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Setembro avança e a traição, que já foi deslealdade, passa a crime

O que me interessa, neste momento, é afirmar o projecto de mudança para o país, na forma de fazer política, e sobretudo não permitir que o crime compense. É um grande precedente esta situação no PS.” A partir do momento em que o António Costa tomou esta atitude, quando o PS voltar a estar na situação de deixar de ser poder, quem é que estará disposto a agarrar no PS como eu agarrei há três anos? Toda a gente se vai resguardar, porque sabe que em qualquer altura pode haver um oportunista que se lance na liderança do PS.

 

Crime é uma palavra forte. Está visto que a «elegância» de que Seguro se orgulhava no seu modo de fazer oposição ao Governo não se aplica de todo ao combate interno. E é aí que reside e sempre residiu o problema. Elegância para o governo mais subserviente, impreparado e insensível de sempre, ódio e acusações para grande parte dos militantes do seu partido.

 

Se o desespero já o leva a falar de crime, então houve um erro que Seguro jamais se perdoará ter cometido: não ter consagrado nos novos estatutos do partido o crime de contestação da liderança, que merecesse como pena mínima a expulsão e como pena máxima a decapitação na praça pública. Assim, ninguém se atreveria. Este erro ter-lhe-e-á sido fatal. Além de o ter obrigado a plantar um cravo sem perceber de jardinagem.

 

Quanto ao «grande precedente», lembro ao Seguro que um grande e lamentável precedente foi ter deixado de haver congressos intercalares por desejo e insegurança de um líder. Compreende o Tozé? Querer ser eleito líder, exercer uma liderança errática durante quatro anos, com episódios caricatos e declarações anedóticas pelo caminho, descredibilizar o partido e ofender os seus melhores elementos com uma estratégia de desrespeito pelo trabalho feito e pelas respostas dadas aos imponderáveis de uma gigantesca crise financeira internacional, e tudo isso acompanhado de um rol de contradições, hesitações, ausências e indefinições, e chegar depois, rosadinho do sol do campo e sem contestação, tal Kim Jong-un, às eleições legislativas para as perder, eis o que seria um grande, lamentável , vergonhoso e danoso precedente.

Entretanto, foge-se do congresso por medo de perder e convocam-se primárias para tentar vencer pelo insulto e o apelo à compaixão. Eis a grande resposta deste homem de carácter a uma situação delicada.

 

Mas a entrevista ao jornal i tem mais. Mostra, por exemplo, como o entrevistado apresenta sintomas de grande surdez e cegueira:

  1. Problemas de ouvidos

 Ficou mais longe por causa de Costa? Na noite eleitoral a sondagem da TVI já dava conta de um empate técnico nas intenções de voto para legislativas.

“A maioria das sondagens aponta para um resultado nas legislativas para o PS, ou apontava até às eleições de Maio. Depois da crise provocada por António Costa estamos na ordem dos 30%, 31%.”

Repetindo, agora mais alto: logo na noite eleitoral

 

Problemas de vista

“Não sou pessoa de sectarismos, nem de excluir. Mas também não sou pessoa de consensos artificiais.”

 

Diz o homem que confessou ter-se anulado durante três anos para manter o partido unido.

 

Quem tiver «paciência evangélica» para ler a entrevista completa, lá encontrará o António Costa outra vez à janela do município, não se sabe se com o cabelo à lua, os chamados «doutores» de Lisboa versus o bom povo como ele, momentos «Marinho Pinto», a atribuição das responsabilidades às elites lisboetas (e «olhe o Estado a que isto chegou») e o esquecimento de que Passos também não é de Lisboa (já agora, nem Sócrates, nem Cavaco) e que ele próprio já deixou Panamacor há mais de duas décadas (mas aí o jornalista estava distraído com o gravador), a insinuação de que houve promiscuidade entre política e negócios no governo do seu partido, sem nomear um único caso, o esquecimento do caso da Associação Nacional de Farmácias na relação com a sua própria liderança, a mentira sobre o contexto em que Costa se pronunciou sobre a votação dos orçamentos, os erros do governo anterior que diz ter denunciado na altura (época em que, sabe-se agora, todos padecíamos de surdez profunda), mas que jamais identifica, etc., etc. Tudo pobre, tudo já ouvido, tudo inconsistente, tudo ridículo. Tudo, em suma, muito pouco elegante.

