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“Sr. Doutor Passos Coelho, é para arquivar?”

Depois das declarações altamente elaboradas (para o que é costume) de Passos Coelho sobre Sócrates e a comunicação social, o Ministério Público deverá andar a estas horas a coçar a cabeça, sem saber o que fazer. Bem, a coçar a cabeça já andava, mas por outros motivos.

Eis as declarações:

O que terá acontecido na sociedade portuguesa para que um jornal de referência faça um editorial a mandar calar um político, quando muito tolerando que ele se possa defender da justiça na comunicação social? Deveria ser ao contrário, ele deveria defender-se da justiça na justiça e recorrer à comunicação social e ao público em geral para confrontar as suas ideias”, pois “não ficou diminuído de as ter”, disse.

Fonte: DN

Temos então que, para este traste, Costa cria as condições para a asfixia democrática, como dizia o outro. Se se estão a rir, estão a  rir bem. É que o «asfixiado» é, neste caso, o homem contra o qual o PSD apontou todos os canhões do ódio de que dispunha no seu arsenal, envenenando a sociedade portuguesa a ponto de o Correio da Manhã, que «interpreta» o sentimento público, o começar a julgar feroz e impunemente, em criminosa promiscuidade com o MP, na tentativa de o destruir de vez. Mas isso era dantes. Agora, já chega.

O simples facto de Sócrates ter dito, em entrevista, que não chefiaria um governo se tivesse perdido as eleições foi a luzinha que o PSD avistou ao fundo do túnel. Mesmo sabendo nós que tal fórmula governativa não aconteceria principalmente porque o relacionamento de Sócrates com a esquerda radical e os comunistas sempre andou pela hora da morte (pois a urgência de correr com a matilha Passos & Companhia estaria lá), tal foi o bastante para o PSD, que andava aos papéis com a consolidação do entendimento à esquerda, a que chamou «geringonça» numa tentativa de achincalho, sem sucesso, desatar a defender a liberdade de expressão de Sócrates e até, pasme-se, o seu direito a defender-se perante a justiça (que o não acusa, é um facto) e não na comunicação social. Vale tudo, senhores! O post do Valupi foi certeiríssimo. Será que, só para derrubar António Costa e retomarem o poder, iremos assistir ao PSD a exigir que o Ministério Público acuse ou arquive de uma vez por todas o processo contra Sócrates?

Como não há de andar o Ministério Público, totalmente endrominado pelas estratégias políticas mais sórdidas da direita? Se anda mal, não tenho pena. Se anda bem, isso prova muita coisa e o desfecho não tem graça. O grau zero da política e o grau máximo da falta de vergonha é isto.

Que raio fará o «democrática» junto à esclerose?

Paulo Rangel representa, para mim, a direita alergénia (vou manter o vocabulário médico) da nossa praça. Ouvi-lo ou lê-lo pode causar-me urticária, menos mal quando é apenas impaciência. De qualquer maneira, é sempre de evitar. Não acrescenta nada de bom à nossa vida coletiva. Perdeu uma vez as eleições para líder do PSD, contra Passos Coelho, talvez por excesso de estridência e falta de consistência (não é que Passos a tivesse), eles lá saberão, mas, premiado com o Parlamento Europeu, reciclou-se de bom grado em mata-mouros. É engraçado, porque, ao mesmo tempo, também é uma espécie de Dona Albertina de barba. E é ainda uma espécie de Nuno Melo do PSD. Não na argumentação ao estilo «juridiquês», a lembrar traça de compêndios de direito e a tender para o pesado, que Melo, mais play-boy, não consegue usar, mas no estilo trauliteiro, algo imaturo, exibido nas confrontos políticos. Basta vê-lo no programa Prova dos Nove. Pode até começar em jeito «racional», mas depressa regateia, arremeda, aldraba, mete o turbo e não se cala. Ouve o Pedro Silva Pereira como quem ouve o papá, a quem reconhece razão, mas logo se torna «respondão», porque tem de ser. Muito a custo a Constança o acalma.

Depois de, há uns anos, desvairado com Sócrates e pensando interpretar o espírito do PSD, ter inventado a «asfixia» democrática (ou seria a claustrofobia?), vem agora com a «esclerose democrática» (ver artigo de opinião, hoje, no Público). Parece que, para não ser acusado de amante ou saudosista do antigo regime – anti-democrático, como sabemos – coisa que o seu aspeto e postura facilitariam, ou, sabe-se lá, para  ninguém pensar que está a mandar os opositores literalmente para a cova com maleitas graves, tem o cuidado de apelidar de «democráticas» as patologias que diagnostica nos socialistas. Assim, a asfixia e a esclerose são coisas más, mas sempre democráticas, atenção.

