
Há, pelos vistos, um grupo de apoiantes de Seguro que decidiu assumir convictamente a narrativa da coligação (recordo que a mesma tem tido porta-vozes como Nuno Melo e Marco António Costa, Rangel e Teresa Leal Coelho) sobre o governo de Sócrates: um descalabro, um desastre, uma culpa individual irredimível, crimes mesmo. O grupo emitiu hoje um manifesto em que os seus autores soltam todo o ódio acumulado e reprimido. Estão, obviamente, no seu direito. Noto, porém, que são avessos a especificações, explicações e enquadramentos. O que não é de admirar. Se não fossem, lá se lhes ia a narrativa. Suas excelências são fundamentalmente bardos: entoam melodias, julgando conhecer o gosto das audiências, aparentemente indiferentes ao facto de as mesmas se encontrarem, na sua ampla maioria, no partido ao lado. Entraram na campanha pelo líder mais patético que o PS jamais teve e, nesse caso, vale tudo, inclusivamente lançar mão de canções de outros, passando por cima do pormenor dos fins a que se destinavam e destinaram.
Sócrates, possivelmente de férias, queira ou não queira, entra assim na campanha, desta vez interna. Nos tempos que correm, ninguém no Portugal político mais rasca parece viver ou sobreviver sem invocar este homem. Na falta de discurso e de argumentos, diz-se mal de Sócrates. Se considerarmos que a sua qualidade como líder e primeiro-ministro foi de tal ordem que lançou o pânico na direita ao ponto de a única tática que encontraram para o derrubar ter sido transformá-lo num eternamente suspeito corrupto e criminoso à luz dos leitores do Correio da Manhã, que são muitos, para país, estamos conversados.
Pois, pelo andar da carruagem, agora que Seguro se libertou de umas terríveis amarras que alegadamente o forçavam a anular-se, será ele próprio que, com todo o à-vontade dos ignorantes, irá fazer campanha cuspindo veneno sobre a imagem do seu antecessor no partido (já ontem garantia na Renascença que “Eu não trago nenhum passado de volta”. Nem propõe qualquer futuro, digo eu, ambos motivos bastantes para desaparecer). O desespero tem destas coisas.
De modos que já não restam dúvidas de que, este tempo todo, ao ouvir Passos, Marco António, Montenegro ou Portas concentrarem campanhas e justificarem políticas com os tremendos erros do chefe do anterior governo, nada mais existindo nesta Europa nem neste mundo nem nas cabeças de pessoas como Gaspar e Borges, Seguro se emocionava e invejava o púlpito e a oportunidade de que eles dispunham. Os sacanas tiravam-lhe as palavras da boca! A frustração que era ter o partido, a verdade e as pressões a inibi-lo de ser quem é. Ahggg…
Bom, escusado será desenhar para os nossos prezados leitores o que seria o Seguro estes três anos solto, convicto como diz que está agora, a fazer oposição na Assembleia. A figura (extremamente rara, mas não impossível) do representante de um governo na bancada da oposição diz-vos alguma coisa? Seria ele. Ainda mais do que foi. De que cores gostariam que pintasse este quadro? Sugiro psicadélicas.
A aliança PS (partido do Seguro)-PSD surge, afinal, mais cedo do que o esperado. Agora formarão finalmente um coro. Seguro, tu e o Passos e respetivos bardos, desandem, ‘tá?
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Na imagem, Henrique Neto, um dos autores do manifesto, aqui destacado nesta notícia de 2013 do jornal i, não por bons motivos.