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“É tudo socialista”, ou como a excessiva abertura ocular é sintoma de alucinação

Vale a pena ler a notícia de hoje do DN sobre a intervenção de César das Neves nas jornadas parlamentares do PSD, em Santarém. Por companhia de leitura, inevitavelmente, a memória do olhar esgaziado com que este senhor normalmente se apresenta em intervenções públicas. Esta não foi exceção. O homem considera-se um génio e pensa que posa como tal. Não passa, porém, de um louco.

Para ele, nunca foi feito o suficiente, no Portugal democrático, para o regresso da escravatura. Ora, isso é não só uma pena como também está na base de todos os nossos problemas. Há pobreza, há desigualdades gritantes, mas isso é porque ainda existem pequenos constrangimentos na lei laboral (a que ele chama rigidez excessiva do mercado laboral) e salário mínimo, ouvi-o uma vez dizer. Acabava-se com essa modernice e era ver o desemprego a diminuir a uma velocidade que deixaria nosso senhor Jesus Cristo incrédulo. O homem é bem capaz de estar louco. Deseja, mas não o confessa, um segundo resgate para Portugal. Só para provar que tem razão.

Com o senhor Pedro Arroja, do Porto Canal, já são dois que, à partida, são levados a sério ao ponto de lhes pagarem para terem voz na comunicação social. Salazar é citado no fim, qual cereja no topo do bolo, mas numa tirada banal, só para dizer que também o ditador de Santa Comba Dão achava que vivíamos acima das nossas possibilidades. Conhece-se esta admiração por Salazar e compreende-se a citação, pois nunca é demais lembrar que dos pobres é o reino dos céus. A referência à estabilidade da moeda é, porém, confusa, ou então o jornalista também foi enlouquecendo.

Este homem, repito, é levado a sério pela comunicação social, apesar de nos obrigar a mudar de canal para não ficarmos como o jornalista.

Notícias do homem-anedota

Passos Coelho andou ontem a dizer que o seu governo e a Troika cometeram muitos erros e que, no entanto, foi graças ao bom trabalho dessa parceria que o seu próprio governo começou a remover a austeridade em 2015.

Estas afirmações merecem-me as seguintes interrogações/comentários: que erros foram cometidos pela dupla governo PSD-CDS+Troika? Quais foram? Seria muito interessante saber, pois ainda há pouco tempo este homem se orgulhava de ter ido além da Troika, de tal maneira concordava com a sua visão das coisas. Depois, a austeridade que começou a “ser removida” no ano passado, ou, mais exatamente, o apregoar de uma redução num futuro próximo, pois na prática nada se viu, teve, como toda a gente sabe, a ver com a proximidade das eleições e a necessidade de não perderem votos. Mais nada.

As mãos pelos pés

«A falar em Bruxelas, na sede do Partido Popular Europeu, para uma plateia de social-democratas, apoiantes da sua recandidatura à liderança do PSD, Passos Coelho considerou que para “mudar a página” da austeridade é preciso avaliar prós e contras.

“A questão é saber se no afã de querer voltar essa página não tropeçamos e não temos de voltar atrás”, afirmou.»

Mau Maria. Afinal foi imprudente ao querer remover a austeridade? Afinal o atual governo é imprudente, avaliou mal a verdadeira situação herdada? Afinal não foi a sua ação extraordinária, as suas medidas, que permitiram o alívio da austeridade? Afinal é mau aliviar a austeridade? Sim, mas só quando fala para estrangeiros? Não há pachorra.

Passos, filho, esta é a realidade: em Portugal, a maioria das pessoas que não emigraram ganha mal ou muito mal, a maioria dos desempregados já não recebe qualquer subsídio, a pobreza aumentou, os serviços públicos, sobretudo a saúde, funcionam mal e estão exangues, o país considera-se punido (alguns, os que ainda votaram em ti, justamente punidos) e, apesar de tudo isso, a dívida pública aumentou, o sistema bancário está fragilíssimo, o défice diminuiu muito pouco, ficando sempre aquém das previsões, o investimento produtivo é nulo, as perspetivas económicas eram más em finais de 2015. É isto.

O desejo de inversão da política de austeridade não se deve ao bom estado do país. Deve-se, pelo contrário, à constatação de que a austeridade foi um fracasso e à convicção de que deve haver alternativa, se o objetivo for melhorar a autonomia do país, a sua economia, as qualificações e, enfim, a vida dos portugueses, ou seja, das empresas, dos desempregados, dos velhos, das crianças, dos reformados, dos trabalhadores.

Segue cópia para o César das Neves (hoje no DN com o Titanic IV), que estacionou até ao fim dos seus dias na narrativa falseada e podre do que aconteceu em 2008 e de lá manda bombas de mau cheiro regularmente. Ele e outros.

Jogos de guerra – “passerelle” aérea e outros riscos incompreensíveis

Partindo de Olengorsk, na península de Kola, eu diria com toda a certeza que a Síria fica para sul. No entanto, por razões que quase me escapam, os pilotos russos de dois Tupolev TU-160 Blackjack, cada um com capacidade para transportar 16 mísseis nucleares, acharam mais útil e divertido dar uma voltinha pela Europa num percurso de 8 000 milhas, antes de se dirigirem ao destino final da sua missão –  a Síria. Para se exibirem? Para ver em que param as modas nas bases aéreas europeias?