Excerto em causa, para quem não consegue aceder ao Público:

“Ainda antes de claudicar por razões políticas, o costismo dá sinais de degenerescência e esclerose democrática que o desvendam como um neo-socratismo.”

Ouvindo e vendo Paulo Rangel, percebe-se bem quem é o esclerosado, o inflamado e o endurecido crónico, o petrificado, o disco partido, que, não há remédio, desvenda e desvendará socratismo em todo o lado. Este homem almeja dar show, mas, dada a via seguida, é show de palhaço.

Desculpem a insistência, mas como evitar uma sonora gargalhada?

Ainda o processo Marquês. Divirtam-se a ler isto, se ainda não leram.

 

Acrescento apenas a seguinte observação, que sempre me ocorre quando leio «coisas» sobre esta matéria: Santos Silva, empresário de sucesso no ramo da construção civil, consultor nesse domínio, com contratos no estrangeiro, conhecido por muitos como pessoa de grandes posses, afinal não tinha dinheiro nenhum? Era tudo do Sócrates??

Expresso. Mas que fraude de jornal*

Ontem, no Expresso da Meia Noite, dizia Pedro Santos Guerreiro que, lá no jornal, podiam publicar estes e aqueles nomes (a propósito dos Documentos do Panamá), porque os tinham, e aumentar assim as vendas, mas que a sua opção era pelo rigor e não pelo lucro fácil. Pois bem, para cumprirem esse princípio de rigor, o que fazem? Ocupam mais de um terço da primeira página com uma fotografia sobre fundo vermelho-sangue de Ricardo Salgado, Helder Bataglia e José Sócrates. Um trio assim constituído, indissociável, mostrado atrás de linhas paralelas (grades? persianas semi-cerradas de escritório em paraíso fiscal?), que é não só todo um programa de insinuação, como também toda uma promessa para as páginas que se seguirão, pensa o leitor. Puro engano. Vira-se a página: empresas offshore ligadas ao BES, várias. Novidade, novidadíssima. Salgado tinha “muita massa”. Olha a surpresa. Só ele? Bataglia trabalhava no BES, também movimentava muita massa. A sério? Havia um Saco Azul, nada de novo. Houve uma transferência de uns milhões de euros de Bataglia para Joaquim Barroca, do Grupo Lena. Já se ouvira dizer, tendo mesmo sido aí que as teorias experimentais do Ministério Público assentaram arraiais, já exaustas, mal os investigadores, a caminho de nenhures, sentiram a epifania de que José Sócrates era o destinatário dos 12 milhões transferidos para a Suíça, para a conta de Santos Silva.

Ó Expresso, ó suas anedotas! O que acrescentam vocês de novo, que prova adiantam? Que facto novo descobriram sobre esta matéria que mereça o destaque da primeira página? Não consegui ver nada. E a fotografia gigante de Sócrates na terceira página? E o título «Todos querem mudar menos o PS»? O Correio da Manhã não faria pior. Talvez pusesse uma fotografia menos sofisticada, é tudo. Até o artigo sobre Ricardo Salgado é ridículo, pois o que acaba por dizer é que o senhor foi transferindo para Portugal, ao abrigo de sucessivos RERT, o património que tinha no estrangeiro.

E o resto do jornal? Vale a pena?  – perguntar-me-ão. Um logro. Passado este dossiê «escaldante» e o editorial pseudo-poético, prenhe de rodriguinhos, de Guerreiro, a tónica geral desta edição é a «crise da Geringonça», repetida ao enjoo, tipo dança da chuva, a grande tragédia e abalo que terão sido para António Costa e o seu governo a demissão de um secretário de Estado e de um ministro bizarro, a demissão do CEME e os assomos performativos de Catarina Martins para calar certas alas do Bloco. A sério, ó Pedro Guerreiro. Este jornal deve manter-se aberto e, apesar de fraudulento para com os seus leitores, continuar a «investigar» … fraudes? Só mesmo para tentar inverter as sondagens. Que ricos três euros e vinte que vou de novo poupar.

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*O belíssimo artigo do Valupi vai no mesmo sentido do meu, pelo que deve ser mesmo verdade o que dizemos…

Uma coisa é certa, ou duas

Depois do episódio das bofetadas que lhe foram poupadas (e ainda bem), Augusto M. Seabra, além de dar espontânea e triunfalmente a sua opinião sobre o novo Ministro da Cultura, é também entrevistado nas rádios por jornalistas que de súbito o elegeram «sábio» em matéria de nomeações e que procuram obter o seu aval para o nome escolhido. Isto é um tanto ou quanto ridículo, mas é a comunicação social que temos. Como se fosse Seabra, um crítico que quase ninguém lia, a decidir e a ter a última palavra. Também por obra de João Soares, será que o homem passou a uma espécie de conselheiro tácito? Espero que seja passageiro. Mas uma coisa é certa, havendo pouco dinheiro, não tardará muito, escreverá um artigo crítico sobre o novo Ministro da Cultura, apesar de lhe ter concedido, magnânimo, um «período de graça» (hoje, no Público). E depois? Depois, estará convencido de que as suas linhas terão poder para demitir mais um ministro.

