«Pôr-se ao fresco» é uma expressão que significa fugir, não querer saber, livrar-se de responsabilidades. Segundo Passos Coelho, o PS fugiu, não quis saber das suas responsabilidades, em 2011. Se estão incrédulos, eis as suas declarações, ainda ontem:
Ora, pode ter-me escapado alguma coisa do certamente magnífico discurso, todo ele lógica, ontem proferido, mas gostaria muito de saber em que medida o governo caído em 2011 se pôs ao fresco. Do que me lembro, assumindo o poder depois de eleições ganhas por recurso à mentira e às falsas promessas (deliberadas) de cortes exclusivos nas gorduras do Estado, o PSD, liderado por Passos, apareceu, ele sim, descaradamente fresco que nem uma alface, depois de ter deitado para o lixo um acordo arduamente negociado com o BCE e a Comissão Europeia, que teria poupado Portugal a um penoso resgate nos moldes da Grécia (estávamos em plena crise financeira internacional, com a Europa central transformada em cobradora súbita dos até então estimados clientes). Para quem se tinha «posto ao fresco», o governo anterior à coligação tinha tido o enorme sentido de responsabilidade de, face à iminência de um terceiro resgate europeu que a ninguém já interessava, ter defendido o interesse nacional. Pôs-se ao fresco, como?
Foi esta frescura de líder que, uma vez no poder, se propôs acabar com os preguiçosos e os piegas que tinham vivido acima das suas possibilidades, para ser não mais do que o agente dos credores aqui na província do sudoeste, semear a razia e a pobreza e provocar a debandada geral. Para isso, entregou as decisões mais importantes ao ministro das Finanças, Vítor Gaspar, e aconselhou-se com António Borges, um liberal radical vindo da Goldman Sachs (onde fora Managing Director and International Adviser). Antes se tivesse, ele, posto ao fresco!
Vir dizer agora, a propósito de ele próprio «andar ao papéis» (para manter um registo que lhe agrada) com a sintonia de toda a esquerda e o comportamento tranquilo dos mercados, que o governo anterior ao seu «se pôs ao fresco» é, como dizer, armar uma construção sem alicerces em volta de uma expressão que considerou engraçada. É uma parvoeirada política, embora na linha do corte nas gorduras em 2011. Se a direita ainda ouve esta criatura, não devia. Está a ser tão imbecil como ela.
«E não vale a pena virem depois com crises políticas», diz ainda Passos, como se não bastasse de asneiras. Mas a que estará este crânio a referir-se? Quem provocou uma crise política em 2011 só porque Marco António o ameaçou de que ou provocava eleições no país ou perdia a liderança do partido?
Como eu disse, se ainda restam algumas cabeças inteligentes na direita, façam-vos o favor de correr com esta anedota. Já não sabe o que diz. Reformem-se.
