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O alemão que se foi deitar a pensar que teve graça

É verdade que há por aqui, em Portugal, uma grande reverência, acompanhada de temor, perante as «instituições» europeias, sobretudo o Eurogrupo (uma entidade sem verdadeiro estatuto), onde prepondera o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble. Os jornalistas contribuem em muito para essa ideia de reverência, veiculam-na e apropriam-se abusivamente dela. É vê-los agora, com o novo governo, a insistirem constantemente na tecla da reação do Eurogrupo, “ai como se portará Centeno no Eurogrupo”, “ai quando é que Portugal leva um puxão de orelhas”. Meus senhores, já paravam com infantilidades como estas. Tratem os governantes com respeito, façam perguntas enquanto portugueses (ou não façam, talvez seja melhor), não lustrem o ego de pessoas arrogantes, tenham um mínimo de orgulho no país e desejo de que esse orgulho seja assumido e defendido nas instâncias europeias.

Vem isto a propósito do seguinte: a uma pergunta de um jornalista (penso que português) a Schäuble sobre o novo ministro das Finanças português e as garantias que deu ou não deu de cumprimento dos compromissos europeus, o alemão, transbordando paternalismo, meteu lá pelo meio da sua resposta tão afável quanto um alemão o pode ser (conhece bem Costa), mas à condição, a seguinte graçola:

«Se assim for [se o plano orçamental a apresentar por Portugal for no sentido do cumprimento dos objetivos europeus], Centeno poderá até ficar sentado ao meu lado no Eurogrupo» (cito de cor, ouvido há momentos na RTP). E sorriu, de certa forma triunfante. O que disse é ofensivo.

Se era para ter graça, não teve. Para fazer de Dolly, já bastou a Maria Luis. Mário Centeno deve continuar bem disposto ao falar com esta gente, mas, se fosse a ele, optava por sentar-me em lugar mais distante e higiénico.

Publicidade ao «Padre Nosso» nos cinemas: no mínimo, um péssimo momento

A Igreja Anglicana queria aproveitar a estreia do filme Star Wars em Inglaterra para publicitar a prática da oração ao «senhor». 80% das cadeias cinematográficas recusaram-se a exibir tal anúncio. A entidade que gere a maior parte da publicidade nos cinemas, a Digital Cinema Media, justificou a recusa do seguinte modo, de acordo com o Guardian:

Digital Cinema Media, […] has “a policy not to run advertising connected to personal beliefs, specifically those related to politics or religion. Our members have found that showing such advertisements carries the risk of upsetting, or offending, audiences.”

Concordo com a primeira parte da justificação e dispensaria a justificação suplementar. Começando por esta última, tem e não tem razão Richard Dawkins, o mais conhecido cientista ateu e ateu científico, citado pelo mesmo jornal, quando diz que quem se sente ofendido por este apelo tão inócuo merece ser ofendido (“I still strongly object to suppressing the ads on the grounds that they might ‘offend’ people. If anybody is ‘offended’ by something so trivial as a prayer, they deserve to be offended. ). Se for essa, a ofensa, a base da recusa, estamos de acordo em que é de repudiar a reação das cadeias de cinema. Já devemos ter ganho carapaça contra essa conversa. No entanto, há ofensas e ofensas, dependendo de quem publicita o quê em matéria religiosa. E isto leva-me à primeira parte, sobre a qual há mais que se lhe diga. Parece-me evidente que a política e a religião dividem as pessoas e não é do interesse de uma sociedade comercial que visa captar o máximo de audiências e, vá lá, de consensos quanto à qualidade dos produtos exibidos, o seu core business, começar por colocar os espectadores uns contra os outros ou suscitar a antipatia de parte do seu público. Depois, a religião é um assunto privado, de facto. Mas dir-me-ão que não há problema algum em publicitar um apelo de uma dada igreja à oração: quem adere, adere, quem não adere, esquece e passa adiante. Pois, a questão é que, por essa lógica, nada impediria os muçulmanos, todas as variantes incluídas, mesmo as mais aberrantes à luz dos nossos valores, eventualmente todas presentes em Inglaterra, de fazerem (ou exigirem) passar publicidade semelhante nas salas de cinema, em nome da liberdade de expressão e de culto e da não discriminação. No limite, todas as correntes religiosas do mundo poderiam querer passar mensagens antes do «Guerra das Estrelas» e outros filmes semelhantes de grande audiência, sobretudo jovem, e aquilo que até poderia ser uma disputa cómica correria o sério risco de trazer a religião e seus conflitos rapidamente à ribalta no mundo ocidental, onde felizmente jazem em paz há um par de séculos. E como foi difícil lá chegar.

