
Tudo dito e esquecido, incluindo o possível erro da criação do Estado de Israel, há quem veja nesse Estado a guarda avançada da civilização ocidental contra os islamitas e uma espécie de tampão contra os seus perigosos avanços. E dizem que, só por isso, merece todo o nosso apoio, solidariedade e o sofisticado armamento que possui. Não sei se, enquanto habitante do mundo ocidental, olho para Israel como meu representante seja junto de quem for ou contra quem for. Penso é que a bússola que os guiou até ali bloquearia antes de para ali apontar se lhe limpassem as teias de aranha. E que o mundo teria ganho com isso. No entanto, o Estado existe. Israel é uma democracia, admite eleições e opositores à linha política seguida e, apesar de se auto designar Estado Judaico (75% da população diz-se judaica), a liberdade religiosa está consagrada nas leis fundamentais e ninguém é perseguido por não praticar religião alguma.
Um dos que não está de acordo com a linha política seguida atualmente é Yuval Diskin, o antigo diretor (de 2005 a 2011) do Shin Bet – o serviço de segurança interna de Israel. Vale, por isso, a pena ler a entrevista que dá à revista alemã Der Spiegel (edição em inglês). Tornou-se crítico da atuação de Benjamin Netanyahu, o atual primeiro-ministro, que acusa de se deixar dominar pela ala mais ortodoxa da direita judaica, aquela que pugna pela expansão dos colonatos na Cisjordânia (no fundo, em todo o lado onde puderem, incluindo Jerusalém Este) e, a prazo, a conquista de toda a Palestina. Diz Diskin que os colonatos estão a atingir um ponto de irreversibilidade. O que complica ainda mais a já de si complicada situação.
O principal problema de Israel nas suas relações com os palestinianos, muitos deles, diga-se, determinados a não reconhecerem nunca o Estado de Israel, é o seguinte: o país tem capacidade militar suficiente para ocupar Gaza e a Cisjordânia, objetivo e estratégia que os mais radicais defendem, mas a questão é o que fazer com a «vitória» (as aspas devem-se à simplicidade técnica da conquista). Que fazer com a vitória e com a população palestiniana que passaria a fazer parte do novo Estado único e a qual não pode, em princípio, ser exterminada, a não ser metendo-a em campos de concentração e aplicando-lhe o tratamento a que milhões de antepassados dos próprios judeus foram sujeitos. Além disso, a população árabe excederia largamente a judaica, pelo que, a opção de criar um só Estado é, caso continuasse a imperar um regime democrático e não a escravatura, uma opção pelo suicídio.
Diskin confirma que as autoridades israelitas reconhecem que o assassinato dos três jovens israelitas no mês passado não foi algo planeado pelo Hamas, tendo sido um ato espontâneo. No entanto, ainda há uns dias, uns judeus capturaram um jovem palestiniano, deram-lhe a beber gasolina e pegaram-lhe fogo. Para povo civilizado, começamos a estar conversados. Para não falar do tratamento dado aos prisioneiros.
“You can shoot someone and hide his body under rocks, like the murderer of the three Jewish teenagers did. Or you can pour oil into the lungs and light him on fire, alive, as happened to Mohammed Abu Chidair…. I cannot even think of what these guys did. People like Naftali Bennett have created this atmosphere together with other extremist politicians and rabbis.
Estaremos para ver se as periódicas incursões israelitas na faixa de Gaza, designadas pelos militares israelitas por «Corte de relva», ou seja, enfraquecimento do arsenal militar do Hamas e regresso a casa até novo desbaste, se irão manter ou se essa situação, que convém a Israel, e possivelmente também ao Hamas, avança para algo diferente.
Não posso antipatizar mais com os islamitas, com os regimes que instauram, a religião que professam, o atraso civilizacional que representam, o desprendimento com que enviam os filhos para o suicídio. Mas matá-los a todos não é opção. Acontece que há fundamentalistas bastante comparáveis em propósitos no outro lado, gente que se acha superior e com direito a todo aquele território. Gente que não hesita em assassinar governantes eleitos demasiado apaziguadores. Na impossibilidade de limpar aquelas cabeças de crenças religiosas incompatíveis, ou de crenças religiosas tout court, o que, aliás, pouco adiantaria, dada a organização da sociedade e os costumes, resta aparecer alguém, de um lado e de outro, que consiga fazer frente aos fundamentalismos. Difícil. Diskin é pelo diálogo e, aparentemente, pelo fim dos colonatos, ambas as questões ligadas. O atual governo tem-nos autorizado e expandido. O que só dá argumentos ao Hamas. Mas pode a mortandade continuar? Com o radicalismo a ganhar terreno em todo o Médio Oriente e com a probabilidade de o Hamas dar lugar a gente ainda mais violenta e mais endinheirada, como o Califado, se calhar pode. O conceito de guarda avançada pode ser revisitado.