suspeitas. Os roubos continuaram, andava aborrecido com tal situação e estive para pedir para me mudarem de camarata. Não o fiz porque se acabassem os roubos, era dado logo como o principal suspeito. Passado uns dias descobriu-se o autor do roubo. Foi preso e transferido para o Leste de Angola. O tempo ia decorrendo e começava a haver um certo tédio, eram sempre as mesmas caras. Já não víamos uma cara feminina há algum tempo. Um dia numa coluna militar que ia para a Beira Baixa, iam umas mulheres de cor e com uma certa idade, foram admiradas como umas verdadeiras misses. Começamos a ir com regularidade a Quicabo e ao Caxito. Numa dessas idas a Quicabo encontrei o António (Varado) era criado de servir, de uma família rica, na minha terra. Um pouco feito à boa lei. Agora estava bastante reguila. A tropa a muita gente fez mal, ao António só fez bem. Fazia parte de um pelotão de morteiros, que prestava serviço em Quicabo. Juntamente com ele estava o Ângelo, de Ferreira, uma freguesia que faz fronteira com a minha, éramos conhecidos, hoje há uma grande amizade, somos como irmãos. Em Dezembro de 1971 embarcaram para o Continente, foram os primeiros soldados a fazerem a viagem de avião. Nas idas ao Caxito sabia bem entrar em contacto com a sociedade, comer umas moelas ou um churrasco de frango. Antes íamos estar com as prostitutas para ter relações sexuais e que saudades tínhamos. Um dia quando me deslocava para uma cubata para arranjar uma prostituta, encontrei-me com um alferes da minha companhia, que me perguntou para onde ia. Ao que lhe respondi. Para o sítio que o meu alferes vem. Dizendo ele. Se eu deixar. Disse-lhe. Não diga que manda no meu pénis, ou na vagina de quem eu vou escolher. E assim, me desloquei para lá sem qualquer obstrução. Num outro dia de manhã viemos ao Caxito. Eu e o 1º. cabo mecânico Damas, fomos arranjar uma prostituta cada e depois deslocamo-nos para a fazenda da Tentativa para nos encontrar com uns colegas. À tardinha quando chegamos vimos os soldados nossos colegas numa formaura, o que era raro acontecer. À frente do pelotão um alferes e soldados da companhia que prestava serviço no Caxito, assim como algumas prostitutas nossas conhecidas. Pedimos autorização para entrar na formatura e quando lá nos encontrávamos, uma prostituta apontava aos soldados, dizendo são estes. Como não estava a perceber nada do que se passava e quando chegou a mim e me apontou, disse-lhe sou eu o quê minha… tive relações sexuais contigo e paguei. O alferes mandou-me calar ao que lhe respondi. Sabe meu alferes o que não compreendo, você a nós já nos conhece há muito tempo, não se acredita e acredita nesta gente. Com estas palavras o alferes mandou-nos dispersar e disse para o outro alferes. Retira-te mais os teus homens se não arrasamos o Caxito. Vim a saber mais tarde que os soldados queriam ter relações sexuais, quando chegaram à cubata, estava lá um soldado que prestava serviço no Caxito, não as deixou, de imediato os meus colegas deram-lhe um arraial de porrada e destruíram a pouca mobília existente. O nosso capitão proibiu-nos durante dois mês de irmos ao Caxito. Passado o castigo e quando lá fomos deparamos com outro problema. Se disséssemos que éramos de Balacende, negavam-se a ter relações sexuais connosco. Bem me custava negar a minha origem, mas tinha de ser, andava farto da irmã da esquerda.