Ó Church of England, não se metam nisso. Não nos faltava mais nada. Organizem uma sessão de Star Wars nas paróquias, seguidas de debate à luz da vossa teologia. Não era essa a ideia? Eu sei que não. Não era a mesma coisa? Pois não. Mas pensem dois minutos.

Colunista doente

TVI24, 21.45. João Miguel Tavares não ultrapassa a obsessão com Sócrates. Ninguém, nem os comentadores da direita que ultimamente tenho ouvido, e são mais que muitos, se lembrou de pegar no tema da «proximidade com José Sócrates» para criticar os ministros ou os ministeriáveis do PS, sob a liderança de António Costa.

Que JMT tenha escrito, hoje, um artigo no Público a defender que quem algum dia tenha privado com Sócrates deveria estar interdito de aparecer em público, quanto mais integrar um executivo (então e o Costa?), enfim, o homem está treinado nisto, foi promovido por isto, isto é o seu ganha-pão nos jornais, há mais traumatizados como ele; mas não ter entretanto, em 24 horas, tido a capacidade para se recompor e ganhar alguma compostura e tino ao apresentar-se como comentador na televisão, pegando na mesma paranoia e insistindo em desenvolvê-la, já é mais preocupante, para além de espetáculo degradante da sua pessoa. E eu sou uma boa alma. Possivelmente acho que devia tratar-se. Na televisão, o absurdo acentua-se. Vejam o tal senhor Pedro Arroja, que perora no Porto Canal. Se escrevesse as extraordinárias baboseiras que por lá diz sobre a sabedoria das mulheres a fabricarem pénis, ninguém se incomodaria muito. Na televisão, é surreal. É um fenómeno. Um caso de estudo. Assim está o Tavares. Enxerga-te, menino. Ou pede ajuda.

Novo Governo – primeira boa impressão

 

A confirmar-se ser esta a composição do novo Governo do PS, parece-me bem pensada, para não dizer impecável, apesar de haver três ilustres desconhecidos para mim – nas pastas do Ambiente, da Administração Interna e da Ciência. Até João Soares me parece bem talhado para a pasta da Cultura. Não sei se é inédito uma procuradora do MP ser responsável pela pasta da Justiça, mas, se for, é uma curiosidade (e um risco) merecedora de ser acompanhada. Penso também que é boa ideia manter João Galamba no Parlamento, dado o fel que a direita segregará em modo desvairado. Conjugado com Pedro Nuno Santos, Galamba chamá-los-á ao planeta Terra. Pedro Marques, Maria Manuel Leitão, Capoulas Santos e Ana Paula Vitorino não poderiam estar noutro lado – ótima escolha e garantia de eficácia. Parabéns.

Primeiro-ministro – António Costa

Ministro da Saúde –  Adalberto Campos Fernandes

Ministra da Justiça – Francisca Van Dunem

Ministro-adjunto do Primeiro-ministro – Eduardo Cabrita

Ministro das Finanças – Mário Centeno

Ministro da Economia – Manuel Caldeira Cabral

Ministra da Presidência e da Modernização Administrativa – Maria Manuel Leitão Marques

Ministro do Trabalho e da Segurança Social – Vieira da Silva

Ministro do Planeamento e Infraestruturas – Pedro Marques

Ministro da Educação – Tiago Brandão Rodrigues

Ministro dos Negócios Estrangeiros – Augusto Santos Silva

Ministra da Administração Interna – Constança Urbano de Sousa

Ministro da Defesa – Azeredo Lopes

Ministro da Ciência Tecnologia e Ensino Superior –Manuel Heitor

Ministro do Ambiente – João Pedro Matos Fernandes

Ministro da Agricultura – Capoulas Santos

Ministra do Mar – Ana Paula Vitorino

Ministro da Cultura – João Soares

Secretária de Estado Adjunta do Primeiro-ministro – Mariana Vieira da Silva

Secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares – Pedro Nuno Santos

Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros – Miguel Prata Roque

Duas perguntinhas ao ex-administrador da Tecnoforma

  1. Atendendo a que a grande raiva da trupe laranja se deve ao facto de o PS não ter querido apoiar nem viabilizar um governo liderado pela coligação PàF, eu pergunto em que é que um governo PàF «viabilizado» no Parlamento pelo PS, que poderia garantir a aprovação do seu programa e do seu primeiro orçamento e nada mais, seria mais estável do que um governo do PS com o apoio declarado, «na perspetiva da legislatura», de dois partidos à sua esquerda, sendo o grande, o enorme, fator de união entre os três, a rejeição das práticas da direita exibidas nos últimos quatro anos?