Pois bem, não vai acontecer.  E isto é outra coisa que também é certa. João Soares não foi demitido (enfim, não se demitiu) por Seabra ter escrito o que escreveu sobre ele. Foi demitido por não saber conter-se. Convém não perder isto de vista. Castro Mendes é mais do que capaz de ter arte para responder, ou não responder, a excitados (que, por vezes, até podem ter razão, mas também não se contêm nos insultos fáceis) e a desbocados.

A rainha da aldrabice é agora vice-presidente do PSD

“Temos ouvido repetidamente que houve oito planos de reestruturação chumbados pela Comissão Europeia, o que não é verdade”, garantiu. O que “houve foram oito versões de planos” e a Direcção-Geral da Concorrência (DGComp) não aprovou nem chumbou nenhum”.

Maria Luis Albuquerque (citada pelo Público)

Não aprovou nem chumbou nenhum? Quer isto dizer que «nem aprovou nem chumbou», ou que «não aprovou, sim; mas também não chumbou»? Convinha falar melhor, pois as hipóteses de mentira e falácia são enormes. É que é um facto que a Comissão não aprovou nenhuma das oito versões do plano. Portanto, dizer que a Comissão nem aprovou nem chumbou leva-nos à pergunta, então que fez? Nada, foi indiferente? Deixou para lá na gaveta? Não se pronunciou? Sabemos que não é verdade. E a outra interpretação é apenas meia mentira, mas, ainda assim, mentira.

Longe de mim pensar, ao contrário do governo anterior a que Maria Luis pertenceu, que a Comissão tem sempre razão e que é uma autoridade acima de qualquer suspeita de análise errada, à qual se deve obedecer sem discussão. Mas dizer que a Comissão, através da DG Concorrência, não aprovou nem chumbou é um jogo de palavras para iludir papalvos. E porquê? Porque aprovar, não aprovou nenhum. É certo e é sabido. Não aprovou. E foram sucessivos. E chumbar, chumbou, sim. Só que, neste «exame», há direito a segunda chamada e terceira e quarta e quinta e sexta e sétima. Até novo governo. Maria Luis está a armar-se em engraçada, com jogos de palavras.

Quanto aos oito planos que não houve, mas sim oito versões – trata-se de uma precisão que nada muda do essencial. É evidente que não houve oito planos diferentes, alternativos. O que houve foram correções do primeiro e dos sete sucessivos, nenhum dos quais a Comissão aprovou. Maria Luis chica-esperta. Mas a direita, e suspeito que grande parte do Zé Povinho que vota nela, está confortável com este tipo de malabarismos linguísticos. Esta mulher e o Pedro são considerados gente competentíssima e seriíssima. Porquê? Não há mistério. Se ela disser, com a voz bem colocada e sem se rir, que houve oito versões e não oito planos,  o povo acredita que o que está a dizer é importantíssimo e determinante e que há gente que só gosta de dizer mal. Francamente, uma senhora tão séria e competente.

Não, a Europa não é o Islão

Por muito que os discursos sobre o respeito pelas crenças, a convivência cultural e a tolerância religiosa predominem politicamente hoje em dia, a Europa não gira em torno da religião. A Europa gira à volta do Estado de Direito e dos direitos humanos, da investigação científica sem barreiras, do questionamento das certezas, do estudo, da liberdade de circulação e de comércio, da iniciativa privada, da igualdade e do respeito entre os sexos, da alegria, da música. Não vejo isto ser suficientemente enfatizado.

É verdade que uma coisa são os discursos políticos, que, por si sós, não devem precipitar os acontecimentos nem os radicalismos, nem instigar conflitos sociais. Mas é também verdade que outra coisa são as políticas adotadas face a um problema de verdadeiro choque civilizacional (porque os terroristas granjeiam estranha e perigosa simpatia entre os seus «irmãos» que habitam na Europa), assim como os escritos e declarações de pessoas públicas informadas, com influência na sociedade. Estas não têm obrigação de se calar quando se trata de defender valores arduamente conquistados e dos quais não queremos abdicar, nem devem ir com pezinhos de lã ao abordarem estas matérias. As «religiões do livro» sempre foram uma potencial fonte de violência e foi por isso que soubemos pôr o cristianismo a uma distância conveniente e no lugar intimista que lhe pode caber e que não hostiliza o próximo. Teremos agora de fazer o mesmo ao islamismo? Haverá paciência?