O Cisne Branco, nome por que é conhecido o Blackjack, é um bonito avião. Os ingleses mandaram de imediato os seus Typhoons para «dar as boas-vindas» aos dois intrusos e mostrar-lhes a porta de saída, aparentemente perdida. Atingindo uma velocidade superior ao dobro da velocidade do som, o bombardeiro russo pode desaparecer enquanto o diabo esfrega um olho. Deve ter sido o que fez.

A Rússia gosta de exibir o seu potencial e o seu material bélico, muitas vezes com claro intuito provocatório, como parece ser o caso em mais esta tangente hoje mesmo passada ao espaço aéreo da Noruega e da Grã-Bretanha. Demonstração de força, agora que Putin declarou o regresso à guerra fria? Claramente. O querosene também não está caro. Mas o certo é que os bombardeamentos da Síria prosseguem e o Reino Unido fica exageradamente longe. Os russos são bizarros. Mas quem tem razão na forma de lidar com este conflito?

Confesso que outra coisa que me escapa são as razões da política ocidental em relação ao conflito na Síria. A Rússia, pelo menos, é clara nessa matéria. É aliada de Assad, tem interesses na Síria, está do lado do regime; além disso, tal como o Ocidente ou a Turquia, não tem interesse algum no avanço do radicalismo islâmico. Considera terroristas todos os que na Síria se insurgem contra Assad. Os tresloucados do Estado Islâmico são para matar (aí, todo o mundo está de acordo), os outros são pouco melhores, portanto, com eles, vai tudo a eito. Limpeza total, autoridade total. Possivelmente os russos têm razão, visto daqui do escritório. Também visto daqui, apraz-me dizer, de passagem, que, no meio de tantos alucinados e fundamentalistas islâmicos no terreno, Assad até me parece bem como ditador… O Ocidente (a França, os Estados Unidos, etc.), por sua vez, quer derrubá-lo, financiando para isso os chamados «rebeldes moderados». E para pôr lá quem? Diga quem souber. Será para apoiar mais uma fantástica mas até agora sempre invernosa «Primavera árabe»? Entretanto, a Síria candidata-se a ser o primeiro país do mundo sem habitantes. A Turquia encarrega-se dos curdos, a NATO do EI e a Rússia do EI e de todos os outros menos os curdos. A Síria está, pois, à beira de se transformar num gigantesco campo de extermínio. Pergunto-me se não seria melhor delegar de vez a solução nos russos. Eles querem e talvez saia mais barato e seja mais vantajoso para todos. Poderiam assumir até o problema dos refugiados.

Isto porque as razões do Ocidente não são fáceis de entender. As da França, por exemplo. O seu interesse no derrube de Assad. Alguém compreende a alternativa que propõe?

A este propósito (do estranho interesse da França, estranhíssimo) neste conflito, encontrei aqui esta opinião bem pertinente de um francês, que transcrevo:

Si la crise internationale relative à la Syrie devait gravement dégénérer à la suite des interventions projetées actuellement par les  puissances occidentales,  on chercherait en vain quels intérêts majeurs  auront motivé leur  terrible prise de risque, spécialement celle de la France,   dans cette affaire.

Le  pétrole ? Il n’y en a guère en Syrie.

Nos intérêts historiques ?  Il s’agissait surtout de protéger les chrétiens : ils conduiraient donc à soutenir le régime d’Assad qui le fait  mieux que quiconque. 

Défendre Israël  ?  Mais il est de notoriété publique que ses dirigeants sont divisés sur la question syrienne : une partie d’entre eux  ne souhaite pas voir, si Assad était renversé, les islamistes, voire les Turcs,  à 100 km de Jérusalem. On les comprend. La Syrie a-t-elle d’ailleurs jamais menacé Israël depuis   40 ans qu’elle est dirigée par la famille Assad ?

Détruire le Hezbollah, allié de l’Iran et menace pour Israël ? Mais l’extension de  la guerre à toute la Syrie, et sans doute au-delà, n’est-elle pas un détour totalement disproportionné à un tel objectif ?

Briser  l’arc chiite qui enveloppe aujourd’hui le Proche-Orient, du Liban  à l’Iran ? Mais cet arc n’existerait pas si la  guerre d’Irak n’y avait établi un pouvoir chiite : il n’ y avait pas assez de think tanks  outre-Atlantique pour prévoir que la règle majoritaire appliquée à ce pays conduirait à ce résultat  ?  Avons-nous d’ailleurs  à épouser les intérêts sunnites ?

Contenir la Russie ? Mais elle aussi se trouve sur la défensive. Après la chute de l’URSS, elle a dû  renoncer  à la plupart de  ses positions en Europe et  dans le monde : Angola, Mozambique, Somalie, Yémen  etc.     Géographiquement proche, elle  redoute légitimement l‘extension de l’  islamisme ( et,  pour cela,  soutient l’intervention des Etats-Unis en Afghanistan), et  a marqué clairement une ligne rouge en Syrie : elle ne tolèrera pas sans réagir  le renversement du régime d’Assad .  Un avertissement clair qu’il est très inquiétant qu’on ne l’entende pas.

