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Da frescura das barbas

Mas há aqui um espaço que pode ser ocupado. Que partido poderia capitalizar este eleitorado em Portugal? O Bloco de Esquerda (BE)? O Livre? Ou outros?

É difícil organizações políticas que estão em processo de queda eleitoral desempenharem um papel que exige sempre alguma frescura e novidade, como trouxe o Podemos. Não imagino que o PCP ou o BE possam ocupar esse espaço, que pode ser ocupado pelo Livre e outros movimentos que entretanto surjam. Mas falo em causa própria e por isso não desenvolvo…

…quer concretizar que projeto é esse em que está envolvido?

Não quero falar sobre isso. Digo-lhe apenas que é um projeto político que inclui pessoas do Manifesto, como eu e a Ana Drago, pessoas do Livre e independentes, que poderiam ocupar esse espaço.”

Como se confirma hoje pela entrevista que dá ao DN, o Daniel Oliveira insiste à viva força em formar um movimento político (ainda outra coisa diferente do Livre). Ora, como ele próprio diz, para se chegar ao aparente sucesso do Podemos, em Espanha, é necessária frescura. E quais são os rostos frescos que o Daniel tem para apresentar? Pois é: ele próprio e a Ana Drago, ambos dissidentes do BE, mas a ele ligados durante tantos anos que é difícil alguém olhar para eles agora e achar que têm um projeto diferente ou sequer um projeto credível e exequível. É por demais evidente que não têm; apenas decidiram antipatizar com os sucessores de Louçã, e por boas razões, diga-se, pois a dupla não tem carisma nem verve que entusiasme, estando o próprio Bloco bastante condenado. Esta dupla de frescos não ficará, certamente, relegada para um papel secundário no novo partido/movimento. Pelo que, pretender que as suas incontornáveis pessoas sejam «frescas» é querer demais.

AS/DS

Para a direita atual – pelas vozes de luminárias como Portas, Melo, Montenegro, Marco António, Marques Mendes, Paula T. da Cruz- a política portuguesa resume-se ao «antes de Sócrates» e ao «depois de Sócrates». Antes, era tudo normal, pacífico, decente. Durante e depois, tudo descambou, tudo foi escândalo, tudo punível. Qual crise financeira internacional, quais políticas anti-cíclicas da União Europeia, qual António Costa! Sócrates é o centro, o alfa e o ómega, a referência, o Ébola da política portuguesa. A direita cria um cordão de segurança, alerta para contaminações, fala em assombração, dedica-se a rituais Vodu, dorme mal. Caramba. Eleições vão e vêm, ministros partem, fazem figuras tristes, o Governo derrapa, volta a derrapar, vários sistemas colapsam, a governação é um caos e recorrentemente uma anedota, mas a agitação do fantasma não tem sossego. É, até, maior quanto maior a incompetência governativa. É tática? Sim, mas garantidamente também o que se chama um trauma. Grande homem.

 

Oremos. Mas a quem?

A teoria do «big bang» é verdadeira, a evolução é um facto, mas deus existe, não se assustem, diz o papa Francisco. Deus criou tudo, incluindo o princípio de tudo. Depois, ficou a assistir. Perdido de gozo, imagino eu, porque má consciência não se permite ter.

Francis explained that both scientific theories were not incompatible with the existence of a creator – arguing instead that they “require it”.

“When we read about Creation in Genesis, we run the risk of imagining God was a magician, with a magic wand able to do everything. But that is not so,” Francis said.

He added: “He created human beings and let them develop according to the internal laws that he gave to each one so they would reach their fulfilment.

“The Big Bang, which today we hold to be the origin of the world, does not contradict the intervention of the divine creator but, rather, requires it.

“Evolution in nature is not inconsistent with the notion of creation, because evolution requires the creation of beings that evolve.”