  9. Continuação
    Os dias iam decorrendo. Cada vez estávamos mais familiarizados com as nossas funções. De vez em quando ia um pelotão fazer uma operação e quando chegavam vinham sujos e cansados, mas contentes. Tinha corrido tudo bem. Um dia numa operação e quando se encontravam no trilho da mata, – uma vez ia-se pelo trilho outras a cortar mato, como se dizia. Ouviu-se um tiro, todos se atiraram para o chão menos o Barroso, rádio telefonista, ao que o alferes lhe perguntou porque não fez o mesmo. O Barroso respondeu-lhe que tinha sido ele que deu o tiro, para ver se os atiradores estavam operacionais. A este o cacimbo já estava a fazer efeito, não me lembro se foi castigado. As operações sucediam-se, até que chegou uma a nível do sector. As operações a nível de sector eram mais difíceis e perigosas. Quase sempre éramos aerotransportados por helicópteros, deixados num sítio e passados uns dias, quase sempre eram três, vinham-nos buscar, mas já tínhamos patrulhado uns 40 km de mata. As matas eram densas, principalmente a do Quifuso, e de difícil acesso. Se houvesse trilhos nunca íamos por eles, os nossos guias, tínhamos dois, o Dezoito e o Sebastião, não aconselhavam. O Dezoito já era guia da companhia que fomos render, o Sebastião foi capturado por nós. Um dia numa coluna a Quicabo, quando regressávamos era perto do meio-dia, todos vínhamos com fome, as viaturas Unimogs (burros de mato) era a que mais podia andar. Vinha na última e deparei com dois vultos a esconderem-se na mata. Mandei parar a viatura, fizemos um reconhecimento e deparamos com dois rapazes, com idade mais ou menos de 14 anos. Quando chegamos ao quartel fomos dar conhecimento ao capitão. Houve alguns soldados que nos criticaram por os trazer, dando a entender, que os devíamos ter matado. Não os denunciei, tive pena deles (soldados) por mostrarem fraca formação humana. Sabia que nos iam dar trabalho. Quando capturávamos algum, passado pouco tempo, eles serviam-nos de guia para fazermos uma batida aos seus antigos acampamentos. Nas operações a nível de sector vinham os pára-quedistas e comandos para colaborar nelas. Vinham espevitar as abelhas, depois éramos nós que aguentávamos com elas. Nestas operações – nas que participei – nunca houve problemas de maior, tanto para nós como para o inimigo, a não ser destruir-lhes os acampamentos. Estavam quase sempre localizados à beira-rio e debaixo de uma densa floresta de Imbondeiros. Quando atacávamos os acampamentos já os aviões, “caças” tinha-os bombardeado e não encontrávamos vivalma. Tentávamos destruir as cubatas, eram rijas, feitas de cana de bambu e cobertas com capim. Um dia no começo de uma operação, de manhã, num laranjal houve trocas de tiros, eles fugiram, fizemos-lhes uma baixa. O Sebastião informou o capitão, para mudarmos de objectivo para não sermos surpreendidos. Por obra do acaso fomos ter a um acampamento, que antes três meses tínhamos lá estado. Fomos avistados e então começamos a ser insultados com as seguintes frases: ide para o puto (puto, era Portugal) seus cabrões, o Salazar já morreu, só queria saber quem me deu cabo das portas da minha cubata, seus filhos da puta. Se soubesse ler, sabia quem foi. Foi o 1º. Cabo, rádio telefonista, Sancho e eu, mas fui contra a ideia de deixarmos lá o nosso nome. Nessa noite fomos sempre bombardeados. No outro dia fizemos um ataque ao acampamento mas não havia lá ninguém. Deviam ter esconderijos subterrâneos.
    Continua

  10. Continuação
    O quartel entrou em fase de beneficiações. O capitão era dotado para obras, tinha habilidade e visão. A primeira coisa a fazer foi alagar as camaratas – eram em madeira – foram construídas em blocos de cimento para termos melhores condições de habitabilidade. Depois mandou arranjar a cozinha e o refeitório dos soldados. O Carneiro, soldado atirador, tinha bastante medo de andar na mata em operações e como era carpinteiro de profissão, foi escolhido para fazer parte dos impedidos das obras. Ficou contente. Disse-me, que alívio. Um dia quando ao demolir o telhado do refeitório deu uma queda, ficou bastante ferido, foi evacuado para o hospital militar de Luanda, mais tarde, para o hospital militar de Lisboa. Partiu a coluna e a bacia. Passou a deficiente das forças armadas. É do meu concelho, encontramo-nos várias vezes e falamos da sua infelicidade. Hoje anda agarrado a umas canadianas. A ânsia de ir para as obras. O refeitório foi criado de raiz, ficou bonito, dava gosto lá ir – embora o comer não fosse grande coisa. Comíamos uma vez por semana batatas com atum, passou a duas, à terceira, só comemos a sopa e pedimos autorização para sair do refeitório. O oficial dia não nos deixou sair e chamou o capitão. Foi-nos dito que enquanto não comêssemos as batatas com atum, não era servida outra ementa. Nos outros dias continuamos só a comer a sopa, uma pequena parte de soldados não aguentou e quebrou o acordo. A partir daí nunca mais entrei em revindicações, cada um que se regesse por si. Comentava-se que nos davam esse comer para poupar e fazerem as obras. Uma coisa era certa já tínhamos umas condições condignas: camaratas, refeitório, cozinha, quartos de banho, balneários com chuveiros, nestes dava gosto e sabia bem tomar banho de duche. Os banhos eram a qualquer hora. Um dia quando me dirigia para o refeitório para almoçar deixei cair o talher, como não havia lavatórios no refeitório – isso seria um luxo – pedi ao oficial dia para o ir lavar. Dirigi-me aos lavabos e quando lá entro, encontro umas bailundas, todas nuas, a tomar banho. Era a melhor hora para tomarem banho e não serem vistas. A partir desse dia tive sempre azar, o talher caia-me sempre. Estas mulheres a quem chamo ”bailundas”, umas tinham sido apanhadas na mata em operações, outras entregaram-se. Estávamos bem de vida. Regularmente íamos ao Caxito, tínhamos caras femininas no quartel, cinema às quartas-feiras. A partir de uma certa data começamos a dar protecção à J.A.E.A., para não virem todos os dias as máquinas para o quartel. Montou-se um acampamento. Um pelotão ficava a dar protecção durante o dia aos trabalhadores e à noite as máquinas vinham para próximo do acampamento. Ao terceiro dia o pelotão era rendido por outro. O soldado rádio telefonista, além de responsável pelas comunicações, também era responsável pelas bebidas que eram vendidas aos soldados e trabalhadores da J.A.E.A. Ficava sempre uma secção no acampamento durante o dia para qualquer emergência. Um dia encontrava-me a desempenhar essas funções e vinha um soldado de cada vez de essa secção comprar cervejas, eu estava autorizado a vender no máximo duas, fora a da refeição, no período laboral. Como todos os dias ia um pelotão buscar os trabalhadores, um desses soldados, pediu ao alferes para se deslocar ao quartel precisava de resolver uns assuntos. Ao outro dia de manhã, quando chegou o pelotão com os trabalhadores disseram-nos que esse soldado andou aos tiros na camarata. Os soldados que estavam na cama a descansar atiraram-se para debaixo dela. O soldado quando viu todos deitados no chão, julgou que os tinha morto, saiu da camarata e deu um tiro no coração. Foi pedida uma evacuação aérea. A sorte é que foi com a G3, e como é grande e pesada houve uma pequena inclinação que foi o bastante para não atingir o coração. Não morreu ninguém. Passado pouco tempo o soldado encontrava-se operacional. Fui ouvido e nada sofri. Foi confirmado que antes de ele ter dado os tiros, esteve a beber cervejas no bar do soldado. Tínhamos muito serviço, o comando de sector, mandou ir um pelotão do Caxito para fazer a segurança à J.A.E.A., da minha companhia ia o condutor, o enfermeiro, o cozinheiro e o rádio telefonista. Em Angola por volta das 18 horas já é noite, não tínhamos nada para nos entreter, o alferes perguntou-me se de nós não havia alguém que cantasse ou fizesse alguma brincadeira para se passar o tempo. Disse-lhe que o soldado cozinheiro, José Manuel – gostava que lhe chamássemos Bicho – tinha um certo jeito para cantar e contar anedotas. Foi chamado o Bicho à presença do alferes que lhe pediu para fazer essas brincadeiras, ao que lhe respondeu. Tenho de beber umas cervejas para ficar animado e só depois é que me encho de coragem para fazer isso. O alferes mandou que lhe pusesse cervejas para ele beber. Chegado á meia dúzia o alferes disse então não canta. Diz-lhe o Bicho. Tenho de estar animado. Chegou à dúzia a mesma coisa. Ia nas dezoito, disse que ainda não estava animado. Diz-lhe o alferes, à minha custa não vai animar. Também não ficou a saber se ele cantava bem. Nós sabíamos e que bem cantava.
    Continua

