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Legislativas à porta. Reforço para José Rodrigues dos Santos entra pela RTP Informação

Estão lembrados de uma jornalista da TVI, casada com o patrão, que tinha por isso toda a liberdade para fazer do seu telejornal, por exemplo, sei lá, um tribunal para julgar pessoas de quem não gostava, com produção de «provas» e tudo, exceto advogados, deontologia, decência, inteligência e ah! também provas? Lembram-se dessa jornalista e dos seus momentos de ficção rasca, mas agressiva, em que que elegia para personagem principal do seu delírio, misto de justiceira e de guionista de novela, um político real, no ativo, cuja vida pretendia à viva força narrar e enlamear ao mesmo tempo? E lembram-se de como não olhava a meios para criar cenários credíveis – como os diretos do exterior da sede do Serious Fraud Office, em Londres, para manter o suspense de que um dia daqueles uma revelação absolutamente demolidora lançaria para sempre na lama, e na cadeia, o dito personagem? E lembram-se ainda de como a entusiasmada repórter de serviço acabou por se vir embora ingloriamente, ficando condenada a associar para sempre Elm Street à tarefa mais inútil, ridícula e humilhante da sua carreira? Pois, é essa mesmo.

Ao fim de uns anos em que nada de condenável foi apurado por quem de direito em relação ao tal político e em que, pelo contrário, ficou demonstrado à saciedade a tramóia que os inimigos políticos lhe montaram e o circo com que brindaram e entretiveram o povoléu durante anos até à chegada ao poder, os amigos do governo a quem a dita jornalista prestou tão diligentes serviços decidiram premiá-la abrindo-lhe a porta da televisão pública, embora começando por um programa de entretenimento. Mas, como era de prever, o concurso era uma primeira etapa. Soube-se agora que, em Setembro, cumprirá a segunda etapa, integrando um painel de debate político na RTP Informação. Debate político, repito e presumo. A terceira e última etapa ficará para as próximas legislativas. Será assim?

Ora, há, pelo menos, um português, o Nuno Azinheira, que escreve sobre televisão no DN, que vê em Manuela Moura Guedes cultura e inteligência e considera ótima e cheia de sentido a sua contratação como comentadora, não o incomodando nada que passe a pivô quando for conveniente. Trata-se, para ele, de um desperdício, a não utilização de tão competente profissional.

Nuno Azinheira (NA) tem toda a liberdade para gostar de quem muito bem entender. Porém, não deixa de me intrigar a base em que assentam estas suas opiniões:

Ora, acontece que, tendo eu nascido em 1974, gosto pouco de gente proscrita, metida na prateleira só porque é inconveniente. O País precisa de gente inconveniente, irreverente, que faça diferente, que pense diferente. O País e a televisão precisam de gente desalinhada com o sistema (qualquer que ele seja), que ouse pensar pela sua própria cabeça, mesmo que o que saia de lá vá contra as nossas ideias.”

NA considera então que 1) Manuela é desalinhada, 2) Manuela é independente (foi deputada do CDS), 3) Manuela pensa, 4) Manuela pensa diferente e isso provou ser positivo no passado e finalmente 5) a «irreverência» à custa do bom nome de outrem e substituindo-se à Justiça é perfeitamente aceitável em programas de informação sérios.

Francamente.

Mas continuemos e concluamos:

Em primeiro lugar porque Manuela é uma mulher informada e culta e não uma bonequinha que se limita a papaguear o teleponto. Ora, a televisão precisa disso e o País não é tão grande assim que se dê ao luxo de ostracizar uma profissional com o currículo e o saber-fazer de Moura Guedes. Em segundo lugar, a RTP deu um bom tiro porque Manuela, sendo polémica e nada consensual, é mediática. E a televisão pública precisa(va) disso. O resultado está à vista: o Milionário segura mais de meio milhão de portugueses e já vai para a terceira edição.
Manuela, que é um espírito livre, vai agora integrar um painel de debate semanal na renovada RTP Informação que surgirá em setembro. A ideia é ótima e faz todo o sentido. É uma forma de voltar ao jornalismo. Não como pivô, mas talvez da forma mais útil e mais adequada ao seu estilo rebelde.

Bom, por esta altura já devem estar tão surpreendidos quanto eu. De que currículo estará NA a falar? E que história é essa de «voltar ao jornalismo»? E o «rebelde», não é fofinho? Quanto ao mediatismo: dando de barato que MMG é mediática, e não me esquecendo da(s) razão(ões) por que isso acontece, que é(são) das piores do mundo, devo dizer que, das poucas vezes que me detive naquele concurso, fui obrigada a concluir que só os concorrentes e a expectativa do dinheiro a ganhar devem conseguir fidelizar alguém. A apresentadora é simplesmente um bocejo. Culta? Como é que era mesmo aquele provérbio cuja existência ela defendia?

NA será demasiado ingénuo ou antes demasiado míope? Ou nada disso? Se é tudo uma questão de audiências e a verdadeira qualidade não é critério, porque não transmite a RTP um Big Brother qualquer?

Resumo da entrevista de Nuno-nunca na defensiva-Melo ao «Dinheiro Vivo»

Bla, bla, bla … o António José Seguro apoia o Shulz, um alemão. Nós apoiamos o Juncker, um luxemburguês, logo, um português. (Bom começo. Excelente argumentação. Isto promete … e vão ver que cumpre.)

Bla, bla, bla … um português, como o Barroso, é que era bom na Comissão. Um socialista, desde que português, também dava. Na Comissão. Em Portugal, nem pensar.

Bla, bla, bla … viva a Comissão! O FMI era o mau da fita.
(Ora bem, pausa. Como o Governo era cúmplice e promíscuo com o FMI, ao ponto de o Ministro das Finanças ter sido por ele contratado, deduz-se que o Governo é o mau da fita. Já sabíamos, obrigada por nos recordares esses bons momentos. Mas continua, ó tonto! Está a ser divertido)

Bla, bla, bla… o Governo português nunca falou sobre novo resgate, nem programa cautelar. Tudo especulação de outros. Irra!

Bla, bla, bla… os socialistas são maus, apoucam Portugal perante os mercados e o mundo. O quê? O primeiro-ministro? Chamou aos portugueses calaceiros? Eu e o Rangel no PE? Em momentos cruciais no passado? Bah. Já vos falei no engenheiro Sócrates?

Bla, bla, bla … as decisões mais importantes tomaram-se na Europa. Ah, desculpe, ainda não falei do Sócrates. Bandido. Já viu o número de países que afundou?

Bla, bla, bla …os candidatos do PS colaboraram com o diabo. Repare que até estiveram próximo dele, falavam com ele!

Bla, bla, bla… não tenciono estar na defensiva.