A explosão inicial estava afinal sob controlo do criador e a miséria por que passam os humanos, surgidos muitos milhões de anos depois, até atingirem o bem-estar, os que o atingem, também faz parte do plano. Há um criador, mas ele deixa-nos à vontade, parece que com uma leis apenas. Um querido.

Bom, o papa Francisco é simpático e descontraído e decerto já percebeu o ponto da questão no que à religião diz respeito. Por isso, não sei que dizer destes contorcionismos narrativos dirigindo-se aos crentes. Ou o povo crente é analfabeto e/ou estúpido e acredita que há algum sentido em tão disparatadas explicações e tentativas de conciliação entre religião e ciência (e aí Francisco dá a ração pretendida e digerível), ou o povo crente pouco liga à maior ou menor profundidade das palavras dos representantes de deus na Terra, muito menos às explicações científicas, gosta é do simbolismo, do mágico e do ritual (e aí não é necessariamente para eles que Francisco fala). As duas hipóteses podem coabitar.

Deus é uma ideia que convém. Ponto final. Por isso, tanto faz o que dizia Bento XVI sobre o desenho inteligente ou o que agora diz o papa Francisco. Do ponto de vista dos fiéis, tudo o que eles disserem está bem. Francisco, aliás, parece ter a noção do que se passa. Por isso, tem confiança suficiente para abraçar a ciência, todas as ciências, incluindo as cósmicas. Mesmo as que demonstram que deus é uma criação do homem. No limite, penso que o papa podia até declarar com todas as letras que deus é uma ficção. Continuaria a ter fiéis. Só que é arriscado. A ortodoxia da Igreja não aprecia. Um dia destes, pode acordar morto.

Oxford “priggish”. Pouco “chic”

Maria Filomena Mónica faz render os anos de juventude passados em Oxford como não imaginaríamos e como não mandaria a inteligência que o fizesse. Não perde uma única oportunidade para nos lembrar que por lá passou, nem que tenha sido há 150 anos. Se, como acusa, Sócrates se preocupa exclusivamente na vida em ser “chic a valer”, como um personagem do tempo do Eça, com que se preocupará Filomena Mónica? Adivinharam. E o resultado é algo caricato. Quer ser snob, mas é apenas pedante e antipática. E invejosa. Na entrevista que hoje dá ao i, é-lhe pedido, a páginas tantas, que aponte n’Os Maias figuras que retratem os políticos atuais. Diz mal de Crato, no qual, confessa, começou por ver grande competência. Mas foi buscar Sócrates logo que pôde, ora pois, e comparou-o ao Dâmaso Salcede, enquanto novo-rico, uma fachada sem conteúdo, que achava Paris o máximo no século XIX:

Para não falar no Sócrates, que nem licenciado é, pretende ser engenheiro. José Sócrates é uma espécie de Dâmaso Salcede, cuja única preocupação na vida é ser “chic a valer”, imitando tudo o que se faz em Paris.”

Insultar até morrer, não é? Porque, boas universidades, só ela, meus caros. Estudar, só ela. Escrever livros, só ela. Ela esteve em Oxford! Há 150 anos. A estudar Salazar.

Alguns esclarecimentos (e não tenho mandato):

  1. Sócrates não pretende ser engenheiro. Ele é engenheiro. Ao que sei, com uma pós-graduação em Ambiente e outra em Filosofia Política.
  2. Ao que pude observar enquanto foi ministro e depois primeiro-ministro, uma das grandes preocupações da sua vida não é ser “chic a valer”, mas político a valer: progressista, organizado, eficaz, confiante e com visão. Há uma diferença. Se, pelo caminho, gostava de bons fatos, é com ele. Admito, porém, que esse gosto marginal ao seu trabalho faça espécie a uma mulher precocemente contaminada pelo gosto das inglesas em termos de indumentária. Problema seu, amiga.
  3. Há muito que o que se faz em Paris deixou de inspirar o mundo.