  11. Continuação
    Uma vez por semana vinha uma avioneta “DO” trazer-nos o correio, por força do hábito apercebíamo-nos dela ao longe. De imediato ia uma secção de atiradores fazer protecção para ela aterrar. A pista de aterragem ficava fora do arame farpado que circundava o quartel. Vinham as cartas e aerogramas, que bom para a malta. Em muitos serviços que nos mandavam fazer íamos a custo, para fazer protecção à DO, não faltavam voluntários. Ficávamos a ter conhecimento de coisas que se tinham passado há oito dias. Para nós eram fresquinhas. Só quem não esteve nesta situação não sabe dar o valor. De notícias na hora era através da telefonia. Os jogos de futebol, Benfica, Sporting. O Porto não contava, era de segundo plano, só quando jogava com o Benfica, é que era falado. Os discos pedidos na Emissora Católica Angolana. A tropa o que mais pedia era o “Lá Longe” de Paco Bandeira, o “Espera um Pouco” de Nelson Ned ou “Eu te Amo”de Roberto Carlos. Havia más notícias, as namoradas deixavam os namorados, depois era a bebedeira e nós é que suportávamos os seus devaneios. Um casado que recebeu uma carta dizendo que era pai, ficou contente, encontrávamos há dez meses em Angola e a carta não sofreu um grande atraso. Era com isto que tínhamos de lidar. Na companhia havia um Furriel Miliciano, se nós dissemos, notícias fresquinhas meu furriel, ele rasgava logo a carta ou aerograma. Ainda nos encontrávamos em Santa Margarida, um dia na camarata dos soldados, resolveu fazer uma palestra, (hoje, comício) de entre muitas coisas, disse aos minhotos. Tenham cuidado, uma vez que são muito voluntariosos, a guerra não merece esse esforço. Era minhoto. Teve sempre problemas em habituar-se e era sempre mal compreendido, principalmente pelos seus colegas furriéis.
    Os dias passavam e as operações continuavam. Um dia numa operação de três dias e numa mata densa, levava o rádio TR 28 às costas, pesava sensivelmente quinze quilos; o rádio AVP1 para transmitir com a aviação, um saco com rações de combate, a espingarda G3 e granadas de defesa – um dia noutra operação e como ia sempre sobrecarregado, resolvi levar a pistola Valter, mas senti-me como despido, a partir daí, não dispensava a minha G3. A certa altura disse ao alferes que comandava a operação a ver se arranjava um atirador para me levar o AVP1. Disse a vários mas todos se recusaram, dizendo que não eram das transmissões. O alferes também não obrigou nenhum, quase concordando com a atitude deles. Passados uns tempos estávamos os mesmos intervenientes a fazer protecção à J.A.E.A. e o alferes dispensou dois soldados para irem ao quartel tratar de assuntos e lá pernoitarem. Chegada a noite, estávamos todos reunidos e quando era para distribuir os soldados, o cabo de uma secção disse ao alferes que não tinha soldados suficientes para fazer o reforço. O alferes disse-lhe para me meter a fazer reforço. Respondi-lhe que não era atirador e que não fazia o reforço – amor, com amor se paga. Teve de ir o furriel Fernandes, lamentei por ser ele, era dos melhores furriéis da companhia. Passado um dia fomos rendidos, quando chegamos ao quartel fui chamado ao capitão. Perguntou-me porque me neguei fazer o reforço, quando lhe ia explicar o motivo mandou-me calar e preparar as coisas para ir de castigo outra vez para lá. Perguntei-lhe se também fazia reforços ao que respondeu. Derivado à sua especialidade não tem que fazer reforços. Coisas da tropa.
    Conrinua

  12. também gosto muito, parece que ando lá no meio como um espírito curioso, escreves direito como um gajo honesto pá, obrigado.