Não vale, pois, a pena propagandear grandes princípios poéticos de que a Europa é o cristianismo, é o judaísmo, é o Islão, porque a simples menção dessas crenças, sobretudo desta última, equivale a aceitar práticas arcaicas aviltantes e a deslocar, para trás, o estado civilizacional a que o Ocidente chegou e ao qual se viu, não grego, mas medieval para chegar. O que resta dessas religiões tradicionais já nem sequer era um fardo que a Europa ainda tinha que transportar, mas do qual pensava já estar bastante aliviado. O que resta do cristianismo não é já fardo algum. Tem os seus seguidores, mas sobretudo converteu-se num serviço útil ao Estado no apoio social e na contenção de eventuais mal-estares. Tornou-se também um negócio lucrativo (mas isso sempre foi). Dizer agora e neste momento que a Europa é também o Islão é não incentivar a racionalidade.

Que existam na Europa do século XXI pessoas que acreditam, por exemplo, que o mundo foi criado em seis dias, com fósseis e tudo, por uma entidade que nunca ninguém viu chamada deus ou Alá, e que quem assim não pensa é «infiel», é a todos os títulos de lamentar, terminada a gargalhada. Mas já é mais grave quando as pessoas da religião do Maomé, do Alá e do Ali, que por aqui também habitam, pensam que os infiéis devem ser mortos, ou dominados, apesar de esses infiéis lhes oferecerem condições de vida bem melhores do que as que teriam nos países islâmicos, onde se pratica a religião que professam.  E é sinal de que há um trabalho hercúleo a realizar, se preciso for com medidas drásticas, para tirar tais pessoas da letargia, de modo a que algumas delas, pelo menos, se tornem um dia enfim úteis à espécie humana, estudando direito, medicina, física, matemática, tecnologia e astronomia. Para fazer avançar a humanidade, não para a destruir mais depressa, invocando coisas «divinas», como o apocalipse. Dizer que a Europa é o Islão não ajuda.

De vez em quando, sei lá, pela Páscoa, podiam ser honestos

Reagindo à comunicação do Presidente da República sobre a promulgação do orçamento para 2016, Matos Correia, do PSD, declarou, segundo o Público:

«O “modelo inspirador” do OE 2016 a que o Presidente fez referência é um modelo “errado”. É um modelo “baseado no estímulo ao consumo”, que, no passado, “já deu mostras de não servir os interesses” do país e que “conduziu Portugal ao resgate de 2011”, argumentou Matos Correia no Parlamento. Os sociais-democratas afirmam que têm um modelo alternativo, aquele que desenvolveram na última legislatura e inscreveram no seu programa eleitoral, que aposta no crescimento da economia por via do aumento das exportações e do investimento privado. “O caminho do Governo não é este e é um mau caminho”, resumiu Matos Correia.»

 

Comentário

 

  1. Em 2010, o «estímulo ao consumo» foi uma decisão tomada a nível da UE (à semelhança de outras zonas do mundo) para contrariar os efeitos económicos da crise financeira internacional. Portugal beneficiou, então, de taxas de juro excecionalmente baixas nos empréstimos do BEI, que teve interesse em aproveitar.
  1. Não foi o «estímulo ao consumo» que conduziu Portugal ao resgate. Foram as taxas de juro da dívida pública (soberana) icomportavelmente elevadas, fruto da especulação, a que o Banco Central Europeu apenas reagiu e pôs fim num estádio avançado, tardio e calamitoso da crise. Agora, nada dessa situação se verifica.
  1. O grande impulsionador do «aumento das exportações» foi o governo de José Sócrates, tendo a coligação colhido e assumido como seus os louros.
  1. A que «investimento privado» ocorrido na legislatura anterior se estará a referir Matos Correia? Tirando a compra de casas por chineses e outros estrangeiros, não se viu muito mais.

Por uma Justiça mais competitiva

É sempre bom corrigir falhas do mercado. Pois bem, no concurso de falta de ética, ninguém no mercado português consegue jamais vencer o Correio da Manhã, pelo que o monopólio da devassa é praticamente seu, resultando daí chorudos proventos para o jornal. Ora, como sou a favor da concorrência, sugiro que, para corrigir essa deficiência do mercado, os interrogatórios judiciais a figuras públicas e/ou mediáticas passem a ser feitos em local público, por exemplo, no Coliseu dos Recreios (se calhar ser em Lisboa), com público portador de bilhete e com televisões a transmitir em direto – pagando por isso ao Estado direitos de transmissão. Sempre serão receitas que entram e que muito ajudarão o nosso depauperado sistema de Justiça. Dir-me-ão que estou a ser cínica. Que isso é um julgamento «na praça pública». Um auto de fé! E depois? Os sujeitos não merecem? Digam lá, não merecem?