A política é uma arte

Não podendo dar-se ao luxo de abrir mais uma crise política aqui na ponta ocidental da Europa por motivo de uns trocos e por embirração ideológica descarada, o que faz Merkel? Aceita o desfecho das negociações sobre o orçamento português e… elogia Passos.

“O antecessor de António Costa conseguiu coisas impressionantes”, disse Angela Merkel à imprensa, depois de um almoço com António Costa na sede do governo alemão.

“Os últimos anos em Portugal não foram fáceis. Mas foram bem-sucedidos”, prosseguiu a chanceler, dizendo ainda que importa “continuar o caminho bem-sucedido”, mas agora com “mais investimento e mais emprego”.

Ora, todos sabemos o quão «mal sucedidos» foram os últimos anos em Portugal, ao contrário do que diz a alemã. Todas as metas do défice falharam e a dívida pública aumentou. A gestão dos problemas da banca e as suas consequências foram desastrosas. A economia está de rastos. Não há investimento produtivo e centenas de milhares de pessoas tiveram de abandonar o país. No entanto, para não desmoralizar os caniches do governo de Passos, seus correligionários, passar uma imagem de sucesso da política europeia para os países em dificuldades, ditada pelos alemães, e abrir caminho a uma alternativa sem o dizer, porque há o cansaço do combate grego, declara que o governo de Passos conseguiu coisas impressionantes. Ou seja, só devido a essas coisas impressionantes foi possível uma mudança, uma abertura. Não lhe perguntaram quais foram as coisas impressionantes, mas isso também não interessava: o orçamento português estava aprovado. Mas que nós, portugueses, estamos “impressionados” de outra maneira com a matilha que saiu de cena, lá isso estamos. Siga. É o jogo político. Há que ser hábil, por cá.

Costa sai sempre melhor do que a encomenda

Não vim incomodar a senhora Merkel com o nosso Orçamento. Ela já tem o seu orçamento com que se preocupar

Talvez seja insegurança ou hesitação, talvez falta de jeito, mas as intervenções públicas de António Costa antes de ser eleito e assumir um cargo executivo deixam sempre muito a desejar, sendo também por isso que não obteve  melhor votação nas últimas legislativas (e na Câmara começou por contar apenas com a aura de credibilidade teórica de que gozava, para depois a converter em votos crescentes). Mas cada vez mais se comprova que Costa é melhor executor e negociador do que «campanhante» e «palrador».

A aprovação do orçamento para 2016 por Bruxelas pode parecer um feito maior do que na realidade foi devido às Cassandras e aos abutres que pululam na comunicação social e que dramatizaram muito mais do que o razoável as discussões com a Comissão. Mas que foi um sucesso, foi. É também inegável que tamanho alarido acabou por lhe ser benéfico e transformar uma mera e primeira negociação algo renhida, como seria normal, e bem sucedida numa clamorosa vitória. Admiro a sua postura de «os cães ladram e a caravana passa». E ele sabe bem como também haverá cães a ladrar, mais dia menos dia, do seu lado da trincheira. Por mim, gostarei de ver esta caravana a passar pelas distintas ladraduras.

A frase lá de cima sobre o orçamento da senhora Merkel é inteligente. É uma forma elegante de afirmar a nossa soberania.

O PCP perdeu o “game” e o “set” e anda a habilitar-se a perder o “match”*. Mudem de estratégia, tá?

Para começar, não percebo a excitação toda que por aí vai por causa dos 10% da Marisa Matias. Não foi essa a percentagem de votos obtida pelo Bloco nas legislativas? Qual é o espanto? Se é por causa do contraponto com o PCP, parece-me que seria mais lógico dirigir a admiração e a comunicação social apontar os holofotes ao Jerónimo de Sousa ou ao Edgar Silva.

A disputa do PCP com o Bloco de Esquerda levou Jerónimo de Sousa a desenterrar, após as últimas eleições legislativas (onde não foi além dos 8,25%), com uma prontidão que nos deixou zonzos, uma disponibilidade para pactos que não suspeitávamos existir pelas bandas dos afirmadores de abril. É que a afirmação de abril tinha-os levado, precisamente, a entregar de bandeja o poder à direita mais financista e anti-social, e enfim incompetente, de que há memória em Portugal. Pois bem, após um período de paz e sã expectativa, começam a emergir aqui e ali os sindicatos do costume (função pública, metro, etc.), últimos bastiões do PCP, com as suas ameaças mais ou menos veladas e as pressões de que não abdicam.

