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Mas o que quer Sérgio Sousa Pinto?

Li a entrevista que Sérgio Sousa Pinto (SSP) deu hoje ao Público. SSP é um dos atuais dissidentes da linha seguida pela direção do PS e, tal como Assis, é de imediato muito solicitado pela comunicação social. Eu gostava de SSP e da sua alma inquieta e não percebi muito bem a rutura brusca com a atual direção. Mas o que é que acontece com a entrevista? Acontece que não se consegue perceber verdadeiramente o que incomoda SSP a nível político (recuso-me a acreditar que seja a legitimidade da atual maioria, mas será a não rutura total com a austeridade?) e, na questão europeia, o que o diferencia de António Costa.

SSP diz, por exemplo, que foi a postura conservadora de Guterres em muitas causas sociais que levou à formação e ao relativo sucesso do Bloco. Logo, deduz-se que esse potencial eleitorado flutuante estaria hoje todo no PS e que SSP estaria contente com isso, apesar de ser óbvio que a situação evoluiu com Catarina Martins e que atualmente a fixação do eleitorado do Bloco já não depende exclusivamente nem maioritariamente dessas causas. Mas enfim, nessa frente, tudo estaria tranquilo. No entanto, ao mesmo tempo, SSP defende que o PS devia ter deixado o PSD governar após as eleições de 2015, possivelmente apoiando umas medidas e chumbando outras (e quais, de modo a não fazer cair esse precioso governo, que forçosamente se vitimizaria?), parecendo não partilhar da opinião de que a direita que nos governou nos últimos quatro anos foi de um radicalismo nunca visto (à mistura com mofo de outros tempos, que eu estava convencida incomodava, e muito, SSP) e que havia que impedir a todo o custo o prosseguimento da devastação e da incompetência (que, aliás, deu lindos resultados). Como ficaria o PS, a servir de suporte ao governo de Passos (essa nulidade) e companhia, versão 2? Ficamos sem saber o que pensa SSP sobre isto. Também é verdade que não lhe perguntaram. Afinal, PSS acha que o PS está demasiado à esquerda para o seu gosto, mas não nas causas sociais. É isso? Quem diria. Ou está pouco à esquerda devido à alegada e já acima referida não rutura com a austeridade?

A restante entrevista pareceu-me bastante (ou igualmente) enovelada. Ah, e a que propósito Isabel Moreira, Pedro Nuno Santos ou João Galamba terão pena de não estarem no Bloco ou não terão espaço no PS? SSP não diz nomes, mas não é difícil perceber a quem se refere.

Em suma, Sousa Pinto não quis esperar para ver. Não quis dar o benefício da dúvida. Cortou logo à partida com a solução de António Costa. Mas verdadeiramente, nestes seis meses decorridos, há alguma coisa na atual fórmula de governo que esteja a ser pior do que um segundo governo de Passos, aliás bem mais inseguro e incerto do que este e, ainda por cima, sem a simpatia, vá lá, empatia de Marcelo? Não me parece.

A Companhia de Jesus e o Marquês Tiago Brandão de Pombal

3% de colégios privados mantêm, em 2016, turmas subsidiadas pelo Estado – através de contratos de associação – mesmo quando e onde existe oferta pública. Escreve Helena Matos que, na sua maioria, tais colégios são católicos. Ora, a intenção do Governo de pôr fim a essa concorrência desleal em relação aos restantes colégios privados, não subsidiados, e de dar cumprimento ao princípio da laicidade do Estado e do não confessionalismo do ensino público pela singela e mui pragmática circunstância de haver escolas públicas desaproveitadas na mesma zona, levou Helena Matos a ir buscar os jesuítas e a sua expulsão de Portugal no século XVIII para a sua campanha o seu artigo no Observador em dia de manifestação amarela. O Marquês de Pombal desgraçou o país, diz ela. O governo de Costa, quase três séculos depois, quer desgraçar o país (3% de escolas, lembram-se? Das quais só metade perde subsídios, não ficando de forma nenhuma impedidas de abrir turmas). Como se Tiago Brandão Rodrigues fosse fechar todas as escolas privadas e expulsar os «padres» (como Helena lhes chama). É preciso fanatismo. E desonestidade. Se vivesse no século XVIII, Helena Matos pegaria em armas para defender os jesuítas! Mesmo que a Companhia de Jesus não admitisse mulheres e que a sua visão do sexo feminino fosse a seguinte:

“é tão forçoso pelas traças da mulher o engano, que até o demônio se vale delas para o que quer fazer; não é mais sábio para maquinar intenções do que a mulher advertida para fingir indústrias; o que não confia de si, só fia da mulher o demônio, tudo isto é verdade que no paraíso sucedeu e ainda hoje no mundo se lamenta. (…)Como o intento do demônio é fazer na terra todo o mal que pode, por isto conserva as mulheres, porque elas são de todo o mal o instrumento”.

(António da Silva, pregador jesuíta no Brasil)

OK, já evoluíram um bocadinho desde então. Helena Matos é que está a precisar de um banho de Iluminismo.

A pergunta que não fizeram a Francisco Assis

Na entrevista que hoje dá ao DN, Assis reafirma basicamente que não se identifica com a aliança de governo feita pelo PS após as últimas eleições. Já sabíamos. Possivelmente o que interessava aos entrevistadores era essa reafirmação, sem mais, pois a entrevista não é longa. E também a opinião, de imediato destacada, de que Passos “não é um neoliberal” (matéria que não é desenvolvida, hélas). Passos, de facto, não é nem deixa de ser coisa alguma substancial. É uma nulidade apoiada por neoliberais e por calculistas eleitorais, imaginando-o eu mais facilmente a ir tomar copos com estes últimos em pé de igualdade. Assis embrulha-se um bocado quando diz que Passos também não é social-democrata. Pois é. Se optasse pela nulidade sair-se-ia melhor. Mas a pergunta que importava fazer-lhe e não fizeram e que eu gostaria muito de ver respondida é a seguinte: o que propunha Assis após o resultado das últimas eleições? O cinismo de um governo minoritário de direita (Assis esquece a devastação e a frieza dos últimos quatro anos), derrubável na altura oportuna? Qual? Uma coligação com esta nulidade nem neoliberal nem social-democrata? Para quê? Partilha da opinião da direita de que não havia alternativa?

 

Mas podiam ainda ter-lhe feito outra pergunta: já que coloca na «fila dos burros» os dois partidos da extrema-esquerda, não acha que, por mais pequena que seja, a aproximação desses partidos às lides da governação lhes poderá curar muitas das utopias, sendo uma oportunidade para repensarem o seu papel na democracia? Aqui até seria fácil desenvolver um provável «não, não acho». Mas perguntas destas nunca são feitas.

Favor não comprar a revista Sábado

Agora já está. Já paguei. Mas, se algum dos leitores está a pensar comprar a revista Sábado desta semana por causa do Sócrates, fique desde já a saber que basta mesmo ler a capa para saber as novidades, que são as seguintes: Sócrates era referido como  “Chefe” pelos primos – umas pessoas que têm negócios no Brasil e em Angola – e foi ao casamento de um deles, acompanhado dos filhos. Oito páginas. É obra.

Nesta fase do campeonato, pede-se aos senhores jornalistas que digam coisas com mais substância ou que se calem.

Alguém me explica que resposta é esta?

“Desiludam-se aqueles que pensam que o Presidente da República vai dar um passo sequer para provocar instabilidade neste ciclo que vai até às autárquicas. Depois das autárquicas, veremos o que é que se passa. Mas o ideal para Portugal, neste momento, é que o governo dure e tenha sucesso”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa.