Bla, bla, bla … os seis anos de despesismo até 2011.

Bla, bla, bla … o Guterres mais o Sócrates.

Bla, bla, bla … não vou estar na defensiva.

Bla, bla, bla … política externa da União Europeia: com o Sócrates era um problema, sabia?

“Vivemos num tempo de crise das dívidas soberanas, que teve como principal impacto recessivo o aumento do desemprego e o crescimento incipiente das economias de certos países. Nesta inversão de ciclo, em que os povos das nações europeias suportaram grande parte do impacto dessa crise, as políticas de crescimento e de emprego são fundamentais.” (Ups! Estas declarações saíram-lhe por engano, de tão sérias; de qualquer maneira, presumo que apenas se referem ao pós-março de 2011, não lhe ficaria bem se assim não fosse, não é?).

Bla, bla, bla … investimento externo mal a Troika saia. Energias renováveis, investigação, ensino.(Ah,ah! Vão vir paletes. E gente qualificada? Também trazem?)

Bla, bla, bla … afinal, esperem lá, houve uma crise bancária que endividou os Estados.

Os depósitos dos particulares devem ser confiscados para salvar um banco, mas nunca os de, por exemplo, a Fundação Champalimaud ou das empresas. Ai sim? (Espero o desenvolvimento deste interessante tema em próxima ocasião)

Bla, bla, bla … a economia e o sistema de moeda única são questões morais e comportamentais. Alguém pensa, na Europa (e quem?): “Portaram-se bem aqueles meninos? Sofreram o suficiente? Então serão premiados. Aqueles ali portaram-se mal, desobedeceram? Não sofreram? Não levam nada. Ficam sem fundos”. (Suspiro meu, suspiro meu. Há alguém mais paciente do que eu?)

Bla, bla, bla … até 2011, foi um regabofe. Nacional. (Sócrates. Sempre. Ainda lhe dói, coitado)

Bla, bla, bla … responsabilidade social – retoma do poder de compra (a partir de 2015) (a cara, queremos ver a cara).

“[…] a vocação social específica relacionada com as reformas deste aumento da TSU”. (estou a rir e continuo sem ver a cara)

Bla, bla, (o motor está a gripar, tanto “parlapiê” também esgota) …“[…] o programa cautelar é um programa cautelar, não tem um programa cautelar quem quer”.

Bla, … o IRS só baixa se as circunstâncias o permitirem. Em 2015, dava-nos um jeitão.

Enfim, eis o exemplo de candidato que fala, fala e não tem razão nenhuma. Nem nada para dizer. É oco (ler entrevista na íntegra). Uma pessoa só perde tempo com ele, porque faz dos jornais e das televisões um palanque para venda de cobertores, no que não está sozinho, diga-se. Mas abusa. E ludibria alguns, porque parece um grande «do-er». Nem isso. O homem não faz mais nada senão isto.

Cavaco, uma vergonha nacional

“Toma, toma, toma, não tivemos segundo resgate! Bem feito!” (língua de fora)

(o homem no Facebook)

Este meu resumo infantiloide, mas espero que incontestável, da mensagem deixada por Cavaco Silva no Facebook a propósito da saída «limpa» de Portugal – um assunto em princípio sério e com muito para explicar – ilustra bem o tipo de pessoa que habita Belém há demasiado tempo e influencia a política nacional há uma eternidade. O homem que há um ano alertava para a hipótese de um segundo resgate devido à crise no Governo, ou de um programa cautelar, e para a espiral recessiva vem agora acusar outros, incertos, de serem demasiado pessimistas. «Incertos» que, a propósito, são bem conhecidos: foi o Governo que Cavaco agora tanto parece prezar (tem dias, não é?) que mencionou não há muito tempo, por ocasião das autárquicas, a hipótese de um segundo resgate!

As declarações de Cavaco são, não só por isso, mas a vários títulos, disparatadas. Que me lembre, a maioria dos comentadores teve a perfeita noção, sobretudo após a saída limpa da Irlanda e perante os motivos que a ditaram, de que um novo resgate seria impossível, pois não haveria quem nos quisesse resgatar. Nem sequer havia quem quisesse aprovar e impor-nos um programa cautelar. Também não haveria interessados em admitir que um memorando aplicado tão à risca e com o dobro do zelo por um país considerado o melhor dos alunos afinal falhara. E o certo é que falhou. Nada de regenerador ou estabilizador aconteceu a nível interno e, para quem associava os juros exorbitantes à dívida excessiva, reparem como nos endividámos ainda mais. O que mudou foi a conjuntura europeia e internacional. Que aliás, continua frágil. Sendo assim, no que nos diz respeito, nada de substancial mudou para melhor na nossa economia que nos dê garantias de solidez e sustentabillidade. A saída limpa não tem, no fundamental, base de sustentação. Por isso, a indigência do comentário de Cavaco só pode dirigir-se a indigentes e a ignorantes. Seguramente como ele.

No fundo, voltamos ao PECs. Mas agravados, dada a situação de ruína a que chegámos e os fanáticos que governam. E a pergunta que se impõe é só uma: o assalto ao pote em 2011, com base em mentiras, beneficiou exatamente em quê o país?

Teorias à medida, os alemães sabem como se faz

O alemão Hans Werner Sinn, professor de Economia e Finanças Públicas na Universidade de Munique, presidente do IFO, Instituto de Estudos Económicos, e conselheiro económico do Governo alemão, escreveu no Project Syndicate que o aumento das dívidas dos países da periferia europeia se deve à não aplicação rigorosa do Pacto Orçamental Europeu. Acusa estes países de se preocuparem demasiado com o crescimento e menos com o cumprimento de um pacto – rígido, doa a quem doer (aos outros, claro). Esta posição, cuja base de defesa do interesse alemão já conhecemos, é total e desgraçadamente assimilada, partilhada e posta em prática pelos atuais governantes portugueses. Apesar de algumas vozes críticas que vão surgindo da área da direita quanto ao erro desta interpretação da clivagem atual norte-sul, ou centro-periferia, Passos e companhia continuam fiéis executantes, agradecidos e contentes com a vergasta. E alegremente continuarão a empobrecer e a desqualificar o país.

O alemão não ficou, porém, sem resposta internacional. Na Forbes, Frances Coppola responde-lhe bem, num artigo intitulado “An Economics lesson for Professor Sinn”.

