Já em 2013, junho, era esta a opinião do jornal francês:
(foto sugerida pelo nosso amigo Mister H)
Algo se deve passar nas reuniões do Eurogrupo para que, à saída, todos pareçam ter sido atingidos, lá dentro, por um raio de luz tão forte que lhes faz mudar os propósitos que levavam à entrada. Acreditando que estes eram sinceros. Aconteceu ontem com o Ministro das Finanças italiano, incumbido por Matteo Renzi de granjear algum bom senso junto dos seus pares, lembrando-lhes que, sem crescimento económico, não haverá redução da dívida e que o cumprimento estrito das metas do défice impede o país de se desenvolver. Ou seja, via grande conveniência numa certa flexibilização, já que certa despesa gera crescimento, por isso mesmo devendo ser considerada investimento e admissível. Nada feito. Se foi dito, não foi feito. À saída, já o ministro declarava que nada o separava da visão de países como a Alemanha, a Holanda e a Áustria.
À entrada para a reunião, Pier Carlo Padoan, que se estreou na liderança de uma reunião do Ecofin explicou os seus objectivos. “A Itália está a fazer reformas e, como presidente, o meu objectivo é ajudar todos os países a terem incentivos para realizarem reformas”, disse.
Umas horinhas depois:
Pier Carlo Padoan fez ainda questão de, junto dos jornalistas, recusar a ideia de que existe actualmente um confronto entre Itália e Alemanha sobre o rumo a tomar na política económica europeia, parecendo mesmo em algumas ocasiões recuar face às posições anteriormente tomadas pelos responsáveis políticos italianos. Padoan garantiu que não existem diferenças de opinião entre Renzi e Merkel nem entre ele e Schäuble e afirmou, em relação ao tratado orçamental, que “não se deve mudar as regras, mas sim usar da melhor forma o espaço de manobra que elas dão”.
Fonte: Público (sem link)
Quanto a Portugal, como foi noticiado, Maria Luís Albuquerque alinha e alinhou pelo “Eixo”, pelo que, já entrando iluminada, sai, sem surpresa, radiosa com o lindo serviço realizado no seu país. Possivelmente, pediram-lhe para fazer incidir o raio de luz sobre Padoan. Talvez lhe tenha falado em Gaspar.
Estará Passos surpreendido com as contas? Não, mas finge que sim. Em mais uma declaração cínica, coloca-se como agente passivo e exterior à crise que se vive e que ele próprio agravou propositadamente. Sabemos que, segundo as suas teorias, o Estado, através do dinheiro dos contribuintes, não tem nada que ajudar ninguém e muito menos de regular, com direitos para a parte mais fraca, as relações laborais. E quanto a ajudar, só o fará por ser caridoso. Mas atenção, os beneficiários devem agradecer prestando trabalho gratuito.
O desígnio final para um país como o nosso é, pois, agravar a situação a tal ponto que, invocando a falta de recursos, se retire ao Estado qualquer função equilibradora e solidária. É como se o Governo tivesse ministrado cicuta para matar um doente, que, apesar disso, não morreu, mas o seu estado de saúde permanentemente deteriorado lhe tivesse passado a trazer despesas incomportáveis. Como se trata de um país, faz-se regularmente uma comunicação geral e avisa-se os velhinhos, e indiretamente todos os preguiçosos ou infelizes que usufruem das prestações sociais do Estado, que lhes vão ser cortados apoios, se é que entendi bem a expressão «cumprir certos limites». Tem sido assim desde que tomaram posse. Há alternativa a um Governo destes? É evidente que há.
