Com a boca cheia de ética

Nada que muito boa gente já não tivesse previsto: a decisão de marcar eleições primárias no PS poderia vir a ser impugnada e com fortes argumentos formais, podendo acabar no Constitucional. Alguém já formulou o pedido de impugnação e vai apresentá-lo amanhã à Comissão de Jurisdição do partido, iniciando assim um processo de prazos e desfecho incertos.

Segundo o jornal i, “As eleições primárias propostas por António José Seguro para escolher o candidato do PS a primeiro-ministro vão ser alvo de uma tentativa de impugnação por parte de um militante de Lisboa. O pedido chegará na sexta-feira à Comissão Nacional de Jurisdição do PS e será acompanhado de uma providência cautelar. Se for improcedente, segue-se o recurso para o Tribunal Constitucional“.

O trabalho jurídico para travar as primárias, marcadas para 28 de Setembro, está a cargo do advogado e ex-militante socialista Aires Pedro que, em 2011, quando ainda era militante, tentou impugnar a revisão dos estatutos feita por Seguro. Desvinculou-se do partido em Agosto do ano passado, mas esta semana o advogado madeirense recebeu um pedido de apoio jurídico por parte de um militante socialista que solicitou também que o seu nome não fosse divulgado. Pelo menos até depois de amanhã, último dia do prazo para a entrada desta acção que, até agora, é a primeira conhecida neste sentido.”

Ora, para além da instabilidade acrescida, a quem interessa que assim seja e que as primárias possam não vir a realizar-se? A todos, com exceção dos apoiantes de António Costa, diria eu, pois neste momento, com o secretário-geral barricado nos estatutos, a única hipótese de disputar a liderança é vencendo as tais primárias. As primárias, recordemos, foram o grande gesto magnânimo de Seguro, segundo os seus braços direitos. Ou talvez não, não é? Pelo que já conhecemos de Seguro na Assembleia, nomeadamente os seus avanços tonitruantes, recuos por ter decidido não se afirmar em “nome da paz”, movimentos circulares, arrependimentos e, em suma, figuras tristes, é bem capaz de já ter lamentado o dia em que se declarou fervoroso adepto das primárias, tratando agora de ver se as evita de algum modo, mesmo rezando a algum santo (leia-se “movimentando alguns peões”) para que alguém o faça por ele.

Para além dos puristas da legalidade estatutária, criaturas imparciais raras, que também as pode haver, a contestação das primárias interessa evidentemente a António José Seguro e aos seus apoiantes. São pessoas que não querem perder em disputa interna, mostrando-se por isso contra a realização de diretas e de um congresso extraordinário. Mas acontece que também não querem perder em eleições primárias. Se estas não se realizarem, melhor. Aliás, se nenhuma contestação interna tivesse surgido, melhor ainda – a ideia era seguir acefalamente e por um caminho de asneiras silenciadas, ou mesmo silêncios violentos, em direção à derrota ou à ingovernabilidade do país.

Não se sabendo, neste momento, quem foi o autor do pedido, não é, porém, de excluir a possibilidade de algum defensor mais acalorado das diretas, e de António Costa, ter querido forçá-las desta forma enviesada, que passaria pela anulação das primárias. A ser assim, o que seria errado, duvido que o objetivo fosse atingido. Seguro não quer submeter-se a diretas e não as marcará. Nem que acabe com o partido. É o que acontecerá, caso não haja primárias nem diretas. Nem primárias, nem diretas. Que bom. Acabava-se o tormento. Seguro ganharia na secretaria. No partido, claro. Não no país. Mas que partido? É esta a visão deste homem sobre o interesse das portuguesas e dos portugueses (raios partam esta expressão), que, segundo ele, deve vir antes do interesse próprio.

4 thoughts on “Com a boca cheia de ética”

  1. E no primeiro CONCURSO ANUAL de IRREVOGABILIDADE, em homenagem a esse momento clássico da nossa história política, é com imensa satisfação que anunciamos que o vencedor este ano, pela blindagem dos estatutos do seu partido que passaram a não prever qualquer mecanismo legal de substituição do líder do seu partido antes de eleições legislativas, mesmo se o dito líder for condenado por peculato ou qualquer outro crime, é ……………. ANTÓNIO JOSÉ SEGURO!!

    Seguro acumula o prémio com o de RETROACTIVIDADE, visto os novos estatutos terem entrado em vigor já depois da sua eleição e no entanto terem tido efeitos retroactivos. Um galardão muito concorrido este ano! Um verdadeiro democrata!

    Em declarações, Seguro afirmou embevecido: «É verdade, meus amigos. IRREVOGÁVEL SOU EU. Sempre quis fazer história e é com imenso orgulho que trabalho para ser o ÚLTIMO SECRETÁRIO GERAL do PS.»

  2. Há duas soluções:
    1 – serrem os pés da cadeira de Seguro. Com alguma sorte cai da cadeira como o botas …
    2 – Novo partido. Se houver uma recolha de assinaturas, contem comigo !

  3. Sendo que o militante não se quer dar a conhecer só pode ser manobra de quem interessa que tudo fique em águas de bacalhau.

  4. Uma organização de interesse público que faz aprovar em congresso a revisão dos seus estatutos, sem que a mesma esteja inscrita na respetiva ordem de trabalhos, não pode vir a terreiro soar as trombetas da legalidade, transparência e boa fé. As diretas para primeiro ministro, como não constam dos Estatutos da organização, conformam uma outra ilegalidade. Porém, a comissão de jurisdição da organização parece estar lá para produzir os considerandos necessários à amovibilidade do seu “chefe”.

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