É neste clima de pretendida afirmação de força que surge o desastroso resultado do PCP nas presidenciais (3,9%). Enquanto a candidata do Bloco manteve a mesma votação das legislativas, o candidato comunista perdeu mais de metade dos votos (acusou Jerónimo, invejoso e irónico, mantendo viva a disputa: “Podíamos arranjar uma candidata mais engraçadinha e com um discurso mais populista.” Como se populismo não fosse o apelido do PCP). Mas o Bloco não tem implantação em nenhum setor profissional. O PCP tem, por enquanto, essa cartada para jogar e para desafiar quem lhes lembrar quanto deixaram de valer. É isso que faz. Mas faz mal.

Eu penso que não torna os comunistas nada fofinhos a história das ameaças permanentes de greves, manisfestações e rompimentos, caso o Governo de Costa se mostre insuficientemente revolucionário. Pelo contrário. António Costa é bem visto pelos portugueses, pelo que as jogadas do PCP e o desgaste ou eventual destruição do acordo penalizarão, como penso que já estão a penalizar, os comunistas. Não me incomoda nada que os comunistas desapareçam em Portugal para a gama das percentagens insignificantes. Seria um bom sinal de maturidade da nossa democracia. Incomoda-me é ver pessoas que, perante o desmoronamento do comunismo em todo o mundo, não se reciclem, não se reconvertam e alimentem a quimera e o discurso de que hão de conquistar o poder com que sonharam há quarenta e um anos. Provocando com isso sérios atrasos de vida.

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*Está a decorrer o Open da Austrália

Home fire

Muito irritado, ou frustrado, ou lá o que seja, deve estar Vital Moreira na bancada a criticar tudo o que vê no Governo. Basta dar um salto ao seu blogue Causa Nossa para o confirmar. Ele são disparos, por ordem cronológica descendente, contra o abrandamento do ritmo de redução do défice (como se não tivesse benefícios), a redução do tempo de trabalho semanal, a reposição dos feriados religiosos (aí tem razão, mas ignora as pressões e eventuais chantagens da Igreja), a modalidade de aumento do salário mínimo, a suspensão da demolição de casas, etc. Não haverá nada que se aproveite? Porquê esta pesca à linha de aspetos que são nitidamente, alguns deles, fruto de compromissos?

Vital finge ignorar que o Governo não é de maioria PS. Eu sei que esteve em desacordo com o entendimento estabelecido à esquerda, mas, caramba, as farpas significam que a alternativa seria melhor? Acaso seria melhor um governo da direita apoiado pelo PS? Que força daria essa montagem à extrema esquerda que Vital execra e que desgaste daria, pelo contrário, ao PS? Isto é pior do que friendly fire.

Um “Cavaco colorido” e demais pobrezas

Neste tempo de debates eleitorais com vista à eleição do Presidente da República, o espaço televisivo encontra-se bastante poluído por vacuidades, das quais, para me poupar, vou sabendo quase sempre pelos jornais. Pouco tenho visto, portanto, mas o que vi foi inútil e continuo sem saber em quem votar. De destacar verdadeiramente apenas a nota de humor certeiro de Edgar Silva: Marcelo será um Cavaco colorido. Colorido é, e do PSD também. E é um catavento. E inseguro, ou não tivesse ganho coragem para se candidatar apenas por ter visto a inexistência de concorrência (mesmo com a televisão durante anos a promovê-lo). Não voto nele, mas não será por isso que vou votar em Edgar Silva. Tal como o PCP, Edgar fala em nome dos trabalhadores, de cujos direitos se proclama defensor, e diz que iria para a Presidência para acabar com as injustiças, mas todos sabemos que a esmagadora maioria dos ditos trabalhadores não vota sequer no PCP, logo há aqui um devaneio, uma volumosa presunção e uma nota totalmente forçada, se não mesmo uma ameaça de tomada do poder. O problema do PCP é que tem a mania de que defende os trabalhadores e, como eles ainda não sabem ou não ouviram, convenceu-se de que, com a insistência no slogan, um dia eles lá chegarão e lhe entregarão o destino. Enfim. Parece-me tarde e, no fundo, o partido limita-se a sobreviver, agora apoiado numa geração jovem, engraçada e bem apessoada, potencialmente sem emprego, que Edgar ambiciona dirigir. Caso falhe a Presidência, claro. Mas há outros, como Paulo Morais, demasiado ligeiro a puxar o gatilho, que também pensam que vão governar a partir da Presidência.

 

Será que Cavaco desqualificou de tal forma a função de Presidente que o máximo que conseguimos como candidatos é o leque exibido?

 