Há, pelos vistos, um grupo de apoiantes de Seguro que decidiu assumir convictamente a narrativa da coligação (recordo que a mesma tem tido porta-vozes como Nuno Melo e Marco António Costa, Rangel e Teresa Leal Coelho) sobre o governo de Sócrates: um descalabro, um desastre, uma culpa individual irredimível, crimes mesmo. O grupo emitiu hoje um manifesto em que os seus autores soltam todo o ódio acumulado e reprimido. Estão, obviamente, no seu direito. Noto, porém, que são avessos a especificações, explicações e enquadramentos. O que não é de admirar. Se não fossem, lá se lhes ia a narrativa. Suas excelências são fundamentalmente bardos: entoam melodias, julgando conhecer o gosto das audiências, aparentemente indiferentes ao facto de as mesmas se encontrarem, na sua ampla maioria, no partido ao lado. Entraram na campanha pelo líder mais patético que o PS jamais teve e, nesse caso, vale tudo, inclusivamente lançar mão de canções de outros, passando por cima do pormenor dos fins a que se destinavam e destinaram.
Sócrates, possivelmente de férias, queira ou não queira, entra assim na campanha, desta vez interna. Nos tempos que correm, ninguém no Portugal político mais rasca parece viver ou sobreviver sem invocar este homem. Na falta de discurso e de argumentos, diz-se mal de Sócrates. Se considerarmos que a sua qualidade como líder e primeiro-ministro foi de tal ordem que lançou o pânico na direita ao ponto de a única tática que encontraram para o derrubar ter sido transformá-lo num eternamente suspeito corrupto e criminoso à luz dos leitores do Correio da Manhã, que são muitos, para país, estamos conversados.
Pois, pelo andar da carruagem, agora que Seguro se libertou de umas terríveis amarras que alegadamente o forçavam a anular-se, será ele próprio que, com todo o à-vontade dos ignorantes, irá fazer campanha cuspindo veneno sobre a imagem do seu antecessor no partido (já ontem garantia na Renascença que “Eu não trago nenhum passado de volta”. Nem propõe qualquer futuro, digo eu, ambos motivos bastantes para desaparecer). O desespero tem destas coisas.
De modos que já não restam dúvidas de que, este tempo todo, ao ouvir Passos, Marco António, Montenegro ou Portas concentrarem campanhas e justificarem políticas com os tremendos erros do chefe do anterior governo, nada mais existindo nesta Europa nem neste mundo nem nas cabeças de pessoas como Gaspar e Borges, Seguro se emocionava e invejava o púlpito e a oportunidade de que eles dispunham. Os sacanas tiravam-lhe as palavras da boca! A frustração que era ter o partido, a verdade e as pressões a inibi-lo de ser quem é. Ahggg…
Bom, escusado será desenhar para os nossos prezados leitores o que seria o Seguro estes três anos solto, convicto como diz que está agora, a fazer oposição na Assembleia. A figura (extremamente rara, mas não impossível) do representante de um governo na bancada da oposição diz-vos alguma coisa? Seria ele. Ainda mais do que foi. De que cores gostariam que pintasse este quadro? Sugiro psicadélicas.
A aliança PS (partido do Seguro)-PSD surge, afinal, mais cedo do que o esperado. Agora formarão finalmente um coro. Seguro, tu e o Passos e respetivos bardos, desandem, ‘tá?
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Na imagem, Henrique Neto, um dos autores do manifesto, aqui destacado nesta notícia de 2013 do jornal i, não por bons motivos.
Há ainda no PS quem se deleite com esta espécie de dança do varão em torno dos estatutos. Rodopiam, rodopiam e não largam. Isto já ultrapassou o ridículo, até porque os próprios estatutos se estão a revelar demasiado viciados e baços, feitos à medida de quem os fez aprovar.
Segundo a sua versão atual, terá que haver unanimidade na Comissão Nacional do PS para se discutir a convocação de um congresso extraordinário. Ora, esta disposição já de si é estranha – unanimidade quando há discordâncias e finca-pés não faz sentido nenhum e dir-se-ia praticamente impossível de obter sem uma boa dose de pressão externa e moral. O mais lógico e democrático seria a exigência de maioria de dois terços ou maioria simples. Perante o que se passou hoje, eu pergunto: não terá provocado aos apoiantes de Seguro na Comissão Nacional, incluindo a presidente do partido, um mínimo de mal-estar, um mínimo que seja, o facto de a discussão da realização de um congresso extraordinário ter sido chumbada por um voto – repito – um voto contra, respeitando à letra os estatutos? Que gente é esta? Que farsa é esta? Onde estão as primárias previstas nos estatutos?