Não vou tão longe quanto propor que, no final, o público presente se pronuncie sobre a condenação ou absolvição do sujeito interrogado e o público lá em casa também, através de votação eletrónica. Mas isso só não proponho … para já. Pelo evoluir do sistema, poderá parecer lógico que a Justiça se administre dessa forma democrática. Nessa altura, aqui virei fazer a proposta.

Na hora da despedida, a história política de Cavaco, por Mr. Magoo

Se Rui Ramos for tão bom a analisar e narrar a História de Portugal, da Península Ibérica ou Universal (confesso não saber a qual delas se dedica agora mais especificamente) como a analisar os mandatos de Cavaco Silva, então a sua atividade académica é um bluff e deve ser «acompanhada» e desafiada. O seu panegírico de Cavaco Silva, hoje, no Observador, não deixa dúvidas, até porque, ao contrário da História mais antiga, a mais recente todos testemunhámos. Da leitura, podemos concluir que Ramos não andou por cá nos últimos anos e, mesmo assim, escreve; que andou, mas não percebeu nada; ou que , a dado momento da sua vida, alguma maleita o levou a ver tudo ao contrário. Seja qual for o caso, o que diz não se recomenda.

Cavaco Silva ganhou eleições, mas nunca conquistou a oligarquia. Por isso, a partir de 2008, o socratismo pôde apostar numa guerra ao presidente em que contou com a companhia do PCP e a ambiguidade frequente do PSD. É esse o contexto do caso das “escutas” em 2009, do BPN em 2011, ou das “pensões” em 2012. Não se tratou de simples “erros de comunicação” da presidência.

Ah, ah. Cavaco Silva vítima da «oligarquia» que nunca conquistou? Esta tem imensa graça. É só ver a maestria com que ele contornou esse suposto «obstáculo». Mas mais graça tem a contextualização das escutas, do BPN e das declarações sobre as suas pensões. Adorei. Foi tudo consequência da guerra que Sócrates lhe moveu. O homem, francamente, nunca inventou (ou nunca quis inventar) escutas nenhumas, nunca comprou a preço de favor nem vendeu com escandaloso lucro ações do BPN (e não foi em 2011) (um banco que se revelou um caso de polícia, mas que estranha ou sintomaticamente não tem responsáveis e muito menos responsáveis condenados), nunca se queixou, ou não se quis queixar, da pensão que auferia. Estava a ser atacado, coitado. Andava nervoso. Ou andava vingativo. Era esse o contexto, finalmente revelado. Mas se calhar nem foi isso: o olho de historiador de Rui Ramos diz-lhe, no fundo, que foi Sócrates que inventou tudo!

Pois bem, esta é uma parte da prosa tristemente humorística de Ramos. Se quiserem prosseguir o triste divertimento, é só continuarem a ler, pois ficarão também a saber que Cavaco tudo fez para evitar ruturas (como em 2011, quando se viu reeleito, lembram-se?), nunca atuou para favorecer o PSD (nunca!), repudiou o diretório europeu (lembramo-nos mesmo bem), quis um consenso absolutamente inocente com o PS em 2013 (não, não queria queimar o PS, nada disso, tirando partido da tontice do Seguro) e, ainda, a grande questão do Estatuto dos Açores e da convocação solene de todos os portugueses em pleno mês de julho, que não foram patetices algumas, tratou-se apenas de uma louvável defesa das instituições. Aqui está um analista arguto como poucos.

Mais: Cavaco podia ter derrubado Sócrates em 2009, mas não o fez. Não queria, mais uma vez, ruturas. Num próximo artigo, Rui Ramos ainda nos há de explicar como é que Cavaco poderia liderar a rutura com Sócrates em 2009, se, contra tudo e todos, incluindo as campanhas dele próprio contra o dito (que muito o fragilizaram, a ele, Cavaco), o PS tinha ganho as eleições e o PSD perdera sob a liderança de Manuela Ferreira Leite. E o Coelho ainda não divulgara devidamente o seu livrinho, acompanhado de cânticos melodiosos sobre o peso do Estado e as gorduras do mesmo. Não é que Cavaco não quisesse, ’tá a ver? O azar é que não podia. Assim que pôde, não hesitou.