Ao nível da «abstenção violenta»

Não vi o debate de ontem. No entanto, ao jantar, não deixaram de ser tema de conversa as circunstâncias que o motivaram. Um dos presentes declarou precocemente que queria inscrever-se como simpatizante do PS para votar Seguro, só que não tinha ainda conseguido. Que contrariedade. Nós, os outros, em coro, menu depositado de novo na mesa, já que se adivinhava borrasca: «Ainda bem, homem! O Seguro? Estás a ver bem a personagem?” Que não estávamos a perceber, respondeu. «Eu não quero é que o PS ganhe as próximas legislativas. Prontos. Não gosto.» Claro, evidentemente, um votante habitual do PSD ou do CDS, daqueles que dizem que votam, embora não votem, variadamente, segundo a avaliação do momento. Como pudemos esquecer-nos do outro desígnio destas primárias, tão ou mais importante do que a acusação de traição?

Esta historieta parece inventada e posta aqui só para documentar a minha tese, partilhada por meio Portugal pelo menos, de que a manutenção de Seguro à frente do PS é muito mais de meio caminho andado para a coligação PSD/CDS ganhar as eleições em 2015. Mas a historieta não é inventada, aconteceu mesmo. E se já antes do episódio das primárias havia o risco de o Tozé não conseguir ganhar a Passos (razão pela qual foi desafiado no seu cargo, aliás), após estes quatro meses patéticos e desgastantes, não vão restar dúvidas. E o PS cindir-se-á antes disso.

Entretanto, leio nos jornais que o Seguro teve uma tirada espetacular, do outro mundo. Declarou que, se, uma vez eleito primeiro-ministro, não puder baixar os impostos, demite-se. Imagino que tenham ouvido bem. Façamos o exercício de imaginar Obama, Merkel ou Cameron a confessarem tais intenções em campanha. Pois é. O planeta poderia ir abaixo de tanto rir e até o Estado Islâmico decretaria um cessar-fogo permanente por ausência de inimigo à altura.

Não há comentários possíveis a este nível de declarações. A «abstenção violenta» já nos tinha alertado. Nada mudou e nada vai mudar. Este homem é um desastre ao volante. Mas está convencido de que é um ás. Quem nunca andou de automóvel com um tipo assim talvez tenha dificuldade em entender. Normalmente só há uma medida a tomar: abandonar o veículo na primeira oportunidade e para todo o sempre. Porque, se as chamadas de atenção, os sustos e os incidentes de percurso não funcionarem, e nunca funcionam, só nos resta mesmo deixá-lo enfaixar-se na próxima árvore. Mas sozinho, claro.

Hoje vou-me queixar à Judite

Logo à noite, António José Seguro travará o primeiro dos debates que pretendia. Tendo decidido não convocar um congresso eletivo de militantes quando a sua liderança foi desafiada, optou pela tática de fazer passar por miserável e infame aos olhos da opinião pública (atenção, falamos do António Costa), durante três meses, quem tão «despudoradamente» o desafiou para uma avaliação intercalar (que, aliás, era a prática no partido até à reforma estatutária da sua autoria) face aos magros resultados e à opinião generalizadamente desfavorável da sua atuação enquanto líder da oposição. E porque tanto pretende Seguro estes debates a dois nas televisões?

A avaliar pelo seu recente comportamento em campanha, a razão é clara: para declarar aos portugueses, e agora perante o traidor, que foi vítima de uma traição e que, por isso, merece a compaixão dos votantes. Seguro deseja queixar-se do «mal» que outros lhe fizeram. Os outros. Porque a sua pessoa foi simplesmente perfeita. Vejamos: ninguém queria assumir a liderança do partido após a derrota de Sócrates, mas ele, num ato de abnegação e coragem, avançou. É ou não é verdade? É verdade que avançou, mas a dita coragem esconde uma grande mentira. Esteve matreiramente à espera que Sócrates caísse, entre silêncios significativos e dissimulações várias, ovacionou, e de pé, * o discurso assassino de Cavaco Silva na tomada de posse e, na noite da derrota do PS, mal pôde esperar por que os jornalistas lhe perguntassem se se declarava candidato à liderança. Ainda o magnífico discurso de Sócrates ressoava na sala e estarrecia os incrédulos e já o homem andava numa agitação de gáudio mal contido nos elevadores do hotel Altis. Dizer agora, como diz, que deu a cara na altura mais difícil é de um descaramento digno de Passos, Relvas, Maduro e Albuquerque. Era o que ele queria há anos, esperando pela oportunidade da maneira mais cobarde possível.

