Hoje vou-me queixar à Judite

Logo à noite, António José Seguro travará o primeiro dos debates que pretendia. Tendo decidido não convocar um congresso eletivo de militantes quando a sua liderança foi desafiada, optou pela tática de fazer passar por miserável e infame aos olhos da opinião pública (atenção, falamos do António Costa), durante três meses, quem tão «despudoradamente» o desafiou para uma avaliação intercalar (que, aliás, era a prática no partido até à reforma estatutária da sua autoria) face aos magros resultados e à opinião generalizadamente desfavorável da sua atuação enquanto líder da oposição. E porque tanto pretende Seguro estes debates a dois nas televisões?

A avaliar pelo seu recente comportamento em campanha, a razão é clara: para declarar aos portugueses, e agora perante o traidor, que foi vítima de uma traição e que, por isso, merece a compaixão dos votantes. Seguro deseja queixar-se do «mal» que outros lhe fizeram. Os outros. Porque a sua pessoa foi simplesmente perfeita. Vejamos: ninguém queria assumir a liderança do partido após a derrota de Sócrates, mas ele, num ato de abnegação e coragem, avançou. É ou não é verdade? É verdade que avançou, mas a dita coragem esconde uma grande mentira. Esteve matreiramente à espera que Sócrates caísse, entre silêncios significativos e dissimulações várias, ovacionou, e de pé, * o discurso assassino de Cavaco Silva na tomada de posse e, na noite da derrota do PS, mal pôde esperar por que os jornalistas lhe perguntassem se se declarava candidato à liderança. Ainda o magnífico discurso de Sócrates ressoava na sala e estarrecia os incrédulos e já o homem andava numa agitação de gáudio mal contido nos elevadores do hotel Altis. Dizer agora, como diz, que deu a cara na altura mais difícil é de um descaramento digno de Passos, Relvas, Maduro e Albuquerque. Era o que ele queria há anos, esperando pela oportunidade da maneira mais cobarde possível.

Mas a sua perfeição não acaba aqui. A estratégia de oposição foi também inteligentíssima – consistiu basicamente em concordar, por falta de comparência ou de resposta, com todos os ataques que o Governo, para levar sempre mais longe a destruição do país, lançasse ao seu antecessor. A ausência sistemática de réplica da sua parte acabou por torná-lo cada vez mais parecido com Passos. Foi ou não foi inteligente? Não foi. Foi verdadeiramente estúpido. Não só porque obviamente não construiu nenhuma oposição ao governo, com o qual basicamente concordava, mesmo nas mentiras, como também porque granjeou a oposição da ala mais importante e interventiva da bancada parlamentar, de cuja presença no Parlamento já sabia quando concebeu a sua estratégia. Acresce que, e isto é importantíssimo, mais tarde ou mais cedo, as medidas objetivamente positivas adotadas pelo governo anterior acabariam por ser indiretamente elogiadas e diretamente aproveitadas pelo Governo de Passos, assim como foram elogiadas por organizações internacionais, como ainda recentemente. A inteligente estratégia acabou tão-só por deixar-lhe a cabeça à roda.

Foi neste contexto de desorientação, de incapacidade para se afirmar e de falta de visão e talento para liderar que o natural desafio que lhe foi lançado o conduziu ao caminho da vitimização. Se virmos bem, era o único que lhe restava. Vai insistir nele até se ir embora. Não é bonito de assistir.

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Correção: Agradeço ao Valupi ter-me recordado que o entusiasmo não foi expresso de pé.

12 thoughts on “Hoje vou-me queixar à Judite”

  1. neste momento o tózero deve estar a combinar as perguntas giras que a tia jújú lhe vai fazer e o costa que se prepare para responder ao batalhão de psdês que vai estar no aurícular da entrevistadeira-mor do regime cavacoiso.