  1. O que vos leva a pensar que a convocação de novas eleições vos daria um resultado diferente, para (muito) melhor?

[À saída da Palácio de Belém, foram estas as declarações de Passos Coelho:

O PS tem a obrigação política e moral de apresentar uma solução de Governo.”

Sublinhando que o próprio António Costa afirmara que não derrubaria o Executivo PSD-CDS sem ter uma alternativa “credível, consistente, estável e duradoura”, o ainda primeiro-ministro frisou, contudo, que os socialistas ainda não têm “essa garantia”, nem sequer a garantia de que “partidos anti-europeístas e anti-NATO”, BE e PCP, assegurem essas condições de estabilidade.

Por isso, e perante aquilo que considera ser três acordos com pouca consistência, Passos notou que o cenário que mais agradaria ao PSD passaria pela devolução da palavra aos portugueses, com Cavaco a convocar novas eleições, algo que o Chefe de Estado está constitucionalmente impedido de fazer.]

Fonte

Apocalípticos e desintegrados

1. Segundo os extensos e excelentes artigos que tenho lido sobre o DAESH (ou ISIS), os seus combatentes e mentores acreditam serem os agentes do Apocalipse, que estará próximo. Sugiro ao resto do mundo que, em podendo, lhes mostre quão próximo está, ou estava. Para eles.

2. Há quem diga que se pode decapitar a organização terrorista, mas mais dificilmente a ideia. Penso que há, mesmo assim, grande vantagem nessa decapitação. Em primeiro lugar, as ideias não existem sem os homens. E esta ideia macabra partiu de alguém (provavelmente renascerá em outras cabeças; mas a luta contra o obscurantismo é eterna, com períodos de pico). Depois, a essa decapitação, pode seguir-se o desmantelamento e o desmembramento da organização (ainda que possa ser temporário, dá tempo a que mais mentes progridam, que o financiamento seja dificultado, que se descubra haver vida inteligente noutros sistemas estelares, enfim). Sem as escolas terroristas, por exemplo, que exigem alguma organização política e social, será mais difícil formar militarmente e preparar psicologicamente os recrutados ou aderentes. Em terceiro lugar, quando muitos compreenderem que o tal Apocalipse é só para eles e nem sequer é causado por eles, talvez comecem a utilizar a parte adormecida dos seus cérebros, os neurónios. De qualquer maneira, penso que não será tempo perdido.

3. Há também quem se interrogue por que razão jovens nascidos, criados e educados na Europa se deixam seduzir por uma organização tão violenta, fanática e alucinada. Na verdade, estes jovens nasceram geograficamente na Europa, mas as respetivas famílias nunca abandonaram as práticas e os valores do Islão, sendo nesses valores que educam os filhos. Claro que o Islão pode não ser isto, havendo milhões de muçulmanos  a viver pacificamente no Ocidente. Mas há uma raiz comum e uma interpretação literal do Corão possível. Entre o mundo à sua volta, altamente contrastante, e os apelos e o colete de forças da religião do profeta, é plausível que algumas cabeças menos equilibradas, sem futuro ou mais perdidas entrem em curto-circuito e passem a ter orgulho em morrer, matando. “Eager to recruit, the group may spend hundreds of hours trying to enlist a single individual, to learn how their personal problems and grievances fit into a universal theme of persecution against all Muslims.” (fonte: The Guardian). A chamada «integração» plena só excecionalmente acontece. E é lenta. A organização acena-lhes com uma identidade (que sentem não ter) e com uma causa e não custa perceber que eles as agarrem. Além disso, para muitos jovens, há toda uma adrenalina em manejar armas. Capture the rebelliousness of youth, their energy and idealism, and their readiness for self-sacrifice, while fools preach ‘moderation’ (wasatiyyah), security and avoidance of risk.” (excerto do Manifesto “The Management of Savagery/Chaos”, assinado por um tal Abu Bakr Naji, para o ramo da Al Qaeda para a Mesopotâmia, que se transformou no DAESH, citado no mesmo artigo do The Guardian).