O Presidente da República respondia a perguntas dos jornalistas sobre as relações com o primeiro-ministro, no final de uma visita ao Exército, no Regimento de Comandos, Amadora.

Apesar de ter depois corrigido a primeira declaração de maquinação com repetidas afirmações de desejo de estabilidade em toda a legislatura (ver o resto da notícia), Marcelo Rebelo de Sousa não deixou de aludir aos superpoderes de que se considera imbuído, incluindo o de provocar instabilidade noutro momento que não este, consoante lhe aprouver. Deus nos livre de deus, que, neste caso, já foi um simpático, superficial e inconsequente comentador político.

Poeira que já cegou

Passos Coelho, que a muito custo deixa o estado de estupor catatónico em que mergulhou após as últimas eleições, decidiu que nada mais lhe restava perante o partido do que retomar a azáfama da antiga campanha de mentiras, confiante de que ninguém dá (mais uma vez) por nada. Ontem já o ouvi nas televisões e rádios, algures longe de Lisboa, a dizer que este governo destruiu quase 60 000 empregos desde novembro, com a precisão de que 48 000 foram este ano e os restantes no ano passado. Ou seja, que Costa tomou posse e, mal a tinta da sua assinatura secou, começaram as empresas a despedir pessoal. Certo? Errado. Eis a verdade, reposta por Nicolau Santos no Expresso:

A partir de 2014, a taxa de desemprego em Portugal começou a cair aceleramente, de um pico de superior a 17% no último trimestre de 2013. A economia, contudo, crescia agonicamente, longe dos 2% que, historicamente, são necessários para haver criação líquida de emprego. De onde vinha então a queda acentuada do desemprego? Pois, agora sabe-se: vinha dos “ocupados”, pessoas considerados pelo IEFP como alguém inscrito no centro de emprego e integrado num programa de emprego ou de formação profissional. Eram 30 mil mo final de 2011, 78 mil no começo de 2013 e atingiram um pico de 174 mil em meados de 2015. Como grande parte destes “ocupados” são considerados empregados, a taxa de desemprego descia. Agora que os apoios para essas ações diminuíram devido ao final do anterior quadro comunitário de apoio, o desemprego está a subir“.

Perorando para os homens e mulheres preocupados com a gestação de substituição

  1. Não estamos a inventar a roda. Há países em que tal prática é regulamentada, existindo contratos-modelo que acautelam as mais variadas situações, incluindo as mudanças de opinião e os abortos, espontâneos ou provocados (ler um Pedro Tadeu preocupado, no DN). Haver pagamentos envolvidos não me repugna e considero até essa condição mais justa, pois introduz clareza e segurança para todas as partes. Nos Estados Unidos, por exemplo, os diferentes Estados têm legislação diferente ou nenhuma legislação. Depende. A situação no Illinois, um Estado favorável, é a seguinte:

llinois
Illinois has a statute highly favorable to gestational surrogacy which governs the process from contract formation to the issuance of birth certificates. It applies to single parents who have furnished their own gametes or heterosexual couples where at least one person has furnished his or her own gametes.