Mas a sua perfeição não acaba aqui. A estratégia de oposição foi também inteligentíssima – consistiu basicamente em concordar, por falta de comparência ou de resposta, com todos os ataques que o Governo, para levar sempre mais longe a destruição do país, lançasse ao seu antecessor. A ausência sistemática de réplica da sua parte acabou por torná-lo cada vez mais parecido com Passos. Foi ou não foi inteligente? Não foi. Foi verdadeiramente estúpido. Não só porque obviamente não construiu nenhuma oposição ao governo, com o qual basicamente concordava, mesmo nas mentiras, como também porque granjeou a oposição da ala mais importante e interventiva da bancada parlamentar, de cuja presença no Parlamento já sabia quando concebeu a sua estratégia. Acresce que, e isto é importantíssimo, mais tarde ou mais cedo, as medidas objetivamente positivas adotadas pelo governo anterior acabariam por ser indiretamente elogiadas e diretamente aproveitadas pelo Governo de Passos, assim como foram elogiadas por organizações internacionais, como ainda recentemente. A inteligente estratégia acabou tão-só por deixar-lhe a cabeça à roda.

Foi neste contexto de desorientação, de incapacidade para se afirmar e de falta de visão e talento para liderar que o natural desafio que lhe foi lançado o conduziu ao caminho da vitimização. Se virmos bem, era o único que lhe restava. Vai insistir nele até se ir embora. Não é bonito de assistir.

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Correção: Agradeço ao Valupi ter-me recordado que o entusiasmo não foi expresso de pé.

Quem são os seus inspiradores? Os portugueses, Fátima!

Com tanto amor fraterno para dar, do alto do castelo de Penamacor, Seguro teria feito melhor em abraçar a carreira eclesiástica. Voz de pregador até tem. Só faltou vermos, e não iremos ver nunca, porque amor, amor, negócios à parte, uma declaração de perdão a quem o ofendeu tão profundamente ao desafiá-lo no seu remanso. Mas seria uma atitude nobre e cristã, por cujo ridículo, aliás, mal se daria, embalados que estávamos na toada daquele lamento, igualmente ridículo, que foi parte da entrevista. Desculpa, Seguro, mas não pude deixar de achar que a bênção e o perdão do alto do monte estariam plenamente enquadrados. Quanto à conceção que este homem tem das lideranças políticas, estamos esclarecidos. Para ele, não é legítimo contestá-lo porque tal é uma ofensa. Deviam deixá-lo chegar às eleições. Deixá-lo perder ou empatar, caramba. Isso é que era de socialistas. Socialistas e solidários. Já o facto de a sua candidatura em 2015 se arriscar seriamente a deixar o país ingovernável ou nas mãos dos mesmos desvairados e incompetentes que por lá andam por São Bento há três anos não teria importância nenhuma. Importante seria não o terem ofendido.

Não se pode dizer que Seguro seja um poço de surpresas. A referência final a Nelson Mandela – “inspiradores internacionais?” “Olhe, o Nelson Mandela!” – foi como a resposta das misses Universo. O que deseja para a humanidade? Paz e acabar com a fome no mundo.

Integração à alemã

O ministro das Finanças alemão e o vice-presidente da Comissão de Defesa do Parlamento alemão assinam hoje um artigo no Diário Económico sobre a UE. O artigo é importante, dada a influência alemã no processo europeu. Em resumo, a sua ideia é continuarem a ditar o rumo da Europa no contexto de um núcleo restrito de países (o que lhes permite dar as ordens mais facilmente, no diretório), reforçar o controlo dos países considerados prevaricadores (o moralismo e o preconceito, sempre eles, como se os alemães fossem seres superiores) através da nomeação de um comissário com direito de vetar os orçamentos nacionais (imaginamos que alemão ou apoiado pela Alemanha, e portanto sob as suas ordens e conivente com os seus ditames) e, falando embora em mais integração, afastar qualquer hipótese de união política e de mais democracia na Europa, que afinal é só um mercado e sob o seu controlo (por exemplo, já que pretendem comandar, seria conveniente que se submetessem ao voto dos restantes europeus ou então que admitissem um governo europeu eleito; uma oligarquia assente na chantagem financeira é que não pode ser, meus caros).

Eis um parágrafo revelador:

Consideramos que a União Europeia (UE) deve concentrar-se essencialmente nas seguintes áreas: um mercado interno justo e aberto; comércio; moeda e mercados financeiros; clima, ambiente e energia; política externa e de segurança. Ora, só é possível alcançar um sucesso duradouro nestas áreas se os Estados-membros agirem ao nível europeu. Actuação idêntica se impõe face a desafios como a demografia e a escassez de mão-de-obra especializada. Precisamos de trabalhadores qualificados para sermos fortes e competitivos.

Mercado aberto para os alemães comprarem tudo o que interessa.

Moeda. O resultado da competência alemã. É verdade que também da carneirada que colaborou. A moeda, claro está, deve estar ao serviço de suas excelências, ou não será.