Condenados a minorias, é o fim da democracia

Ler os colunistas do Observador é deveras divertido por estes dias. Há gente verdadeiramente febril e à beira do delírio. A Maria João Marques, por exemplo, penso que desconhecida em Berlim e em Bruxelas, mas brevemente conhecida nas nossas televisões de cabo, não tenho dúvidas, diz-nos hoje que tem a boca aberta de espanto com a “hipocrisia e a imoralidade” que grassa no PS. Como se atrevem a querer governar com o apoio de uma maioria no Parlamento, quando a coligação não pode, por falta desse mesmo apoio? Como? Sim, como???

E o que atormenta, o que mais indigna esta alma?

«Mas o mais grave não é isto. Nem sequer que PCP e BE estejam a determinar e tutelar as políticas do governo PS. É que deixámos de viver em democracia. Depois de ontem, o PS pode governar sempre que ganhar eleições mesmo com maioria relativa. Mas, depois de ontem, o PSD só pode governar se, juntamente com o CDS, alcançar uma maioria absoluta. A direita tem agora uma sobretaxa eleitoral que precisa de pagar para poder governar. Copiando Orwell, ‘todos os partidos são iguais mas uns são mais iguais que outros’. »

É isto, leram bem. Vivíamos em democracia enquanto uma ala do Parlamento não queria colaborar na governação do país, mas “deixámos de viver em democracia” a partir do momento em que essa ala, eleita por milhares de portugueses, tão eleita como qualquer outra, resolveu acordar para a participação ativa na política depois de assistir à pouca-vergonha do governo da direita.

Estamos perante uma tragédia. É uma ditadura! “Deixámos de viver em democracia” porque no Parlamento se fazem agora alianças. Um escândalo. Será que a Europa já sabe? O pânico é tal que esta mulher até se esquece que os dois partidos da coligação acabaram de governar quatro anos com maioria absoluta, para mal dos nossos pecados.

Conservadora como é, para ela, um radical deve radicalizar. Não radicalizou sempre? Não era a tradição? O que é lá esta modernice? Não devem os esquerdistas esquerdizar? E, de vez em quando, não lhes devemos dar a mão para derrubar governos minoritários do PS? Valha-me deus, sim. Duas vezes sim. Era assim em Portugal. E assim é que estava bem. Com esta mudança, tão abrupta que lhe tira o ar, que vai ser do PSD? Só pode contar com o CDS! O que é isso, o CDS? O que é desta gente sem os Bobis a ladrarem ao PS? Algo me diz que esta PSD se sente abandonada.

Que o PS até agora tivesse de contar apenas consigo próprio para alcançar maiorias absolutas, era a ordem natural das coisas. Tudo joia. Diamante mesmo. Democracia plena. Mas o PS passar a ter aliados? Isso é deveras imoral. É o fim da democracia. Não se faz.

Azar dos Táv… Tavares

Já tudo foi dito sobre a legitimidade de um governo do PS parlamentarmente apoiado pelos partidos à sua esquerda. É totalmente legítimo, é constitucional e não constitui qualquer originalidade, muito menos anormalidade, no contexto europeu. É tão legítimo e aceitável como seria um governo da PàF com o apoio parlamentar do PS. Sucedeu que, com esta direita dos negócios privados com a coisa pública, das mentiras mais despudoradas jamais proferidas, da falta de orgulho nacional, da sujeição vergonhosa à Alemanha, da insensibilidade social radical e da caridadezinha, foi fácil, óbvio e desejado até por ela própria o corte com o centro moderado representado pelo PS, para já não falar do sobressalto provocado na ala radical do Parlamento. Ultrapassaram-se linhas vermelhas demais. A reação e os entendimentos à esquerda eram inevitáveis. As Teresas Leais Coelho desta vida não os previram. Azar. Não tinham consciência de si mesmas nem, pelos vistos, conheciam o António Costa.