  1. Não é por nada que os casos mais mediáticos que conhecemos de parentalidade por interposta pessoa (esta pessoa chamada, em inglês, “gestational carrier”) – Elton John e o marido, Nicole Kidman e Keith Urban, Sarah Jessica Parker e Matthew Broderick, etc. – utilizaram mulheres totalmente desconhecidas, distantes e sem qualquer parentesco com a mãe e os pais biológicos. Evitam-se tentações. Mas pode também ter sido por uma questão legal. Se eu tivesse de o fazer, escolheria uma pessoa que não me estivesse ligada por qualquer laço. E ficar-lhe-ia eternamente agradecida. Como a uma ama que tivesse cuidado bem do meu filho numa determinada idade.
  1. Esta opção de reprodução não deixa ninguém imune ao stress. Imagino que a mãe biológica da criança, a que fornece o material genético e não a gera, sofra horrores, possivelmente bem maiores do que a “portadora”. Tem muito menos controlo e seguimento do processo do que se tivesse a criança no ventre. E mais ansiedade, pois as hormonas da gravidez não estão a fazer o seu papel de preparação/adaptação (enorme sono ao princípio, paz, tranquilidade e bem-estar mais para a frente – falo da regra geral que é também a minha experiência). E que os pais estejam tão ou mais ansiosos do que estariam se fosse a companheira com quem vivem a gerar a sua criança. Portanto, nada disto se faz de ânimo leve e por brincadeira.
  1. Nenhuma mulher que decida ser portadora da criança de outras pessoas (e mesmo que contribua com os seus ovócitos) é obrigada a fazê-lo. Mas, se o faz, assume um compromisso.
  1. Posto isto, não me choca que, no futuro ainda longínquo, para evitar conflitos sentimentais e/ou legais, as crianças sejam geradas pura e simplesmente fora do ventre feminino. Isto parece ficção científica e desumanização, mas cada vez menos. Todos sabemos que a gravidez e o parto têm riscos para as mulheres e desgastam e deformam o nosso corpo e que o controlo do desenvolvimento do feto também não é total estando ele oculto por detrás de uma parede opaca de tecido humano e a interagir com outro ser humano, qualquer intervenção, ingestão ou infeção afetando não só o feto como a pessoa portadora. Sei que já todos lemos estas cenas em livros ou as vimos em filmes e nos atemorizam, quando não repugnam, um bom bocado, mas considero que não é de excluir que se tornem realidade. Olhem, seria, pelo menos, um bom meio de tornar a maternidade e a paternidade totalmente iguais em matéria de apego, responsabilidades e direitos.
  1. Em que é que isso, a muito longo prazo, transformará o corpo feminino, cujos seios deixarão de ter função biológica, não sei. Possivelmente se a humanidade sobreviver ainda um milhão de anos, os sexos assemelhar-se-ão cada vez mais. Divago, obviamente.

 

Alexandra Leitão rules

Em boa hora alguém no PS descobriu esta senhora para fazer parte do Governo. Combativa, preparada, totalmente desprovida de demagogia, clara e objetiva.

Vem isto a propósito de ter visto ontem um bom bocado do Prós e Contras sobre os contratos de associação, tema que, confesso, não sei por que razão ainda anda a ser debatido. Está tudo mais do que claro. Os colégios com contratos de associação que dizem ter enorme qualidade e que por isso advogam o encerramento da escola pública mais próxima deviam deixar de berrar (ou, se quiserem, deixar a sua zona de conforto estatal), porque, além de conhecerem a lei e o histórico destes contratos, se realmente são tão bons como dizem, não vão perder clientes. E ainda têm uns aninhos para fazerem a transição.

 Por mim, quero ser governada pela Alexandra Leitão. Parabéns.

Fernanda Câncio e a reprovação ética

Embora discordando do calor posto nalgumas causas que defende, gosto muito da Fernanda Câncio como jornalista. Reconheço-lhe competência e coragem e, ultimamente, muita coragem na resposta às acusações de que é vítima. Mas acontece aos melhores. Estatelou-se um bocadinho no esclarecimento concedido à revista Visão. Depois de longas e substanciais linhas de argumentação impecável, clara, certeira e bem redigida (como sempre) a propósito das acusações que lhe foram feitas de envolvimento e cumplicidade em crimes no âmbito da Operação Marquês e depois da denúncia do papel revoltante, frustrante, discriminatório e criminoso do Ministério Público nesta charada, Fernanda Câncio resolve dizer que, se soubesse da “relação pecuniária” de Sócrates com o amigo, teria feito perguntas por considerá-la, no mínimo, eticamente reprovável.