Eis alguns excertos essenciais:

The economics underlying this statement is woefully inadequate. The fiscal contraction required to reduce debt/gdp as required under strict interpretation of the Maastricht rules might be possible if there were robust growth. But the Eurozone periphery does not have robust growth. It has been in a slump for most of the last six years.” (segue-se um gráfico)

[…]
When growth slows, tax revenues fall and benefits bills rise due to higher unemployment, so the government tends to borrow more. Of course, it can respond by raising taxes and cutting benefits, but as the IMF researchers note, that tends to make tax revenues fall and unemployment rise even more. They warn that further fiscal tightening to counteract rising debt/gdp due to fiscal consolidation can result in a damaging deflationary spiral, and they advise fiscal authorities not to set short-term debt/gdp targets in a fiscal consolidation.
But even if government manages to balance its budget despite economic slowdown, debt/gdp will still rise. This is simple arithmetic. Debt is an existing stock, whereas gdp is a measure of current income (a flow). When countries go into recession, gdp falls – but debt doesn’t. Therefore debt/gdp rises simply because the denominator has fallen. I am frankly astonished that Professor Sinn makes no mention of this in his analysis.”

[…]
“The periphery politicians are going for growth because that is the only way they can make their sovereign debt/gdp sustainable over the medium term – and the only way they can contain the social unrest that unrelenting austerity and recession causes. It is of course possible that their actions won’t bring debt/gdp down: the absence of inflation and Germany’s persistent trade surplus don’t exactly help matters, and there are powerful vested interests resisting useful reforms. But what is certain is that without stronger growth, fiscal contraction is likely to increase sovereign debt/gdp levels still further.
However, I’m not so sure that Professor Sinn is really interested in the future health of Eurozone periphery countries anyway. His main worry appears to be the prospect of future bailouts. He would do well to remember that much of the bailout money so far provided by German taxpayers has gone to their own banks. Who exactly is it who is being bailed out
?”

Não sei se o professor Sinn vai aprender alguma coisa com esta “lição”. Enquanto estiver a defender os interesses do seu país, a sua teoria é boa. Já a figura ridícula e triste que personagens como Passos, Maria Luís, Maçães e companhia estão a fazer à luz da História devia levar-nos a agir. Até internacionalmente há quem veja e defenda melhor os nossos interesses.

RTP mal-educada

Para além do envio inopinado do Rodrigues dos Santos para a arena do comentário político armado de uma capa vermelha para provocar, infelizmente para ele acabando por sair toureado sem glória, começa a ser demasiado frequente a aceleração, quando não a interrupção, dos comentários de Sócrates invocando-se uma prioridade qualquer. No dia de Páscoa não pôde ser, porque era fim de semana santa (!), há tempos foi a estreia de um programa de entretenimento às 21 horas em ponto (!) que implicou a redução do tempo de comentário, hoje foi a vitória do Benfica (!! duas exclamações, porque já sabiam que um dos dois clubes iria ganhar o jogo e àquela hora). A RTP está a portar-se muito mal. Se quer acabar com o programa, assuma-o. Se quer transformá-lo noutra coisa qualquer, assuma-o também, concerte-se com Sócrates e explique-se perante os telespectadores. Agora, a diminuição gradual do tempo com base nos mais disparatados motivos é que não pode ser. Se há algo a que querem dar destaque, adaptem a duração das notícias. Porquê, por exemplo, um quarto de hora de diretos de Roma e quase outro tanto de diretos do adro dos estádios? Se decidiram introduzir o comentário no meio do Telejornal, o que têm a fazer é gerir o tempo das notícias, não é roubar tempo ao comentador. Não é bonito, são demasiado notórios o desrespeito e a intenção e não acontece com mais ninguém.
O que é certo é que, dos 25 minutos iniciais, restam 10 ou 15.

O Governo português é mesmo bom

Para quem ainda não leu, aqui fica o link para o artigo da revista «The Economist» desta semana sobre as razões para esta tão espetacular quanto enganadora descida dos chamados juros da dívida soberana na periferia da Europa, onde Portugal se inclui.

Como sabemos, Passos Coelho tem sido um génio a fazer descer os juros em todos os países:

gráfico economist

Basicamente, o que se passa é que i) com a deflação, na prática, o rendimento das obrigações é maior do que parece, logo, investe-se no chamado mundo desenvolvido numa altura em que o outro suscita incertezas, e ii) o BCE criou a expectativa de pôr as rotativas a funcionar («quantitative easing»).

Porém, segundo a revista, esta situação não vai durar muito, sobretudo porque a ação do BCE será certamente frouxa por pressões do Bundesbank, mas também porque o restante receituário está errado (depreende-se).

Surpreendentemente, a revista (completamente anti-Keynesiana – cf. este excerto: “Structural reforms, from freeing labour markets to deregulating cosseted industries, have not been radical enough to transform their growth prospects” (ah, ah!, o costume)) recomenda a receita seguida pelo Japão, no mandato do atual primeiro-ministro Shinzo Abe (conhecida por Abenomics), ou seja, estímulos maciços à economia. Só assim se resolverá o problema. Quem diria, não é?

Entrevista de ontem: é que nem isso, meus amigos

Antes da entrevista a Passos, muita gente por esta blogosfera mais astuta e divertida imaginou o que seriam as perguntas do J.G.Ferreira e as respostas de Pedro. Umas eram perguntas que já incorporavam a resposta, incluindo-se muitas delas na categoria de perguntas retóricas, outras punham o jornalista numa posição muito ousada no que toca a números, obrigando o entrevistado a apresentar-se como ser humano com alma e preocupações sociais, outras ainda eram do género de poderem ser feitas.

Nada disso. Foi ainda pior. JGF enveredou por um caminho a que se pode chamar de “não entrevista”. Tratou-se de uma converseta e de uma converseta acanhada por parte de quem se devia mostrar profissional, e chocha, totalmente chocha, dirigida por um homem que até costuma aparecer nas televisões com análises categóricas e declarações bombásticas, tão ousadas quanto afuniladas. Dei por mim a cochilar. Não só as perguntas não foram minimamente incisivas, como também não abordaram sequer as grandes questões do momento: a tal saída limpa ou suja e as hesitações/insegurança de M. Luís Albuquerque, o pós-Troika, os chamados “consensos”, a Europa, os desempregados, os emigrantes que a ministra das Finanças diz que voltam, a bancarrota atual em contraponto com a alegada bancarrota passada, o Manifesto dos 74, a dívida, as comemorações do 25 de abril, as reformas estruturais, enfim, um número abundante de assuntos, que não se esgota nestes mencionados, e que ficaram de fora e não deviam ter ficado, se aquilo pretendesse ser uma entrevista a um chefe de governo num momento crucial do programa de resgate. E mesmo nos assuntos falados, como os das pensões, dos cortes e das “gorduras”, o entrevistador pareceu ficar satisfeito com as respostas totalmente vagas e impreparadas que obteve do barítono seu ídolo. Assim não. Isto não é sério.