A menos que Paris seja, com algum esforço, uma metonímia para o mundo civilizado, e não tenho dúvidas de que, para MFM, esse mundo só pode ser o anglo-saxão, a imitação de Paris, até no que à moda diz respeito, já conheceu melhores dias. Pelo que seria bastante improvável que, há seis anos, alguém por cá quisesse imitar o que se fazia em Paris. Mesmo em “fashion”, se era a isso que a entrevistada se referia. Não é o Ermenegildo Zegna italiano? E o Boss? É, por acaso, francês? Maria Filomena Mónica é superficial e, por vezes, bastante disparatada. Ir estudar para Paris, se é essa a indireta que pretende mandar, pode ter sido uma decisão justificada por mil motivações. Familiares, pessoais e 998 outras. Mas não me parece ter sido superficial nem merecedora de escárnio.

“Behind closed doors”

Barroso não gosta de certos assuntos na praça pública. Mas é o «público» que sofre com a ortodoxia euro-alemã.

 

Angered by EU criticism of Italy’s proposed budget for 2015, Prime Minister Matteo Renzi has warned that his government is “going to have some fun” publishing details of the cost of European institutions.

Renzi’s comments, made on the sidelines of an EU summit in Brussels on Thursday, mark the latest twist in a mounting row over Rome’s proposed budget for 2015, which has come under fire from the EU Commission.

Earlier in the day, the Commission’s outgoing chief Jose Manuel Barroso had vehemently criticized the Italian government’s decision to publish a letter from the EU requesting clarifications on the budget.

The letter, signed by the EU’s Economic Affairs Commissioner Jyrki Katainen, was marked “strictly confidential”.

Slamming Rome’s “unilateral” decision, Barroso said the Commission preferred that budget talks with member states take place behind closed doors.”

Em Bruxelas, alemães, alemães por todo o lado

Quando o espaço vazio é ocupado pela Alemanha.

Apelo ao vosso francês para lerem este artigo do Libération sobre a Europa e a nova Comissão. O artigo é de um francês, o que influencia a perspetiva, mas não há como não aderir.

Une Europe trop allemande?

Excerto:

“[…]Ce n’est pas un hasard si le cabinet du président de la Commission est dirigé par un chrétien-démocrate allemand, Martin Selmayr. Même si les équipes ne sont pas encore complètes, on compte déjà 5 chefs de cabinets et 3 adjoints, contre seulement 1 « chef’cab » français (Olivier Bailly chez Pierre Moscovici) et 1 adjoint (Éric Mamère chez Günter Öttinger, le commissaire allemand). Et parmi les simples conseillers, le déséquilibre est le même. Dans l’administration, le poids allemand se fait aussi sentir : 8 directions générales sont aux mains des Allemands contre 4 pour les Français. Mieux : le prochain chef du service juridique sera Allemand et il n’est pas impossible que le futur secrétaire général de la Commission –la véritable tour de contrôle de l’exécutif communautaire- le soit aussi. La France a du batailler ferme pour garder la direction du Service européen d’action extérieure que la chancelière avait réclamé pour prix de son accord à la désignation, le 30 août, de l’Italienne Federica Mogherini comme ministre des Affaires étrangères de l’Union.[…]

Teatro experimental

Foram precisos três anos e um flagrante desastre técnico/concetual, mas com consequências mais vastas, na Educação para um membro deste governo vir reconhecer o «experimentalismo» da sua política. Reconheceu-o Nuno Crato no seu pelouro, mas muitos outros ministros deveriam reconhecê-lo também e depois desaparecer, como não fez Nuno Crato. O experimentalismo deste ministro, porém, não se limita ao sistema de colocação de professores. O caos que este enorme erro gera é imediato e visível, mas o caos e o retrocesso a mais longo prazo gerado por um sistema educativo exclusivo, elitista e desigualitário não são mensuráveis para já. Só por isso pode o restante experimentalismo de Crato não ser reconhecido pelo próprio. Mas nem por isso deixa de o ser. A aura de matemático é a máscara com que se apresenta.