Ponhamos as coisas desta maneira: quanto mais a Miley Cyrus e a Rihanna se despem do lado de cá, mais longe os sunitas do ISIS levam o pudor no lado de lá – e, pelos vistos, até os animais lhes dão ideias.
Vale a pena ler o artigo completo da revista Der Spiegel sobre os mais recentes alucinados radicais islâmicos a nascerem na Síria – o auto-intitulado Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ou do Levante), que pretendem agora eliminar a fronteira com o Iraque e restabelecer com os sunitas iraquianos um grande califado ao estilo do século VII, aproveitando para se afirmarem pelo terror mais selvagem e matando com as mais macabras e selváticas técnicas tudo o que é xiita, mexa ou não mexa.
Independentemente dos motivos e das circunstâncias que levaram à formação de exércitos como este, questões que o artigo também aborda, o que fazer na prática, hoje, neste século XXI, com estes homens das cavernas? E com os europeus que se lhes juntam, tomados de uma espécie de nostalgia de uma grandeza e de uma identidade passadas, verdadeiras ou imaginadas, e que regressarão, possivelmente incumbidos de missões? São também problemas como estes, e não só o desnorte económico e político da União, que propiciam a implantação das ideias da extrema direita europeia.
A politiquice interna tem-nos distraído da evolução da situação fora de portas, nomeadamente no mundo muçulmano, que não se apresenta famosa e pode ter consequências junto das fronteiras sul e leste da Europa. Os contrastes são cada vez mais acentuados. Pobres mulheres que vivem estes interlúdios/estertores civilizacionais. As cabras, essas não percebem.
Nada que muito boa gente já não tivesse previsto: a decisão de marcar eleições primárias no PS poderia vir a ser impugnada e com fortes argumentos formais, podendo acabar no Constitucional. Alguém já formulou o pedido de impugnação e vai apresentá-lo amanhã à Comissão de Jurisdição do partido, iniciando assim um processo de prazos e desfecho incertos.
Ora, para além da instabilidade acrescida, a quem interessa que assim seja e que as primárias possam não vir a realizar-se? A todos, com exceção dos apoiantes de António Costa, diria eu, pois neste momento, com o secretário-geral barricado nos estatutos, a única hipótese de disputar a liderança é vencendo as tais primárias. As primárias, recordemos, foram o grande gesto magnânimo de Seguro, segundo os seus braços direitos. Ou talvez não, não é? Pelo que já conhecemos de Seguro na Assembleia, nomeadamente os seus avanços tonitruantes, recuos por ter decidido não se afirmar em “nome da paz”, movimentos circulares, arrependimentos e, em suma, figuras tristes, é bem capaz de já ter lamentado o dia em que se declarou fervoroso adepto das primárias, tratando agora de ver se as evita de algum modo, mesmo rezando a algum santo (leia-se “movimentando alguns peões”) para que alguém o faça por ele.
Para além dos puristas da legalidade estatutária, criaturas imparciais raras, que também as pode haver, a contestação das primárias interessa evidentemente a António José Seguro e aos seus apoiantes. São pessoas que não querem perder em disputa interna, mostrando-se por isso contra a realização de diretas e de um congresso extraordinário. Mas acontece que também não querem perder em eleições primárias. Se estas não se realizarem, melhor. Aliás, se nenhuma contestação interna tivesse surgido, melhor ainda – a ideia era seguir acefalamente e por um caminho de asneiras silenciadas, ou mesmo silêncios violentos, em direção à derrota ou à ingovernabilidade do país.