Para a próxima, será melhor pôr o homem a cantar. Para não dizer nada, seria, quiçá, mais agradável. E o jornalista, que também não quer incomodar, poderia apenas deleitar-se a ouvi-lo e, no fim, bater as palmas que ontem se refreou de bater.

Além do mais, um bocado burros

O “tangas” que é candidato pelo CDS ao Parlamento Europeu resolveu desafiar o líder do PS a esclarecer publicamente se o partido apoia um candidato socialista/social-democrata à Comissão Europeia – o alemão Martin Schulz – que é contra a mutualização da dívida pública, sendo o PS a favor. Convém lembrar a Nuno Melo que o candidato apoiado pelo CDS-PP e o PSD, partidos que se declaram contra essa mutualização, porque acham que os portugueses (os outros, que não eles) devem cumprir penitência pelos seus pecados – é Jean-Claude Juncker, um homem que, em 2012 se declarava um entusiasta das euro-obrigações e apenas recentemente (apoio da direita alemã a quanto obrigas?) mudou de opinião, embora não radicalmente. Declara-se agora “prudente”. Prudente, mas não contra.

Portanto, sendo este um tema fraturante na Europa e sujeito a evolução (evolução essa a que nenhum candidato se pode dizer imune, nem o da esquerda), o melhor era este fala-barato deixar-se de populismos e explicar aos eleitores portugueses por que razão é contra, se é que é essa a sua posição. Mas, se não é, devia dar-se conta de que vai apoiar um candidato que, neste momento, o é. Seria mesmo melhor falar de vinhos.

Rangel diz que a Europa não é um bazar, mas ele próprio anda por cá a vender tapetes voadores

Defendendo que, na Europa, não adianta fazer barulho porque não se está num bazar (quem disse?), Paulo Rangel quer convencer os leitores do Público, pelo menos, de que, mais do que regatear, o que importa é a credibilidade com que um governo se apresenta perante os seus pares europeus mais poderosos. Sabemos dos muitos aspetos envolvidos no conceito de credibilidade. Mas, claro está, à medida que a leitura do texto avança e tendo nós a realidade como referência, percebemos que «credibilidade» mais não significa aqui do que obediência e subserviência, e «bazar» um local onde as pessoas se comportam de maneira desrespeitadora da autoridade. Enfim.

Preparando muito cedo o refogado para o prato final (o elogio empolgado ao seu chefe Passos Coelho, considerando-o um portento e uma referência na Europa, não vale rir), eis o que diz na abertura:

Há uma corrente de opinião que está convencida — ou, pelo menos, procura convencer-nos de que a capacidade de afirmação de um país ou de uma posição na União Europeia depende muito da “ambição”, do “músculo” e da “vozearia” com que se apresenta uma dada pretensão. Essa corrente sustenta que só é possível adquirir uma posição de vantagem na Europa, se se definirem metas muito ambiciosas (sempre a raiar a utopia e o lirismo) e, naturalmente, se se gritar, berrar, espernear e bater o pé nas negociações subsequentes. Ao contrário, o activo mais importante — o verdadeiro trunfo — no processo permanente de negociação da construção europeia é a credibilidade. A credibilidade dos objectivos ou propósitos assumidos e a viabilidade das soluções avançadas para os atingir. É justamente a capacidade de persuadir os nossos parceiros e, bem assim, as instituições europeias de que as finalidades a prosseguir são atingíveis e de que os meios a utilizar são adequados e realistas que pode impor uma “agenda portuguesa” no quadro europeu. Naturalmente, essa credibilidade da posição apresentada depende também da credibilidade dos protagonistas e, designadamente, da consistência da sua experiência anterior e do seu discurso político.”

Para além de escolhas duvidosas de vocabulário, como “metas muito ambiciosas” (a que se refere?), e do verbo “persuadir”, que é, com estes protagonistas, um contrassenso e um abuso da nossa paciência, esta tese assenta num gigantesco equívoco: o pressuposto de que este governo teria uma visão da austeridade para o país diferente (para menor) da Alemanha e da Troika e de que em algum momento do seu mandato teria tido consciência de que algo não estava a resultar ou alguma noção sequer de que os interesses dos credores não são, nem podem ser, os nossos. Não tem, nunca teve e jamais terá. Por isso, a mera ideia de que o Governo de Passos e Gaspar/Albuquerque teria a ideia de que algo merecia ser negociado, alguma coisa a contrapor ou sequer a propor aos credores em favor de Portugal é, para todos nós, imunes à banha da cobra, pura e simplesmente inconcebível e totalmente contraditório com o observado.

Assim sendo, a Europa um bazar, compreendemos que, para eles, nunca o seja. Rangel arrepia-se com a própria imagem, de tão incivilizada que é. Ou melhor, desrespeitadora. O problema, ó Rangel, é que nem bazar nem local natural de negociação. Para vocês, é simplesmente um local de vassalagem.

A vigarice da venda de gato por lebre domina boa parte do texto, fazendo este, afinal, jus a práticas que Rangel aparenta desprezar e das quais acusa os outros. Nessa toada, não abdica, evidentemente, do filão que lhes traz mais proveitos eleitorais: a invocação da descida das taxas de juro no último ano – atribuída à tal “credibilidade” (não é que se está mesmo a ver?) e nunca a fatores mais óbvios como a situação internacional dos mercados, os interesses dos investidores ou a ação do BCE. Está visto que, à partida, é muito fácil para o PSD iludir os ouvintes menos bem informados sobre as causas, os detalhes e a evolução de uma crise como esta. É assim que o trauliteiro Rangel vende a “mercadoria”: Sócrates levou o país à bancarrota porque fazia obras megalómanas e dívidas estratosféricas, Passos chegou e pôs ordem na casa e, com a sua credibilidade, pôs as taxas de juro a deslizar por ali abaixo que foi uma beleza. Como já disse, o negócio deste senhor é vender tapetes e ainda mais agora que luta pela renovação de um contrato.

Mas também sabe cozinhar. No final, eis o prato enjoativamente amanteigado que serve a Passos e a Barroso:

Neste conselho, só um primeiro-ministro mostrou abertamente uma discordância profunda da visão de Angela Merkel sobre a união bancária e esse primeiro-ministro foi o português. A posição portuguesa — coincidente com os esforços da Comissão — passou a ser uma referência para a discussão que havia de seguir-se e, em particular, para o Parlamento Europeu. Não houve debate no PPE que não tivesse como referencial a visão de Passos Coelho. Como é sabido, acabou por haver um entendimento e a solução final é francamente melhor do que aquela de Dezembro.”