Braços armados da coligação, os escribas da direita continuam traumatizados com a mudança operada, incapazes também de ver no comportamento da dupla Passos/Portas a causa desta «revolução» parlamentar, tendo nesse trauma também um certo peso o que vêem como uma «traição» da extrema-esquerda, aliados da direita nas horas difíceis. Juram vingança. O grosso da cambada reúne-se no Observador. Mas estão por todo o lado no papel de comentadores. Há «paletes» deles nas televisões, onde já não basta um de cada vez. Vão aos pares e aos trios. Não se aguenta.

O caluniador-mor, João Miguel Tavares, a quem o Público enigmaticamente acha graça e no qual viu uma fonte de receitas (e que foi sem surpresa catapultado para a televisão, neste período de intensíssima ocupação do espaço público pelas ratazanas, e nem assim lá vão), encontra com gosto dias da semana em que apura a técnica da velhacaria mais repugnante. Hoje é um deles. Agora é António Costa que “furou, furou, furou sem parar”, até conseguir ser primeiro-ministro. Furou?? E chamas-lhe intrujão?Porquê o insulto? Ó Tavares, o que é que querias? Maioria absoluta nas eleições, não obtiveste. Desconfio que sabes porquê. Maioria absoluta no Parlamento, não tens com quem e não te podes queixar. O PS do Seguro, tonto, temeroso e conivente, já lá vai e paz à sua alma, apesar das assombrações assísicas. A União Nacional também já lá vai e há várias décadas. Não podes repetir as eleições, não podes obrigar os portugueses a votarem na direita daqui a uns meses e não podes viciar as eleições. Neste momento, não podes governar. Resta-te estrebuchar enquanto te pagarem, mas vai ser mau para a saúde. Vê lá isso.

Entregar-se a deus por via aquática

Enquanto alguém trata do assunto sério de correr com os neosalazaristas que há quatro anos se alçaram ao poder, vamos ter os dez dias que não vão abalar o mundo mais divertidos desde Santana Lopes. Não é piada: Passos contratou mesmo o Diácono Remédios, para quem um homem que morre arrastado pelas águas no Algarve foi vítima de uma “fúria demoníaca” e se “entregou a Deus” (carregar nos «esses», por favor). Ver para crer:

Urgia pôr fim a esta rede assassina

Raramente vejo os programas do José Gomes Ferreira (JGF) na SIC Notícias. Este último, no entanto, vi, porque me chamaram a atenção para ele. O jornalista tem como convidado o CEO do Grupo LENA, Joaquim Paulo Conceição, e o objetivo é inquiri-lo (embora o termo mais próprio seja «acusá-lo») sobre o  alegado favorecimento das suas empresas no tempo do governo de Sócrates. O «alegado» é meu. Pelo tom perentório do jornalista, o favorecimento não é de todo alegado, aconteceu mesmo, todos os portugueses sabem que assim foi e, no arranque do programa, é impante dessa certeza que pretende provar que só maluquinhos afirmarão o contrário. Ou bandidos. Ou cúmplices da marosca. Força, José, vais apanhá-lo! E lá vieram a Parque Escolar, as estradas, o TGV, etc. pela boca profissionalíssima do José. Acontece, porém, que, do princípio ao fim, é confrontado com dados que desmentem todas as suas convicções e só o muito traquejo em entrevistas pulhas face às câmaras o impede de exibir a cara de parvo que seria lógica e que fica a faltar.

Sem possibilidades de colocar aqui o vídeo, recomendo aos interessados que vão até à SIC Notícias de quarta feira e procurem o programa Negócios da Semana.

Esta curta entrevista é importante, porque é a prova viva do respaldo e do alimento que as calúnias e insinuações do Correio da Manhã (e outros) oferecem a pessoas como o JGF. Se não fosse essa magnífica fonte, o que saberia este homem «de fonte segura» que lhe permitisse abalançar-se a estes agressivos interrogatórios e, no fim, imprevistas tristes figuras? Atira com os milhões de que ouviu falar ou que leu no pasquim como tendo sido pagos pelo Grupo LENA a Sócrates, ou de contratos adjudicados no seu mandato, como se estivesse possuidor de uma verdade irrefutável ou tivesse até descoberto a pólvora. «Como é que sabe?» «Quem é que lhe disse?», pergunta Paulo ao jornalista, mas este prefere fingir que não ouviu e passa a outra. Possivelmente, para não ter que dizer «li no jornal». Felizmente, começa a ser vergonha essa referência. No fim, JGF, perante as evidências e contas que o «réu» lhe põe à frente do nariz e a explicação das atividades do grupo, vê-se obrigado a justificar o interrogatório com a busca da verdade e quase pede desculpa ao convidado, elogiando-o até.

