Rangel diz que a Europa não é um bazar, mas ele próprio anda por cá a vender tapetes voadores

Defendendo que, na Europa, não adianta fazer barulho porque não se está num bazar (quem disse?), Paulo Rangel quer convencer os leitores do Público, pelo menos, de que, mais do que regatear, o que importa é a credibilidade com que um governo se apresenta perante os seus pares europeus mais poderosos. Sabemos dos muitos aspetos envolvidos no conceito de credibilidade. Mas, claro está, à medida que a leitura do texto avança e tendo nós a realidade como referência, percebemos que «credibilidade» mais não significa aqui do que obediência e subserviência, e «bazar» um local onde as pessoas se comportam de maneira desrespeitadora da autoridade. Enfim.

Preparando muito cedo o refogado para o prato final (o elogio empolgado ao seu chefe Passos Coelho, considerando-o um portento e uma referência na Europa, não vale rir), eis o que diz na abertura:

Há uma corrente de opinião que está convencida — ou, pelo menos, procura convencer-nos de que a capacidade de afirmação de um país ou de uma posição na União Europeia depende muito da “ambição”, do “músculo” e da “vozearia” com que se apresenta uma dada pretensão. Essa corrente sustenta que só é possível adquirir uma posição de vantagem na Europa, se se definirem metas muito ambiciosas (sempre a raiar a utopia e o lirismo) e, naturalmente, se se gritar, berrar, espernear e bater o pé nas negociações subsequentes. Ao contrário, o activo mais importante — o verdadeiro trunfo — no processo permanente de negociação da construção europeia é a credibilidade. A credibilidade dos objectivos ou propósitos assumidos e a viabilidade das soluções avançadas para os atingir. É justamente a capacidade de persuadir os nossos parceiros e, bem assim, as instituições europeias de que as finalidades a prosseguir são atingíveis e de que os meios a utilizar são adequados e realistas que pode impor uma “agenda portuguesa” no quadro europeu. Naturalmente, essa credibilidade da posição apresentada depende também da credibilidade dos protagonistas e, designadamente, da consistência da sua experiência anterior e do seu discurso político.”

Para além de escolhas duvidosas de vocabulário, como “metas muito ambiciosas” (a que se refere?), e do verbo “persuadir”, que é, com estes protagonistas, um contrassenso e um abuso da nossa paciência, esta tese assenta num gigantesco equívoco: o pressuposto de que este governo teria uma visão da austeridade para o país diferente (para menor) da Alemanha e da Troika e de que em algum momento do seu mandato teria tido consciência de que algo não estava a resultar ou alguma noção sequer de que os interesses dos credores não são, nem podem ser, os nossos. Não tem, nunca teve e jamais terá. Por isso, a mera ideia de que o Governo de Passos e Gaspar/Albuquerque teria a ideia de que algo merecia ser negociado, alguma coisa a contrapor ou sequer a propor aos credores em favor de Portugal é, para todos nós, imunes à banha da cobra, pura e simplesmente inconcebível e totalmente contraditório com o observado.

Assim sendo, a Europa um bazar, compreendemos que, para eles, nunca o seja. Rangel arrepia-se com a própria imagem, de tão incivilizada que é. Ou melhor, desrespeitadora. O problema, ó Rangel, é que nem bazar nem local natural de negociação. Para vocês, é simplesmente um local de vassalagem.

A vigarice da venda de gato por lebre domina boa parte do texto, fazendo este, afinal, jus a práticas que Rangel aparenta desprezar e das quais acusa os outros. Nessa toada, não abdica, evidentemente, do filão que lhes traz mais proveitos eleitorais: a invocação da descida das taxas de juro no último ano – atribuída à tal “credibilidade” (não é que se está mesmo a ver?) e nunca a fatores mais óbvios como a situação internacional dos mercados, os interesses dos investidores ou a ação do BCE. Está visto que, à partida, é muito fácil para o PSD iludir os ouvintes menos bem informados sobre as causas, os detalhes e a evolução de uma crise como esta. É assim que o trauliteiro Rangel vende a “mercadoria”: Sócrates levou o país à bancarrota porque fazia obras megalómanas e dívidas estratosféricas, Passos chegou e pôs ordem na casa e, com a sua credibilidade, pôs as taxas de juro a deslizar por ali abaixo que foi uma beleza. Como já disse, o negócio deste senhor é vender tapetes e ainda mais agora que luta pela renovação de um contrato.

Mas também sabe cozinhar. No final, eis o prato enjoativamente amanteigado que serve a Passos e a Barroso:

Neste conselho, só um primeiro-ministro mostrou abertamente uma discordância profunda da visão de Angela Merkel sobre a união bancária e esse primeiro-ministro foi o português. A posição portuguesa — coincidente com os esforços da Comissão — passou a ser uma referência para a discussão que havia de seguir-se e, em particular, para o Parlamento Europeu. Não houve debate no PPE que não tivesse como referencial a visão de Passos Coelho. Como é sabido, acabou por haver um entendimento e a solução final é francamente melhor do que aquela de Dezembro.”

7 thoughts on “Rangel diz que a Europa não é um bazar, mas ele próprio anda por cá a vender tapetes voadores”

  1. Sempre o achei um pouco pantomineiro, mas agora, depois de olhar para as suas últimas atitudes, parece-me mais um lambe-botas à procura de um lugar ao Sol.

  2. É pura perda de tempo ler o que escreva o dr.prof. Klaustrófobo
    Rangel, carinhosamente conhecido entre os amigos como o “pé-
    zinhos de garrafão”!
    Desde que desenvolveu a teoria da asfíxia democrática, em que
    Portugal estava a deixar de ser um Estado de Direito, com pom-
    pa e circunstância anunciado no Parlamento Europeu … nunca
    mais encontrou uma “musa” que, lhe inspirasse idéias para a
    salvação do País se, a isto juntarmos a derrota para a liderança
    do PSD dá para nada esperar do invertebrado!!!

  3. Esta Porcaria de gente,só mesmo do reino da Canalha!Bardamerda para tais criaturas e para quem os apoiar!!!

  4. rangel faz lembrar aquele tipo que na empresa era um bom colega.um dia foi promovido, a partir daí a sua postura alterou-se, e torna-se um sabujo ao serviço da entidade patronal! quem trabalha sabe que isto infelizmente aconte muitas vezes. considerava-o um tipo moderado de direita.hoje diz coisas que mais tarde vão-lhe sair muito caro! passos mentiu despudoradamente em campanha ,rangel não faz promessas ataca politicamente o adversario sem o minimo de pudor e rigor. e quem é o seu alvo? o pcp? o bloco? não, o unico adversario é o ps .julgo que vai ter um lindo enterro se houver debate com assis ou silva pereira.espero que para não ficar tudo na mesma,as tvs não convidem os “carmelindas pereiras” que a troco de um mês de ferias e uns votos dos incautos que valem dinheiro para as ditas ferias!disse aqui há tempos que era bom que no parlamento legislassem para que todos os partidos fossem obrigados a recensiar-se novamente,para evitar este “lixo toxico” que so´serve para confundir os portugueses.recordo que nas ultimas eleiçoes para o PE eram mais de 10 em debate ao mesmo tempo.

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