 

O experimentalismo não é, como disse, exclusivo do ministério da Educação, pelo que as vítimas não se limitam aos professores e aos alunos. Experimentalismo é mesmo a prática dominante entre os principais ministros deste governo, começando pelos das Finanças. Durante dois anos, Gaspar não fez outra coisa senão experimentar modelos que estudara em teoria. As consequências foram tão desastrosas e irreversíveis que o homem, na segunda ocasião, zarpou para longe, de onde agora emite opiniões sobre medidas de combate a crises que não passam forçosamente por «brutais» aumentos de impostos. Na prática, reconhece agora que praticou o «experimentalismo». Deixou, porém, sucessora. Até ser chamada pelo FMI, ou na mira de que tal aconteça, Maria Luís insistirá no modelo experimental. Não conhece outro nem quer conhecer. Este é mais fácil, mais cómodo, mais pacífico para a relação com os germânicos de Bruxelas e, para ela, quiçá mais compensador. Porque o faz? Porque pode. Como o vende? Com uma cara séria.

Na Justiça, experimentam-se reformas e suportes informáticos sem qualquer consideração pelos direitos dos cidadãos. Este experimentalismo não foi ainda reconhecido, apesar de estar à vista. E é leviano e irresponsável, como a própria ministra, apesar do ar duro com que se nos apresenta. A incompetência e a irresponsabilidade também se vendem com um semblante cerrado e um cabelo de um loiro dorido.

Experimentalismo é também o que Passos anda a fazer desde que tomou posse. Experimentou ser primeiro-ministro. A experiência está a sair-nos caríssima. Experimentou ser sério, mas logo após o anúncio da subida da TSU, foi divertir-se para um espetáculo musical. Experimentou também, por exemplo, dar dignidade a Miguel Relvas, mas, não a tendo ele próprio, a outra face da moeda, a tarefa revelou-se impossível. Impossível para Relvas, não para ele, que era o ator principal. Quanto à forma, e à tecnoforma, como continua a vender a sua imaginária dignidade e gravidade, o leitor saberá a resposta. Os figurantes Lomba e Maduro, suas escolhas já a peça começara, vieram reforçar a farsa, com o número burlesco dos «briefings». O ridículo levou um deles a desaparecer pelo buraco do ponto sem que mais ninguém o visse. O problema é que o público, regra geral, não ri, está fechado na sala e vão-lhe sendo cobrados impostos a cada número.

Os economistas do regime. Disse «asco»? Disse bem

Por que razão não há crescimento? – pergunta César das Neves no DN de hoje. E explica, com divina sabedoria:

A atitude de fundo é hostil ao progresso. Exigem-se subidas de salários e criação de emprego, mas desprezam-se lucros, investimentos e empresários, combate-se comércio e crédito, sem perceber que estão ligados. Por desagradável que seja, o único meio que até hoje criou crescimento passa por empresas e negócios, algo que os intelectuais vêem com supino asco.”

Claro é, das Neves o põe: para haver progresso e crescimento, há que deixar as empresas terem lucros – leia-se: pagarem o menos possível aos trabalhadores (subidas de salários são inadmissíveis; já as descidas são não só admissíveis como também obrigatórias) e baixar-lhes o IRC – para poderem investir e haver assim orgulho em ser-se empresário. Esta teoria tem um enorme senão, confirmado a cada ano que passa: a atividade empresarial não existe sem clientes. É a procura de bens ou serviços que sustenta as empresas. Se não houver clientes, não há empresas nem, logicamente, lucros. E investimentos para quê, faça a fineza de me dizer? Se o grosso da população de um país tiver um reduzidíssimo poder de compra, o que as empresas lhes podem vender não é famoso. Ir vender lá para fora parece que também tem um problema. A Ásia apresenta-se no mercado mundial com preços imbatíveis em chinelos, ténis e nossas senhoras de Fátima fluorescentes, que são exemplos de produtos que trabalhadores não qualificados saberão fabricar. Pelo que o ciclo de deterioração a que economistas como estes querem votar o país não tem fim.