Mais grave, no que toca a espaço mediático: até António Guterres, que não é candidato porque não se vê na função de árbitro, me pareceu pouco profundo nas considerações que teceu ontem na RTP3 a propósito da crise dos refugiados. Eu sei que ele anda há anos a lidar com grandes crises migratórias, fomes, violações, miséria humana, e que o seu papel é aliviar o sofrimento e organizar e gerir os espaços disponíveis. Mas como pode este homem achar que não haverá problema algum em receber, na Europa, milhões de refugiados provenientes de países muçulmanos? Sobretudo quando sabemos hoje da facilidade das gerações mais novas em aderirem a ideias de grandeza, real ou etérea, materializadas com o manejo de AK-47 e o recurso a crianças e jovens-bomba? E das redes de ligação de jovens muçulmanos nascidos na Europa a tresloucados islamitas radicais? Como pode dizer que bastaria a Europa ter-se organizado para ter evitado o caos, como quem diz que tudo fluiria tranquilamente? Como pode surpreender-se que os europeus receiem a geração que se seguirá a estes refugiados na Europa e a proliferação de mesquitas quando a tendência era para a reconversão de igrejas cristãs vazias em espaços culturais ou sociais por falta de clientes? Como pode resumir tudo a “A Europa tem de convencer-se de que é uma sociedade multiétnica e multirreligiosa”? Será que a Europa tem de voltar a admitir, ainda que localizadamente, a discriminação entre os sexos, a inferioridade das mulheres, o seu papel meramente reprodutor ou de objeto em nome da multirreligiosidade? A sharia? Como pode insinuar que todos os refugiados deviam ser acolhidos? Não haverá limites? Como pode ignorar que a maioria deseja, quando não exige, ir para a Alemanha e para a Suécia? Como pode afirmar que, se o Líbano consegue viver com um refugiado por cada três libaneses, a Europa também poderá viver com um refugiado por cada mil nativos? Dito assim, parece escandalosa a “má vontade”, mas como pode omitir do quadro os campos de refugiados?

 

A Europa pode e deve ser solidária com quem foge de guerras, mas não pode escamotear os custos do reforço da segurança, da vigilância, da reposição de fronteiras e da preservação de valores que demorámos séculos a estabelecer, que implica a vinda em massa destas populações concretas, muitas delas com valores arcaicos e chocantes aos nossos olhos. Compreender as cautelas e os limites, e já agora, mencioná-los, será meio caminho andado para que essas mesmas cautelas e limites não passem para as mãos de extremistas de direita europeus com os quais a convivência e o diálogo nunca chegarão a bom porto e, não menos importante, para lembrar aos imigrantes e refugiados quais os valores que deverão passar a respeitar na nova sociedade em que se inserirão.

E que mal escreve este Nuno Melo, hem?

Nuno Melo é falado para a liderança do CDS. Toda a sua notoriedade se deve à linguagem desbragada, regateira, com que costuma apresentar-se a debate. Melo está na política como um adolescente reguila. Falta-lhe em substância o que transborda em “repontice”. Não se atrapalha com incorreções e mentiras, quando lhe são apontadas: redobra as invetivas e tenta não deixar falar ninguém, técnica que também observamos em Paulo Rangel, embora o aspeto pesado e antigo deste não o favoreça tanto aos olhos do público. Facilmente sai ao Melo um chorrilho de acusações que fazem um vistão. O “malvado” socialista do momento pode contar com a agressividade deste verdadeiro «cão de caça», treinado quase exclusivamente para o emporcalhar e emporcalhar o espaço público com isso. Terá este homem perfil para liderar o CDS? Se o objetivo for tornar o partido ainda mais populista, indigente e incompreensível, dados os seus fundadores, tem, tem todo o perfil e possivelmente angaria algumas simpatias entre os toscos deste país. Ao mesmo tempo, tudo poderá descambar facilmente para a galhofa e a irresponsabilidade, pois Nuno Melo é um puto. Não é que Paulo Portas fosse exemplo de coerência e seriedade. Não foi, mas era bom ator. Com Nuno Melo na liderança, se algum dos militantes o quiser lá ver, pode o partido preparar-se para a brincadeira. É difícil levar esta criatura a sério. Mas eles lá saberão. Conviria também saberem o que anda o Nuno a fazer de útil no Parlamento Europeu.

 

Pois bem, este caraMelo escreve hoje no JN um texto a elogiar Paulo Portas. Era previsível. Faz parte do protocolo. Simplesmente, o texto é de tal maneira telegramático e insentido e, sobretudo, escrito num português tão deficiente que mais valia estar quieto. Pode ser bem um retrato do que Nuno Melo é, pelo menos na política. Alguns excertos:

 

Ironicamente, deixa a liderança quando contados os votos das legislativas de 4 de outubro vencera.”

 

Foi o presidente que desde o XVI em Braga, no final dos anos 90, regenerou e renovou o partido, levando a par os grandes protagonistas dos tempos passados.”

 

“[…]vitórias que lhe levaram a marca, o esforço e a crença.”

 

E esta pérola, não só só de português, como de análise:

 

Decidiu parar quando seria mais fácil continuar. Ao contrário do que quis quando era mais difícil e quando tanto de jogava. Há anos em Lisboa disse “Eu fico”.”

 

Vencera? Era mais fácil continuar? A sério?? E a que propósito o «Eu fico» é seguido de ponto final, parágrafo??

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Desejo a todos os nossos leitores e comentadores uma boa passagem de ano e um ano de 2016 melhor do que o que hoje termina. Continuarão a ser muito bem vindos. Até para o ano, ou seja, até já!

Títulos falhados, para não dizer imbecis

No DN online de hoje pode ler-se, como notícia de abertura, que “Passos dá a mão ao PS e salva primeiro orçamento de Costa“.