Não sei se vai aprender alguma coisa. Temo que não. Temo que vá continuar a buscar permanentemente a verdade nestes moldes. Da próxima vez, lá virá ele com os milhões pagos ilegalmente a Sócrates, que ele sabe de fonte seguríssima provirem do Grupo LENA.

Estou, pois, curiosa por ver o que acontece a todo este bando de linchadores, agora que não têm o cabecilha da rede a dar-lhes o mote e as provas irrefutáveis? Irão fazer uma manifestação?

Nada

O Correio da Manhã escuda-se num português dúbio e nas convicções do Ministério Público, inscritas no processo Marquês, para publicar títulos indubitavelmente acusatórios, como se fossem verdades comprovadas.

Confissão de Barroca trama Sócrates

Destinatário final de 12 milhões de euros foi José Sócrates, diz o procurador nos despachos que fundamentam prisões do ex-governante e do amigo.

Sendo mais tarde desmentidos (Observador de hoje), o efeito já foi obtido.

Os três interrogatórios a que foi sujeito entre 23 de abril e 22 de julho demonstram, e ao contrário do que foi noticiado, que Barroca não ‘entregou’ Sócrates, apesar de ter admitido várias questões que incriminam Carlos Santos Silva.”

O que acontece a um jornal de grande tiragem que publica notícias falsas, lesivas do bom nome de alguns cidadãos?

Tão errado que está Francisco Assis

A opinião é livre, logo, não há que guardar silêncio, e Francisco Assis não tem medo da solidão (caso ninguém o acompanhe). Assim começa e acaba o seu artigo no Público de hoje. No meio, o que já todos sabemos: Assis discorda da estratégia de aproximação das esquerdas. Mas os argumentos que apresenta não colhem, escamoteiam a realidade e demonstram alguma incapacidade de leitura do contexto e do futuro.

Ao querer que o PS assuma o estatuto de maior partido da oposição, e não mais do que isso, ou seja, uma «oposição sem poderes», Assis conforma-se com a não utilização de todos os recursos de uma democracia em prol de um bem maior, parece não estar revoltado com o que está a acontecer em Portugal por responsabilidade direta da PàF e deseja renovar o eterno diploma de menoridade e irresponsabilidade aos partidos mais à esquerda do PS, mesmo que estes se mostrem disponíveis para abdicar de algumas das suas posições mais extremistas ou conflituantes, algumas delas tão datadas que se tornaram anacrónicas (e até os próprios, com jeito, são capazes de se rir de algumas referências dos seus programas e estatutos). É certo que algumas dessas ditas «bandeiras» nunca serão reconhecidas como utopias pelos próprios, mas isso faz parte do jogo político, assim como da necessidade de afirmação e também do crescimento. Nada que não se possa compreender e com que não se possa lidar. A bem de uma mudança na qualidade da nossa democracia, vale a pena tentar o diálogo e uma ação conjunta. Nada nos garante que não resulte.

Que Assis invoque o que estes partidos andaram a dizer do PS durante a campanha eleitoral para manter a distância sanitária é inaceitável, pois implica o esquecimento propositado do que a coligação andou, por sua vez, a dizer durante a mesma campanha e, já antes, da sua relação prática, agressiva, quando não insultuosa e javarda, com o PS. Entendimentos com esta direita, ó Assis, mesmo que pontuais? Mas você não reconhece radicalismo, indiferença e falta de perspectiva em demasia nesta coligação e nas políticas seguidas nestes últimos quatro anos?  Não reconhece sequer a miséria dos resultados? Está melhor, Portugal? Estruturalmente, mudou alguma coisa, ou apenas empobrecemos? Não concorda que algo de muito diferente tem que ser feito ou, no mínimo, tentado? E que é melhor que se procure uma solução quanto antes, já que existem abertura e condições únicas, e um líder talhado para tal? Ou Assis acata pacificamente que o PS esteja condenado a uma posição minoritária, se não mesmo ao desaparecimento, a menos que surja um líder excecional como José Sócrates que lhe conquiste uma maioria absoluta? Cinquenta anos à espera? Cem?