Não se sabendo, neste momento, quem foi o autor do pedido, não é, porém, de excluir a possibilidade de algum defensor mais acalorado das diretas, e de António Costa, ter querido forçá-las desta forma enviesada, que passaria pela anulação das primárias. A ser assim, o que seria errado, duvido que o objetivo fosse atingido. Seguro não quer submeter-se a diretas e não as marcará. Nem que acabe com o partido. É o que acontecerá, caso não haja primárias nem diretas. Nem primárias, nem diretas. Que bom. Acabava-se o tormento. Seguro ganharia na secretaria. No partido, claro. Não no país. Mas que partido? É esta a visão deste homem sobre o interesse das portuguesas e dos portugueses (raios partam esta expressão), que, segundo ele, deve vir antes do interesse próprio.
Acompanhem-me, que é giro. Seguro transportado numa liteira real, num transe de felicidade, aos círculos no gabinete do Largo do Rato, enquanto a sua dúzia de apoiantes lhe grita “Sois rei! Sois rei!” Lá fora, ninguém liga ao improvisado manicómio.
Magnânimo, não é? Até “abre mão de uma prerrogativa”.
Com expediente atrás de expediente, a ainda direção do PS pretende impedir que o líder vá a votos. Todos sabemos porquê: perderia para António Costa. Um dia é porque o líder não se demitiu e, por conseguinte, não pode haver eleições (querem maior ridículo?); outro é porque os congressos extraordinários não servem para eleger o líder – são as diretas que os antecedem; outro ainda é porque é na comissão nacional que se decidem as diretas e Seguro tem a maioria neste órgão, que votará sempre contra. Maria de Belém pede pareceres jurídicos… Chegámos mesmo a ouvir, há dias, um engasgado Eurico Brilhante dizer (por omissão) que o resultado das primárias, se favorável a António Costa, não conduz automaticamente à demissão do secretário-geral. Ouvimos bem: dali ninguém o tira, nem que não seja ele o primeiro-ministro socialista.
Os estratagemas estão a ser demasiados e os seus autores nem sequer se apercebem de que apenas se descredibilizam com estas tentativas de fuga. O que Seguro quer já sabemos: manter-se na Torre de Marfim invocando os estatutos que ele próprio fez aprovar, ainda que tudo comece a ruir à sua volta. E ir despejando baldes de veneno contra os seus adversários. Barricado, pensa ganhar assim as próximas legislativas. Ninguém vê como. Nem ele. Daí o irresponsável divertimento.
“[…](António Costa) Tem a seu favor as sondagens de opinião pública, e 99% da opinião publicada.
[… ] E será que ao acusar agora Seguro de estar a atrasar o enfrentamento entre ambos, Costa acreditaria que este iria aceitar ser o mero carregador de pianos do PS durante três anos, nos quais, por duas vezes (em 2011 e 2013), Costa recusou travar o combate que agora exige com celeridade?”
Caro senhor:
Seguro mal pôde esperar pela derrota de Sócrates para se declarar candidato à liderança do partido. Quis, de sua livre vontade, e quis muito, quis mesmo excessivamente, suceder a Sócrates.
2011, noite das eleições e da derrota de Sócrates. As câmaras captaram bem a ansiedade de Seguro e o elevador transportou-a ao piso da declaração que culminou anos de espera e de jogos de bastidores, silêncios cúmplices com caluniadores e distanciamentos, com palmas a Cavaco Silva pelo meio. Repito: mal pôde esperar.
Conseguiu o que queria. E, se o que queria era “carregar pianos”, em que é que António Costa merece censura, ele que estava a meio do seu primeiro mandato de 4 anos na Câmara de Lisboa, que ganhara com estrondo e mérito, e perante uma opinião pública (e parte do PS) totalmente poluída e ainda por cima com a concordância e a contribuição de Seguro, o ansioso candidato? Não era de deixar Seguro colher os frutos do que também semeou e ajudou a cultivar? Mais: se, nestes três anos de liderança, Seguro mais não fez do que “carregar pianos”, de que se queixa(m)? Do facto de existir um piano para carregar (e com o Governo que temos não era claramente de cauda) ou do facto de alguém sem ombros ter posto precipitadamente o dedo no ar, convencido de ser o que não é?
