Jogos de guerra – “passerelle” aérea e outros riscos incompreensíveis

Partindo de Olengorsk, na península de Kola, eu diria com toda a certeza que a Síria fica para sul. No entanto, por razões que quase me escapam, os pilotos russos de dois Tupolev TU-160 Blackjack, cada um com capacidade para transportar 16 mísseis nucleares, acharam mais útil e divertido dar uma voltinha pela Europa num percurso de 8 000 milhas, antes de se dirigirem ao destino final da sua missão –  a Síria. Para se exibirem? Para ver em que param as modas nas bases aéreas europeias?

O Cisne Branco, nome por que é conhecido o Blackjack, é um bonito avião. Os ingleses mandaram de imediato os seus Typhoons para «dar as boas-vindas» aos dois intrusos e mostrar-lhes a porta de saída, aparentemente perdida. Atingindo uma velocidade superior ao dobro da velocidade do som, o bombardeiro russo pode desaparecer enquanto o diabo esfrega um olho. Deve ter sido o que fez.

A Rússia gosta de exibir o seu potencial e o seu material bélico, muitas vezes com claro intuito provocatório, como parece ser o caso em mais esta tangente hoje mesmo passada ao espaço aéreo da Noruega e da Grã-Bretanha. Demonstração de força, agora que Putin declarou o regresso à guerra fria? Claramente. O querosene também não está caro. Mas o certo é que os bombardeamentos da Síria prosseguem e o Reino Unido fica exageradamente longe. Os russos são bizarros. Mas quem tem razão na forma de lidar com este conflito?

Confesso que outra coisa que me escapa são as razões da política ocidental em relação ao conflito na Síria. A Rússia, pelo menos, é clara nessa matéria. É aliada de Assad, tem interesses na Síria, está do lado do regime; além disso, tal como o Ocidente ou a Turquia, não tem interesse algum no avanço do radicalismo islâmico. Considera terroristas todos os que na Síria se insurgem contra Assad. Os tresloucados do Estado Islâmico são para matar (aí, todo o mundo está de acordo), os outros são pouco melhores, portanto, com eles, vai tudo a eito. Limpeza total, autoridade total. Possivelmente os russos têm razão, visto daqui do escritório. Também visto daqui, apraz-me dizer, de passagem, que, no meio de tantos alucinados e fundamentalistas islâmicos no terreno, Assad até me parece bem como ditador… O Ocidente (a França, os Estados Unidos, etc.), por sua vez, quer derrubá-lo, financiando para isso os chamados «rebeldes moderados». E para pôr lá quem? Diga quem souber. Será para apoiar mais uma fantástica mas até agora sempre invernosa «Primavera árabe»? Entretanto, a Síria candidata-se a ser o primeiro país do mundo sem habitantes. A Turquia encarrega-se dos curdos, a NATO do EI e a Rússia do EI e de todos os outros menos os curdos. A Síria está, pois, à beira de se transformar num gigantesco campo de extermínio. Pergunto-me se não seria melhor delegar de vez a solução nos russos. Eles querem e talvez saia mais barato e seja mais vantajoso para todos. Poderiam assumir até o problema dos refugiados.

Isto porque as razões do Ocidente não são fáceis de entender. As da França, por exemplo. O seu interesse no derrube de Assad. Alguém compreende a alternativa que propõe?

A este propósito (do estranho interesse da França, estranhíssimo) neste conflito, encontrei aqui esta opinião bem pertinente de um francês, que transcrevo:

Si la crise internationale relative à la Syrie devait gravement dégénérer à la suite des interventions projetées actuellement par les  puissances occidentales,  on chercherait en vain quels intérêts majeurs  auront motivé leur  terrible prise de risque, spécialement celle de la France,   dans cette affaire.

Le  pétrole ? Il n’y en a guère en Syrie.