  13. Cláudia… “revisionista” é algo bem diferente de “revisora”. Aliás, a diferença entre as duas palavras é o tipo de coisa q não poderá passar a um bom revisor.

  14. eu fico contente é de teres posto aqui que já não sabia onde andava. Gosto muito de ler essas histórias dos rapazes, homens jovens vá, antes de ir dormir, depois vou parar a África,

  15. Continuação
    De quinze em quinze, recebíamos o M.V.L., (movimento de viaturas de Luanda). As viaturas eram alugadas e protegidas pela tropa no seu percurso. Ao todo, iam quase sempre umas cem viaturas, incluindo as militares. Saiam de Luanda carregadas com víveres, bebidas e tabaco para distribuir pelos quartéis que estavam isolados na mata. O itinerário era de Luanda a Zala. Sabia bem receber a visita do M.V.L., além do que traziam para o depósito de géneros e bar. Era um dia diferente, revíamos soldados amigos, víamos civis que iam para outras povoações – só desta maneira se podiam deslocar – alguns do sexo feminino. Era considerada zona operacional de cem por cento. Nestes dias funcionava uma rede rádio e era da maneira que entravamos em conversação com outros operadores; Beira Baixa, Nambuangongo, Quipedro, Onzo, Madureira e Zala e matávamos uma certa saudade. Só nos conhecíamos pela voz, sabia bem uma conversação. Certo dia e numa visita do M.V.L., ouço uma voz para mim inconfundível, de uma pessoa a subir a rampa de acesso à nossa parada. A discutir porque razão os soldados que estavam a seu cargo não podiam entrar no quartel. Era o capitão miliciano Nunes, meu patrício, tínhamos estado juntos no C.I.C.A.1, nessa altura era tenente miliciano. Foi-lhe dito por um alferes – o capitão estava ausente – que o facto de não entrarem se devia a que os soldados iam para o bar e consumiam bebidas, compravam tabaco e depois nos fazia falta até ao próximo M.V.L. Aconteceu várias vezes nos faltar a cerveja e tabaco, o M.V.L. ainda demorava uns dias. Parecíamos uns doidos, principalmente com a falta do tabaco. Perguntou se me encontrava bem e quem era o comandante da companhia. Disse-lhe que era o capitão Lofhren Rodrigues ao que me respondeu. É esse sacana. Mais tarde vim a saber porque motivo o apelidou de sacana. Tinham sido alferes milicianos, no quartel de Engenharia 2, no Porto. Muitas vezes dizemos que o mundo é imenso, em certas alturas parece pequeno e encontramo-nos com relativa facilidade.
    Era normal passado um ano, os batalhões serem transferidos para outros sítios, geralmente menos perigosos e em localidades com população. Como não o fomos, o capitão conseguiu através do comandante do batalhão, a ida de duas vezes por semana a uma praia, ficava em zona operacional e não era frequentada por ninguém. Essa praia ficava entre o Caxito e Ambriz, a uma distância de cento e cinquenta quilómetros de Balacende. No princípio ia um pelotão de cada vez, com um enfermeiro, um rádio telefonista e um cozinheiro. Levávamos uma viatura com arca frigorífica e os respectivos géneros alimentícios assim como frango para o churrasco. Em 28 de Janeiro de 1973, três soldados estiveram a morrer afogados, este dia ficou-me sempre na memória, fiz 24 anos de idade. A partir daí começamos a perder o ânimo e acabamos por não mais lá voltar.
    Como sempre íamos recebendo correio do Puto, (Portugal) nele vinha as notícias e de vez em quando fotografias dos nossos familiares. Víamos as modificações que neles se operaram. Era o segundo filho, de uma família de dez. Quando saí deixei irmãos de tenra idade e como estavam modificados. A minha irmã mais nova (quando parti tinha dois anos) cada vez estava mais bonita, não era defeito dos meus olhos, nem favorecimento das fotografias, para mais nesse tempo, eram a preto e branco, a cores, eram muito caras. Era e ainda continua bonita. Também mandava algumas, o nosso fotógrafo era o Isaltino Morais. Em Santa Margarida o capitão perguntou se havia algum fotógrafo, ao que o Isaltino respondeu que tinha uma certa queda. Foi mandado para casa com a condição de se aperfeiçoar, ficou a ser o fotógrafo da companhia. Mais tarde teve complicações com o capitão por causa das fotografias. Veio uma ordem para se seleccionar um soldado para ir prestar serviço na Casa de Reclusão em Luanda, o capitão mandou o Isaltino e pôs outro a fotógrafo. As fotografias perderam qualidade não tirei mais nenhuma. O Isaltino voltou passado uns tempos vinha mais qualificado no que respeita a fotógrafo, passou a tirar fotografias por passatempo. Ainda as guardo no meu álbum e de vez em quando vou matar saudades. Hoje ouço falar nele pelos piores motivos. Mas quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele.
    Continua

  16. No meu excesso de zelo te digo que quero ser REVISORA e a mão certeira para o prefácio. Não escolhas intelectuais de pacotilha com o coração no bolso. Escolhe-me a mim.