António José Seguro devia deixar-se de vez de apontar as culpas da sua fraca e errática liderança a outros. O mais recente culpado foi o António Costa – jamais os três anos como líder da oposição, nem os dececionantes resultados obtidos nas europeias. Agora diz que se anulou nos últimos três anos para manter a paz, ou seja, dito por outras palavras, “Senhora professora, foram aqueles meninos!” (que não o deixaram mostrar o que valia). Estão arranjados outros culpados, o que continua a ser ridículo. Toda a gente no partido lhe deu todas as oportunidades para se afirmar e até plena colaboração. Nestas últimas eleições, e nas anteriores, ninguém se inibiu de fazer campanha e dar a cara pelo partido e, por conseguinte, pela atual direção. Na Assembleia não tem havido conflitos de maior. Nem mesmo Sócrates o hostilizou. Pelo contrário.
Muitos observadores, entre os quais a minha pessoa, nem percebiam como era possível ninguém – gente tão absolutamente melhor – se insurgir contra tamanha nulidade. Uma nulidade que, deixado à solta e de improviso, dizia facilmente inanidades (do género da abstenção violenta) ou desaparecia para apascentar as ovelhas do partido em momentos políticos absolutamente cruciais para a oposição se afirmar. Não foram os outros meninos que o obrigaram a comportar-se desse modo, como bem sabe.
No entanto, agora que “isto mudou” e que decidiu “mostrar as suas convicções” (que já foram outras, não há muito tempo), o que está à vista de todos é o vazio de Seguro e o seu inebriamento por um determinado estatuto, uma enorme falta de rumo e de coerência (as tais convicções que diz ter, mas que só por interesse e desespero lhe saltam, e mal, demasiado artificiais), um enorme rancor, um oportunismo descarado e uma escandalosa irresponsabilidade.
Alguém que lhe explique que quem se anula já está a revelar-se fraco e inseguro. Reconhecê-lo só acrescenta fraqueza. E que a provar que assim é está o facto de, mal decidiu afirmar-se, nada mais ter feito do que expor-nos as razões por que nada mais poderia fazer a não ser anular-se.
Fonte da direção do PS acaba de declarar que, se perder as eleições primárias (a haver) para eleição do candidato socialista a primeiro-ministro, Seguro retira daí as devidas ilações e demite-se. A sério. Nós é que pensávamos que não era preciso. Que a votação não era para secretário-geral! Aqui está alguém com uma inteligência e uma perspicácia raras.
Mas continuemos, que as minhocas já são mais que as cavadelas.
Então porque não convoca Seguro o congresso extraordinário? – pergunta qualquer leigo. Porque não põe o seu cargo a votação já? Será mesmo verdade que se julga mais popular entre a periferia do partido do que entre os militantes, coniderando que tem grandes hipóteses de ganhar?
Só se levar a tontice ao nível do delírio. Seguro sabe perfeitamente que Costa é mil vezes mais considerado e mais simpático para as franjas do partido, para a sua periferia e para o país em geral do que ele próprio. Assim sendo, a derrota será certa e esta fuga para a frente que é a proposta de primárias, até agora recusadas pela sua própria direção, mais não é do que o adiamento da queda. E isso é que é lamentável. O país parece não lhe interessar.
Entretanto, há engraçados entre o seu staff. Seguro não se vai embora sem antes lançar mão daquela bizarra ideia de que o campeonato mundial de futebol distrairá os militantes e o próprio António Costa, que esquecerão rapidamente o problema e o deixarão regressar à pacatez da liderança do partido, depois de acalmados os ânimos. Esse passageiro balão a que pretende agarrar-se permitir-lhe-á também dispor de mais algum tempo para se fazer de vítima, considerando certamente muito positivo que alguém vote nele por pena. Que dizer disto, a não ser que um pateta é um pateta?