Olhe, senhor das Neves: «o único meio que até hoje criou crescimento», ao contrário do que o senhor defende, é a existência de poder de compra. Aqui e em todo o lado. Como vê, isso do lucro e do investimento tem muito mais que se lhe diga. Não é acabando com o salário mínimo e empregando pessoas a troco de uma tigela de sopa, degradando a sua educação e formação e incentivando o seu abandono, que algum dia se alcança o crescimento e a prosperidade. Eu sei que dá jeito a pessoas como das Neves haver pobrezinhos para justificar a caridade, as pregações, as ladainhas e as santas madres igrejas deste mundo. Mas essa «atitude de fundo», vinda de quem vive bem, causa-me asco. Supino asco.

Ó freguesa, o que vai hoje?

Nuno Melo 2014

 

O António Costa venceu sem margem para dúvidas, não tenho dúvidas de que será um adversário difícil”. No entanto, “representa igualmente o pior de Sócrates. Diria que quem venceu nestas primárias foi o PS de 2011”.

Acontece às bandeiras por trás de Nuno Melo o mesmo que ao seu fato e gravata. Quando abre a boca para o ataque político, não mais se veem. Este homem está há nove anos de serviço à peixaria. E com um único alvo. Minto: com um alvo e meio. Um já sabemos quem é, o outro foi Constâncio. Não é nem nunca foi só missão partidária. No que ao grande alvo diz respeito, é mais trauma pessoal. Pelos vistos, inultrapassável.

Vale a pena ler os comentários que se seguem à notícia.

Ó Ana Gomes, a miopia agravou-se?

Por outro lado, como apoiante de António José Seguro tenho pena, porque apoiei-o por convicção, por pensar que tinha feito um trabalho importantíssimo de recuperação do partido depois da grande derrota em 2011”.

Como pensou tal coisa? O «trabalho importantíssimo de recuperação» consistiu no seguinte: primeiro, arrebanhar os ressabiados expectantes, que oportunisticamente tiraram partido dos insultos, calúnias e campanhas da direita contra o anterior primeiro-ministro; depois, aliciar os militantes mais primários do partido, aqueles que engoliram o isco, o anzol e a cana da narrativa da direita sobre o pedido de ajuda e sobre a crise financeira em geral. E dizer-lhes que sim, que também ele estava envergonhado com o que os seus colegas de partido tinham andado a fazer pelo governo. Foi este o lindo e nobre trabalho do Seguro. Recuperou o quê exatamente?

Convém que alguém mostre entretanto os resultados das primárias à Ana Gomes, porque dá ideia que não percebeu que 1) a recuperação foi um fracasso, havendo milhares de pessoas que não querem, e vieram dizê-lo nas urnas, ser recuperadas por pessoas da laia do Seguro e 2) se calhar, a linha seguida para a recuperação estava errada e muito errada. Porquê? Porque teria sempre que passar por desmontar as mentiras e trapaças dos partidos da coligação uma por uma, tarefa que era facilitadíssima pela degradação acelerada da situação económica e financeira (e educativa e etc.)  do país a partir de meados de 2011 e pelo que tem vindo a público sobre a qualidade e a estirpe de quem se alçou ao poder mais seus colaboradores e apoiantes.

Ana Gomes é capaz de já não ter recuperação possível.

Um Estado de direito que não funciona de todo

Segundo li, e ainda não vi desmentido, Passos Coelho nunca entregou no Tribunal Constitucional a declaração de rendimentos e património a que a lei obriga quando se cessa o exercício de cargos públicos. Refiro-me ao fim do seu mandato de deputado em 1999. Tinha um prazo para o fazer e não o cumpriu. Segundo a lei, nesses casos, o sujeito fica proibido de exercer cargos públicos. E eu pergunto: como pode este indivíduo ser primeiro-ministro? Como pôde o TC não verificar o seu «cadastro» quando se candidatou? Como pode não seguir-se esse procedimento em relação a qualquer candidato?