É também surpreendente que Assis não pareça nada preocupado com o desgaste a que o partido estaria sujeito em caso de não acordo à esquerda, na realidade, o mesmo desgaste da campanha eleitoral – António Costa foi permanentemente guerreado e de ambos os lados. Como se esse desgaste não tivesse sido óbvio e não tivesse tido consequências no resultado eleitoral. Lindo programa para o seu partido, ó Assis! Ora levava de um lado, ora levava do outro. No futuro, só o seu estatuto de mártir lhe poderia granjear uma maioria de votos para poder executar finalmente o seu programa. Mas quem quer saber de mártires?

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Volto aqui só para acrescentar que, seguindo a ideia de Assis, assente no receio de que a coligação caia ou não governe, o tipo de oposição do PS só poderia ser uma não oposição, ou seja, uma anuência constante com as propostas do governo, pois, caso o PS se opusesse a alguma medida proposta, ou se opusesse repetidamente, estaria certamente a votar ao lado dos «proscritos» da extrema esquerda e ainda poderia o governo cair, caso a oposição fosse demasiado impeditiva. O que não pode ser, pelos vistos. Não ocorre a Assis o gozo que daria à coligação explorar esse receio.

As ratazanas

Pululam pelos jornais e televisões indivíduos que ninguém suspeitava existirem há cinco ou dez anos. São diretores ou ex-diretores de jornais, atuais chefes de redação ou simples redatores que se orgulham do seu analfabetismo político e da falta de cultura democrática. Orgulham-se também, sabe-se lá porquê, e fazem questão de o exibir, do seu ódio visceral a tudo o que não seja da direita e, pasme-se, da direita mais radical, anti-patriótica e desumana que este país já conheceu. Será um problema do foro psiquiátrico? Serão amantes de Salazar? Ou, como diria o Paulo  Rangel (aquele do “alguém acredita que num governo socialista”), só agora é que estão criadas as condições na sociedade portuguesa para estas ratazanas se exibirem em todo o seu nojo? Deve ser. Com Passos, Portas, Marco António, Melo e Rangel, ao que isto chegou! Quase não reconheço o meu país.

Vale a pena ler esta compilação, em estilo popular e em forma de vómito, de todas as imbecilidades que se têm ouvido e lido por aí nos últimos dias:

“OS GOLPISTAS DE ESQUERDA andam todos contentes em cimeiras e reuniões técnicas na esperança de formarem um governo que seria a maior fraude, o maior golpe, a maior mentira da história da democracia portuguesa. Socialistas, bloquistas e comunistas revelam bem o que pensam da democracia e o que pensam dos eleitores que ainda votam neste sítio cada vez mais mal frequentado. O chefe da trupe, o inenarrável António Costa, não olha a meios para salvar a pele e o pescoço.[…]”  [continuar a ler]

Ora bem, António Costa é um golpista porquê? Porque tenta formar uma maioria no Parlamento apta a governar com estabilidade, uma vez que a coligação a perdeu? Em que medida é isto um golpe? Não é o que se faz em todo o lado? Não foi o próprio Cavaco que disse que só daria posse a um governo maioritário? O que há de golpista em tentar acabar com os bloqueios à esquerda, que perderam há muito a razão de ser? Não será isso positivo, o fim dos guetos políticos?

Talvez esta gente tema perder as sempiternas muletas e os tradicionais aliados, enfim, os idiotas úteis, que eram os partidos de extrema-esquerda, para derrube de governos socialistas? Até agora, de facto, têm sido muito bem tratados.

Em resumo, este homem pensa ou quer convencer os mais incautos que houve um engano nas últimas eleições e que estas devem ser repetidas as vezes que forem necessárias até a direita voltar a ter maioria absoluta. E não está só. Está mesmo muito bem apoiado. Neste país que eu não conhecia, já se recomeçaram a fazer sondagens para corrigir esse engano.

Isto é tudo mesmo muito bonito, mas…

Aparentemente, e apesar do entusiasmo inicial de Catarina, que deu como acabado o governo da dupla Passos/Portas, nem todo o Bloco e nem todo o PCP (a julgar pelo que disse ontem um dirigente) querem ainda ir «sujar as mãos» num governo, neste caso de coligação à esquerda. Dá muito trabalho, exige compromissos e têm que se assumir responsabilidades. O conforto da «assistência» na bancada e a possibilidade do protesto perante o que os outros fazem são mais interessantes e garantem-lhes a conhecida pureza de uma água de nascente. É isso que se conclui das declarações deste bloquista:

Em entrevista à Rádio renascença, o líder parlamentar Pedro Filipe Soares disse que o Bloco de Esquerda não se compromete com um acordo de legislatura com o Partido Socialista e que o que está a ser negociado com António Costa é a viabilização de um Governo do PS e o Orçamento do Estado para 2016.”