Aqui está o que não percebo. Como pode ser eticamente reprovável uma chamada “relação” pecuniária entre dois amigos que mais não pode ser, na prática, do que um acordo? Sobretudo quando não existe evidência alguma de esse amigo ter sido favorecido durante o mandato de Sócrates como primeiro-ministro e, logo, evidência alguma de pagamentos feitos a Sócrates? Evidência alguma.

Para classificar a relação pecuniária entre os dois amigos de, “no mínimo, eticamente reprovável”, Fernanda Câncio teria que saber mais do que aparenta.  Por exemplo, saber não só os termos exatos do acordo entre os dois e os seus motivos (que teriam de ser sujos), mas também que o dinheiro de Santos Silva era ilícito. Ora, tudo indica que a Fernanda não sabe e tudo indica que não é. Se ao menos soubesse de fonte segura que o dinheiro emprestado por Santos Silva tinha proveniência ilícita e que Sócrates tinha disso conhecimento, ainda teria alguma lógica o que diz e deveria até ir mais longe, embora aí pudesse ser acusada de sonegação de informação relevante e de cumplicidade. Como tal não é o caso, deveria guardar os juizos morais para mais tarde.

É que, se a Fernanda não sabe nada dos termos, das condições e das razões do acordo entre os dois, como eu não sei nem quem lê o Correio da Manhã sabe, não tem que reprovar nem aprovar. Era isso que devia ter dito. Ou evitar dizer o que disse. Eles lá sabem. Carlos Santos Silva não foi seguramente obrigado a nada. Deste modo, a Fernanda está pura e simplesmente a dar crédito às insinuações do Correio da Manhã que, no seu caso, tanto repudia. Também não quero acreditar que, se a Fernanda soubesse que quem pagara o aluguer da casa de Formentera fora Santos Silva, não teria ido passar férias com Sócrates. É que a Fernanda diz ter acreditado que era Sócrates que pagava a sua (dela) parte das despesas de férias. Afinal quem pode e quem não pode ser graciosamente convidado para férias (e dispor de uma casa emprestada)? Só a Fernanda e o Marcelo?

Neste processo Marquês, a única coisa que interessa verdadeiramente é se houve corrupção ou se Carlos Santos Silva fez fortuna de forma ilegal. Se não houve nem se provar nada disto, o que cada um faz ao dinheiro é consigo.

Quando o entrevistador sentado expõe teses

Não foi por nada que a fotografia do José Gomes Ferreira (jornalista da SIC) apareceu no elenco de ministros das Finanças convocados para uma das últimas reuniões do Eurogrupo. É que a fama do seu crânio já pode ter chegado longe. A sua tese sobre o BANIF, ontem ratonamente exposta na entrevista a António Costa, testemunha bem a  injustiça que é o homem não ser realmente ministro das Finanças. A sabedoria e a matreirice com que é apresentada, senhores. Ferreira conhece os segredos dos deuses. Ferreira priva com os deuses. Não percam.

Tem, pois, toda a razão e toda a graça Ferreira Fernandes no seu comentário de hoje no DN à dita entrevista. Uma treta de «preâmbulo» e, no conjunto, um formato assaz estranho. Para quem não viu, o que aconteceu foi que, finda a entrevista no estúdio conduzida pelo José Gomes Ferreira, sentado, frente ao entrevistado, também sentado, passou-se a uma segunda entrevista, de pé, também em direto para as câmaras, feita por outro jornalista ao longo de um corredor e depois de outro, em ritmo de amena cavaqueira. Ao contrário do que é costume aqui em Portugal, o segundo lote de perguntas do jornalista à saída do estúdio não incidiu sobre a forma como correu a entrevista lá dentro. Era mesmo sobre matérias políticas que não foram abordadas na sala ou que, tendo-o sido, se pretendia abordar de outro modo ou desenvolver. Era uma segunda entrevista, em que o jornalista parecia verdadeiramente entusiasmado e sem mais nada de importante para fazer. Supinamente cómico foi o facto de Gomes Ferreira alegar, no estúdio, a falta de tempo como pretexto para interromper o entrevistado, quando, afinal, havia todo o tempo do mundo para a segunda entrevista. Não sei o que foi mais parvo: se o José Gomes Ferreira propriamente dito com as suas teses e gráficos e loas à austeridade, se o melão com que o presentearam com a segunda entrevista.