Nos intérêts historiques ?  Il s’agissait surtout de protéger les chrétiens : ils conduiraient donc à soutenir le régime d’Assad qui le fait  mieux que quiconque. 

Défendre Israël  ?  Mais il est de notoriété publique que ses dirigeants sont divisés sur la question syrienne : une partie d’entre eux  ne souhaite pas voir, si Assad était renversé, les islamistes, voire les Turcs,  à 100 km de Jérusalem. On les comprend. La Syrie a-t-elle d’ailleurs jamais menacé Israël depuis   40 ans qu’elle est dirigée par la famille Assad ?

Détruire le Hezbollah, allié de l’Iran et menace pour Israël ? Mais l’extension de  la guerre à toute la Syrie, et sans doute au-delà, n’est-elle pas un détour totalement disproportionné à un tel objectif ?

Briser  l’arc chiite qui enveloppe aujourd’hui le Proche-Orient, du Liban  à l’Iran ? Mais cet arc n’existerait pas si la  guerre d’Irak n’y avait établi un pouvoir chiite : il n’ y avait pas assez de think tanks  outre-Atlantique pour prévoir que la règle majoritaire appliquée à ce pays conduirait à ce résultat  ?  Avons-nous d’ailleurs  à épouser les intérêts sunnites ?

Contenir la Russie ? Mais elle aussi se trouve sur la défensive. Après la chute de l’URSS, elle a dû  renoncer  à la plupart de  ses positions en Europe et  dans le monde : Angola, Mozambique, Somalie, Yémen  etc.     Géographiquement proche, elle  redoute légitimement l‘extension de l’  islamisme ( et,  pour cela,  soutient l’intervention des Etats-Unis en Afghanistan), et  a marqué clairement une ligne rouge en Syrie : elle ne tolèrera pas sans réagir  le renversement du régime d’Assad .  Un avertissement clair qu’il est très inquiétant qu’on ne l’entende pas.

10 thoughts on “Jogos de guerra – “passerelle” aérea e outros riscos incompreensíveis”

  1. Não sou saudosista, nem salazarista, mas confesso que quando o petróleo vinha em garrafões de 5 litros, as coisas eram muito menos complicadas. O packaging adulterou o produto.

  2. Os EUA não estão contra o Estado Islâmico. Desejam que todo o médio oriente seja sunita, o que constitui uma boa garantia de sobrevivência do seu maior porta-aviões; Israel. E facilita a destruição de um inimigo de sempre; o Irão, aliado do arqui inimigo Russia.
    As classes abastadas dos EUA, ou são judeus ou são mormons, por isso tanto lhes faz que a europa ocidental seja islamizada ou não.
    Uma prova disso é a pressão que têm feito para que a EU aceite a adesão da Turquia.
    Se a Rússia perder a batalha da Síria de nada lhe serve continuar com a Crimeia ou com os aliados rebeldes ucranianos, porque perdendo a Síria perde o Mediterrâneo.
    Vem aí pancadaria de criar bicho!

  3. “tal como o Ocidente ou a Turquia, não tem interesse algum no avanço do radicalismo islâmico”

    Se não tem age como se tivesse
    https://www.rt.com/news/332794-kurds-proof-turkey-islamists/

    Alguém um dia explicará o que passa pela cabeça dos dirigentes da União Europeia para, num momento destes, andarem abraçados e entregarem milhares de milhões de euros dos seus contribuintes ao regime que, à vista de toda a gente, instigou a maior carnificina e a maior vaga de refugiados deste século.
    Ou então explico já eu: o ódio visceral à Rússia e as saudades da Guerra Fria.