  17. Cláudia, não o nego. Errar é humano e eu vou confirmando esse meu lado da humanidade mais vezes do q as q desejaria. Se corrigi foi porque, de facto, havia um erro, um equívoco, uma troca de palavras. Tentei ser espirituoso, mas não foi para humilhar ou maltratar ninguém. Do q vejo de si, aqui nas caixas de comentários, nada me faz pensar mal de si.

  18. Caro Manuel Pacheco,
    Gostava que me desse o seu endereço para lhe poder enviar um livro com muitas histórias passadas nesses mesmos lugares, muitos deles pela 1ª vez percorridos (libertados segundo a linguagem da época) após o 15 de Março de 1961, e vividos pelo autor.
    Pode deixar num comentário em:
    apcgorjeios.blogspot.pt

    Obrigado.

  19. Continuação
    Passei dois Natais e uma Páscoa em Balacende. Eram datas difíceis para nós, principalmente o Natal, em que a família se reúne. No Natal comíamos as batatas com bacalhau e não faltava o bolo-rei, na Páscoa não faltava o cabrito assado e pão-de-ló. Nesses dias havia maior vigilância, não fosse o diabo tecê-las. Mas parece que o nosso inimigo também celebrava o mesmo que nós. Nesses dias recebíamos mais correspondência, todos se lembravam de nós e, da nossa parte também havia as mensagens via rádio e televisão. Nunca fui receptivo, achava que era uma farsa, era a psicologia a funcionar e valorizava mais, terra a terra. No segundo Natal, tínhamos vinte meses de comissão e sentíamo-nos cansados e isolados. Qualquer discussão entre soldados não se dizia. Dou-te uma sapatada. Era. Dou-te um tiro. Comecei a ver certas coisas e não estava a gostar. Para me refugiar oferecia-me como voluntário para o acampamento da J.A.E.A., ao menos lá não havia tanta confusão. Quando nos devíamos mostrar mais unidos era o contrário e não tínhamos razão para tal. Foi formado um pelotão que só fazia operações, quem chefiava esse pelotão era um alferes dos comandos, que veio transferido para a minha companhia. Fizeram muitas capturas ao inimigo, mas era população que trabalhava as lavras, (terrenos de cultivo) de operacionais, nem vê-los e ainda bem. Quem viesse a seguir que acabasse com a guerra. Com essas capturas formou-se em Quicabo uma aldeia que comportava umas duas mil pessoas.
    Começamos a ficar desleixados, fruto da velhice e de nos julgarmos superiores. Até o capitão que tantas vezes nos dizia para não nos abandalharmos. No dia 17 de Fevereiro de 1973, como o pelotão estava um pouco atrasado, numa viatura civil pertencente à J.A.E.A, juntamente com o motorista, resolveu ir à frente para Quicabo. Quando o pelotão lá chegou e como não o tinha apanhado pelo caminho e nem ali o encontrado, passado pouco tempo, o alferes, foi falar com o comandante do batalhão dando-lhe conta da ocorrência. Foi comunicado via rádio para Balacende, para sair um pelotão e vir com atenção, para ver se o encontravam despistado na mata. A meio da viagem entre Balacende e Quicabo foi encontrada a viatura despistada numa ribanceira, com o capitão morto e o motorista bastante ferido. O motorista foi evacuado para um hospital de Luanda e o capitão levado para o quartel. Argumentou-se que tinham caído numa emboscada e foi esse o motivo do despiste. Chocou-nos bastante, durante dois dias fizemos-lhe guarda de honra, até ir para Luanda, para o seu corpo ir para o continente. Era um capitão ainda jovem, solteirão, tinha muito a dar ao exército, tinha espírito de comando e iniciativa, não sei se vinha a ser um capitão de Abril. Alguns não gostavam dele, por ser muito disciplinador, digo isto e não beneficiei de algo dele, pelo contrário, por várias vezes me castigou com reforços à Benfica. Passou a comandar a companhia um alferes, as coisas não eram as mesmas. Sentíamo-nos órfãos, tínhamo-nos de fazer fortes para chegarmos ao fim e esse fim estava próximo. Um dia estava de serviço no posto de rádio e recebo uma mensagem para me apresentar em Quicabo, para fazer treinos e estágio, para jogarmos um jogo de futebol contra o batalhão 3840, nos festejos da nossa despedida. Entreguei a mensagem ao comandante da companhia (alferes) e ao outro dia sou escalado para fazer uma operação de três dias. A operação correu bem até porque a poucos dias do nosso regresso a Luanda, (Grafanil) para aguardarmos embarque, não estávamos para nos cansar e arriscar a nossa vida.
    Continua

  20. (que bom que é isso, amigo, fazes um relato objectivo, detalhado, conseguiste fixar tudo ou terás tirado notas, não sei, nem interessa; portanto fizeram uma aldeia com os prisioneiros, em vez de uma prisão, que bonito)