“Agirem a nível europeu?” Tem graça, porque neste mesmo artigo confessam que o princípio da subsidiariedade é o mais importante, parecendo ignorar, porque lhes convém, a interdependência da banca, da economia, etc. E, já agora, agir a nível europeu com base em que estrutura democrática?

“Desafios como a demografia e a mão de obra especializada?” “Precisamos de trabalhadores qualificados?” Quem? A Europa toda ou a Alemanha? Portugal e a Itália, por exemplo, não precisam? Precisam apenas de empobrecer? Não precisam de pessoas (demografia), de um ensino de qualidade e de trabalhadores qualificados? É por isso que Shäuble promove a situação atual, que favorece a fuga destes da periferia para a Alemanha?

Caros senhores: vão a votos na Europa toda. Se ganharem, escrevam todos os artigos, editoriais e constituições nacionais e tratados que quiserem. Até lá, passem bem e continuem a comer salsichas.

Irá a indústria da guerra salvar a Europa?

Pelos padrões clássicos, a Europa já devia estar a organizar as tropas para um sangrento conflito interno norte-sul, alinhando um grande setor da França com o sul e sendo o Reino Unido um aliado importante contra a Alemanha. A situação económica e política justifica-o. A maior parte da Europa está neste momento e na prática «ocupada» pelos alemães. No entanto, nota-se o enorme pavor que existe em repetir o sucedido há 75 anos. Ninguém arrisca. Ninguém ousa. Nada. Ninguém arrisca sequer pôr em causa, muito menos abandonar, uma moeda única que apenas tem servido os interesses de um país. Assim, os Conselhos Europeus são sessões de sorrisos e palmadinhas nas costas. O resultado para as populações é o marasmo que todos observamos e a ameaça de abandono do Reino Unido, com ou sem Escócia, o único sinal de ebulição.

 

Nestas circunstâncias, nada melhor do que arranjar um motivo externo de união. Um inimigo comum. Ora deixa ver, Jarbas, apetece-nos um barbicacho com a vizinha Rússia. A União Europeia, afinal, constituiu-se como bloco dada a existência da União Soviética, não? Resultou uma vez, talvez resulte duas. E o Putin é o que sabemos. Que tal a Ucrânia?

 

O chamado Estado Islâmico também vem, inopinadamente, ajudar, e muito. Bastará um atentado de grandes proporções em solo europeu – e parece iminente – pelos discípulos do Maomé mais tresloucados que já vimos  para se declarar uma guerra e se mobilizarem tropas ocidentais – europeias e americanas – para a região. A indústria do armamento, há décadas em stand-by, voltará a florescer. Será a recuperação económica no seu mais trágico esplendor.

Nem mais

Subscrevo inteiramente este artigo de Azeredo Lopes, no Jornal de Notícias.

Na Ucrânia, ao contrário do que diz Barroso, o ponto de não retorno não foi atingido agora; foi estabelecido há mais de um ano. Pela Europa, com a Alemanha à cabeça. E para ridículo da Europa.

 

 

Os Marques

Pergunto-me se o porta-voz oficioso do Governo que dá pelo nome de Marques Mendes é remunerado na sua função de linguarudo. Não há semana em que não complemente com informações mais precisas, apimentadas ou indiscretas as veiculadas pelo porta-voz oficial Marques Guedes, prática que parece não incomodar nada o Governo. Pelo contrário, parece inserir-se na ordem das coisas. Até as críticas que vai tecendo parecem ser carimbadas pelo Governo, uma espécie de Pedro a falar com os seus botões.

Para Marques Mendes, “neste momento há uma guerra em perspectiva dentro da coligação. O PSD estuda um aumento do IVA e o CDS-PP opõe-se terminantemente”.

Segundo o que referiu o comentador no seu espaço de comentário no “Jornal da Noite” da SIC, “a intenção da ministra será passar o IVA de 23 para 24%, a taxa máxima”.

O comentador discorda de um possível aumento de impostos e afirma que “há folga para tapar buraco sem recorrer ao aumento de impostos”.

“Há uma folga na ordem de mil milhões de euros para tapar buraco no final do ano”, sublinha.

O governo está obrigado a cumprir meta de 4% de défice até ao final do ano.

Para Marques Mendes, “não podem ser os contribuintes a pagar a ineficiência, o desleixo dos ministros”.

“A economia está a crescer ainda de forma débil”, afirma.

“O governo não pode andar a fazer uma coisa e dizer outra, com avanços e recuos”, reiterou o comentador.

“São sempre os contribuintes e consumidores a pagar o desleixo governativo” e por isso “deve haver cautela e cuidado”, lembra.

“Vai ser difícil ter folga para baixar impostos no próximo ano” “mas país não pode aceitar  mais aumentos de impostos nem  há razões que o justifiquem”, disse.

