António Costa está a fazer uma campanha eleitoral cordata, argumentativa e racional. Em termos absolutos, é a campanha ideal. Mas tudo é relativo. A coligação, pelo seu lado, faz uma marcação cerrada a Costa e mune-se de todas as técnicas conhecidas, aliás previsíveis, de engano, demagogia e tiro ao alvo com qualquer arma que dê jeito e venha à mão para demolir o seu adversário e ganhar o eleitorado. Um eleitorado cujo alheamento da política bem conhecem e melhor ainda exploram.
Não me parece que Costa esteja a retirar alguma vantagem da sua postura. A sua cordialidade, sobretudo, não tem justificação perante o rol de mentiras, deturpações e estratégias manhosas a que diariamente assistimos por parte da dupla Passos/Portas. Veja-se o caso do «lapso» relativo ao pagamento de uma tranche ao FMI. Este dito lapso aconteceu no exato dia (ontem) em que se noticiava pela manhã mais um aumento da dívida pública em 1,3 milhões de euros. Enquanto os jornalistas, e por arrasto os políticos e comentadores, se concentraram na suposta «gaffe», a questão da dívida passou totalmente ignorada, tendo Passos ainda aproveitado o ensejo para culpar o anterior governo pela «obrigação» que agora estava a pagamento. (Veja-se o que diz sobre isto Nicolau Santos.) É o que se chama matar dois coelhos de uma cajadada. Infelizmente, nenhum deles é o Coelho que interessaria ao PS abater.
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Não quero com isto dizer que António Costa deva desatar a insultar os seus adversários principais, embora bem o merecessem, dada a total falta de vergonha com que se apresentam, seguros de que passarão impunes. Mas, havendo tanto que rebater diariamente e tão facilmente (e Costa já mostrou ser capaz de o fazer de maneira incisiva e desarmante), não se percebe o exclusivo afã esclarecedor de Costa e a sua passividade perante os ataques, que vêm de todos os lados (sendo a dobrar do lado da coligação) e se referem a todos os tempos, chegando ao ponto de se deixar gozar por andar como que a divulgar a Bíblia e a pregar o Evangelho segundo São Centeno ao brandir sistemática e repetidamente o programa elaborado por um conjunto de economistas sérios e bem intencionados. E brande-o sem moderação.
Muito poucos portugueses irão ler o programa do PS para uma futura governação. Deviam lê-lo? Sim, deviam. Mas não o vão fazer. Até porque têm (sem qualquer culpa de Costa, reconheça-se) motivos para considerar este tipo de programas irrelevante, sobretudo nesta fase. A realidade é que o combate da campanha trava-se na arena, não num centro de estudos. A arena de hoje são as televisões, a rádio, a Web e a rua. E, na arena, quer se queira quer não, avaliam-se as técnicas de golpe e contragolpe dos contendores, assim como o seu ânimo e segurança, em relação ao outro, não à bondade do propósito individual, até que um deles apareça como vencedor. Embora seja sabido que não é católico, a verdade é que Costa confia demasiado no poder da pregação e no sistema de oferta da «outra face», defendido, segundo consta de escritos antigos, por J. Cristo. Faz uma bela vítima, mas não mais do que uma vítima. Dizem que se ganha o céu. Mas penso que o objetivo, neste caso, é ganhar a Terra.
Não tenho dúvidas de que, uma vez no poder, Costa fará incomensuravelmente melhor do que a corja de aldrabões sem pátria que agora lá está. A Câmara de Lisboa funciona como bom exemplo e garantia. Para lá chegar, porém, tem que passar ao ataque. Se preciso for, mude de assessores. Arrange uns que o informem das calinadas, patacoadas, aldrabices e charlatanices diárias, e também passadas, dos membros da PàF. Mesmo dando desconto às sondagens, algo vai mal nesta campanha. E, definitivamente, não tem só que ver com o que é dito neste artigo.