Cavaco vai-se, finalmente, embora. Só não vou festejar mais porque já venho festejando há uns tempos e feliz da vida. E sobretudo brindei quando deu posse ao atual governo. Eu e a maior parte do país. Infelizmente, a comunicação social e os inúmeros comentadores da laia de Rui Ramos permanecem. São a herança cavaquista-passista. E isso, sim, justifica uma revolta permanente. Até porque não ouvimos escutas sobre quem os foi desencantar.

Tribunais acham bem o que faz o Correio da Manhã

Não sei se são os tribunais, ou se são estes porque o Código de Processo Penal tal admite, ou se são estes porque o papel do jornal é útil a um certo desígnio, ou se o problema está no sistema de Justiça em geral, com todos os seus agentes, ou se é simplesmente o poder sobrenatural da alínea referente à liberdade de expressão. Possivelmente são todos responsáveis, como numa famosa história de crime. O certo é que Correio da Manhã, mormente a edição online, parece uma besta subitamente à solta. Falou em mordaça. Vitimizou-se. Agora anda frenético, eufórico. A vida de Sócrates é a sua seiva. Está livre para devassar.

No entanto, se isto é um Estado de direito, eu quero emigrar outra vez. O tribunal que decidiu desproteger a privacidade e a dignidade do principal envolvido na Operação Marquês soltou os cães e sabia que o estava a fazer. Como é possível que um antigo primeiro-ministro, não tendo sido acusado de nada passados dois anos de ter começado a ser investigado e depois de 9 meses de prisão preventiva, alegadamente para facilitar a investigação, seja obrigado a aceitar que as suas declarações no interrogatório do MP andem a ser publicadas a conta-gotas num jornal diário e reproduzidas na televisão num enquadramento despudoradamente acusatório e em tom de suspense? Afinal a cargo de quem está a Justiça e a quem se aplica?

Piada jornalística do mês

Clicando na notícia de hoje sobre José Sócrates, lê-se o seguinte:

 

Sócrates perde ação da mordaça ao CM

José Sócrates queria calar investigação do Correio da Manhã.

Por Eduardo Dâmaso”

«Investigação», dita assim pelo Dâmaso (o sublinhado é meu), é um momento de extraordinário humor proporcionado ao leitor. É preciso lata para este eufemismo e para a hipérbole dramática do verbo “calar”. A realidade vai dizer-nos, sim, que reabriram três coisas: a caça, o canal de tráfico de dados e estratégias com as “fontes da investigação” e o armário dos condimentos e venenos da sala de redação. O CM não tem feito mais nada do que “investigar” desta maneira. Fácil, lucrativa, despudorada, assassina.

E o prémio de contorcionismo radiofónico vai…

Tcharan! Para David Dinis, diretor da TSF. Comentando, no noticiário das 18h00 (ouvir aqui, a partir do minuto 7.10), a contratação de Maria Luís para a Arrow Global, falou, falou, enrolou, não encontrou final feliz, nem compreensível, para nenhum começo de frase, procurou colocar o centro da questão na manutenção do lugar de deputada e, em suma, não disse nada. Todo este esforço para não censurar a ex-ministra. A nossa comunicação social está assim. Como Passos Coelho, não descolam. Nem desamparam a loja.

Um “razzie” para este argumento

Aprecio a boa publicidade e penso que, em Portugal, não nos podemos queixar de falta de imaginação e de qualidade nessa matéria. Mas passa atualmente nas televisões um anúncio de gosto assaz duvidoso a uma marca de automóveis. Na minha opinião, e sendo verdade que não há uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão, não se perdia nada em recolhê-lo, como se faz aos veículos com defeito de fabrico.

No vídeo, uma mulher em fúria destrói à paulada um automóvel estacionado à frente de um prédio, convencida de que é o do seu marido (namorado?) traidor. A violência é propositada e não é a brincar. Não se trata de furar pneus ou sujar o veículo com spray (se fosse, a ideia do anúncio até poderia ter alguma graça). É destruição à séria. Vandalismo. Mais do que provavelmente, crime. Além do mais, altamente improvável. Ora, em pleno ato tresloucado de vingança, a mulher vê um vizinho dirigir-se para um outro automóvel exatamente igual ao que ela acabara de destruir, ativar o comando e constatar que o automóvel intacto não responde. A mulher confundira os automóveis. O homem também, só podia. O anúncio não mostra, mas imaginamos que esta vândala não terá posteriormente uma vida fácil na Justiça.

Nada disso interessando ao autor, somos de seguida aconselhados a comprar uma marca e um modelo de automóvel diferentes dos mais vulgares, com a garantia de que será verdadeiramente inconfundível. Pois é, mas, no meu caso, e após algumas visualizações, ainda não me conseguia lembrar da marca sugerida. A cena de violência disparatada permanecia demasiado tempo na memória. Suponho que, para quem a concebeu, fosse igualmente aceitável filmar a mulher a atirar o automóvel por uma ribanceira… e só não o fizeram, porque interessava haver ali um prédio de onde o proprietário pudesse sair, assim como outros automóveis estacionados? Por favor.

