Para o movimento “Queremos votar nas eleições alemãs”

Estão a par do problema: nem eu nem vocês votamos nas eleições alemãs. Mas devíamos.

Já sabemos que a Europa vai confusa e indefinida e, em suma, mal no que à democracia diz respeito. Não são apenas os mercados que alegadamente ditam as políticas e condicionam as eleições. Há um país europeu que tudo comanda e decide com base apenas nos interesses próprios e nos votos dos seus cidadãos. A Comissão Europeia pode ter um poder de iniciativa limitado, de acordo com o Tratado. Mas em nenhum dos seus artigos está dito que é a sucursal para a Europa do Governo alemão. E, no entanto, é o que ela é, neste momento.

Esta esclarecedora notícia publicada hoje pelo jornal i devia indignar mais uns bons milhões de europeus para além da minha pessoa.

«A chanceler alemã concedeu uma entrevista ao diário “Leipziger Volkszeitung” em que dá como adquirido que a “grande coligação” de governo em Berlim apresentará uma “proposta consensual” entre o seu partido e os sociais-democratas para a formação da nova Comissão Europeia. Ou seja, o assunto será decidido pelos dois partidos alemães.

A afirmação da chanceler sobre a composição da próxima Comissão Europeia é proclamada com plena convicção, mesmo antes de se conhecerem os resultados das eleições europeias nos restantes 27 estados-membros da União.
“A formação da grande coligação de governo alemã”, sublinha, “foi precedida de amplas negociações que conduziram a um pacto de governo entre conservadores e sociais-democratas… e “lograremos também pôr-nos de acordo sobre a composição da nova Comissão Europeia”

Eles escolhem, eles decidem. Acontece que eu não mandatei, com o meu voto, o Governo alemão para escolher a nova Comissão. Aliás, não votei neles para efeito nenhum. No entanto, como a referida entrevista de Merkel deixa bem claro, é a coligação no poder na Alemanha, para cuja eleição ninguém votou a não ser os alemães, quem decide a composição da próxima Comissão Europeia e, depreende-se, a sua orientação e atuação futuras.

Não sei se os outros Estados europeus andam a dormir, a ruminar nas suas supostas culpas na crise económica ou se o receio de uma nova guerra os impede de desafiar este poder de facto com jurisdição sobre 332,9 milhões de cidadãos, dos quais apenas 80 milhões o elegeram. Pode também dar-se o caso de a irrelevância da Comissão ser um dado tão adquirido que tanto faz. No entanto, todos sabem que não é bem assim. Mas ninguém tem nada a objetar, aparentemente. Diria que o desinteresse pelo projeto europeu já transitou dos simples cidadãos para os governantes, que o transformaram em conformismo (ou rendição).

Este desencanto assemelha-se a uma despedida. Porém, atendendo à inércia das instituições europeias, que continuarão a “rodar” independentemente do que se passar, ninguém também sabe muito bem de que despedida se trata. Os únicos a interessar-se pela Europa e pelas próximas eleições parece serem aqueles que querem repor as fronteiras internas e regressar às moedas nacionais e à total inimizade. Quem sabe conseguirão? Quem sabe será a única mudança possível? Quem sabe há uma implosão?

Vou votar no domingo, mas sem saber bem para quê. Talvez para, um dia destes, poder votar numas legislativas alemãs. Sei lá.

13 thoughts on “Para o movimento “Queremos votar nas eleições alemãs””

  1. Eu voto contra o Tratado Orçamental, um garrote que nos vai conduzir durante decadas á austeridade, como muito bem afirma o Alfredo Barroso um dos fundadores do PS.

    É por isso que voto Bloco de Esquerda,

  2. Penélope, estas eleições são deveras importantes mas, como habitualmente, tão pouco esclarecedoras para a generalidade dos europeus que as transformaram num meio de castigarem os governos em vez de serem usadas para a construção de um futuro comum.
    A Alemanha apenas tenta dirigir um barco onde a tripulação ou anda de calças na mão, ou não quer apanhar a doença que afeta os restantes.
    Vai daí, como é ela que tem a chave do armário dos medicamentos, chantageia mantendo os doentes em convalescença e assustando os restantes com a terrível praga pois diz que há poucos remédios e o melhor é fazerem dieta.
    Claro que como também permitiram que guardasse a chave da despensa ela lá vai dando umas sobras aos amigalhaços que a apoiam.
    A partir daí a saída possível é que a tripulação se revolte a tempo, mas há sempre o perigo de cada tripulante entender que é capaz de navegar sózinho, arriar a sua chalupa e fazer-se à tempestade.
    A partir daí, já não será a ciência náutica a decidir o desfecho mas apenas a sorte, a meteorologia ou algum transatlântico que passe perto.

  3. Eu, cá por mim, e porque a pouco e pouco estou cada vez menos confiante neste projecto europeu, irei votar NULO. Com este voto, e porque jamais votarei no PCP e o BE passou a ser uma inutilidade, quero deixar um cartão vermelho ao governo, mas, também, apresentar um cartão amarelo a este PS do Seguro.

  4. E o acordo comercial TAFTA ainda não foi assinado. Quando for é que são elas, passamos todos a votar mas é em empresas multinacionais…

  5. vanessa, as coisas mudam e o bloco sabe disso.foi a china a albania,foi o louça,tudo deu merda! já agora não é bom argumento, votar por causa de um bisavô inquieto que ainda tem o “virus “socialista!

  6. tenho um familiar, que esteve 20 anos exilado num pais do leste.como deve ter saudades da juventude,esqueceu o que viveu durante esses anos,ao ponto de argumentar desta forma:temos que mudar são sempre os mesmos.eu respondo: aqui o povo pelo vistos não quer muitas variaçoes (só o antonio) mas há 40 anos que vota, e está nas suas maõs a mudança.aqui ainda é o povo que mais ordena!no leste nem tinhas direito a voto por que não havia eleiçoes .é preciso ter não ter memoria.

  7. heredia, deixa vir as multinacionais.esta merda já não é um pais,mas uma coutada governada por negociantes de gado!

  8. edie,nunca disse que ia votar no livre.dei a minha assinatura para a sua constituiçao como partido,que continuo a dizer, trouxe uma linguagem nunca ouvida no bloco e no pcp.estar disponivel para viabilizar governos que impeçam a direita de governar, deve ser saudado por todos os socialistas.

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