E por falar em vitimização, na entrevista a Judite de Sousa, Seguro disse a certa altura que Costa já tentara uma vez atacar-lhe a liderança e que ele se prontificou de imediato a convocar um congresso, mas que Costa recuou. Ora bem, como quase sempre, a pergunta sequencial que se impunha do lado da jornalista não foi feita. E rezaria assim: “Então porque não fez o mesmo desta vez?” Evidentemente que ele sabe e todos nós sabemos a resposta. Até a Judite deve saber, mas não quis incomodar. Pois é, desta vez, Seguro perderia. O medíocre resultado obtido pelo PS nas europeias e o mal contido contentamento da direita com essa súbita e irreparável fragilidade do adversário mudaram alguma coisa. E Seguro sabe-o bem. Vai daí, o culpado é o António Costa. E vai daí, decidiu mostrar-se muito ousado e moderno e “ir além do Costa” (que, pobre coitado sem visão, apenas queria um congresso) com a história das primárias. Mas não nos iludamos, as primárias são subitamente muito sedutoras apenas porque sabe que demorarão a concretizar-se. Haverá que alterar novamente os estatutos e não se sabe se a lei eleitoral também. Entretanto, vai-se mantendo no Rato, que parece ser o seu grande objetivo de vida. E que não o desafiem, que ele irrita-se. Um verdadeiro democrata. Daqueles que não gostam de ser avaliados.
Este artigo publicado hoje no Público diz bem do alinhamento da atual direção do PS com a propaganda mentirosa do Governo e, consequentemente, da ineficácia da “oposição” feita. Ainda bem que saíram da casca. Suspeitávamos da consonância e das afinidades. Agora confirma-se que não perceberam nada do que se passou. Querem continuar a liderar o PS para quê?
Não há demissão nenhuma do Governo após os chumbos do Constitucional. Sobre essa matéria, os alemães e a Troika já disseram o que tinham a dizer aquando da declaração do irrevogável Portas, há quase um ano: “Meninos, para os vossos lugares! Já e com cara alegre.” A advertência terá também abrangido Cavaco. Além disso, estes prováveis chumbos já eram previstos e foram até já discutidos com o FMI.
Pormenor patético hoje foi o apelo desesperado de Seguro a Cavaco para que convoque eleições, pensando assim não ir a votos no partido. O desespero fá-lo perder a noção. Assim embalado, não me surpreenderia se decidisse não convocar o congresso extraordinário, propondo-se andar por aí como cadáver adiado, perdendo a dignidade e possivelmente desgraçando o país.
Nada. Essa seria a resposta ideal. Ou outra forma de nada, que consistiria em referir que estava tão surpreendido como os senhores jornalistas. Quando muito, que os problemas internos do PS, se os há, se resolvem nos órgãos próprios, que os discutem e analisam devidamente. Ponto final.
O que nunca devia ter dito era isto:
As presentes circunstâncias? A um ano e tal das legislativas, com uma vitória nas europeias inaceitavelmente frágil e escassa, que o fenómeno Marinho Pinto só poderá fragilizar ainda mais daqui para a frente (este ano foi surpresa, mas, mantendo-se tudo igual em volta, o êxito reforçar-se-á) e com uma perspetiva de derrota, haverá melhor circunstância para repensar a liderança? Exceto no caso de terem obtido uma derrota no domingo, não vejo melhor.
O facto de Assis estar grato pelo convite para a lista e a eleição para Bruxelas não deveria ser impeditivo de usar os miolos e, na sequência dessa atividade, um discurso diplomático. Ó Assis, estar calado é sempre uma possibilidade. Tergiversar é outra.
O futuro não se apresenta famoso para o PS com estes resultados e esta direção. A que se acrescentam as respostas às sondagens para as legislativas. Esta é a realidade. E é grave demais para que a gratidão pessoal se lhe sobreponha.