Em primeiro lugar, não se trata do “primeiro orçamento”, mas do primeiro orçamento retificativo. Sabemos a quem e a que se deveu. O autor do título faz de conta que não sabe e dá a este “primeiro orçamento” uma importância política que ele não tem. Se este orçamento retificativo não passar, a consequência imediata não é o chumbo do governo, mas a anulação da solução encontrada para o BANIF, o que seria lindo. Em segundo, mas mais fundamental, há uma enorme diferença entre “dar a mão” e dar a mão à palmatória. No primeiro caso, Passos sobressai magnânimo, o que é, no mínimo, risível, sabendo nós o que sabemos da leviandade, da irresponsabilidade e do calculismo eleitoral que impuseram mais uma pesada fatura aos contribuintes portugueses. Na verdade, Passos mais não faz do que dar a mão à palmatória, se nos quisermos manter na expressão “dar a mão”. Para todos os efeitos, não é propriamente Costa que está aflito, hem, senhor jornalista? Infelizmente, suspeito que não se trata de mais um título cortado a meio nas edições online deste jornal. Assim sendo, que tal

«Passos sem outra hipótese que não viabilizar o retificativo»?

Um homem sem ideologia… nem qualidades

 

O presidente da República afirmou que “a governação ideológica pode durar algum tempo”, mas faz “estragos na economia, deixa faturas por pagar e acaba sempre por ser derrotada pela realidade”.

Fonte

 

Está um belo dia para Cavaco Silva dizer disparates. Como, por exemplo, quem deixa faturas para pagar e faz estragos na economia. É o que dá não ter ideol… , perdão, ideia alguma sobre as bases de uma governação da coisa pública. Ah, e da privada.

O que é plausível para Pacheco Pereira, que quer continuar no PSD

Os detratores de Sócrates (sim, outra vez este tema) são os que melhor alimentam a confiança dos seus simpatizantes. Eventualmente atestam a sua razão. E nem se dão conta.

Como muitos outros escrevedores, Pacheco Pereira tem um ódio visceral, físico, a Sócrates. Já não lhe passa, vai morrer com ele. Se Sócrates estiver calado ou, melhor ainda, preso, Pacheco passa a questão para o domínio do recalcamento, anda cordato, aparentemente feliz, vitorioso até. Se lhe perguntarem (ou não) por que deixou de o considerar nas suas intervenções, de lhe «malhar», diz que seria demasiada crueldade da parte de um cristão bater em quem jaz por terra, maltratado. Mas se a fera se levanta e diz de sua justiça em público e denuncia atropelos judiciais e calúnias várias de que foi e é objetivamente vítima, e isso tudo perante as câmaras, tendo ele, Pacheco, de o ver e de saber que a dita fera está a ser vista por mais de um milhão de pessoas, bem de saúde e fresca, ah, isso é ousadia intolerável, desafio provocatório, pelo que os calores e o desassossego logo regressam ao nosso Pacheco, que prontamente saca da vergasta, pois o homem já pode bem, e deve, aguentar mais umas. Aqui estão elas. Ele pediu, Pacheco até nem queria. Esta é a justificação dada pelo próprio para o artigo. Não se riam. Ora vão lá ler.

A teoria geral desenvolvida – a da existência clara claríssima de corrupção – é contextualizada com factos importantíssimos que atestam o potencial de criminoso do «animal feroz», como umas marquises (marquises? não era uma casa?) aprovadas na Covilhã na década de 80 do século passado, umas decisões que não menciona do tempo em que era ministro do Ambiente e primeiro-ministro, o controlo da comunicação social (aqui vê-se bem a patologia de que padece Pacheco, face ao que temos diante dos olhos e aos milhares de telefonemas que nunca foram escutados de Passos, Marco António e Relvas) e, enfim, várias “coisas não explicadas” (ah, mas que também há noutros partidos). Apesar de declarar que não sabe se o homem é corrupto ou não, a teoria é mesmo a de que existiu corrupção. Sim, exatamente, tal como o presidente do sindicato do MP, com o qual só poderá estar em sintonia e cuja denúncia jamais fará. Mas Pacheco tem a gentileza de alargar a prática da corrupção a outras áreas políticas, embora não pessoalize. Só uma criancinha, diz ele, acredita nas explicações que Sócrates apresentou para o financiamento da estadia em Paris. Para o Pacheco, não são plausíveis. E, mesmo que fosse verdade o que ele diz, não deixaria nunca de ser feio. Não se pede dinheiro a um amigo. Não se aceita dinheiro de um amigo. Pacheco, o moralista. E revolta-se ao pensar que Sócrates não poderá jamais pagar as dívidas. Indigna-se mais do que os credores! Pobre Pacheco, sofre por Sócrates.