  21. Continuação
    Chegados da operação tivemos de ir a Quicabo por uma questão de serviço. Fui chamado ao alferes Capelão, era seleccionador e treinador da equipa do batalhão, para justificar a minha ausência no estágio. Disse-lhe que era um simples soldado, a quem devia de ser perguntado era ao comandante da companhia. Já não segui para Balacende. Como era o rádio telefonista, tive de explicar ao furriel que comandava o pelotão, como funcionava o rádio TR28 e os indicativos da rede rádio, caso no regresso precisasse de comunicar, assim como mandei a G3. Ia ficar uns dias e tinha receio que me roubassem alguma peça, tinham-me roubado o tapa-chamas e tinha que o pagar. Como estávamos prestes a acabar o serviço militar, a quem falta material para não ter que o pagar, dedica-se a roubar o dos companheiros. Nesses dias treinamos e no domingo dia 11 de Março de 1973, realizou-se o jogo entre o nosso batalhão e o batalhão 3840, o resultado foi de um a um. Tive de ficar o dia 12 e no dia 13, ia uma coluna de Quicabo para Balacende, pedi para me darem transporte, disseram-me para aguardar que no outro dia de manhã ia numa outra coluna. Fui ter com o alferes Capelão, disse-lhe que neste dia a minha namorada – hoje minha esposa – fazia anos e queria escrever e mandar-lhe uma prenda, que precisava nesse dia de regressar o que me foi autorizado. Ao outro dia levantei-me cedo, tomei o pequeno-almoço e fui até ao posto de rádio, estava de serviço o soldado Alves, chamávamos-lhe (voluntário) era mais novo que nós dois anos. Ouve-se através do rádio, mas muito baixo, alguém a comunicar e ninguém lhe respondia, ao que eu disse ao Alves. Está um posto de rádio a chamar e ninguém lhe responde. Disse-me que não ouvia. De imediato peguei no microfone e comecei a chamar. Ao posto que se encontra no ar informe o seu indicativo pausadamente, condições audíveis bastantes difíceis. De repente ouvi melhor, pedia ajuda rápida, tinham caído numa emboscada. Perguntei-lhe qual a localização em que se encontravam ao que respondeu entre Quicabo e Balacende, na zona das antigas sete curvas. Estava um pelotão prestes a partir com os trabalhadores da J.A.E.A., disse ao furriel que comandava o pelotão, para irem em auxílio de uma coluna de soldados, que tinham caído numa emboscada. Para irem com cuidado que não sabia a localização ao certo. Disse ao rádio telefonista para levar o rádio em escuta permanente, para saber o que se ia passando. O meu posto rádio continuou a fazer “de posto rádio em trânsito” uma vez que o posto director era Quicabo e como não havia condições climatéricas, competíamo-nos tomar esse lugar. De manhã quase sempre nos víamos com estas dificuldades – diziam os entendidos – que eram devido a ser zona de minério. As condições tinham melhorado, o nosso pelotão tinha chegado à zona da emboscada e tinha disparado uns morteiros tendo o inimigo se retirado. Fez-se o balanço. Do nosso lado tinha morrido um furriel, três soldados e dois civis e o soldado condutor auto-rodas Damas, dado como desaparecido. Era uma coluna que ia para a J.A.E.A., com funcionários da mesma, para fazer pagamentos. Do lado do inimigo, mais tarde soubemos, que foi para comemorar o aniversário da U.P.A. (União Povos Africanos) “14 de Março” tiveram várias baixas. Foi pedido ao comando em Luanda meios aéreos que prontamente bateu toda a área mas não se encontrou nenhuma vivalma, parecia que havia esconderijos subterrâneos. Viemos a verificar que a emboscada tinha sido bem planeada. Na entrada e saída tinham metralhadoras, à medida que as nossas viaturas iam entrando nessa zona era feito fogo cruzado. O furriel foi o primeiro a tombar, seguia na primeira viatura. Os soldados que compunham essa viatura assim como outras que também entraram nessa zona, saltaram das viaturas para as valetas da estrada cobertas de ervas e arbustos. Quando ali chegavam estava um grupo de assalto com catanas. Foi morto um soldado à catanada. Além do azar, podemo-nos dar por felizes, porque as viaturas não entraram todas na zona da emboscada e assim puderam repostar ao fogo do inimigo e comunicar via rádio a pedir auxilio. Há quem não goste dos dias trezes. Sinto um grande carinho e se for o de Março, ainda mais.
    Continua

  22. bem, eu já estava à espera que houvesse baixas, afinal isto é guerra. Em poucos postes passaste de 1971 a 1973, não se deu pelo passar do tempo, é como se fosse fotos,

  23. bonito, não?

    é para aqui que eu gostava muito de ir, abre para o ano, entretanto espero ter as coisas cá resolvidas senão mando uma maldição que lá vai tudo outra vez para o abismo!