Pois bem, não podendo Passos ser primeiro-ministro mas sendo essa a função que exerce atualmente, como admitir, perante os documentos vindos a público, assinados pelo próprio, relativos à sua exclusividade, que a Assembleia da República não esclareça cabalmente as condições em que Passos exerceu as funções de deputado? Como é possível que os mecanismos de um Estado de direito não entrem em ação? Como? Ainda estamos na União Europeia ou já aderimos à Comunidade das Repúblicas das Bananas? Ainda há gente séria e com valores democráticos no país ou já não resta ninguém?

Seguro perde, mas parece que o país ganhou um dramaturgo

Ainda mal recomposta a alma e mal secas as lágrimas do vídeo de sonoridade trágica sobre o vaso com o cravo florido precocemente cortado, eis que somos lançados noutro drama, desta vez humano, desta vez escrito, sem o gemer de violinos. Álvaro Beleza, grande apoiante de Seguro, escreve hoje no Público com paixão sobre o seu amigo. Lê-se e, meus caros, chora-se.

Mas o que diz o homem? Em resumo, que Seguro é uma pessoa extraordinária, de valores simples e nobres, um bom amigo, um inigualável amigo numa fase crítica da vida de Beleza, atingido por doença grave. A amizade então aprofundada foi selada, no auge da agonia, por um pacto – se Beleza escapasse com vida, jantariam os dois, um dia, em São Bento. A veia literária de Beleza surpreende-nos nestas linhas: «Sobreviver era a minha parte do acordo que até hoje cumpri (é bonito). Chegar a São Bento é a parte dele.»

 

Se não tivéssemos a imagem de Seguro à nossa frente e a ideia clara do que iria fazer em São Bento, choraríamos. Mas temos. Daí que este panegírico pouco adiante e só atrase.

Até porque, umas linhas antes, somos informados de autênticos atos e hábitos beirões do visado, durante anos:

No Café Martinho da Arcada, o nosso leal grupo de amigos promoveu tertúlias coordenadas pelo saudoso Mário Garcia. Aí, recebemos a sabedoria de intelectuais, gestores, académicos e fomos construindo ideias para liderar, reformando o país e a política. Ideias tão importantes como as primárias e a reforma da lei eleitoral, que foram sonhadas nesses anos e que agora Seguro implementou e propôs. Quando foi eleito secretáriogeral do PS, Seguro continuou essa tradição de tertúlias “atenienses” em maior escala, envolvendo milhares de socialistas e peritos independentes nos estudos do “Novo Rumo” e Laboratório de Ideias e Propostas para Portugal (LIPP).”

 

Para plebe e da província, não está mal. Afinal no Martinho da Arcada eram capazes de servir morcelas ao lanche. Mas a veia dramática de Beleza não deveria perder-se.

TAP, que pena

Tap Bordeus

Não percebo de que estão à espera os pilotos para exigirem uma manutenção de qualidade para os aviões da companhia. A juntar aos episódios do verão, só nos últimos três dias são já quatro os aviões que regressam e/ou aterram de emergência. Ainda há minutos li que mais um avião que seguia de Paris para Lisboa foi obrigado a desviar para Bordéus (foto acima). Ora, tenham santa paciência, esta situação é tudo menos normal.

Se é verdade, como disse o comandante Jaime Prieto, que as coisas pioraram desde que a manutenção dos Airbus foi para o Brasil, então não é de exigir que regresse a Portugal? Por que esperam? Embora ainda não tenha havido uma tragédia, isto não tem qualquer piada, não é um problema menor e não é bom para a companhia. E é uma verdadeira pena, para além de extraordinário, que os passageiros abandonem a TAP e passem a voar na Ryanair ou na Vueling por questões de segurança.

O secretário-geral do Parlamento deve uma explicação

Passos Coelho e o regime de exclusividade enquanto foi deputado.