Mas a questão é: assente neste drama, quem vai querer comprar o veículo sugerido? Falta de gosto (e de humor) é isto. E eu que pensava que a publicidade que recorre a imagens chocantes para vender um produto já estava ultrapassada.

É um jornal português prestigiado e está cada vez pior

Salazar acabou por ter sucesso. Quereremos agora um ditador falhado?

Peço desculpa se insisto em César das Neves. Afinal é um entre tantos outros que ocupam / infestam a comunicação social. Mas o que este homem diz é de bradar aos céus. Depois de elencar o que, para ele, são as características de governo da esquerda e da direita, fazendo-o tão superficial e enganosamente quanto o faz quem pensa escrever para basbaques (exemplo: “[o crescimento económico]Tem faltado porque a esquerda afunda as finanças do país, públicas e privadas, na sua busca de justiça social, e a direita desmotiva os agentes económicos com a ânsia de as equilibrar.”), chega à conclusão de que, se as duas perspetivas antagónicas não encontrarem um equilíbrio assente no diálogo, corremos o risco de acabar com um ditador como Salazar. Como Salazar? Não, senhores. Isso seria bom de mais. Salazar conseguiu pôr o país a crescer e as populações contentes. O próximo é que talvez não.

O César das Neves podia ler, por exemplo, o que diz hoje o seu colega do lado, Martin Wolf, mas aparentemente não quer. Talvez esquecesse por uns momentos o passado, o cardeal Cerejeira, a felicidade calada de haver pobres e analfabetos que entram garantidamente no reino dos céus, as contas  certinhas na folha e milhões de portugueses em bidonvilles no estrangeiro, e ficasse mais contemporâneo e menos ignorante.

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O título do post não tem em conta os bons colaboradores do DN. Mas escolhi-o de propósito. Quem abre hoje a edição online depara com uma série de títulos de fugir.

Ele são as terríveis ameaças que pairam (e todos os dias, enquanto houver jornal, pairarão) sobre o orçamento de António Costa, especificamente o de António Costa, o terrível embaraço da inexistência de uma primeira dama, o editorial sobre o “país subsidiado” (nem sei o que diga do prazer que um filho de 27 anos tem em residir com os pais, e vice-versa), o terrível escândalo de um governo que negoceia. É dose.

Não nos deixem. Mas… quem dera que sim

Paul De Grauwe, economista belga influente, escreveu ontem um artigo (que pode ser lido aqui) em que defende que a UE ficará melhor sem o Reino Unido do que com um Reino Unido no papel de cavalo de Troia. Diz ele que, caso o «sim» à permanência na UE vença, os defensores do «não» irão continuar as pressões para mais soberania, mais cláusulas de exceção, mais sabotagem, enfim, o que irá, no fundo, desgastar e minar  constantemente a coesão da União. Na perspetiva de tamanha desestabilização, mais vale, pois, entende De Grauwe, que a Grã-Bretanha esteja realmente de fora. Digamos, portanto, que, se pudesse, De Grauwe faria campanha pelo «não». Correção: ele poder, pode, como parece já estar a fazer. Mas, não sendo britânico, não vota e a sua influência nos votantes é bastante irrelevante. Só por «pirraça», quem o lê poderia votar «sim» (ah, ah).

Muito tenho concordado com as análises deste economista ao longo desta crise sem fim. Mas à tese da conveniência da dispensa do Reino Unido, porém, custa-me a aderir. Antes de mais, resta saber se a tal coesão de que fala existe realmente na UE e, a existir, se é assim tão sólida e tão sã como parece querer dizer (para mim, é surpresa que o diga neste artigo). Depois, sendo certo que o Reino Unido não faz parte da zona euro e que os tormentos por que passam os países do sul da Europa, presos à moeda única, assim como a maioria dos que a adotaram, aliás, em nada podem ser aliviados pelo Reino Unido, também é certo que a UE, a que também pertencemos, é mais do que a zona euro e o Reino Unido faz parte desse mais. Quereremos dispensar o peso e, vá lá, a participação da ilha? Para já não falar do problema dos europeus continentais que lá trabalham neste momento. Quereremos que passem a ser considerados turcos, por exemplo?