  24. Antes destes acontecimentos andávamos felizes. No dia 16 de Março partia o primeiro contingente para o Grafanil (Luanda) no qual estava incluído, para aguardamos embarque para Lisboa, previsto para o dia 3 de Abril. Estávamos ansiosos que esse dia chegasse. Nunca pensávamos que a poucos dias de regressar ao Grafanil, nos viesse acontecer tal tragédia. Uns dias antes num programa que era transmitido, não posso precisar qual a emissora, não era Portuguesa, chamávamos-lhe o programa da “Maria Turra” o batalhão foi elogiado pelo seu desempenho. Andávamos desanimados pelo acontecido, parecia que voltávamos a ser maçaricos, tínhamos vinte e dois meses de serviço. Do soldado desaparecido não sabíamos nada, só não sabe compreender quem não passa por esta realidade. Houve mortos, mas recuperou-se os seus corpos, deste, não se sabia nada. No dia 15 de Março chegou o primeiro contingente que nos vinha render, vinham com bastante medo. Não lhe podíamos esconder os acontecimentos, foram grandes de mais, quando isto acontece, sabe-se logo em todo o norte de Angola. Eles tiveram conhecimento. Tentamos animá-los, dizendo que estes ataques são esporádicos, mas de nada valia. Quando aqui chegamos tivemos uma boa recepção, gostaríamos de também de a dar, mas não somos donos do destino. No dia 16 partimos com destino ao Grafanil, as camionetas se não eram as mesmas, eram iguais. Olhávamos para todos lados, o receio era tanto, depois de vinte e dois meses vividos com sofrimento há última hora podia haver uma surpresa. Quando ia para a mata em operações, tinha como lema, “era impossível entre tantos vir logo uma bala destinada a mim”. Era o que pensava neste momento. Aproximávamos do local da emboscada, aqui todos nos pusemos em pé, e de arma em riste, para nos prevenir de algo. Ninguém falava, não sinto vergonha de descrever o nosso medo. Foi das viagens mais difíceis e a que pareceu mais longa. Só não sente medo quem é louco. Chegamos ao Caxito, parece que recebemos outro oxigénio, os nossos pulmões abriram de par em par e demos um grito enorme, algumas pessoas que por ali passavam ficaram admiradas com tal procedimento, mas nós estávamo-nos marimbando. Daí em diante se nos acontecesse alguma desgraça só se fosse de acidente de viação, mas quem fazia este tipo de transporte, eram pessoas com muita experiência. Já pensava nas tarimbas, nos colchões de palha e nos percevejos. Mal por mal, preferia estes. Ao outro dia fui ter com o Abílio (Rangel) morava agora no bairro Popular, perto da igreja, que me voltou a oferecer guarida, aceitei e assim deixei os percevejos até ao dia dois de Abril.
    Quando queria encontrar os meus companheiros ia até à cervejaria Portugália e lá nos encontrávamos. O Rocha soldado condutor, foi transferido para o quartel dos Adidos, tinha tido um acidente de viação, ainda não estava resolvido o processo e não podia embarcar connosco. Tive pena éramos como irmãos, hoje encontramo-nos com frequência ou na casa dele (Praia da Granja) ou na minha. Luanda era uma cidade bonita e moderna, o nível de vida era bom. Os restaurantes, cervejarias e cafés estavam sempre cheios de gente. Comia-se bem e o preço não era por aí além. Muitas vezes não precisávamos de jantar. Na avenida dos Combatentes havia um snack-bar que oferecia como aperitivo um pires de feijoada à moda do Porto, sempre que era pedido um fino. Bebíamos uns poucos e já não precisávamos de jantar. Nos dezassete dias que lá passei, corri um pouco de tudo. Vi dois jogos de basquetebol no mesmo dia. Estava-se a disputar o campeonato Nacional, no pavilhão dos Coqueiros. Eram quatro equipas, o Sporting de Lourenço Marques, o Sporting de Portugal, o F. C. Luanda e Sport Lisboa e Benfica. No estádio com o mesmo nome vi o Atlético, de Lisboa, com o F. C. Luanda. Fui uma noite ouvir fado e à boite Veleiro, na Ilha, corríamos os bairros Operário, Marçal, no Popular vivi estes dias. Quando à noite ia para casa passava pela feira popular, junto à sétima esquadra, que decorria nesse período. Com esta vida podia bem mas estava ansioso pelo regresso. Até que chegou o dia 3 de Abril, na véspera tinha-me despedido do Abílio e esposa, para mim foram como pais, – com a descolonização vieram para a minha terra, quando casei foram meus convidados – pelas nove horas saíamos para aeroporto de Luanda, hoje “4 de Fevereiro” para embarcamos. Recebemos a notícia que não era a essa hora por causa de uma avaria no avião. Azar o nosso. Como já não contavam connosco para o almoço, tivemos de comer ração de combate. Estava farto deste tipo de mantimento não comi quase nada só tinha sede, como tinha gasto todos os Angolares não tinha dinheiro para beber. O Barroso, que muitas vezes serviu de meu banco, lá me pagou umas Coca-Cola. Chegou a tarde comecei a sentir uns calafrios, tive receio de ser o paludismo, tinha de me de fazer forte até entrar no avião, fui ajudado pelos meus colegas rádios telefonistas. O avião Boeing 747 era enorme. Aqui não tivemos ninguém a dar-nos a despedida. Os motores já trabalhavam para fazer o aquecimento e de repente dizem. Senhores passageiros por favor apertem o cinto, vamos iniciar a viagem Luanda – Lisboa, com a duração provável de nove horas. Agora o barulho dos motores é descomunal, iniciou a subida por volta das quinze horas e quarenta minutos, deu duas voltas a Luanda, assim pudemos ver como era bonita. Que saudades tenho dela. Em conversa com amigos, os que tiveram a sorte de não ir à tropa, ou ao ultramar – como se usa dizer – admiram-se de fazer tanta referência a Angola, dizendo que não compreendem tal entusiasmo. Não lhes chamo hipócritas, só em pensamento. Deixei lá quase dois anos, dos melhores anos da minha vida. Rumamos a Lisboa tendo chegado à uma hora e quinze minutos. Fomos transportados para o R. A. L. 1, para fazermos o espólio e quando vou a descer da viatura, ouço uma voz. Vem aí o soldado Manuel Pacheco? Era a voz inconfundível do meu pai, que ali me foi esperar.

