Até os bioéticos, Zé Manel?

No dia em que o Sol reconfirmou ser o Presidente da República o verdadeiro líder da oposição (pois é, Louçã, ainda tens de comer muita papa Mayzena), o Público continuou a campanha com o seguinte título:

Nova formação do Conselho de Bioética pode favorecer o Governo

Ana Machado assina este oxímoro. E eu, se pertencesse ao tal Conselho, já tinha reunido com advogados e directores espirituais para obter esclarecimentos. Porque a questão é fascinante: pode um grupo de individualidades eleitas por serem autoridades no campo da ciência e da ética favorecerem o Governo? Há uma primeira resposta para a bizantina questão: Sim, claro que sim e, foda-se, espero bem que sim! Esta resposta baseia-se num raciocínio bondoso: se todos os conselheiros cumprirem com as suas responsabilidades, se derem o melhor de si, estarão a favorecer o Governo; entre variegadas entidades cuja importância em nada fica diminuída por não serem aqui nomeadas. Aporia: o Zé Manel não é bondoso, é mauísta (de mauzinho como as cobras). Temos de procurar outra resposta para explicar a ameaça que o título evoca.


E ler o trabalho da Ana. Porque ela explica detalhadamente como o Governo abarbatou 11 dos 19 nomes que constituem o Conselho. Há uma diferença indesmentível entre 11 e 8, escusa o João Tiago Silveira de perder tempo com o rascunho de mais um desmentido ― pelo menos, enquanto Sócrates não abandonar o cânon da matemática e obrigar o povo a fazer cálculos a partir das entranhas de carneiros. Eis a fórmula que o pasquim do Zé Manel estabelece: Governo 5 + PS 4 + Institutos manipulados 2 = 11 serventuários. Do outro lado temos: PSD 2 + Institutos por manipular 6 = 8 santos. Mesmo que a equipa dos espoliados tenha melhor cultura táctica e superior técnica individual, acabam fatalmente por se cansar, e perder. É trágico. As pessoas sérias, aquelas que gozam da confiança desse monumento à perspicácia moral chamado Cavaco Silva, não mereciam isto. O Conselho de Bioética parece irremediavelmente comprometido. Mas há perigos maiores a caminho, muito maiores:

Se o Governo pretender que o Conselho de Bioética fique ao seu serviço, mata o Conselho de Bioética.

É o que denuncia Daniel Serrão, voz acima de qualquer suspeita, ou não tivesse passado 15 anos no Conselho. Pois bem, temos de o dizer, alto e bom som: se o Governo matar o Conselho de Bioética, o Governo é um assassino e deve ser preso. E começamos a ver o quadro completo, o plano que está em marcha. Primeiro, o Governo põe o Conselho ao seu serviço, através das manigâncias legais. Logo depois, talvez nem 15 minutos depois, o Governo mata o Conselho à queima-roupa. Quem o diz, sabe o que diz, escreve em jornais de referência, tem uma reputação intocável. Resta só explicar o modo como o Governo conseguirá que os impolutos, e incorruptíveis, oito conselheiros nomeados por entidades idóneas venham a abdicar da sua consciência e vontade para começarem a servir o Governo. A sua presença no Conselho, diríamos ingenuamente, chegaria para impedir qualquer manobra que pervertesse a sua missão, posto que a denunciariam de imediato. Mas não é essa a mensagem que o Zé Manel quer passar, antes a de que estas altas individualidades ficarão mudas e quedas perante as sucessivas, e diabólicas, malfeitorias do Governo.

Difícil de explicar? Não nos façam rir. Este é o mesmo Governo que manipulou a comunicação social e ameaçou jornalistas. O mesmo Governo que manipulou a RDP para lançar uma campanha contra as manifestações e as greves. O mesmo Governo que manipulou procuradores e o andamento do processo Freeport. O mesmo Governo que manipulou a PT para comprar a TVI e afastar Moniz. O mesmo Governo que foi ter com a Joana Amaral Dias para lhe entregar bens do Estado. Querem-nos agora convencer de que este mesmo Governo não é capaz de dar a volta a 8 badamecos que só sabem é falar de ciência e de ética?!… Abram os olhinhos, do cu.
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O mesmo assunto tratado pela Fernanda: aqui e aqui.

4 thoughts on “Até os bioéticos, Zé Manel?”

  1. noutro dia o editorial do JMF a branquear as listas da manela era imperdível, ia apontando os pontos fracos, salvando um a um, para concluir no meio que as listas eram muito melhores do que as apresentadas pelo PSD em 2005. Enfim do grande teórico portuga da bondade da invasão do Iraque de 2003 espera-se tudo não há como escapar ao karma.

  2. O Zé Manel limita-se a repetir em título a posição do Serrão. A este católico muito reaças, chefe de fila dos conservadores do Conselho, se deve o parecer negativo sobre todas as leis inovadoras que passaram pelos olhos do dito órgão, espécie de Câmara Corporativa, secção dos «interesses espirituais» – mas felizmente sem parecer vinculativo, como a antiga tinha. Os católicos sempre estiveram lá em maioria, se calhar porque são mais éticos do que os outros… Agora fugiu-lhes o controlo? Pois é uma boa notícia.

  3. O Pasquim do Zé Manel está sempre disposto a encontrar uns patuscos para dizer umas “cenas”…esta noticia de hoje é mais uma para juntar às muitas com que nos presenteiam (a mim só na web e com cuidado para não dar um tostão a ganhar…)

    http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1395332&idCanal=62

    esta frase é especialmente bonita…
    “[…] “Faz mais sentido votar naquele concelho que nos diz mais, onde temos maior ligação, onde conhecemos a maioria das pessoas”, defende, assumindo que votar no Crato era um “pretexto” para lá ir e rever amigos e familiares.[…]”

    O gajo não vota para escolher alguem que resolva problemas…não, o voto é um pretexto para se fazer á estrada e ir comer umas morcelas no café central da terra.

    haja pachorra…

    e depois a citação de “alguns responsáveis” para remtar em beleza o monte com as moscas…”[…]Alguns responsáveis ligados à legislação eleitoral contactados pela Lusa reconhecem que é “injusto” o facto dos cidadãos serem obrigados a votar em determinado concelho, assumindo ser “um passo para o fim da liberdade, que é a residência obrigatória”. […]”

    O fim da liberdade!! e o novel conceito de “residência obrigatória”?!?

    de antologia.

    Miguel

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