À volta da bonita frase «O que interessa é a qualidade»

Na minha missão de descoberta do Portugal desconhecido, ouvi hoje mais uma Helena, a Garrido, na Antena 1, pouco antes das 9h00, a opinar sobre a questão dos contratos de associação. Não gritem. Impus-me esta missão, pronto. A teoria da nossa Helena de hoje é a seguinte: não interessa que haja, numa dada escola pública, capacidade para receber mais alunos, que essa capacidade esteja desaproveitada, apesar do investimento público efetuado, e que o Estado financie a escola privada ao lado para esta acolher os alunos que poderiam estar a rentabilizar o investimento feito na escola pública, poupando dinheiro aos contribuintes. Isso não interessa. O que interessa (e deve ser esse o critério para decidir o fim do contrato) é a qualidade do ensino ministrado na escola privada financiada. Se é boa (e devemos em absoluto abstrair da possibilidade de seleção, das instalações, etc.), o Estado deve continuar a financiar as turmas (e a fazer exposições nas salas vazias do outro lado da rua). Se é má, não deve e as crianças passarão então para o que será, para Helena, um mal menor, mas ainda assim um mal, que é a dita escola pública.

Inevitável será concluir que, para esta opinadora, a escola pública, se por acaso é má, não pode, nem deve, melhorar a qualidade do seu ensino, as suas instalações, etc. A escola pública parou no tempo e assim é que deve ser. Os tempos são outros para Helena: há que dar lugar aos privados. Gastámos acima das nossas possibilidades, não há dinheiro para escolas públicas. Os cidadãos não têm que reivindicar e exigir melhorias nas escolas públicas. O Governo não pode querê-lo. Deixem isso aos privados. À Igreja, sei lá. As públicas estarão para todo o sempre condenadas à degradação e à mediocridade.

Acontece que, localmente, pode calhar a escola pública ter qualidade. Pode calhar, oxalá, vir a ter qualidade! E se calha os professores do colégio ao lado serem tão bons que o sistema público os acolha? Investir na qualidade não interessa, se for o público, Helena?

Ora, meus caros, sem surpresa, HG passa rapidamente para a Parque Escolar. E que diz ela? Diz, literalmente, que o que a Parque Escolar fez nunca devia ter sido feito, isto é, investir milhares de euros na melhoria das instalações de ensino público. Para ela, isso foi deitar dinheiro ao lixo. E sabem porquê? Ela responde: porque o que interessa é a qualidade do ensino. Lá está. Perceberam? As paredes estão a cair, chove lá dentro, não há ginásio, o material pedagógico está obsoleto, o mobiliário velho, alunos e professores desmotivados, mas o que interessa é a qualidade do ensino. A Parque Escolar devia ter respeitado a qualidade do ensino!

Ainda me estou a rir.

Por aqui, a minha missão está cumprida.

Não sabia que Helena Matos era accionista do Correio da Manhã

Esperar que seja a justiça a resolver o problema Sócrates não só é uma péssima ideia como um risco demasiado elevado.”

(Helena Matos)

Helena Matos tem presença assídua na comunicação social: escreve no jornal digital da direita passista, o Observador, tem uma rubrica diária na Antena 1 e faz comentário político semanal na RTP 3. Alguém saberá porquê. Do que já ouvi e li dela, formei a opinião de que é confusa na exposição das ideias, não se percebendo por vezes onde quer chegar, apesar da voz e da dicção claras e do discurso aparentemente articulado. Quando se cala, ouço-me invariavelmente a perguntar “Quê? Não percebi nada.”. Vê-se bem que é de direita, é certo, mas os assuntos não parecem estar arrumados na sua cabeça e frequentemente mistura alhos com bugalhos. No entanto, no assunto «Sócrates», esta mulher é cristalina e transparente, à luz da psiquiatria, entenda-se: odeia-o. Talvez porque tema adorá-lo e/ ou invejá-lo. É grave, porém, o ódio ser de morte.