O problema de José Rodrigues dos Santos

À primeira vez, receava-se, à segunda, confirma-se. José Rodrigues dos Santos, ao conduzir o novo tipo de comentário político com José Sócrates, colocou-se a si próprio perante um problema: ou se informa devidamente sobre as questões que decide trazer para a entrevista e corre o risco de perceber deveras e finalmente do que está a falar – e neste caso perde toda a razão de ser a sua agressividade e, escusado será dizê-lo, muitas das perguntas, sendo grande a tentação de regressar ao antigo formato (o que seria pena); ou não se informa nem estuda devidamente a história recente nem o porquê das coisas e limita-se a trazer para a “entrevista” as acusações e deturpações que a direita usa e usou para fins eleitorais e propagandísticos – opção totalmente aceitável, desde que cite em vez de fazer suas as palavras deles, como parece – e neste caso corre o risco de levar uma “ensaboadela”.

Para ele, a coisa não se afigura fácil. Acontece porém que, entretanto, aqueles 20 minutinhos ganharam grande vivacidade (sendo ou não sua, a ideia teve mérito, podendo embora não ter obtido o efeito pretendido, que seria abater e não despertar uma fera). Logo, potencialmente, tais minutinhos ganharão também espectadores. Ora, se isto é bom para a RTP, e só pode ser, o novo formato deve ser mantido. Resta, portanto, a Rodrigues dos Santos, embora em prejuízo das pesquisas que faz para escrever os seus livros, dedicar mais tempo a estudar a Europa, as disfunções da zona euro e todas as questões nacionais que aparenta desconhecer. E a nós resta-nos aguardar. JRS tem que encontrar a fórmula, já que se impôs um desafio.

Nota:
Não sei se JRS a esta hora já foi a correr para o Facebook queixar-se de ter sido insultado por José Sócrates quando este lhe fez notar que até um advogado do diabo pode ser inteligente no seu papel. É uma observação pertinente, além de afirmação verdadeira. Da minha parte, e para ajudar o jornalista a provar que é um advogado do diabo inteligente, até porque prefiro claramente este formato, proponho como trabalho de casa para JRS a pesquisa do seguinte tema: por que razão desceram os juros recentemente em Portugal, Espanha, Grécia, Itália, Irlanda, apesar do aumento das respetivas dívidas, e por que razão subiram tanto em 2011?

Ferro fundido com alcatrão: alquimia

Ainda que mal pergunte: esta fusão da REFER, empresa que gere a infraestrutura ferroviária nacional, com a Estradas de Portugal, decidida assim “de repentemente” pelo Governo, para entrar “em modo de execução já no segundo semestre e com impactos claros em 2015” (Pires de Lima dixit) (parece que tinham falado nisso há um ano, mas, desde então, nada mais soubémos), é uma experiência gira, fresca e inédita, ou é algo que já existe em algum lado? Neste caso concreto, há estudos sérios que fundamentem a decisão?

É estranho. Do pouco que investiguei – França, Itália, Espanha, Inglaterra – não descobri nenhum caso de empresa única (há países em que as estradas são geridas a nível regional ou local). Além disso, como quase perfeita leiga nesta matéria, diria que a concorrência, e não a fusão, entre as duas infraestruturas é de toda a conveniência. O caminho de ferro só ganha mais movimento, e portanto mais receitas, à custa da redução do tráfego rodoviário (concorre também com o transporte aéreo nas distâncias médias a longas – imaginaríamos uma fusão com a ANA, quando ainda era pública?).

Tendo dito e questionado, aceito esclarecimentos.

Mas, enfim, para entrar no jogo das sinergias, não seria boa ideia também integrar a RTP na nova empresa? Pensem nisso. Afinal a sua rede de retransmissores também transporta alguma coisa.

A decisão foi anunciada ontem pelo secretário de Estado das Infraestruturas, Transportes e Comunicações, na conferência de apresentação do Plano Estratégico dos Transportes e Infra-estruturas (PETI), depois de o Governo ter admitido que esta fusão estava em estudo, permitindo poupanças que o executivo estima em 50 milhões de euros. Este valor será atingido por via de melhorias de efi ciência na operação.”

(in Público)

Decréscimo da natalidade, aumento dos tachos*

A situação é simples de descrever: primeiro dá-se cabo da economia em nome do darwinismo económico, depois mandam-se os jovens desempregados emigrar. Como começam a escassear os nascimentos e há que pagar as reformas, hoje e no futuro, e, enfim, manter por cá algumas pessoas que possam trabalhar para engordar os ricos, que não podem desaproveitar o facto de as desigualdades sociais jogarem a seu favor, o que se faz? Cria-se uma comissão – atenção: multidisciplinar – para estudar formas de incentivo à natalidade. A comissão sente-se súper útil (e agradecida) e eu, pelo menos eu, fico banzada.

Além do direito das mulheres a trabalhar, que contribuiu naturalmente e em geral para a queda da natalidade, numa altura como esta são mais que óbvias as razões por que os portugueses não têm filhos. Os filhos custam dinheiro e tempo. Há poucos empregos, quem trabalha ganha mal ou tem um emprego precário. Os casais que se separam porque um dos cônjuges foi obrigado a emigrar não têm uma situação familiar propícia à criação de crianças, as creches são caras, etc. Um bom primeiro-ministro, um bom ministro da Economia e um bom ministro dos Negócios Estrangeiros saberiam com certeza conceber políticas para inverter a situação. Se quisessem e estivessem interessados. Acontece, porém, que a situação foi alegre e deliberadamente promovida e agravada por indivíduos demasiado desvairados e incompetentes para os ditos cargos. E são estes mesmos que agora nomeiam comissões para, alegadamente, como caderno de encargos, cuidarem da demografia.

Hoje, no Público, publica-se uma entrevista a Joaquim Azevedo, ex-secretário de Estado de um governo de Cavaco Silva, que vai liderar a dita comissão. Eis a abertura:

Já escolheu as pessoas para trabalhar neste plano de ataque à queda da natalidade? Temos a equipa quase totalmente constituída e marcámos a primeira reunião para a próxima semana. É uma equipa multidisciplinar. Tem uma médica pediatra, [a ex-alta comissária para a Saúde] Maria do Céu Machado, a psiquiatra Margarida Neto, um especialista em direito laboral, Pedro Furtado Martins, e a especialista em fiscalidade Ana Luísa Anacoreta Correia. As famílias numerosas também estarão representadas, através de Ana Cid Gonçalves, e, na área da geografia humana, temos o professor Jorge Arroteia, da Universidade de Aveiro. Também temos a subdirectora do Gabinete de Estratégia e Planeamento do Ministério da Solidariedade e Segurança Social, Ana Sampaio, um empresário na área dos serviços, Ricardo Luz, uma jovem mãe e outros dois jovens.”