Na minha modesta opinião, um governo liderado por António Costa que não tenha, neste momento, a participação de comunistas e bloquistas e abranja toda a legislatura não serve para a almejada estabilidade nem servirá para grande coisa, a não ser para desgastar o PS. Além de que nunca verá a luz do dia. Mas Costa saberá disso. Se a base do acordo entre os três partidos for a aprovação de apenas um orçamento e para o ano logo se vê, é mais do que evidente que Cavaco Silva disporá dos argumentos que lhe faltavam para não nomear o hipotético novel governo e pôr fim, tranquilamente, ao ataque de urticária que sofreu nos últimos dias. Objetivamente, a base seria demasiado frágil. Bloco e PCP, caso vinguem estas posições de «não me comprometam», facilitam a vida ao Senhor Silva, portanto. Aqui, nada de novo. E assim, como António Costa afirmou que não inviabilizaria o governo da direita se não tivesse uma alternativa de governo sólida à esquerda, o PS, na oposição, terá de abster-se no próximo orçamento e a coligação de direita irá governar durante um ano, porque à esquerda continua a não haver alternativa sólida. Os meninos não querem sujar as mãos. O Bloco (ou uma parte dele) acha giro ser provocador como o Syriza (o de janeiro) para depois ser usado como bola de trapos (o de agosto). Espero que António Costa saiba tirar partido desta absurda infantilidade, no caso do Bloco, e desta cobardia, no caso do PCP.

Não conheço as razões de Sérgio Sousa Pinto, mas discordo

Parece que SSP não concorda com a estratégia de António Costa de tentar um acordo de governo à esquerda. Mas que alternativa existe? Vejamos o lado dos credores, que não sei se é o que aflige subitamente SSP, mas que tanto aflige a direita e reis da asneira fácil como o José Gomes Ferreira. O que teriam gostado de ver nestas eleições? Que os PàF, desastrosos mas subservientes, tivessem mantido a maioria absoluta. Porém não penso que sejam tão ignorantes ou ingénuos ao ponto de acharem que tal era possível. O que teriam então gostado a seguir? Que a PàF governasse com maioria relativa e contasse com a abstenção ou mesmo com o apoio do PS. Para quê? Para continuar o lindo serviço. Ora, para poderem acreditar nesta hipótese, teriam de desconhecer totalmente o líder socialista, os seus princípios políticos, as suas preferências, pensar que estava disposto a levar alegremente o partido para o suicídio e desconhecer também a história de partidos como o PASOK, da Grécia. Não desconhecem. O partido praticamente desapareceu de tanto se confundir com a direita.

De modos que ou as coisas se arrastam durante uns meses sem qualquer garantia de entendimento à direita e com este presidente a recusar um governo de esquerda, até que um novo presidente da República convoque novas eleições e a direita consiga maioria absoluta, o que, salvo campanha magistralmente urdida, que eleve a pulhice e a falta de vergonha à quinta potência, me parece bastante improvável, pois não há como escamotear a situação social, económica e financeira do país, perto do descalabro (já e antes do eventual bico de obra para a formação de uma maioria), ou os credores terão de agradecer a Zeus o facto de ser um moderado como António Costa a liderar a esquerda e a moderar os radicais nesta situação, com um programa credível, que respeita os compromissos internacionais do país. A alternativa seria as instituições amanharem-se com um Syriza 2 também aqui nesta ponta do continente. Mas calma, não vai acontecer. E é já em dezembro que a Espanha vai a votos. António Costa tem a única solução possível e tem que ser bem sucedido. E apoiado.

Ainda que mal pergunte

  1. O Marcelo, sem o comentário dos domingos, e fora desse simpático mas leviano e sacana papel, vai conseguir ter sucesso na corrida a Belém? Ou, antes de sair, contratou com a TVI uma cobertura especial, plena de afeto?

2. Já podem libertar o Sócrates, agora que o Costa monopoliza o momento político?  Ou ainda não há vantagens?