Uma achega para o debate sobre Gaza

Afinal, quem são os «palestinianos»? Árabes vindos de todo o lado e que, por razões táticas, ganharam um novo nome ou ressuscitaram um antigo? Serão hoje os descendentes dos escassos habitantes da zona que venderam aos judeus as terras até aí improdutivas? Serão peões num jogo bicivilizacional ou de controlo de fontes energéticas? Ou o que é que isto interessa, se são hoje fundamentalmente um povo prisioneiro, cercado e encurralado, que precisa de ser libertado? Cem anos de debate talvez não cheguem.

 

 

“Precog yourself”, ó Tavares

João Miguel Tavares, colunista e humorista promovido do Correio da Manhã para o Público e anti-socialista e anti-socratista desenfreado, caluniador sempre que lhe apetece, vem hoje desculpar Carlos Costa pelas falhas de supervisão. Nada que surpreenda, como grande defensor desta direita, apesar do que se sabe hoje, e não se sabia dantes, sobre as práticas da banca e do que se sabia já desde 2013 sobre o GES e Ricardo Salgado em concreto (nomeadamente a fuga, bem real, a não carecer de poderes de adivinhação, aos impostos). Mas, para não o acusarem disto e daquilo, o laborioso cronista aproveita e absolve todos os reguladores da banca de uma assentada, nacionais e estrangeiros, entre os quais Vítor Constâncio, por não poderem ser adivinhos. Não pasmem. Vítor Constâncio saltou, por artes mágicas, para a sua lista. Esta gente é assim.

Não fui pesquisar todos os artigos deste rapaz sobre a supervisão e o BPN. No entanto, ainda há pouco tempo, na mesma coluna, escrevia, sobre as insinuações e provocações de Durão Barroso a propósito de Vítor Constâncio, o seguinte:

“Em bom rigor, aliás, o caso BPN poderia e deveria ter começado em Março de 2001, quando a revista Exame, então dirigida por Camilo Lourenço, fez capa com o banco, chamando a atenção para inúmeros problemas. Na sequência dessas notícias, o BPN processou a revista. Quando ouvido no Parlamento, em 2009, Camilo Lourenço garantiu que “a primeira informação credível de que algo de grave se passava no BPN veio do próprio Banco de Portugal”. Durão Barroso é, pois, apenas mais um no coro daqueles que têm argumentado que o Banco de Portugal passou dez anos a dormir. A diferença é que a sua voz se faz ouvir mais alto do que as outras.

Mas ainda bem que assim é. Nicolau Santos perguntou, numa coluna online do Expresso, intitulada Abriu outra vez a caça ao Constâncio, o que é que era mais grave: “a actuação do polícia ou dos ladrões?” É óbvio que o mais grave é a actuação dos ladrões, e todos sabemos a que partido a maior parte deles pertencia. No entanto, ladrões sempre houve, há e haverá, e não podemos fazer muito contra isso – embora condená-los antes de os crimes prescreverem não fosse má ideia. Agora, a eficácia da polícia e da supervisão é, de facto, aquilo que mais nos deve preocupar, porque essa, sim, só depende de nós. Vítor Constâncio já esteve 12 horas a responder no Parlamento? Que esteja 24. Um caso como o BPN não pode voltar a acontecer.

Está visto. Constâncio esteve a dormir e teve tantas responsabilidades no que se passou com o BPN que merece, no mínimo, a tortura do sono no Parlamento. Já Carlos Costa, uma década depois e mais do que conhecedor de todos os truques financeiros e das novas regras e mecanismos europeus, não esteve. E afinal os outros também não! No caso de Costa, acrescento eu, a avaliar pelas operações entretanto executadas para grande proveito de alguns (já depois de conhecido o estado calamitoso do banco, sim, do banco, e a sua resolução iminente), podemos afirmar que não esteve mesmo nada a dormir.

Se todos os países nomearem os Moedas lá do sítio

Não sei se Olli Rehn, o inefável e repetitivo futuro ex-comissário finlandês da «fiscal consolidation» (era o responsável pelos Assuntos Económicos e grande defensor do castigo redentor para os calaceiros do sul), fará parte da nova Comissão. Com sorte nossa, não. Mas a presença de Moedas no novo Executivo comunitário é sinal de mais do mesmo. É sinal de que as populações continuarão a pagar os desvarios da finança internacional (e nacional), que se mantêm, como se vê. Só atribuindo-lhe uma pasta irrelevante em termos políticos ou subordinada, Juncker mostrará algum grau de diferenciação em relação aos últimos anos. Mas é evidente que Moedas e Portugal não têm grande importância, nem será Moedas a definir a orientação da nova Comissão. Aliás, será talvez por isso que Moedas será bem acolhido. Para português, já bastou o pesado Barroso. Este é literalmente mais leve. De qualquer maneira, ou Moedas será mais um a reforçar a estratégia da punição, ou não contará nada e estará lá porque fala bem línguas.