Ora, impossível não rir (o resto da entrevista fica à imaginação de cada um. Não é difícil. E, para o caso, é irrelevante). É, portanto, este rol de pândegos, que aceitaram a nomeação sem levantarem um dedo para uma pergunta sequer, que vai fazer aumentar o número de bebés. Então não vai?

(Não posso deixar de introduzir aqui um aparte: fico a aguardar a crónica domingueira do verrinoso Alberto Gonçalves, no DN, sobre a interessante temática das comissões criadas para se alimentarem à custa do Estado e que só sobrevivem porque e enquanto há tragédias, tendo quase por dever perpetuá-las para se autopreservarem. Se, na semana passada, o alvo da sua sanha foram os estudiosos da pobreza, que apresentaram um relatório a que o colunista não achou graça – sendo, como penso, sociólogo, não se compreende este tiro à disciplina e à função dos colegas – sanha essa totalmente despropositada, aparentemente só porque sim, desta vez tem aqui bom material para elaborar. A criação desta comissão é a todos os títulos escandalosa. Vai uma aposta em como não se escandalizou nada?)

* Foi-me chamada a atenção, pela Fernanda Câncio, para o facto de este grupo não funcionar no âmbito do Estado, mas sim do Instituto Sá Carneiro. O jornal fala numa comissão “criada pelo Governo”. Apenas no fim o entrevistado menciona o instituto. Pela confusão, peço desculpa. Não há dinheiro do Estado envolvido, logo, não há tacho. O que digo sobre a sua missão continua, porém, válido.

«Potência exportadora». Shame on you, IMF!

Gostaria de saber um dia, quando tiverem tempo, o que leva o FMI a elogiar o exemplo de Portugal como país de salários baixos. É que, por acaso, já foram menos baixos. O que significa que as pessoas já viveram melhor e passaram a viver pior. E com a mesma moeda. Com a mesma cotação. O FMI diverte-se, pois, a gozar com os novos pobrezinhos. É muito feio.

Na China, no Vietname ou no Bangladesh, os salários são baixíssimos, mas são-no em contraponto com uma situação anterior ou alternativa de fome e miséria. Ou seja, os trabalhadores ganham pouco, mas antes não ganhavam nada! Como é possível este descaramento? As «potências exportadoras» não têm necessariamente salários baixos. Tudo depende do que se exporta. A Alemanha e a Irlanda não são potências exportadoras? E por acaso têm salários baixos como os dos portugueses?

Quem é o FMI, for Christ’s sake? Com salários de 300 euros por mês como parecem desejar impor (ver notícia), querem que exportemos o quê? Agriões?

Em todo o caso, o FMI, nos últimos estudos que fez sobre Portugal, também defende que os salários e as regras do mercado de trabalho têm de ajustar mais para que o país logre transformar-se numa potência exportadora.”

O candidato rasca

Paulo Rangel, o re-candidato que em nada se distinguiu no Parlamento Europeu pelo que de positivo lá tenha feito, decidiu baixar o nível da campanha ao patamar mais baixo – o da abjeção. Para além das mentiras e do ódio disparados contra o anterior executivo, pelo simples facto de tudo ter feito para evitar o atual descalabro, tende a falar com base no disparate e até xenófobo se apresenta.

Acham que é melhor para Portugal ter à frente da Comissão Europeia um alemão, que é o candidato apoiado pelo Partido Socialista português, ou um português? O que acham que é melhor para Portugal? Esta resposta é que eles têm de dar”, afirmou Paulo Rangel, referindo-se ao apoio dado pelo PS à candidatura de Martin Schulz, pelo Partido Socialista Europeu, à presidência da Comissão Europeia.

Acontece que Schultz não concorre contra nenhum português – não há nenhum nome português falado para presidente da Comissão Europeia, pelo que a contraposição é absurda e demagógica. Há, para já, um luxemburguês, Jean-Claude Juncker. Em segundo lugar, Durão Barroso, o conhecido português que por lá se passeou durante dois mandatos e uma crise financeira internacional, e que felizmente vai largar o cargo, não fez mais do que obedecer às ordens da Alemanha, podendo por isso ser considerado completamente alemão, tal como os seus camaradas do executivo português. Para disfarçar e aparentar ter uma visão “comunitária” da Europa, Durão aliviava-se de vez em quando de uns discursos totalmente inconsequentes (e muito menos para Portugal, o seu país) sobre solidariedade e outros conceitos atualmente ocos. O facto é que nos lembramos bem das ameaças proferidas por este português que está à frente da Comissão a propósito do último chumbo do Tribunal Constitucional português a cortes decididos pelo Governo: que a alternativa seriam medidas ainda mais duras. Mais duras, porquê? Ninguém lhe perguntou.

Se esta portugalidade é a que Rangel aprecia e defende, estamos conversados. Que venha um alemão. Pelo menos este tem a vantagem de ser adversário político de Angela Merkel.

Quanto ao desafio que lança ao líder e aos candidatos do PS às eleições europeias para que corroborem as críticas de Sócrates sobre Barroso, mais uma vez não mostra grande esperteza nem boa leitura política. Espero que tenha a resposta que merece. Ninguém ama Barroso. Ninguém já precisa de Barroso. Nem dentro nem fora do país.

José Rodrigues dos Santos, é favor continuar

Mesmo apanhado desprevenido, Sócrates encontrou, no seu espaço de comentário político de domingo, resposta certeira para a artilharia de José Rodrigues dos Santos, subitamente transformado em inquisidor. Se a ideia era apanhá-lo em falso numa curva da estrada, o mínimo que se pode dizer é que não resultou. Não resultou à luz do suposto objetivo do entrevistador, embora tenha resultado em cheio para os espectadores. E, para os admiradores de Sócrates, foi mesmo um resultadão. Queremos mais! E até a discussão de outros temas que não apenas a paupérrima política nacional. Afinal ele anda pela Europa.

Não sei se José Rodrigues dos Santos, pessoalmente, já andaria há tempos com vontade de confrontar Sócrates com “os seus crimes”, se acordou para aí virado naquele dia, o que significa que, no próximo domingo, já lhe passou (ou já deu lugar a outro), ou se, em concertação com a direção da RTP, resolveram começar a “enxotar” Sócrates, começando por desrespeitar um formato inicialmente acordado com o objetivo final de o levar a desistir. Se assim é, tenho a certeza de que vão ficar frustrados.

Sócrates deve estar feliz com o que aparentemente lhe estão a propor. Com a razão do seu lado, será mais do que um prazer munir-se de material e argumentos de contra-ataque. Este era mesmo o grãozinho de provocação e desafio que faltava para soltar o seu conhecido espírito combativo e a veia argumentativa. Naturalmente que, doravante, irá querer saber sobre que matéria vai ser interrogado e terá possibilidade de preparar os diversos tipos, estilos e conteúdo de resposta no contexto do que poderá ser uma nova fórmula. E é precisamente por isso que me permito duvidar da continuidade do estilo «entrevista». E, a ser uma vez sem exemplo, será uma pena.