  25. Para:
    Maria das Dores:
    Todos os dias são formados por segundos, minutos ou horas. Dias de chuva, sol, parte diurna e nocturna. São quase todos iguais, uns tem mais dia outros mais noite. Alguns ficam-nos mais na memória a lembrarem-nos certas recordações. Mas há um que temos mais carinho por ele, embora só o celebremos uma vez no ano. Este dia acompanha-nos na cédula, no bilhete de identidade. Que o dia dezoito de Agosto de 1960, te recorde e o celebres por longos anos. São os votos sinceros do teu padrinho.
    Manuel Pacheco

  26. Manuel Pacheco, fomos camaradas na mesma zona, só que o vosso batallhão foi render o
    2887 onde me encontrava e que depois fomos acabar a comissão na Fazenda Tentativa
    como já fo ireferenciado. A ler o v. relato revivi alguns bocados bem e mal passados. Num sítio assim, pudera! Neste relato, só tem um senão. A tradução Português / Inglês / Português, faz muita confusão e é preciso o dobro do tempo para entender o sentido de algumas frases.
    De qualquer forma, obrigado pela viagem.

  27. Orlando Costa:
    Quanto ao meu português é o de quem tem o 6º. Ano, em explicações e autoproposto. Tento ser o mais explícito possível.

    De qualquer forma o meu obrigado.

  28. Estou com o Vega9000: ó Manuel Pacheco, que vem a ser isto, compadre?! Realizaste o meu desejo de Ano Novo e não dizes nada?…

  29. Vega:
    Não fiz publicidade pelo motivo de ainda ser um embrião. Não tem quinze dias.
    Val:
    Ao senhor devo um pedido de desculpas porque me andou a animar para criar um. Não o tinha feito pelo motivo de não ter assunto para lhe introduzir. Como o Aspirina B tem andado com alguns comentadores que o tem desprestigiado e julgo que você a qualquer momento o pode encerrar (isso é o que eles pretendem, parecem pagos para isso) e como quero deixar certas recordações aos meus netos, foi esse o motivo. Ando numa roda-viva a ver se consigo levá-lo a avante mas sinto muitas dificuldades. Uma amiga criou o blogue, ensinou-me como o devia manejar e cá me vou desenrascando, quando não corre bem faço delete e volto ao mesmo.
    PS – Por lapso fiz hiperligação no comentário que enviei ao Orlando Costa, agradecia que a apagasse.

  30. Manuel Pacheco, já apaguei o link. Quanto ao que lá podes publicar, quero lembrar-te o óbvio: tens dezenas e dezenas de textos publicados por aqui, podes (e deves!) guardá-los no teu blogue. Não só ficam organizados como achares melhor, e facilmente serão lidos pela tua família e amigos, como também os podes ir revendo e corrigindo nalguma eventual gralha, etc.

    Agora, que história é essa de eu poder encerrar o Aspirina B a qualquer momento?

  31. Eu axo cá uma piada ao cumentário do Manuel Pacheco. Save uma cousa? Bá um pouco mais além e rebeja o sentido de prestigio e desprestigio, garanto-lhe que bai ter muitas surpresas. Nunca sa save quem tá deste lado.

    Valupi, ka saria da ti se eu num biesse aki, pá! Boue-te cunhecer um destes dias, ai boue, boue.

  32. Está certo, Manuel Pacheco. Mas parece-me não um embrião, mas uma criança já (bem) formada. Espero que continue. Sou da geração de 73, a que já cresceu sem guerras, em democracia e relativa prosperidade, pelo que os seus belíssimos relatos na primeira pessoa são para mim preciosos. Já tinha guardado o link, mas se prefere que só visite quando estiver ao seu gosto, respeito. Avise quando estiver pronto.

  33. Vega:
    Expliquei-me mal. O facto de pedir ao Val para apagar a hiperligação foi pelo motivo de qualquer um ter acesso, sabe o quero dizer com qualquer um. Agradeço a sua atenção. Até hoje ainda não recebi nenhum comentário pelo que não sei se funciona ou não. Também poucos sabem.
    Vou pôr o nome do site para quem quiser aceder a ele: coisasquepodemacontecer

  34. Manuel Pacheco, mas deixares o nome do blogue é o mesmo que deixares a hiperligação: qualquer um pode lá chegar. Quanto aos comentários indesejados, poderás escolher ter comentários moderados e deixas de ter problemas, publicas só os comentários que quiseres.

  35. OK, Manuel Pacheco, agradeço o esclarecimento.
    Já agora, um reparo quanto aos comentários: você tem aquilo configurado de uma maneira que para comentar, temos que estar inscritos numa plataforma qualquer (Google, Typepad, etc). Se puder, acrescente uma opção mais simples, em que basta o nome e e-mail, como é o caso aqui do Aspirina. E não tenha receio de certos comentadores. Primeiro, pode sempre apagar os eventuais comentários desagradáveis. Ou moderar (espero que não). Depois, tenho a impressão que eles estão mais interessados aqui no amigo Val. Duvido que o vão lá chatear. A não ser, claro, que o Val lá comente…

    De qualquer maneira, ainda não tinha dito, parabéns pelo blog.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.