Eis o que o Público apurou (sem link):

Enquanto foi deputado, na década de 90, Pedro Passos Coelho só preencheu o “anexo B”, do IRS, em três anos. Entre 1991 e 1999, apenas declarou ao fisco rendimentos de trabalho “independente” em 1996, 1997 e 1999. Todas essas verbas, somadas, não chegam a 25 mil euros (4825 contos, na moeda antiga).

Esse dinheiro, recebeu-o “unicamente de colaborações várias com órgãos de comunicação social, escrita e radiofónica”. Foi isto que o deputado Pedro Manuel Mamede Passos Coelho escreveu, num requerimento endereçado ao presidente da Assembleia da República, o socialista António Almeida Santos, a 27 de Outubro de 1999, três dias depois de deixar São Bento.

Todo o requerimento assenta numa só questão: Passos Coelho garante “que desempenhou funções como deputado durante a VI e VII legislaturas, em regime de exclusividade”. E tenta prová-lo, nomeadamente através da garantia de que não recebeu qualquer outro vencimento fixo entre 4 de Novembro de 1991 e 24 de Outubro de 1999, nos anos em que exerceu o seu mandato político. Mais: Passos Coelho, “por cautela”, consultou a Comissão de Ética do Parlamento para se assegurar de que as colaborações com a imprensa e a rádio não eram incompatíveis com o regime de exclusividade.

Estes factos, públicos, que podem ser consultados nos arquivos oficiais, não impediram a secretaria-geral do Parlamento de garantir à Lusa que o actual primeiro-ministro não teve “qualquer regime de exclusividade enquanto exerceu funções de deputado”. Uma afirmação que contraria uma evidência. Foi o mesmo Parlamento que em 2000 concluiu que Passos Coelho exercia, de facto, o seu mandato em exclusividade, tal como o próprio tinha declarado.

Em 31 de Maio de 2000, Almeida Santos aceitou os argumentos do seu gabinete de auditoria jurídica e concedeu a Passos, sete meses depois do pedido, o subsídio de reintegração reclamado: cerca de 60 mil euros, referentes a 15 meses e 167 dias de vencimento. Este valor correspondia, conforme estipulava a Lei 26/95, a um mês de salário por cada seis meses de mandato de deputado em exclusividade.

Metade desse valor respeitava ao primeiro mandato de Passos Coelho (1991-1995), relativamente ao qual a lei então em vigor concedia a todos os deputados, em exclusividade ou não, o direito ao subsídio de reintegração. Uma alteração à lei aprovada em 1995 fez com que, a partir daí, tal subsídio ficasse reservado aos eleitos em exclusividade.

 

O PÚBLICO tentou, desde ontem de manhã, confirmar estes factos com o secretário-geral do Parlamento, Albino de Azevedo Soares, ex-secretário de Estado de um Governo do PSD. Em concreto, foi solicitado àquele responsável que confirmasse se Passos Coelho integrava a lista dos ex-deputados que, em 1999, receberam o subsídio de reintegração (uma regalia que terminou em 2006). Horas depois, após o esclarecimento do gabinete do secretário-geral, foi enviado um novo e-mail sobre a contradição entre a versão tornada pública pelo Parlamento e aquela que o PÚBLICO agora divulga. Azevedo Soares e os seus dois adjuntos estiveram, ao longo do dia, permanentemente “em reunião”, indisponíveis para responder.

Também Pedro Passos Coelho recusou, por duas vezes, esclarecer se recebeu o subsídio de reintegração. […]

 

[…]Afinal qual é a importância de Passos Coelho ter estado ou não em exclusividade na Assembleia da República entre 1995 e 1999? A resposta é simples: se esteve em exclusividade não podia ter recebido qualquer pagamento pelo exercício de actividades profissionais exteriores ao Parlamento. E se não esteve em exclusividade, como disse ontem o secretário-geral do Parlamento, isso quer dizer que recebeu indevidamente cerca de 30 mil euros, correspondentes a parte do subsídio de reintegração que requereu e foi aceite.