Mas então, o que seria plausível? Não diz, mas imagino que seja o seguinte: por cada obra (ou serviço) contratualizada com o Estado durante o seu governo, Sócrates exigia um pagamento pessoal (que mais ninguém no governo recebia nem via sequer passar à janela), umas luvas, que depois eram depositadas por terceiros na conta do amigo Carlos Santos Silva para futuras necessidades (o amigo, afinal era um pobretanas). O levantamento dos montantes era sempre feito pelo amigo e, à sua morte, bom… à sua morte, não se sabe. Era enquanto desse. Esta versão, sim, é a única plausível. As luvas, deve já ter pensado Pacheco, vieram, como já aventei, de todas as empresas que tiveram negócios com o Estado, já que as empresas do amigo não obtiveram mais do que uma ridicularia do bolo geral e isso está documentado. Não interessa. Assim como não interessa que, até à data, ninguém interessado se tenha queixado ou tenha vindo testemunhar de tais factos. O dinheiro vinha de algum lado, lá isso é que vinha. E não era de coisa boa. O Pacheco saberá de onde. O Ministério Público, até agora, parece que não.

Pacheco tinha que dizer isto. Não estava a aguentar. Por outro lado, calhou bem, porque talvez acalme os que o queriam expulsar do PSD.

Ilumina-nos, ó Dâmaso

O Dâmaso do Correio da Manhã diz hoje que:

(Sócrates quis)[…] Contar pela televisão a sua raquítica verdade com uma encenação de contraditório jornalístico e criar a dúvida na opinião pública.

[…]A pantomima dos últimos dois dias foi boa para as audiências, mas deixou o gato escondido com o rabo de fora. Amanhã o CM desmontará as suas contradições.”

Enquanto Sócrates “cria dúvida”, o Correio da Manhã cria certezas. Não com investigação própria, porém. Antes com as dicas dos amigos da investigação, cuja ausência se nota nos últimos tempos. Amanhã, portanto, como já era tradição – e acabar com as tradições é mau, ponto, o Correio da Manhã vai vender-nos o serviço dos esclarecimentos, tão cruelmente interrompido por um tribunal. Não irá, claro, iluminar nada. Será mais um debitar de suspeitas, insinuações, enredos policiais e ódio. Mas registo este momento de ciúme em relação à TVI (“pantomima […] boa para as audiências”). Apesar de sabermos que o “artista” em causa foi disputado por, pelo menos, duas estações de televisão e, sendo um cidadão livre, tratou de se defender da campanha dos média, libérrima e descontrolada durante os longos meses da sua clausura, o Dâmaso acha que foi uma representação, insinua que foi Sócrates que se impôs ao público e intitula a sua coluna de «Mentiras». Dâmaso considera que tem o monopólio da verdade. Tem tido, é verdade, praticamente o monopólio do show e deixar de o ter é chato. Segue-se que a vingança é sempre o que lhe resta e hoje lá foram desenterrar o diploma da Indenpendente. E hão de vir outros assuntos, que, apesar de mortos e enterrados, ressuscitarão sempre ao terceiro dia.

De modos que esta guerra não tem fim à vista. Quanto mais tempo o MP demorar a resolver o sarilho em que se meteu desde que embarcou em agendas – acusando ou arquivando – mais tempo a guerra se prolongará. Há quem comece a ficar farto deste tandem entre o MP e certa comunicação social. A corrente de favores e pressões ora corre de um lado ora do outro. O MP devia esquecer de vez estes métodos.

Por mim, só posso perguntar como José Sócrates: se, de acordo com a tese do Ministério Público, o dinheiro do Santos Silva afinal era dele (e quanto? Todo? Algum? E o Santos Silva não tinha afinal fortuna?!), como, quando e em que negócio lhe foram pagas luvas? E luvas de que preço? Luvas mais caras do que o valor de alguns empreendimentos em que houve «corrupção», como às vezes nos querem fazer crer? Quais os intermediários?

Quem pretende acusar tem que ter factos. Se não tem, não acusa. Nem prende. Se Sócrates diz que o dinheiro não lhe pertence, que estabeleceu um entendimento informal com o amigo de longa data, que aceitar dinheiro emprestado de um amigo não é crime (e não é), que os negócios das empresas do amigo com o Estado no tempo em que era primeiro-ministro não foram beneficiados (e disso há provas), que o PROTAL é um tiro inteiramente ao lado, como facilmente se demonstra, vão acusá-lo de quê?

Gostava de saber. O que eu não gosto é desta interminável guerra. O Grupo Cofina não desiste, já pôs o comboio em marcha há demasiado tempo, e o MP acha que tem que prender o homem, coisa que já fez, e prendê-lo ainda mais, porque, caso contrário, não está a fazer a justiça que o povo que lê o Correio da Manhã exige. Isto é o Estado de Direito totalmente na lama. Uma vergonha. O que se segue talvez seja deixar o Dâmaso e o Octávio acusar e condenar. Processo sumário e já está. O julgamento, para todos os efeitos, já foi feito. Aí é que o povinho rejubilava, ó Senhora Procuradora-Geral. Pense nisso.