Israel, como a faixa de Gaza, está dominado por extremistas

gaza 2014

Tudo dito e esquecido, incluindo o possível erro da criação do Estado de Israel, há quem veja nesse Estado a guarda avançada da civilização ocidental contra os islamitas e uma espécie de tampão contra os seus perigosos avanços. E dizem que, só por isso, merece todo o nosso apoio, solidariedade e o sofisticado armamento que possui. Não sei se, enquanto habitante do mundo ocidental, olho para Israel como meu representante seja junto de quem for ou contra quem for. Penso é que a bússola que os guiou até ali bloquearia antes de para ali apontar se lhe limpassem as teias de aranha. E que o mundo teria ganho com isso. No entanto, o Estado existe. Israel é uma democracia, admite eleições e opositores à linha política seguida e, apesar de se auto designar Estado Judaico (75% da população diz-se judaica), a liberdade religiosa está consagrada nas leis fundamentais e ninguém é perseguido por não praticar religião alguma.

Um dos que não está de acordo com a linha política seguida atualmente é Yuval Diskin, o antigo diretor (de 2005 a 2011) do Shin Bet – o serviço de segurança interna de Israel. Vale, por isso, a pena ler a entrevista que dá à revista alemã Der Spiegel (edição em inglês). Tornou-se crítico da atuação de Benjamin Netanyahu, o atual primeiro-ministro, que acusa de se deixar dominar pela ala mais ortodoxa da direita judaica, aquela que pugna pela expansão dos colonatos na Cisjordânia (no fundo, em todo o lado onde puderem, incluindo Jerusalém Este) e, a prazo, a conquista de toda a Palestina. Diz Diskin que os colonatos estão a atingir um ponto de irreversibilidade. O que complica ainda mais a já de si complicada situação.

O principal problema de Israel nas suas relações com os palestinianos, muitos deles, diga-se, determinados a não reconhecerem nunca o Estado de Israel, é o seguinte: o país tem capacidade militar suficiente para ocupar Gaza e a Cisjordânia, objetivo e estratégia que os mais radicais defendem, mas a questão é o que fazer com a «vitória» (as aspas devem-se à simplicidade técnica  da conquista). Que fazer com a vitória e com a população palestiniana que passaria a fazer parte do novo Estado único e a qual não pode, em princípio, ser exterminada, a não ser metendo-a em campos de concentração e aplicando-lhe o tratamento a que milhões de antepassados dos próprios judeus foram sujeitos. Além disso, a população árabe excederia largamente a judaica, pelo que, a opção de criar um só Estado é, caso continuasse a imperar um regime democrático e não a escravatura, uma opção pelo suicídio.

Diskin confirma que as autoridades israelitas reconhecem que o assassinato dos três jovens israelitas no mês passado não foi algo planeado pelo Hamas, tendo sido um ato espontâneo. No entanto, ainda há uns dias, uns judeus capturaram um jovem palestiniano, deram-lhe a beber gasolina e pegaram-lhe fogo. Para povo civilizado, começamos a estar conversados. Para não falar do tratamento dado aos prisioneiros.

“You can shoot someone and hide his body under rocks, like the murderer of the three Jewish teenagers did. Or you can pour oil into the lungs and light him on fire, alive, as happened to Mohammed Abu Chidair…. I cannot even think of what these guys did. People like Naftali Bennett have created this atmosphere together with other extremist politicians and rabbis.

Estaremos para ver se as periódicas incursões israelitas na faixa de Gaza, designadas pelos militares israelitas por «Corte de relva», ou seja, enfraquecimento do arsenal militar do Hamas e regresso a casa até novo desbaste, se irão manter ou se essa situação, que convém a Israel, e possivelmente também ao Hamas, avança para algo diferente.

Não posso antipatizar mais com os islamitas, com os regimes que instauram, a religião que professam, o atraso civilizacional que representam, o desprendimento com que enviam os filhos para o suicídio. Mas matá-los a todos não é opção. Acontece que há fundamentalistas bastante comparáveis em propósitos no outro lado, gente que se acha superior e com direito a todo aquele território. Gente que não hesita em assassinar governantes eleitos demasiado apaziguadores. Na impossibilidade de limpar aquelas cabeças de crenças religiosas incompatíveis, ou de crenças religiosas tout court, o que, aliás, pouco adiantaria, dada a organização da sociedade e os costumes, resta aparecer alguém, de um lado e de outro, que consiga fazer frente aos fundamentalismos. Difícil. Diskin é pelo diálogo e, aparentemente, pelo fim dos colonatos, ambas as questões ligadas. O atual governo tem-nos autorizado e expandido. O que só dá argumentos ao Hamas. Mas pode a mortandade continuar? Com o radicalismo a ganhar terreno em todo o Médio Oriente e com a probabilidade de o Hamas dar lugar a gente ainda mais violenta e mais endinheirada, como o Califado, se calhar pode. O conceito de guarda avançada pode ser revisitado.