O artigo acima lincado é um bom exemplo do que acabo de dizer. Já vamos ao brilho de Sócrates no Marão, que, pelos vistos, a ofuscou. A que propósito é mencionado Pablo Iglésias, líder do Podemos, quando o tema é a inauguração do túnel do Marão e a presença de Sócrates? Responda quem souber.

[…]As democracias tornaram-se o berço de ouro dos radicais, sobretudo daqueles que a rebaixam e destratam: que melhor símbolo dessa esquizofrenia das democracias que a forma como Pablo Iglesias, líder do Podemos, se apresenta e fala nas audiências com o rei de Espanha? Sim, esse Pablo Iglesias que chega à Zarzuela com ar de quem acabou de sair da cama é o mesmo que põe laço e smoking para ir às festas do cinema e da televisão! É tudo uma questão de prioridades.[…]

Mas vamos lá então ao eterno sufoco desta mulher. Bastou Sócrates aparecer num ato oficial e pronunciar uma frases de circunstância para os microfones que logo esta alminha entrou em polvorosa e rapidamente no delírio de imaginar que, se alguém na Justiça se lembrar de não o acusar de nada, de não o julgar e, sobretudo, de não o condenar, os políticos deste país estão feitos. Siderados. O homem arrasa tudo! Isto é Sócrates visto pelos olhos dela.

O último parágrafo, que destaco para memória futura e prova da alucinação que Sócrates provocou nalgumas mentes, é do mais cruel e transparente que já li: é perigoso deixar o caso da estadia de Sócrates em Paris (será só isto?) à Justiça, não vá o homem ser ilibado ou pior, escapar mesmo à acusação de crime, não havendo sequer julgamento. Isso não pode ser. É inadmissível, pensa Helena com base na imensidão do que sabe. O melhor, o mais seguro, é acusá-lo mesmo na praça pública, no Pelourinho, e enforcá-lo. Melhor ainda: não o enforcar, mas ir enforcando para doer mais. Helena tem medo. Helena treme. Helena adora o Correio da Manhã. Helena pagará para manter o Correio da Manhã.

Itália vs. Alemanha (antes fosse futebol)

Um artigo do Guardian que vale a pena ler. Começa assim:

 

«German chancellor Angela Merkel is widely credited with finally answering Henry Kissinger’s famous question about the Western alliance: “What is the phone number for Europe?” But if Europe’s phone number has a German dialling code, it goes through to an automated answer: “Nein zu Allem.” »

(Traduzindo livremente – Angela Merkel veio finalmente permitir responder à famosa pergunta de Henry Kissinger sobre a aliança ocidental: “Que número se liga para falar com a Europa?” Mas, se esse número tem o indicativo da Alemanha, também conduz a um atendedor automático: “Não a tudo”).

E continua:

Deste «Não a tudo» se queixa precisamente Mario Draghi.

«This phrase – “No to everything” – is how Mario Draghi, the European Central Bank president, recently described the standard German response to all economic initiatives aimed at strengthening Europe. A classic case was Merkel’s veto of a proposal by Italian prime minister Matteo Renzi to fund refugee programmes in Europe, North Africa, and Turkey through an issue of EU bonds, an efficient and low-cost idea also advanced by leading financiers such as George Soros.

Merkel’s high-handed refusal even to consider broader European interests if these threaten her domestic popularity has become a recurring nightmare for other EU leaders. This refusal underpins not only her economic and immigration policies, but also her bullying of Greece, her support for coal subsidies, her backing of German carmakers over diesel emissions, her kowtowing to Turkey on press freedom, and her mismanagement of the Minsk agreement in Ukraine. In short, Merkel has done more to damage the EU than any living politician, while constantly proclaiming her passion for “the European project”.»

