Israel, como a faixa de Gaza, está dominado por extremistas

gaza 2014

Tudo dito e esquecido, incluindo o possível erro da criação do Estado de Israel, há quem veja nesse Estado a guarda avançada da civilização ocidental contra os islamitas e uma espécie de tampão contra os seus perigosos avanços. E dizem que, só por isso, merece todo o nosso apoio, solidariedade e o sofisticado armamento que possui. Não sei se, enquanto habitante do mundo ocidental, olho para Israel como meu representante seja junto de quem for ou contra quem for. Penso é que a bússola que os guiou até ali bloquearia antes de para ali apontar se lhe limpassem as teias de aranha. E que o mundo teria ganho com isso. No entanto, o Estado existe. Israel é uma democracia, admite eleições e opositores à linha política seguida e, apesar de se auto designar Estado Judaico (75% da população diz-se judaica), a liberdade religiosa está consagrada nas leis fundamentais e ninguém é perseguido por não praticar religião alguma.

Um dos que não está de acordo com a linha política seguida atualmente é Yuval Diskin, o antigo diretor (de 2005 a 2011) do Shin Bet – o serviço de segurança interna de Israel. Vale, por isso, a pena ler a entrevista que dá à revista alemã Der Spiegel (edição em inglês). Tornou-se crítico da atuação de Benjamin Netanyahu, o atual primeiro-ministro, que acusa de se deixar dominar pela ala mais ortodoxa da direita judaica, aquela que pugna pela expansão dos colonatos na Cisjordânia (no fundo, em todo o lado onde puderem, incluindo Jerusalém Este) e, a prazo, a conquista de toda a Palestina. Diz Diskin que os colonatos estão a atingir um ponto de irreversibilidade. O que complica ainda mais a já de si complicada situação.

O principal problema de Israel nas suas relações com os palestinianos, muitos deles, diga-se, determinados a não reconhecerem nunca o Estado de Israel, é o seguinte: o país tem capacidade militar suficiente para ocupar Gaza e a Cisjordânia, objetivo e estratégia que os mais radicais defendem, mas a questão é o que fazer com a «vitória» (as aspas devem-se à simplicidade técnica  da conquista). Que fazer com a vitória e com a população palestiniana que passaria a fazer parte do novo Estado único e a qual não pode, em princípio, ser exterminada, a não ser metendo-a em campos de concentração e aplicando-lhe o tratamento a que milhões de antepassados dos próprios judeus foram sujeitos. Além disso, a população árabe excederia largamente a judaica, pelo que, a opção de criar um só Estado é, caso continuasse a imperar um regime democrático e não a escravatura, uma opção pelo suicídio.

Diskin confirma que as autoridades israelitas reconhecem que o assassinato dos três jovens israelitas no mês passado não foi algo planeado pelo Hamas, tendo sido um ato espontâneo. No entanto, ainda há uns dias, uns judeus capturaram um jovem palestiniano, deram-lhe a beber gasolina e pegaram-lhe fogo. Para povo civilizado, começamos a estar conversados. Para não falar do tratamento dado aos prisioneiros.

“You can shoot someone and hide his body under rocks, like the murderer of the three Jewish teenagers did. Or you can pour oil into the lungs and light him on fire, alive, as happened to Mohammed Abu Chidair…. I cannot even think of what these guys did. People like Naftali Bennett have created this atmosphere together with other extremist politicians and rabbis.

Estaremos para ver se as periódicas incursões israelitas na faixa de Gaza, designadas pelos militares israelitas por «Corte de relva», ou seja, enfraquecimento do arsenal militar do Hamas e regresso a casa até novo desbaste, se irão manter ou se essa situação, que convém a Israel, e possivelmente também ao Hamas, avança para algo diferente.

Não posso antipatizar mais com os islamitas, com os regimes que instauram, a religião que professam, o atraso civilizacional que representam, o desprendimento com que enviam os filhos para o suicídio. Mas matá-los a todos não é opção. Acontece que há fundamentalistas bastante comparáveis em propósitos no outro lado, gente que se acha superior e com direito a todo aquele território. Gente que não hesita em assassinar governantes eleitos demasiado apaziguadores. Na impossibilidade de limpar aquelas cabeças de crenças religiosas incompatíveis, ou de crenças religiosas tout court, o que, aliás, pouco adiantaria, dada a organização da sociedade e os costumes, resta aparecer alguém, de um lado e de outro, que consiga fazer frente aos fundamentalismos. Difícil. Diskin é pelo diálogo e, aparentemente, pelo fim dos colonatos, ambas as questões ligadas. O atual governo tem-nos autorizado e expandido. O que só dá argumentos ao Hamas. Mas pode a mortandade continuar? Com o radicalismo a ganhar terreno em todo o Médio Oriente e com a probabilidade de o Hamas dar lugar a gente ainda mais violenta e mais endinheirada, como o Califado, se calhar pode. O conceito de guarda avançada pode ser revisitado.

