Não nos deixem. Mas… quem dera que sim

Paul De Grauwe, economista belga influente, escreveu ontem um artigo (que pode ser lido aqui) em que defende que a UE ficará melhor sem o Reino Unido do que com um Reino Unido no papel de cavalo de Troia. Diz ele que, caso o «sim» à permanência na UE vença, os defensores do «não» irão continuar as pressões para mais soberania, mais cláusulas de exceção, mais sabotagem, enfim, o que irá, no fundo, desgastar e minar  constantemente a coesão da União. Na perspetiva de tamanha desestabilização, mais vale, pois, entende De Grauwe, que a Grã-Bretanha esteja realmente de fora. Digamos, portanto, que, se pudesse, De Grauwe faria campanha pelo «não». Correção: ele poder, pode, como parece já estar a fazer. Mas, não sendo britânico, não vota e a sua influência nos votantes é bastante irrelevante. Só por «pirraça», quem o lê poderia votar «sim» (ah, ah).

Muito tenho concordado com as análises deste economista ao longo desta crise sem fim. Mas à tese da conveniência da dispensa do Reino Unido, porém, custa-me a aderir. Antes de mais, resta saber se a tal coesão de que fala existe realmente na UE e, a existir, se é assim tão sólida e tão sã como parece querer dizer (para mim, é surpresa que o diga neste artigo). Depois, sendo certo que o Reino Unido não faz parte da zona euro e que os tormentos por que passam os países do sul da Europa, presos à moeda única, assim como a maioria dos que a adotaram, aliás, em nada podem ser aliviados pelo Reino Unido, também é certo que a UE, a que também pertencemos, é mais do que a zona euro e o Reino Unido faz parte desse mais. Quereremos dispensar o peso e, vá lá, a participação da ilha? Para já não falar do problema dos europeus continentais que lá trabalham neste momento. Quereremos que passem a ser considerados turcos, por exemplo?

Não sei se os britânicos irão chegar à conclusão de que a União Europeia, tal como se encontra, não lhes interessa – de facto, os principais países que a compõem são, neste momento, «protetorados» alemães. Ignoro se existe esta interpretação da questão, ou seja, da perda de influência do Reino Unido (preferirem ficar fora do euro teve e tem imensas vantagens, mas tem inconvenientes), e se ela poderá também estar na base do desencanto/hostilidade de muitos círculos políticos. Mas posso calcular que a questão dos imigrantes/refugiados e a atitude da Alemanha neste particular tenham despertado alguma inquietação, prontamente explorada pelo UKIP e demais eurocéticos, que facilmente a transformaram em repúdio pela «Europa». A esta campanha não é alheio, evidentemente, o problema do terrorismo, dos jihadistas que vivem na ilha, dos que podem entrar via continente, e da ameaça que pode passar a representar a livre circulação. Tudo isso pode pesar. Mas, apesar de tudo, é possível que votem «sim». As sondagens, até à «dissidência»/traição Boris, parecem indicá-lo. Será isso pior para a UE, como defende o economista? Para qual UE?

Assumindo o lado de observação em que se coloca Paul De Grauwe, isto é, o do «continente», mas restringindo-o agora aos países a braços com o diktat alemão, eu pergunto: quererei eu,  interessa-me a mim que vivo num desses países, prescindir do contrapeso do Reino Unido? Sobretudo se acabarmos por sair da moeda única e nos mantivermos na União (manter-nos-emos?)? Não me parece. Não quero pertencer a uma Europa ainda mais alemã. Eu que nem voto para o Bundestag. Britânicos? Por mim, ficariam, mesmo chatos. Ou?

Ou não. O forte abanão que a sua saída daria neste edifício frágil, dividido e confuso, para além de penalizador, que é a União afinal enche-me de esperança.

21 thoughts on “Não nos deixem. Mas… quem dera que sim”

  1. À margem da magna questão colocada pelo post deixo uma outra: porque não um referendo aos continentais da UE para saber se estão interessados em continuar com a GB como parceiros ?

  2. A Inglaterra são os maiores nacional-socialistas no mundo.

    E são muito tementes a Deus,estão sempre a rezar:

    «Deus guarde os nossos cuzes» e os outros que se desemerdem!

  3. MRocha: Podia ser. Mas seria o fim da picada, ou seja, da União. Quem iria fazer campanha pelo não? Quem aceitaria que a pergunta se limitasse ao Reino Unido? Além disso, se, de cada vez que algum país levantasse problemas, se fosse fazer um referendo para decidir se fica ou sai, desconfio bem que restariam pouco mais de dois países… Esta estrutura amorosa é um tanto ou quanto artificial.

  4. Pelos macacos de Gibraltar! Mas alguém com um mínimo de entendimento histórico acredita que a Inglaterra queira fazer parte da UE, senão por business as usual? Algum vez a Inglaterra obedecera ao império alemão? Um país que teve e pilhou um império, que originou a única lingua mundial, que domina culturalmente 2/3 da humanidade ? Aturar uns rusticos q falam com uma batata quente na boca?
    Roll over Beethoven.
    Dentro ou fora eles estão sempre out.