 

Mas se for verdade que recebeu cinco mil euros por mês da empresa Tecnoforma, entre 1997 e 1999, para desempenhar as funções de presidente do Centro Português para a Cooperação (CPPC) — uma organização não-governamental criada por aquela empresa para lhe angariar financiamentos internacionais —, então o problema é bastante mais complicado: terá violado as regras da exclusividade e terá incorrido num crime fiscal por não ter declarado tais rendimentos nas suas declarações de IRS.”

Salsicha educativa. Alguma coisa contra o chouriço?

Passos Coelho, setembro de 2014.

O coveiro de fato endomingado e ignorância escondida atrás de uns óculos que está à frente do Governo sacou de mais uma «metáfora» para fazer chegar as suas sofisticadas ideias à populaça. A escolha da palavra salsicha em contexto de ensino levanta, porém, algumas dúvidas. Porquê salsicha? E, já agora, quem lhe chama assim?

Mantendo o registo popular pretendido, e mantendo-se nos enchidos, não seria mais correto falar em «chouriço»? O «chouriço educativo»? Convenhamos que não fica nem melhor nem pior do que salsicha! E seria mais fiel à ideia base que lhe deve ter perpassado pela cachimónia naquele momento e que só pode estar relacionada com a expressão «encher chouriços». Se bem se entende de tão gráfica (e porno-gráfica) declaração, o nosso sistema educativo (o chouriço) tem estado ocupado com matérias de fraca qualidade e inúteis na perspetiva do mercado e, porque não, com gente a mais (tudo só para encher, não é verdade?). Vai daí, andámos a encher chouriços. Bingo! Acertámos. É o que ele pensa. A sério.

Porém, todavia, a tentativa de último segundo de suavizar a linguagem fez a expressão degenerar em salsicha. Azar, porque essa leva-nos mais longe e por outros caminhos.

Leia, por exemplo, no Público:

Sem nomear governos ou governantes, disse que houve quem tivesse tentado resolver o problema, mas há ainda “um caminho longo a percorrer”. Porque “aumentar a salsicha educativa não é a mesma coisa que ter um bom resultado educativo. Foi assim que no passado a generalização de novos graus de ensino não corresponderam a um salto qualitativo mais exigente no produto escolar.” – uma referência indirecta a programas como o Novas Oportunidades, criado durante a governação socialista.”

Molotov caseiro

(post republicado, após sumiço devido às obras em curso)

Soube-se hoje (15 de set.) que a antiga ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, foi condenada a 3 anos e meio de prisão com pena suspensa e a indemnizar o Estado em 200 000 euros por ter encomendado a um jurista com um apelido conhecido e laços familiares com um membro do PS um estudo que o Ministério Público considera desnecessário (ao que chegámos) e sobre cuja qualidade entendeu pronunciar-se. Não gostou.

Talvez o deputado Manuel Tiago, autor da denúncia de tão aberrante crime, queira fazer, não uma, mas várias denúncias ao Ministério Público dos ajustes diretos deste governo. Quer? Não lhe apetece?

Os ajustes diretos não são proibidos e não eram proibidos na altura de Maria de Lurdes Rodrigues. Também não é obrigatório, nesses casos, contratar simpatizantes de partidos da oposição. Ou será? Acontece que, no ano da graça de 2014, não há memória de um governo ter contratado tanto estudioso, consultor, auditor e sei lá que mais por ajuste direto quanto este. O deputado Manuel Tiago sente-se confortável.

A ideia do putativo crime” de que é acusada “nasceu na Assembleia da República em 2008, com intervenções dos deputados Pedro Duarte e Emídio Guerreiro, do PSD, e Manuel Tiago, do PCP, tendo este último apresentado, na Procuradoria, a denúncia em que todo este caso se baseia”, sublinha.”

(clicar para ler notícia completa, de 4 de agosto, com as explicações da ex-ministra)