Se Rui Ramos for tão bom a analisar e narrar a História de Portugal, da Península Ibérica ou Universal (confesso não saber a qual delas se dedica agora mais especificamente) como a analisar os mandatos de Cavaco Silva, então a sua atividade académica é um bluff e deve ser «acompanhada» e desafiada. O seu panegírico de Cavaco Silva, hoje, no Observador, não deixa dúvidas, até porque, ao contrário da História mais antiga, a mais recente todos testemunhámos. Da leitura, podemos concluir que Ramos não andou por cá nos últimos anos e, mesmo assim, escreve; que andou, mas não percebeu nada; ou que , a dado momento da sua vida, alguma maleita o levou a ver tudo ao contrário. Seja qual for o caso, o que diz não se recomenda.
“Cavaco Silva ganhou eleições, mas nunca conquistou a oligarquia. Por isso, a partir de 2008, o socratismo pôde apostar numa guerra ao presidente em que contou com a companhia do PCP e a ambiguidade frequente do PSD. É esse o contexto do caso das “escutas” em 2009, do BPN em 2011, ou das “pensões” em 2012. Não se tratou de simples “erros de comunicação” da presidência.“
Ah, ah. Cavaco Silva vítima da «oligarquia» que nunca conquistou? Esta tem imensa graça. É só ver a maestria com que ele contornou esse suposto «obstáculo». Mas mais graça tem a contextualização das escutas, do BPN e das declarações sobre as suas pensões. Adorei. Foi tudo consequência da guerra que Sócrates lhe moveu. O homem, francamente, nunca inventou (ou nunca quis inventar) escutas nenhumas, nunca comprou a preço de favor nem vendeu com escandaloso lucro ações do BPN (e não foi em 2011) (um banco que se revelou um caso de polícia, mas que estranha ou sintomaticamente não tem responsáveis e muito menos responsáveis condenados), nunca se queixou, ou não se quis queixar, da pensão que auferia. Estava a ser atacado, coitado. Andava nervoso. Ou andava vingativo. Era esse o contexto, finalmente revelado. Mas se calhar nem foi isso: o olho de historiador de Rui Ramos diz-lhe, no fundo, que foi Sócrates que inventou tudo!
Pois bem, esta é uma parte da prosa tristemente humorística de Ramos. Se quiserem prosseguir o triste divertimento, é só continuarem a ler, pois ficarão também a saber que Cavaco tudo fez para evitar ruturas (como em 2011, quando se viu reeleito, lembram-se?), nunca atuou para favorecer o PSD (nunca!), repudiou o diretório europeu (lembramo-nos mesmo bem), quis um consenso absolutamente inocente com o PS em 2013 (não, não queria queimar o PS, nada disso, tirando partido da tontice do Seguro) e, ainda, a grande questão do Estatuto dos Açores e da convocação solene de todos os portugueses em pleno mês de julho, que não foram patetices algumas, tratou-se apenas de uma louvável defesa das instituições. Aqui está um analista arguto como poucos.
Mais: Cavaco podia ter derrubado Sócrates em 2009, mas não o fez. Não queria, mais uma vez, ruturas. Num próximo artigo, Rui Ramos ainda nos há de explicar como é que Cavaco poderia liderar a rutura com Sócrates em 2009, se, contra tudo e todos, incluindo as campanhas dele próprio contra o dito (que muito o fragilizaram, a ele, Cavaco), o PS tinha ganho as eleições e o PSD perdera sob a liderança de Manuela Ferreira Leite. E o Coelho ainda não divulgara devidamente o seu livrinho, acompanhado de cânticos melodiosos sobre o peso do Estado e as gorduras do mesmo. Não é que Cavaco não quisesse, ’tá a ver? O azar é que não podia. Assim que pôde, não hesitou.
Cavaco vai-se, finalmente, embora. Só não vou festejar mais porque já venho festejando há uns tempos e feliz da vida. E sobretudo brindei quando deu posse ao atual governo. Eu e a maior parte do país. Infelizmente, a comunicação social e os inúmeros comentadores da laia de Rui Ramos permanecem. São a herança cavaquista-passista. E isso, sim, justifica uma revolta permanente. Até porque não ouvimos escutas sobre quem os foi desencantar.