Sócrates

I

Digam o que disserem os órgãos de comunicação social abrangidos pelo despacho da juíza Florbela Lança (e não só; também outros jornais, pressurosos a replicar o que os jornalistas-assistentes entendem confidenciar e, por isso, se confessam frustrados), o ambiente em torno da questão «Operação Marquês» está bem mais higiénico, decente e consentâneo com o Estado de direito em que todos devemos desejar viver, desde que os ditos órgãos foram proibidos de publicar (não é bem assim)  “notícias” sobre o processo, que se encontra em segredo de Justiça externo. Por via deste silenciamento, que a própria lei impõe, não apenas a juíza, fica claro o quanto a quantidade de pedras arremessadas contra os arguidos diariamente nas páginas de alguns jornais (com títulos enganadores, pesca à linha de certas passagens dos autos, por vezes mentiras descaradas, por exemplo) acicata e influencia os seus leitores, em primeiro lugar, e depois a opinião pública em geral, através das réplicas em televisão, noutros órgãos de comunicação, etc., até ao ponto de poder ser invocada por magistrados (e já tem sido) para justificarem uma acusação (ainda que forçada nos seus fundamentos) e uma condenação, que a «opinião pública» reivindica. Sem a dose regular de veneno, a inflamação tende a passar. Mas não necessariamente a investigação.

Toda a gente tem direito ao bom nome e à presunção de inocência até à prova final da sua culpa. Os juízes devem poder trabalhar sem ruído e os arguidos devem poder preparar a sua defesa. A diferença entre o que se passava até agora e este ambiente de respeito é abissal. A sensação é que, em relação a um aspeto só aparentemente formal, pelo menos, está a fazer-se justiça. Claro que isto não apaga todas as campanhas de ódio e perseguição e as calúnias que foram lançadas lá atrás durante meses e meses. Mas, a partir de agora, o jogo é mais limpo. José Sócrates e os restantes arguidos até podem vir a ser acusados e condenados. Mas, se tal acontecer, teremos a certeza de que a decisão se baseia em provas e não meramente em pressões da chamada opinião pública, instigada pelo Correio da Manhã. Espero que a Relação, na sua resposta ao recurso do jornal, não reinstaure a pouca vergonha.

II

A nossa Tânia insurge-se hoje contra a decisão da juíza e interpreta o conceito de «informar» à sua maneira peculiar:

Ao mesmo tempo, Florbela Lança voltou a confirmar o que já tinha dito. Que o direito de informar é um valor menor que o segredo de justiça e a presunção de inocência. Um entendimento que contraria o que vem sendo defendido em diversos acórdãos proferidos pelo Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, que tem sido perentório na defesa do interesse público quando está em causa a gestão do dinheiro pública.

Ainda bem que fala na “gestão do dinheiro público (pública?)”. A Operação Marquês não visa julgar as políticas do governo de Sócrates, ou seja, a gestão do dinheiro público. Se era melhor aplicar o dinheiro na qualificação das escolas e nos incentivos à economia para combater a crise financeira externa (como era avisado e a UE recomendava, até à crise da especulação com os juros), ou se era melhor retirar poder de compra à classe média, deixar as empresas falir, aumentar o desemprego e estimular a emigração. Visa, sim, apurar se houve ou não crimes de corrupção durante o exercício da governação. Ora, no meio de todas as notícias bombásticas com que Tânia pretendeu “informar” os seus leitores, nenhuma permitiu até agora concluir que as empresas de Santos Silva, o alegado banqueiro informal de Sócrates, foram favorecidas em relação a dezenas de outras que celebraram contratos com o Estado. De tal maneira que o processo teve que descobrir um Vale do Lobo qualquer.

Além disso, se um processo se encontra em segredo de justiça externo, parece-me evidente que não podem os jornalistas que se constituíram assistentes aceder ao mesmo para efeitos da sua publicação. Ainda por cima, para a publicação apenas das passagens que lhes interessam para a tese que vêm defendendo (eles ou outros). Nesse caso, mais valia abrir os autos ao público. Este tema levar-me-ia muito longe. É que parece que as notícas que se publicavam até agora  não tinham outra fonte que não o Ministério Público. Investigação jornalística, nenhuma. E essa podia haver.

III

José Sócrates dará uma entrevista à TVI amanhã. Espero que vá mais longe do que o habitual «não têm provas». Podendo ser verdade e até suficiente para a morte do processo, não chega. Não chega para um eleitor como eu. Votei sempre nele e considero-o o primeiro-ministro que sempre desejei ter e não sabia. Não tenho nada a ver com a relação pessoal de amizade que o une a Santos Silva, nem tenho nada que reprovar o pedido de ajuda financeira a um amigo para a realização de um sonho. Mas exigo outro tipo de argumentos. Uma pista: melhor dizer que não há crime algum e porquê, do que dizer que não há provas de crime.

Saraivada

O diretor do ainda Sol continua no seu posto e dedica-se, hoje, a comparar, um a um, os ministros do atual governo com os do anterior. Sabendo eu, embora, de antemão, a conclusão – que o governo de Passos era de uma qualidade incomparável – constatei que o exercício é tal maneira superficial e a escrita tão infantil que o verdadeiro objetivo se revela em poucas linhas de leitura: ligar todos ou quase todos os atuais ministros a Sócrates e atribuir-lhes, por isso, um estigma. Tudo amaldiçoado, tudo peçonhento, para que (ele) me entenda. Ana Paula Vitorino escapa, a felizarda. Não terá sido contaminada? Vale a pena ler, para uma boa gargalhada.