    O que isto devia suscitar era uma reflexão sobre a nossa situação. Somos, a vários níveis um país com um trajecto extraordinário. Somos um pais geostrategicamente atlantico de civilização mediterranica e hoje estamos totalmente atados a uma Europa que não nos liga uma peva. Somos descobridores e inventores natos mas nao temos capacidade de construçao.Tivessemos a grandeza territorial, as opções dos Ingleses e principalmente o seu destemor e muitas coisas seriam diferentes.
    Curiosamente o único partido com um pensamento consistente sobre o nosso posicionamento e o PCP. O ps e o psd venderam-nos a retalho sob um complexo de inferioridade modernista. E Socrates já veio tarde.

  5. O Strummer tem razão. O PCP tinha razão, mas apenas por espírito de contradição, é que não queria ir para a União.
    Ninguém foi atraz do PCP, porque aqueles 10% só mandam nos combóios .
    Mas nós deviamos ter ficado ao lado dos nossos centenários aliados britânicos e não cair no Euro.
    Pelo menos isso.
    Já fui aconselhar-me com os espíritos a Santa Comba, foi mesmo isso que lá ouvi.
    Portugal não é isto que vemos, há 500 anos, tal como a Inglaterra, só agora é que tem Túnel.
    Túnel que os ingleses querem transformar em funil com o bico para sul.

  6. Reaça, o teu ídolo tem “algumas” culpas no cartório daquelas que não prescrevem.
    Era dificil superar a atracção pela Europa, com o país exaurido e os senhoritos internos a precisarem de dinheirinho fresco. O pior foi o complexo do bom aluno e a falta de visão.
    O PCP, goste-se ou não, e eu ideologicamente não gosto, tem retrospectivamente alguma razão. Mas perde-a toda quando não contribuiu para a solução.

    E hoje, qual a nossa estratégia, alguem sabe?
    Ou vamos fazer com a divida o nosso mito de sisifo?

  7. Strumer a única culpa do meu ídolo foi não ser imortal, porque depois de 1933 conseguir o milagre da nossa sobrevivência, ainda teve tempo de ir avisando que a Europa estava a perder-se.
    Não sei bem quem é esse de sísifo, mas a dívida, se fôr como as esquerdas dizem, não é para pagar, é para negociar.
    Se fôr como dizem certas direitas e banqueiros, é apertar uns furos no cinto ao povo.
    E direita, esquerda, esquerda direita em frente marche!
    Se fosse com o meu ídolo, só se perdiam as que caiam no chão.

  8. Ó Olinda, ignorantes e atrofiados e pobres é culpa dos nossos pais, avós e bisavós, que nos deixaram sem herança.

    E que se saiba, Salazar não deixou descendência, e vai chamar pai a outro.

  9. Imagine que está sentado em amena cavaqueira com um seu amigo Britânico:
    Que razões lhe aponta para o convencer a votar pela permanência na UE ?
    As economicas, a vantagem de pertencer a um mercado de 500 milhões de consumidores ? Não serve, a globalização resolveu o assunto eliminando as barreiras alfandegárias.
    As tradições e a cultura comum ? Não será pedir demais a quem vive de Land’s End a Johnny O’Groats que se sinta identificado com um Bulgaro ou um Letónio ?
    E como tranquiliza-lo sobre a imigração, quando este Janeiro chegaram às ilhas gregas 100.000 migrantes,10 vezes mais do que no mesmo mês de 2015 ? E a “la jungle” de Calais ? Um mero fait divers ?
    Se puder ajude com algumas ideias porque creia elas são bem necessárias para que em Junho continuemos a ser cidadãos Europeus.

  10. o tóinologo acima acha que a globalização eliminou barreiras alfandegárias. experimenta comprar um trabant no ebay a ver se não pagas ia+iva+selo+taxas+emolumentos & certificados. é curioso o argumento globalização já não funceminar para derrubar barreiras culturais e tradições, se calhar a internet ainda não chegou à ilha. quanto a refugiados de guerra, são o troco da merda que andaram a fazer nos países de origem, tivessem pensado nisso quando invadiram o iraque e andaram a bombardear-lhes as casas.

  11. reaça,no tempo do teu idolo,os analfabetos,eram mais do que o numero de refugiados que veio para a europa. e quanto a calçado,as mulheres que vinham para a feira vender produtos horticolas,traziam só um chinelo calçado para não gastar o outro.(a policia multava quem andasse totalmente descalço) havia gente que só comia frango ao domingo,e outros iam à sopa dos pobres para toda a familia. luz em casa não havia em muitas delas.havia familias com varios a dormir na mesma cama.uns à cabeçeira e outros aos pés. ( pai e a mãe) incluidos.reaça sabes que mais vai-te foder mais o teu ídolo.

  12. Ó tozezinho, ceguinho, naquele tempo do povo com fome e descalço na tua terra, chegavam cá à tua terra refugiados cujos irmãos e pais já se tinham extirpado todos em Berlim, em dresden em Paris, em Bruxelas, em Praga em petersburgo e não sei que mais.

    Naquele tempo emigravam pedreiros que punham os filhos a estudar para engenheiros.

    Agora emigram engenheiros, que nem filhos podem fazer.

    tozezinho inocente, naquele tempo era irmãos aos montes, tudo ao molho, agora nem com viagra, é um cachorrinho, de raça lambécunas e tu a espreitar pela fechadura.

  13. Joe já partilhei, é como a estória das malas de dinheiro, que passaram a envelopes e agora, olha agora nem sei como está…

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