  2. Este tipo de texto só pode ser originado pelo medo que os apoiante de António Costa têm dos debates. Mas pergunto: porque têm medo?
    Deixando a resposta ao critério de cada um, é importante referir o seguinte:
    Refere a autora que “ninguém queria assumir a liderança do partido após a derrota de Sócrates, mas ele, num ato de abnegação e coragem, avançou.” O que é preciso demonstrar, independentemente do facto de Seguro querer ou não há anos chegar à liderança do partido (Costa não queria?), é o porquê de Costa não ter avançado. Foi medo do que vinha a seguir? Foi falta de apoios, numa altura em que Sócrates saía pela porta (muito) pequena? Falta esclarecer, e Seguro aproveita isso. E bem.
    Refere ainda a autora que “Dizer agora, como diz, que deu a cara na altura mais difícil é de um descaramento digno de Passos, Relvas, Maduro e Albuquerque.”. Não entendo. A altura era fácil? Apanhou um partido que, aos olhos dos país, nos deixou na bancarrota. Estava agarrado a um memorando negociado e assinado pelo anterior Governo. Mas a altura era fácil. Ok.
    Por fim, é referido que “Mas a sua perfeição não acaba aqui. A estratégia de oposição foi também inteligentíssima (…)”.
    Se Seguro optasse por uma estratégia de oposição cerrada, criticando tudo e todos, sabia que só iria sair prejudicado, pois Passos acenaria aos Portugueses com o memorando.
    A estratégia de Seguro pode ser altamente criticável, mas poderá Costa fazer diferente? Não sabemos, porque ele ainda não disse (a seu tempo dirá) o que propõe para o País.
    Infelizmente, não acredito em super heróis.
    Apenas mais uma nota: apresentar um documento de estratégia para o país a longo prazo, que esquece (é omisso) o problema das finanças públicas (que já é um problema há muitos anos) é de quem não conhece o país, ou de quem quer esconder medidas.
    E num caso ou noutro, esse alguém não deve chegar ao Governo.

  3. não foi a jújú que se vangloriou de ter derrubado o sócras com uma entrevista ao ricardo salgado ou terá sido ao lorenzo?

  4. Exemplar. Básicamente, seguro encostou-se atrás da moita e deixou passos governar como quis, a certa altura parecia mesmo que concordava com ele. Mesmo agora, a sua narrativa confunde-se com a do governo, apenas se nota alguma diferença doze.

  5. Cristiano: Não tinha Costa um programa para a Câmara de Lisboa apenas começado?
    Não se trata de saber se a altura era fácil ou difícil. Ele apresenta-a como difícil. E vai daí complicou-a ainda mais quando optou por não vincar as circunstâncias em que o Memorando foi assinado. O extraordinário é que, mesmo quando os sucessivos falhanços e aldrabices do Governo lhe tornaram a vida fácil, não soubo retirar disso fruto algum. O seu verdadeiro inimigo era o Sócrates, não o Passos.

  6. josé seguro é um gajo tão serio,que foi o unico que votou contra a lei dos partidos politicos. não digo que os 99,9 % de deputados estavam certos,mas esta sua posiçao mostra bem o calculismo deste seminarista de meia-tigela!nele vejo um verdadeiro profeta da desgraça!

  7. a simples possibilidade de um governo passos/seguro a governar Portugal durante 4 anos devia provocar arrepios na espinha a qualquer cidadão que a tenha.

    Miguel

  8. cristiano, ser secretario geral do ps foi o grande designio da vida politica de seguro,e para isso fez as patifarias que fez. como a oposiçao ao governo socrates,a sua declaraçao quando o socrates ainda discursava, já ele se declarava candidato(que prazer le deve ter dado aquela derrota…) o apoio efusivo ao discurso do cavaco,contrao seu partido.assumiu o passado do ps na oposiçao?esses dias de mal dizer contra o seu partido e o seu legado enchiam-lhe a alma, que vão terminar no dia 28 felizmente.para por a cereja no bolo convida para autarca do ps o maior adversario do ps e jose socrates durante seis anos.essa sua opçao só podia vir de um pulha do seu calibre. costa,saiu da sua zona de conforto,para com alma e coraçao para salvar o ps do abismo.seguro tem aliados ,com miguel sousa tavares quediz que não gosta dele para a seguir atacar costa. nós compreendemos….primeiro decretou a derrota de socrates no debate com passos coelho,por que já tinha o seu livro na tipografia de fim de ciclo politico de socrates.agora na sic toma esta posiçao,por que o lugar de vice -presidente da companheira sempre dá mais uns cobres para o orçamento familiar . muita paz,onde estiver,saõ os meus votos para sofia,que tinha um filho muito parecido com o pai.navegar navegar era o seu lema!

  9. “quem tão «despudoradamente» o desafiou para uma avaliação intercalar (que, aliás, era a prática no partido até à reforma estatutária da sua autoria)”

    Não percebi… Nem a que se refere, nem o que se pode chamar ao Congresso electivo de 2013, para o qual António Costa achou que tudo estava bem, logo sem necessidade de avançar…

  10. António Costa não avançou mais cedo porque quis dar oportunidade ao imbecil que agora se queixa de ser traido, de provar o que vale. Está provado : não vale um cú.
    Em 3 anos não consegue descolar das sondagens em relação ao pior governo de sempre desde a democracia , e está à espera que o partido inteiro assista a uma derrota garantida nas eleições de 2015?!
    O que faz uma empresa, uma merceearia ou um cabeleireiro quando há um trabalhador que não faz o seu trabalho? Despede-o!
    Era o que devia ter sido feito há muito tempo ao incompetente alapado ao magro pote do PS ( que a gamar ninguém bate o PSD).

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