7 thoughts on “Israel, como a faixa de Gaza, está dominado por extremistas”

  1. O Papa Francisco acaba de lançar um apelo sentido ao fim dos combates em Gaza. Todos sabemos que ainda há bem pouco tempo o mesmo Papa rezava com os chefes das partes em conflito. O Papa sabe, ou devia saber, que rezar e apelar não adianta absolutamente nada. É quase como dizer a um pobre a morrer em absoluta pobreza que, “por amor de Deus”, se alimente. Ou o Papa vai além de rezas e apelos, e actua como as circunstancias exigem, ou mais vale calar-se, para não avolumar o descrédito das gentes nas palavras dos “homens de boa-vontade”. Se o Papa sente e vive o drama da Palestina, que meta os pés ao caminho e se dirija ao “centro de decisão” que, por enquanto, ainda continua a ser o poder americano, o “polícia do mundo”. Uma viagem intempestiva para martelar a consciência dos americanos seria ” alguma coisa que se visse”. Duvido que tenha “tomates” para tanto. Entretanto, os hipócritas de todos os quadrantes ideológicos assobiam para o lado. Afinal, são palestinianos, quase sub-gente, os que estão a agonizar e a morrer.

  2. exterminar minorias. que tristeza tão triste. sabes, diz-nos a história que a guerra fecha ciclos para dar início a outros. não vejo como – ao fundamentalismo fundamentalismo ainda mais sólido vingará. :-(

    Maria Abril, parece-me terrivelmente maldoso – e irresponsável- estares a colocar nas costas do papa Francisco uma responsabilidade que cheira a culpa por omissão. ele está a cumprir com a sua função: o apelo espiritual. e olha que é muito.

  3. ninguem tem duvidas das responsabilidades de israel nesta situação.mas tambem não duvido do carater “terrorista” do hamas,que mesmo sabendo que a cada ataque seu,tem como resultado muito mais vitimas do que o inimigo,continua com a mesma estrategia .uma politica de vitimizaçao julgo que causaria mais estragos de natureza politica a esrael ,do que a sua actual estrategia belicista.o que fazer?as minhas limitaçoes não permitem ir longe,mas sabendo que há milhares de palestinianos a trabalhar em israel , e que ao fim do dia regressam a casa.a dipolomacia seria sempre o melhor caminho mesmo que lento.nestas coisas há sempre quem se governa.os governos eleitos democraticamente não têm o exclusivo do dinheiro sujo!

  4. nota: quando falo em dinheiro sujo,quero dizer que os lideres do hamas recebem dinheiro estrangeiro para reagir desta forma!

  5. ocupam~lhes a terra, matam-lhes a família, bombardeiam-lhes as casas, escolas e hospitais e depois chamam-lhes terroristas. anda todo o mundo escandalizado com o putin por ocupar a krimeia, mas ninguém decreta qualquer espécie de embargo económico a israel ou propõe intervenção das nações unidas no maior campo de concentração do mundo.

  6. Penélope, afirmar que existe liberdade religiosa em Israel é um bocado forçado. Oficialmente existe, a partir daí…
    A criação do estado de Israel foi mais um disparate da comunidade internacional agravada pela sua utilização como contraponto de movimentações geoestratégicas entre os poderosos blocos político-militares. A partir daí tudo tem sido possível aos israelitas, desde que estes continuem a movimentar-se no que se convencionou chamar-se esfera ocidental. Eles apenas se aproveitam da situação em seu benefício. A guerra religiosa que ameaça vir a desencadear-se a médio prazo, será a pior de todas, porque será feita entre fundamentalistas, ao pé dos quais Maquiavel era um menino de coro. As manifestações envergonhadas que vão surgindo contra o genocídio de um povo servem para aliviar as consciências piedosas bem afastadas do conflito. Os ‘democratas’ com as suas beneméritas intervenções contra os ‘ditadores’ árabes fizeram um trabalho de tal categoria que transformaram uma região em centro consumidor de armamento fora de prazo, não se importando minimamente com a chacina que por lá vai. Entretanto criam-se uns espectáculos mediáticos, tais como o derrube de uns aviões (curiosamente da mesma companhia), as diversas crises, desde a das dívidas soberanas até à ucraniana, passando pelas violações na Índia, a proposta de um governante europeu para a aplicação da eutanásia aos pobres, o apoio a ditaduras petrolíferas, a festa que vai na alta finança mundial, para não falar do completo desnorte duma esquerda que não soube governar em liberdade.

  7. Penélope, ali ao lado o sam harris desmente o que dizes: os israelitas mostram muito mais humanismo e “compassion” perante os adversários, representando assim um paradigma moral que todo o mundo ocidental devia apoiar (ainda mais, digo eu).

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