A não ser que, e como veem sei ser boazinha, o objetivo seja aumentar as audiências, puxando pelo melhor de Sócrates no confronto público e acentuando a sua diferença em relação aos restantes comentadores. Se os temas da atualidade tratados forem variados e interessantes, teremos que, para o próprio, será um estímulo e, para nós, espectadores, uma razão para não perdermos a discussão. Neste caso, força, RTP! Tenho a certeza de que o homem tem mais para dar do que apenas comentar esta choldra em que Portugal se transformou.

Três asneiras, três

Vítor Gaspar interveio hoje num debate no ISCTE, onde também participaram outros ex-ministros das Finanças. No resumo feito pelo Económico, são citadas três afirmações de Gaspar, qual delas a mais, vamos lá, estapafúrdia.

Primeira: «É mais difícil desfazer do que fazer». Quem quer que seja o autor desta afirmação, parece-me que não há ninguém que não constate precisamente o contrário. Mas Gaspar terá vindo para elogiar o seu próprio trabalho, na falta de elogios alheios (exceto Lagarde, facto que muito nos enregela).

Segunda: «A política na Europa é marcada pelo primado básico que é o primado da política nacional. As alterações necessárias são nacionais». Parece que é mas não é. É o que pretende Angela Merkel – e sabemos porquê – com os resultados que se veem nos outros países. Esta é não só uma afirmação errada como inconstatável. E ele, que pelos vistos se orientou por esse pressuposto, viu-se obrigado a desandar. Ainda não percebeu porquê.

Terceira: (“Gaspar, que saltitou de referência histórica em referência histórica, não hesitou em afirmar que mantém as suas posições iniciais – as mesmas que são conhecidas do tempo em que foi ministro das Finanças e que dão primazia à necessidade de resolver o problema do crédito público.”) «Quando alguém mantém uma posição durante um par de anos é teimoso. Quando mantém por 20 anos é persistente. Quando mantém por 50 anos é sábio. Eu estou a trabalhar no caminho da sabedoria».

Sem comentários. Mas qualquer semelhança com o Miguel Relvas e a afirmação de que pauta a sua existência «pela busca do conhecimento permanente» não pode ser mera coincidência.

Ucraniano, o meu avô? Not exactly

Tendo lido por diversas vezes que a integração da Crimeia na Ucrânia, em 1954, se deveu, entre outras coisas, nomeadamente o álcool, ao facto de Kruschev (então líder da União Soviética) ser ucraniano, gostaria de esclarecer que tal não é verdade. O mais simples teria sido a consulta da Wikipedia, onde nos informam que “Khrushchev was born in the Russian village of Kalinovka in 1894, close to the present-day border between Russia and Ukraine“. Mas, para quem não quer fiar-se cegamente na Wikipedia, onde também se lê que Nikita, grande compincha de Estaline em purgas e outras barbaridades, foi durante anos governador da “província”, uma passagem pela CNN ou por outras fontes de informação online, permitiria, por exemplo, ouvir o que diz a neta, Nina Kruscheva, sobre o assunto. É atualmente professora universitária em Nova Iorque.

Uma enguia com brilhantina

Santana Lopes é um personagem político errático, do qual não se sabe se tem noção das contradições em que incorre. Suspeita-se que não tem a mínima. E isso faz dele uma espécie de criança, que, como já provou na sua passagem pela liderança de um governo e de uma câmara, acaba a protagonizar um festival de irresponsabilidades e desnorte. Para quem não se lembra, nunca os jornalistas e humoristas se divertiram tanto como nos poucos meses do seu mandato. Era uma roda viva, cuja interrupção muitos da indústria lamentaram. Em entrevista publicada hoje no Público, diz coisas como esta, aparentemente sérias:

Quem já exerceu funções de chefia do Governo sabe o quanto a União Europeia fiscalizava à lupa, já antes desta crise, as contas do Estado. Os países não se endividaram às escondidas da Europa.”

Não dura, porém, muito tempo este registo. Mais adiante, a culpa do endividamento já é de muitos dos que assinaram o Manifesto (ele não assinou e não é culpado de nada): “Autênticas mistificações. Tínhamos poupado tanto, tanto, tanto se o país não endeusasse asneiras. Apetecia-me fazer uma pergunta a cada um dos subscritores: “Olhe, desculpe lá, e naquela altura em que decidiu isto assim-assim não tinha ali nada para ver as contas?”

Eu ainda me lembro de quando este homem entendeu descentralizar o Governo, começando por Santarém. Tudo extremamente prático e barato.

Ainda a propósito do Manifesto, e sem qualquer intervalo para distrair o entrevistador: “Não quero ser antipático, mas nesta altura, quando estamos a dois meses da saída da troika, quando os juros estão a baixar para níveis satisfatórios, não se podem dar sinais errados aos mercados. (e… zuc, sem pausa) Os organismos internacionais e os nossos credores também precisam de saber que muitas das nossas elites têm um pensamento muito céptico em relação ao caminho que essas organizações querem seguir. Isso pode ajudar até, em certa maneira, o Governo na negociação que tem de fazer e no modo como tem de conduzir o processo de saída da troika. Não vejo o manifesto como um acto prejudicial. Até o pode ajudar.”

Traduzindo, o Manifesto é inoportuno, portanto, criticável, não devia existir, mas é um aviso indispensável aos credores e até uma ajuda negocial para o Governo. Boa, Santana. Não sabes o que dizer, mas entrevistaram-te e, sendo assim, vais por aí fora, como se estivesses a falar entre duas festinhas na careca, alongado no sofá. Uma indefinição fofinha.

Muito ajuizado, afirma, a dada altura: “Não acredito numa Europa que começa por dizer ‘vamos tirar aos Estados o poder soberano de fazer os orçamentos, já tirámos o de emitir moeda, vamos tirar o poder soberano da supervisão do sistema financeiro’. ‘E se nós só pudermos crescer 1,5%?’, ‘Pois, isso é com vocês.’ Não faz sentido.

Pois bem. Se não faz sentido, e não faz, não devia ser o próprio Governo a confrontar a troika com o problema? Porquê defender o primeiro-ministro e o seu radicalismo em cada curva do discurso?