Educação para Pulidos

Só para poder dizer mal de António Costa, Vasco Pulido Valente dá, no Público, uma volta pela história, afunilando-a à maneira, e acabando por passar, já na reta final, por uma entrevista dada há dias por Marçal Grilo, que já foi Ministro da Educação. Um grande looping, como veem. Em resumo, teoriza que o Estado não tem que alfabetizar nem educar a população. É um desperdício de recursos, porque, se bem percebi – o que não é garantido – os “qualificados” fugirão sempre para o estrangeiro, ou permanecem sem grande utilidade, por falta de condições propícias.

Ora bem, concluo, assim, que, como há que educar alguém, Portugal só tem direito a que as elites se cultivem e se perpetuem, na certeza de que não serão desafiadas por, literalmente, falta de educação. Uma excelente maneira de mudar e reformar o Estado, como VPV parece, apesar de tudo, desejar. Sai um whisky on the rocks para a elite.

A meta  é cortada com esta tirada (o link para o artigo completo está mais acima):

[…]”Uma espécie de beato como Marçal Grilo não se rala com certeza com o capital, a justiça, a fiscalidade e a reorganização do Estado de que a educação precisa para ser de alguma utilidade aos portugueses. Mas que António Costa partilhe com amor esse velho erro não o recomenda a ninguém.

A resiliência e a incidência

 

Definitivamente, a utilização da língua portuguesa por Passos Coelho e quem o assessora é vergonhosa. Que raio será uma «incidência protocolar»? Será um incidente protocolar em caldo agitado de resiliência?

Vejamos o recente emprego destes termos:

(sobre a adesão da Guiné Equatorial à CPLP)

E seria, penso eu, muito negativo que Portugal permanecesse de forma resiliente opondo-se a esse alargamento. Creio que isso conduziria Portugal a um isolamento no seio da comunidade de língua portuguesa que não é aquilo que Portugal deseja com certeza”, defendeu.

Homem, «resiliente» costuma ter conotação positiva e aplica-se, com essa conotação, a materiais, redes de comunicações, economia, banca, etc.

(sobre o alegado rompimento do protocolo pelo representante da Guiné Equatorial)

O Presidente da República e o primeiro-ministro declararam hoje que foram “surpreendidos” pelo anúncio antecipado da adesão da Guiné Equatorial à CPLP e que desvalorizaram essa “incidência protocolar” em nome do sucesso da Cimeira de Díli.

Uma incidência? E protocolar?

Este post, antes que mo lembrem, refere-se à questão formal do uso da língua. Neste caso, mau e ridículo. O problema de Passos é mais aterrador do que a forma como se exprime. No entanto, não é errado dizer que governa como fala. Alguém lhe soprou uns conceitos, umas teorias, umas palavras modernas ao ouvido e o homem não teve ainda tempo de os absorver e enquadrar. E assim rodeia-se de consultores tipo Moedas e Maçães, que são, na prática, quem dita a linha da governação e siga o circo. O urso não sabe falar, mas está bem amestrado. É o que importa.

O que se vê e não vê

“É verdade, eu vi o António Costa hoje a um jornal, numa entrevista, dizer que apoia António Guterres para Presidente da República, mas eu acho que a notícia é que o António Costa não é candidato a Presidente da República”, disse António José Seguro aos jornalistas.

 

Para além de todas as insuficiências já sobejamente apontadas, a raiva também não ajuda. O comentário de A. J. Seguro à declaração de António Costa começa por não se entender a profundidade e acaba na confirmação de uma obsessão – Seguro só pensa em Costa. Nem Guterres, em cujo governo participou, lhe merece a mais pequena atenção, para já não falar em apoio, solidariedade, ó deus dos simples e bons provincianos, simpatia. É que a questão é esta: e Seguro, não apoia Guterres? Querem lá ver que apoiaria Costa, não se desse o caso de este ser o futuro líder do PS?

 

Mas isto foi o que Seguro viu. O que não viu foi toda a excelente entrevista dada pelo seu rival ao Público. Talvez a raiva que lhe embacia os óculos venha daí.