Estão a par do problema: nem eu nem vocês votamos nas eleições alemãs. Mas devíamos.
Já sabemos que a Europa vai confusa e indefinida e, em suma, mal no que à democracia diz respeito. Não são apenas os mercados que alegadamente ditam as políticas e condicionam as eleições. Há um país europeu que tudo comanda e decide com base apenas nos interesses próprios e nos votos dos seus cidadãos. A Comissão Europeia pode ter um poder de iniciativa limitado, de acordo com o Tratado. Mas em nenhum dos seus artigos está dito que é a sucursal para a Europa do Governo alemão. E, no entanto, é o que ela é, neste momento.
Esta esclarecedora notícia publicada hoje pelo jornal i devia indignar mais uns bons milhões de europeus para além da minha pessoa.
A afirmação da chanceler sobre a composição da próxima Comissão Europeia é proclamada com plena convicção, mesmo antes de se conhecerem os resultados das eleições europeias nos restantes 27 estados-membros da União.
“A formação da grande coligação de governo alemã”, sublinha, “foi precedida de amplas negociações que conduziram a um pacto de governo entre conservadores e sociais-democratas… e “lograremos também pôr-nos de acordo sobre a composição da nova Comissão Europeia”.»
Eles escolhem, eles decidem. Acontece que eu não mandatei, com o meu voto, o Governo alemão para escolher a nova Comissão. Aliás, não votei neles para efeito nenhum. No entanto, como a referida entrevista de Merkel deixa bem claro, é a coligação no poder na Alemanha, para cuja eleição ninguém votou a não ser os alemães, quem decide a composição da próxima Comissão Europeia e, depreende-se, a sua orientação e atuação futuras.
Não sei se os outros Estados europeus andam a dormir, a ruminar nas suas supostas culpas na crise económica ou se o receio de uma nova guerra os impede de desafiar este poder de facto com jurisdição sobre 332,9 milhões de cidadãos, dos quais apenas 80 milhões o elegeram. Pode também dar-se o caso de a irrelevância da Comissão ser um dado tão adquirido que tanto faz. No entanto, todos sabem que não é bem assim. Mas ninguém tem nada a objetar, aparentemente. Diria que o desinteresse pelo projeto europeu já transitou dos simples cidadãos para os governantes, que o transformaram em conformismo (ou rendição).
Este desencanto assemelha-se a uma despedida. Porém, atendendo à inércia das instituições europeias, que continuarão a “rodar” independentemente do que se passar, ninguém também sabe muito bem de que despedida se trata. Os únicos a interessar-se pela Europa e pelas próximas eleições parece serem aqueles que querem repor as fronteiras internas e regressar às moedas nacionais e à total inimizade. Quem sabe conseguirão? Quem sabe será a única mudança possível? Quem sabe há uma implosão?
Vou votar no domingo, mas sem saber bem para quê. Talvez para, um dia destes, poder votar numas legislativas alemãs. Sei lá.
Estamos a uma semana do fim da campanha e a coligação nada tem para falar que não seja Sócrates. Ou porque chamou a Troika graças a um inventado despesismo ou porque os seus antigos colaboradores têm peçonha ou porque se vai juntar a Assis na campanha ou por outra razão qualquer, que, neste caso, e ao contrário da mulher do outro, nem o próprio sabe. Acontece que, em 2011, deram corda a um relógio que não trabalharia para sempre. A atribuição de culpas ao ex-primeiro-ministro tem os dias, as horas e os minutos contados e parece-me que chegou ao fim. É que a triste imagem que a coligação deu nestes três anos, as mentiras generalizadas e ao mais alto nível, os resultados catastróficos para a maioria dos portugueses e a farsa ultimamente montada não permitem que a invocação do suposto monstro suscite e colha mais do que um vómito. Na verdade, já chega. A partir de agora, insistir é exibir ainda mais a vacuidade e a indigência de quem representa a direita em Portugal.