  4. A União Europeia neste momento não tem lideres políticos em representação dos interesses dos seus povos. Em vez disso tem palhaços ou mercenários, pagos por interesses ocultos e contrários aos interesses dos seus povos.
    É por esta razão que as decisões dos governos da UE são completamente incompreensíveis no que diz respeito ao que se passa na Síria e no Iraque.
    Senão vejamos:
    – A UE é aliada dos EUA que são aliados da Arábia Saudita que ajuda o Estado Islâmico que:
    – explode bombas nas capitais europeias e mata cidadãos da UE
    – explode bombas e comete toda a sorte de patifarias na Síria e no Iraque para impedir a construção do gasoduto que traz o gás do Irão para o Mediterrâneo em direcção à UE para lá fazer chegar o gás mais barato …
    – E depois a Rússia é que tem de vir combater o Estado islâmico e proteger os interesses dos cidadãos da UE …quando os governos da UE são aliados dos EUA (e não da Rússia) que da maneira que vimos, na realidade anda a ajudar o EI.
    Ou seja, o que parece NÃO É, e o que não parece É.

  5. Há várias coisas muito mal contadas no caso da Síria, cujo drama vem de há muitos anos:
    – o Pacto de Varsóvia extinguiu-se em 1991; quem esperava que a Nato seguisse o exemplo viu-a crescer e ameaçar a Rússia, instalando armas e radares na Rep Checa, na Polónia, usw;
    – quem esperava que Putin se calasse, apanhou uma dor de dentes, claro; por enquanto é só o que apanhou;
    – os “rebeldes moderados” que combatem o Assad são essa fraude das “primaveras árabes”, que da Tunísia passaram à Libia, ao Egipto, aos quais se seguia a Síria onde os cowboys só não foram porque, tendo apoio russo, o Assad mandou-os f…; e os tais “rebeldes da primavera” acabaram todos mamados pelo E.I.;
    – o próximo objectivo, também ele falhado, era o Irão;
    – O Assad foi transformado num tirano que mata o seu próprio povo, pelos media da América e da triste Europa seguidista; na realidade foi um tipo com tomates no sítio, que não se deixou iludir pelas primaveras, e pôde resistir porque tinha as costas quentes;
    – a única posição, entendível e adequada, em relação à Síria e ao Assad é a de Putin; que não deixa cair o Assad e manda f… a Nato;
    – nisto tudo a triste Europa tem o papel do corno; e perde o petróleo, o gás, a energia de que precisa como de pão para a boca; e perde ainda o mercado da Rússia, a quem decreta sanções; com isto a Europa consegue f… até os produtores de fruta do Portugal longínquo, perdido no nevoeiro; É OBRA, PORRA!

  6. Não sei se ao revisionismo sionista expansionista não interessa uma Síria destruída ( doutrina do grande Israel, e, assunto pacífico e vital para todas as tendências políticas judaicas, acesso a fontes de água, que é um bem vital para o estado israelita, em boa realidade, a Israel, interessa tudo o que seja o enfraquecimento dos seus vizinhos ), em termos militares, uma união europeia militarmente forte, é coisa que não existe, culpa dos franceses que nos idos de cinquenta inviabilizaram tal desiderato, ao recusarem o rearmamento alemão, bom para estes, que não só têm uma industria militar pujante e fortíssima em termos de exportação, como também têm despesas militares ridículas, a Grécia, por exemplo, tem umas forças armadas com um potencial bélico de fazer corar de vergonha a Alemanha, em síntese, há interesses de todo o tipo, e quanto mais não seja, todos os países que são ou se julgam grandes potências , como de costume, marcam terreno, isto é, marcam presença, é um corportamento costumeiro, obrigatório e clássico .

  7. Penélope, és a prova provada de como pessoas inteligentes conseguem por vezes ser burras até ao enjoo. É pena que não te apercebas da tristíssima figura que fazes quando te aventuras nestas alegres excursões por territórios em que não vês boi, nem vaca, nem vitelo, em que a uma galinha chamas ornitorrinco e a um pardal tomas por pterodáctilo. Porra, que a ignorância é muito atrevida, kona da phoda-se!

  8. Joaquim Camacho: Importa-se de desenvolver? É que assim deixa-nos a todos na ignorância profunda do que se passa.

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