A opinião é livre, logo, não há que guardar silêncio, e Francisco Assis não tem medo da solidão (caso ninguém o acompanhe). Assim começa e acaba o seu artigo no Público de hoje. No meio, o que já todos sabemos: Assis discorda da estratégia de aproximação das esquerdas. Mas os argumentos que apresenta não colhem, escamoteiam a realidade e demonstram alguma incapacidade de leitura do contexto e do futuro.
Ao querer que o PS assuma o estatuto de maior partido da oposição, e não mais do que isso, ou seja, uma «oposição sem poderes», Assis conforma-se com a não utilização de todos os recursos de uma democracia em prol de um bem maior, parece não estar revoltado com o que está a acontecer em Portugal por responsabilidade direta da PàF e deseja renovar o eterno diploma de menoridade e irresponsabilidade aos partidos mais à esquerda do PS, mesmo que estes se mostrem disponíveis para abdicar de algumas das suas posições mais extremistas ou conflituantes, algumas delas tão datadas que se tornaram anacrónicas (e até os próprios, com jeito, são capazes de se rir de algumas referências dos seus programas e estatutos). É certo que algumas dessas ditas «bandeiras» nunca serão reconhecidas como utopias pelos próprios, mas isso faz parte do jogo político, assim como da necessidade de afirmação e também do crescimento. Nada que não se possa compreender e com que não se possa lidar. A bem de uma mudança na qualidade da nossa democracia, vale a pena tentar o diálogo e uma ação conjunta. Nada nos garante que não resulte.
Que Assis invoque o que estes partidos andaram a dizer do PS durante a campanha eleitoral para manter a distância sanitária é inaceitável, pois implica o esquecimento propositado do que a coligação andou, por sua vez, a dizer durante a mesma campanha e, já antes, da sua relação prática, agressiva, quando não insultuosa e javarda, com o PS. Entendimentos com esta direita, ó Assis, mesmo que pontuais? Mas você não reconhece radicalismo, indiferença e falta de perspectiva em demasia nesta coligação e nas políticas seguidas nestes últimos quatro anos? Não reconhece sequer a miséria dos resultados? Está melhor, Portugal? Estruturalmente, mudou alguma coisa, ou apenas empobrecemos? Não concorda que algo de muito diferente tem que ser feito ou, no mínimo, tentado? E que é melhor que se procure uma solução quanto antes, já que existem abertura e condições únicas, e um líder talhado para tal? Ou Assis acata pacificamente que o PS esteja condenado a uma posição minoritária, se não mesmo ao desaparecimento, a menos que surja um líder excecional como José Sócrates que lhe conquiste uma maioria absoluta? Cinquenta anos à espera? Cem?
É também surpreendente que Assis não pareça nada preocupado com o desgaste a que o partido estaria sujeito em caso de não acordo à esquerda, na realidade, o mesmo desgaste da campanha eleitoral – António Costa foi permanentemente guerreado e de ambos os lados. Como se esse desgaste não tivesse sido óbvio e não tivesse tido consequências no resultado eleitoral. Lindo programa para o seu partido, ó Assis! Ora levava de um lado, ora levava do outro. No futuro, só o seu estatuto de mártir lhe poderia granjear uma maioria de votos para poder executar finalmente o seu programa. Mas quem quer saber de mártires?
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Volto aqui só para acrescentar que, seguindo a ideia de Assis, assente no receio de que a coligação caia ou não governe, o tipo de oposição do PS só poderia ser uma não oposição, ou seja, uma anuência constante com as propostas do governo, pois, caso o PS se opusesse a alguma medida proposta, ou se opusesse repetidamente, estaria certamente a votar ao lado dos «proscritos» da extrema esquerda e ainda poderia o governo cair, caso a oposição fosse demasiado impeditiva. O que não pode ser, pelos vistos. Não ocorre a Assis o gozo que daria à coligação explorar esse receio.