Como aqui, em mais uma contradição, em mais umas meias-tintas:

Falta sensibilidade social a este Governo?
Não vou dizer isso. Acho que o primeiro-ministro a tem, mas não a mostra em público. A possibilidade de tratar o despedimento sem justa causa como o despedimento com justa causa não passa pela cabeça…”

Ai, que já falou demais. Conhecemo-lo tão de ginjeira, que quase o ouvimos dizer logo a seguir: ”Ouça, mas isto…” (completar com qualquer coisa simpática)

Quanto a Sócrates, confessa admirá-lo e, nas entrelinhas, porque este Santana é, no fundo, transparente como um puto, invejá-lo por ser tudo o que ele próprio não é (sem hesitações, chama-o um deus):

Eu não sou daqueles que fustiga o engenheiro Sócrates a dizer que ele é o culpado por tudo o que se passa em Portugal. Acho essa ideia absolutamente caricata e ridícula. A principal culpa pelo que se passa em Portugal são factores externos. O engenheiro Sócrates desorientou-se na parte final do mandato, tomou muitas medidas erradas, mas durante vários anos desenvolveu políticas correctas e tomou muitas boas medidas. O Governo agora até adoptou o Simplex 2. Na área da investigação científica fez muitas coisas bem-feitas e teve muita visão nessa matéria das novas tecnologias.”
Sócrates foi um reformista?
Foi um primeiro-ministro com visão em várias áreas. Ele era vários deuses ao mesmo tempo, depois caiu em desgraça e passou a ser o culpado de tudo. Isso é caricato. Ele foi um primeiro-ministro com várias qualidades, um chefe de Governo com autoridade e capaz de impor a disciplina no seio do seu Governo.”

Claro que ficamos sem saber em que medida Sócrates se desorientou na reta final ou o que terá acontecido, mas ficará para a próxima. Ou talvez não. Frases como esta têm, para a direita, lugar cativo no éter. Quanto ao “caiu em desgraça”, este homem, que também, no fundo, não é criança nenhuma, mas apenas ridículo, até nem fez nada para sujar o seu adversário, pois não?

Ó Santana, és um bonzinho, um injustiçado, um amigo dos velhinhos. Vens aqui perguntar-nos: Gostam de mim? Olhem que eu gostava de ser Presidente da República.

Haja paciência. O hino do Menino Guerreiro já dissera tudo.

Pensando bem, Putin, esquece a Ucrânia, tu avança-me é para a Europa

Das coisas relaxantes que há na vida é ver aqueles que, em pleno ataque dos mercados, no primeiro trimestre de 2011, com as taxas de juros da dívida a aproximarem-se dos 7 %, entenderam que uma estratégia concertada de defesa dos interesses do país (a que poderia chamar-se «consenso») não interessava para nada, pois Portugal ganharia com uma passagem pelo esgoto, tendo tido o desplante de mandar às urtigas (depois de paga com tempo de espera a reeleição de Cavaco) um acordo de «no bail-out» com o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia, andarem agora a apelar a um consenso para alegadamente dar confiança aos mercados, enquanto alegam que a mera discussão do problema da dívida excessiva e insustentável, resultante do resgate e da forma como as suas condições foram aplicadas, é uma loucura e pode suscitar a ira dos ditos. Extremamente relaxante. Como um trago de gasolina.

A ver se nos entendemos: o que o BCE resolveu entretanto fazer em defesa do euro já estava em embrião, com Trichet, em 2011 e a baixa dos juros que se verifica atualmente tem muito pouco a ver com a situação económica e financeira do país, que é pior. Mas, dirão alguns, em termos de financiamento, há uma mão por baixo de nós. Sim, uma mão que já se dispusera a lá estar em 2011. Entretanto, se a nossa dívida era alta, agora é altíssima. E, quaisquer que sejam as contas, impagável. Nesta circunstância, o fingimento de pouco serve. Quero dizer, serve de pouco ao país e aos seus habitantes, sendo certo que servirá seguramente para alguma coisa, para alguns.

Estas araras que nem querem ouvir falar na insustentabilidade da dívida são as que tudo fizeram para a agravar. Não pensando, ou divertindo-se com experiências. Voluntária e jovialmente e através de cortes duros e sucessivos nos rendimentos dos portugueses, diretamente ou através de impostos, arrasaram a economia do país, empobreceram 95% da população, exportaram para países da UE mais ricos – e encantados com a oferta – mão de obra barata, especializada e não especializada, desqualificaram os serviços públicos e a educação, venderam ao desbarato empresas públicas rentáveis e bem geridas, tornaram a dívida pública objetivamente insustentável e, agora, condenado o país, sem moeda própria, a 100 anos de servidão, insurgem-se contra quem pensa e reage e não se conforma (alguns deles tarde, é certo). Ora, e invertendo o sentido de uma conhecida anedota, não sendo isto amor ao país, que não têm nem sabem o que é, esta indignação só pode ser interesse, mas interesse próprio. Numa qualquer recompensa externa (cf. Gaspar) ou numa nova ordem que dê todo o poder ao setor privado, pelo qual já se foram distribuindo os amigos. São estes os grandes tementes ao deus Mercado e às suas suscetibilidades. E as televisões com horas e horas de futebol e o funeral do Policarpo.

Por fim, quererão talvez saber o que faz o destemido Putin no meio disto. Aqui vai. Parecendo não ter nada a ver, a questão da Ucrânia e uma eventual desestabilização da Europa ao ponto de poder acarretar o fim do euro, por muito tenebrosa que fosse, poderia ser, para nós, uma libertação. Quiçá a única esperança. Especialmente se as próximas legislativas nem sequer nos livrarem do bando que tomou de assalto o PSD.

O Moedas ainda está no Governo?

Em 2010, com a dívida pública em pouco mais de 90% do PIB, Carlos Moedas escreveu o seguinte:

No caso da dívida pública e segundo as conclusões do Bank for International Settlements, se Portugal quisesse voltar aos níveis de dívida pública de 2007 (63.6% do PIB directa vs. 89% do PIB indirecta) teria que apresentar um superavit primário das contas públicas (antes de juros) de 6% ao ano durante 5 anos ou de 3% ao ano durante 10 anos. Alguém acredita que estes cenários são possíveis no curto ou mesmo no médio prazo? Eu tenho muitas dúvidas e por isso só nos resta (a nós e a outros) o possível caminho da reestruturação da dívida. Ou seja, ir falar com os nossos credores e dizer-lhes que dos 100 que nos emprestaram já só vão receber 70 ou 80. Este é um caminho árduo e complicado, a tal parede que tanto se fala, mas que nos permitiria começar de novo. A austeridade é necessária e urgente, mas se mantivermos os níveis actuais de dívida, dificilmente conseguiremos crescer a níveis aceitáveis … e se não crescermos morremos.”

Agora, com a dívida em 130%, está calado. A fingir de morto. Ah, e aposto que não vai ser exonerado.