FMI na Troika – sociedade (quase) inútil

Os técnicos do FMI insistem em publicar relatórios sobre a situação na Europa. Muitos deles têm dito o óbvio, ou seja, que a austeridade não pode ser um fim em si mesma e que não dispensa uma análise dos efeitos que vai tendo. Por outras palavras, não pode ser cega. E precisamente a análise da evolução dos países sujeitos a um tal regime, e também dos outros que em certa medida o aplicam, mostra claramente que a austeridade é tudo menos expansionista, como nos faziam crer, e que, basicamente, os países que a aplicam como política única continuam em apuros, se não pior, e sem qualquer perspetiva de crescimento (antigamente chamava-se desenvolvimento). Portugal secou e não foi por perda de gorduras, mas de seiva.

Embora o FMI também aceite elaborar relatórios por encomenda e baseados em dados “por medida” dos governantes, como aconteceu em Portugal no mandato de Vítor Gaspar, o relatório hoje referido nesta notícia insere-se na linha acima mencionada. Dizem os técnicos que, se o crescimento for inferior ao previsto ou desejável, haverá que suspender os cortes. E que o BCE deveria intervir com medidas que não temam a inflação.

Isto dito, falta saber o que diz Christine Lagarde, a própria. Até agora, e no que respeita aos países individualmente, tem dito exatamente o contrário quanto aos cortes e repetido, e feito coro com os seus parceiros da Troika, que a “consolidação orçamental” é a grande prioridade. Por isso, ou aqueles técnicos tomam o poder no Fundo ou Christine Lagarde assume as conclusões dos seus relatórios ou os desautoriza e demite de vez. O mais certo, porém, é fazer “cherry-picking” e aproveitar a parte que pressiona o BCE, abstendo-se de comentar a restante…

De qualquer modo, se Portugal tivesse um governo de jeito, todos estes relatórios seriam explorados e esfregados nas ventas do Eurogrupo (e, na primeira ocasião, também de Lagarde – Tipo “You’re talking to me?”, pronunciado à de Niro). Mas, tratando-se de Passos e companhia, estes técnicos são a ala esquerdista e esbanjadora do FMI, incapazes de perceber as virtudes do empobrecimento generalizado e do reforço financeiro das elites, as verdadeiras criadoras de empregos (vamos rir e, já agora, ler o muito que se tem escrito sobre essa ilusão). Uns burros, em suma.

A participação do FMI na Troika deu-lhes uns dinheiros a ganhar com os juros do empréstimo e aliviou a Europa, no imediato, de uns milhões. Mais nada. Não têm direito à última palavra.

“Breaking News”: Sócrates era telecomandado pelo Banco de Portugal

Daniel Bessa, a quem as barbas brancas não dignificaram por aí além, tem uma tese semi-nova, delirante e mal fundamentada como todas as da direita ou dos santos ignorantes deste país, sobre a nossa desgraça. Segundo o orador, Sócrates tomou os comandos de um avião (Portugal) que se despenhou contra as Torres Gémeas (nada de novo, nem a metáfora), mas atenção, e esta é a novidade, quem o instruiu para tal missão assassina foi Vítor Constâncio, o novo Bin Laden das finanças portuguesas, que recrutava entre os políicos. O nome do ex-Governador não é referido, vá-se lá saber porquê, mas “o mentor que estava no Banco de Portugal” não é com certeza outra pessoa. Mentor, hem? Convém fixar esta palavra associada a Sócrates, porque não constava até agora dos registos. Acresce aos adjetivos da primeira linha a grandessíssima má-criação que estas afirmações revelam, dado o contexto. Mas isso também não é novo.

Esta tese foi explanada ontem em conferência convocada para a galhofa, que teve como convidado o atual Governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, pessoa seriíssima, esse mesmo que acabou de dizer que está tudo esclarecido com o BES e que mantém intactos os privilégios dos seus funcionários no BdP.

“O engenheiro Sócrates é muito responsabilizado, e não há ninguém que o responsabilize mais do que eu, mas eu vejo-o como aquele egípcio que tomou os comandos do Boeing que se precipitou sobre as Torres Gémeas”, continuou Daniel Bessa. […]

[…] Daniel Bessa disse que “já o Boeing ia a caminho das Torres Gémeas e ele (José Sócrates), no cumprimento de um guião qualquer, sentou-se ao comando, acelerou quanto pôde e, connosco lá dentro, enfiou-se contra as Tores Gémeas”.

“É um destino, não tem nada de mal, cada um cumpre a sua função na vida e portanto ficará para a história por isso. Mas essa não é a responsabilidade maior. A responsabilidade maior é do mentor, não é do executante, e o mentor estava no Banco de Portugal”, prosseguiu Daniel Bessa, fazendo rir a assistência.