Não sei se os britânicos irão chegar à conclusão de que a União Europeia, tal como se encontra, não lhes interessa – de facto, os principais países que a compõem são, neste momento, «protetorados» alemães. Ignoro se existe esta interpretação da questão, ou seja, da perda de influência do Reino Unido (preferirem ficar fora do euro teve e tem imensas vantagens, mas tem inconvenientes), e se ela poderá também estar na base do desencanto/hostilidade de muitos círculos políticos. Mas posso calcular que a questão dos imigrantes/refugiados e a atitude da Alemanha neste particular tenham despertado alguma inquietação, prontamente explorada pelo UKIP e demais eurocéticos, que facilmente a transformaram em repúdio pela «Europa». A esta campanha não é alheio, evidentemente, o problema do terrorismo, dos jihadistas que vivem na ilha, dos que podem entrar via continente, e da ameaça que pode passar a representar a livre circulação. Tudo isso pode pesar. Mas, apesar de tudo, é possível que votem «sim». As sondagens, até à «dissidência»/traição Boris, parecem indicá-lo. Será isso pior para a UE, como defende o economista? Para qual UE?

Assumindo o lado de observação em que se coloca Paul De Grauwe, isto é, o do «continente», mas restringindo-o agora aos países a braços com o diktat alemão, eu pergunto: quererei eu,  interessa-me a mim que vivo num desses países, prescindir do contrapeso do Reino Unido? Sobretudo se acabarmos por sair da moeda única e nos mantivermos na União (manter-nos-emos?)? Não me parece. Não quero pertencer a uma Europa ainda mais alemã. Eu que nem voto para o Bundestag. Britânicos? Por mim, ficariam, mesmo chatos. Ou?

Ou não. O forte abanão que a sua saída daria neste edifício frágil, dividido e confuso, para além de penalizador, que é a União afinal enche-me de esperança.

Mas está tudo bem

Vou falar de medicina, ou melhor, da prestação de serviços médicos em Lisboa. Por razões que não interessam, sou obrigada a pagar integralmente as minhas despesas médicas e só depois sou reembolsada. Tendo chegado a altura de fazer o check-up bienal, entendi ser mais fácil realizar os diversos exames e consultas num mesmo local. Dirigi-me, pois, a um hospital privado (que me foi recomendado, pois, apenas recentemente regressada do estrangeiro, desconheço quase o Bê-A-Ba da saúde em Portugal), onde teria garantia de não gastar mais de um ou dois dias com este processo. De facto, assim aconteceu. Melhor ainda, fui orientada e acompanhada nas diversas deslocações no interior do hospital por uma simpatiquíssima “relações públicas” e por um seu simpatiquíssimo colega no segundo dia. O que eu paguei custa a acreditar, tendo em conta o salário médio em Portugal. É verdade que este e os outros hospitais do género têm contratos com seguradoras e com o Estado que permitem que a esmagadora maioria dos clientes nem se aperceba dos preços praticados e considerem os cuidados de saúde baratos. Mas não foi o meu caso. Só um pormenor: uma das mutualistas que têm acordo com este hospital, por exemplo, é a ADSE. Mas vamos aos preços. Médicos: 90 euros; mamografia: 100 euros; ecografia dos seios: 80 euros; ecografia ginecológica: 90 euros, e por aí fora, sendo que as análises ao sangue e a citologia estão ao preço do ouro. E a qualidade? Varia. Se alguns dos serviços me pareceram convenientemente profissionais e competentes, outros suscitaram-se bastantes reservas e receios. Por exemplo, a consulta de clínica geral e a consulta de ginecologia não demoraram mais de 10 minutos, atos de despir e vestir incluídos e, no caso da ginecologia, ecografia interna incluída. De tal maneira que, à saída, tinha perdido a minha «guia», que, ingenuamente, me dera 20 minutos e fora beber um café. Terá sido do meu ar saudável?

Ora, depois disso, precisei de fazer uma radiografia a um pé. Por uma questão mais prática ainda, dirigi-me a um centro de imagiologia médica (também privado) situado mesmo em frente da minha casa. Enquanto falava com a menina da receção, reparei que também faziam mamografias, ecografias, densitometrias ósseas, etc. Perguntei os preços da mamografia e da ecografia: 50 euros a primeira, acrescidos de 25 euros pela  segunda. Uma diferença de mais de 100 euros em relação ao hospital. Sei também que, no centro médico mesmo ao lado (vários consultórios médicos) (também privado), uma consulta de clínica geral não custa mais de 50 euros.

Eu tinha ideia que as economias de escala permitidas por um grande complexo de saúde, como um hospital, permitiriam talvez preços mais em conta. Mas, pelos vistos, é ao contrário. Longe de mim querer proteger as seguradoras, mas considero estes preços claramente inflacionados, sobretudo tendo em conta o nível de vida do país. Sim, caros leitores, são os mesmíssimos preços sem o acompanhamento de um «relações públicas», ou seja, 97% dos casos.