Deixo-vos com a leitura do restante artigo (basta clicar lá atrás), que não é muito extenso. A Itália de Matteo Renzi é o destaque, pela positiva, mas é o pretexto para falar da Europa. Os tempos mudam e António Costa não está só.

 

Não dei por ninguém se ter «posto ao fresco»

«Pôr-se ao fresco» é uma expressão que significa fugir, não querer saber, livrar-se de responsabilidades. Segundo Passos Coelho, o PS fugiu, não quis saber das suas responsabilidades, em 2011. Se estão incrédulos, eis as suas declarações, ainda ontem:

Haverá um dia em que o Governo vai ter de corrigir [as políticas que está a empreender] e espero que não se ponha ao fresco, como em 2011. Deve ser este Governo e a sua maioria a corrigir os erros que estão a cometer porque tem essa responsabilidade. Espero que a maioria aprove os Orçamentos do Estado de 2017 e 2018. Não contem para isso connosco e não vale a pena virem depois com crises políticas“, afirmou Pedro Passos Coelho.

Ora, pode ter-me escapado alguma coisa do certamente magnífico discurso, todo ele lógica, ontem proferido, mas gostaria muito de saber em que medida o governo caído em 2011 se pôs ao fresco. Do que me lembro, assumindo o poder depois de eleições ganhas por recurso à mentira e às falsas promessas (deliberadas) de cortes exclusivos nas gorduras do Estado, o PSD, liderado por Passos, apareceu, ele sim, descaradamente fresco que nem uma alface, depois de ter deitado para o lixo um acordo arduamente negociado com o BCE e a Comissão Europeia, que teria poupado Portugal a um penoso resgate nos moldes da Grécia (estávamos em plena crise financeira internacional, com a Europa central transformada em cobradora súbita dos até então estimados clientes). Para quem se tinha «posto ao fresco», o governo anterior à coligação tinha tido o enorme sentido de responsabilidade de, face à iminência de um terceiro resgate europeu que a ninguém já interessava, ter defendido o interesse nacional. Pôs-se ao fresco, como?

Foi esta frescura de líder que, uma vez no poder, se propôs acabar com os preguiçosos e os piegas que tinham vivido acima das suas possibilidades, para ser não mais do que o agente dos credores aqui na província do sudoeste, semear a razia e a pobreza e provocar a debandada geral. Para isso, entregou as decisões mais importantes ao ministro das Finanças, Vítor Gaspar, e aconselhou-se com António Borges, um liberal radical vindo da Goldman Sachs (onde fora Managing Director and International Adviser). Antes se tivesse, ele, posto ao fresco!

Vir dizer agora, a propósito de ele próprio «andar ao papéis» (para manter um registo que lhe agrada) com a sintonia de toda a esquerda e o comportamento tranquilo dos mercados, que o governo anterior ao seu «se pôs ao fresco» é, como dizer, armar uma construção sem alicerces em volta de uma expressão que considerou engraçada. É uma parvoeirada política, embora na linha do corte nas gorduras em 2011. Se a direita ainda ouve esta criatura, não devia. Está a ser tão imbecil como ela.

«E não vale a pena virem depois com crises políticas», diz ainda Passos, como se não bastasse de asneiras. Mas a que estará este crânio a referir-se? Quem provocou uma crise política em 2011 só porque Marco António o ameaçou de que ou provocava eleições no país ou perdia a liderança do partido?

Como eu disse, se ainda restam algumas cabeças inteligentes na direita, façam-vos o favor de correr com esta anedota. Já não sabe o que diz. Reformem-se.

Neste 25 de abril, a falácia das «reformas estruturais» bem abordada

O 25 de abril é sempre ocasião para falar de trabalho, trabalhadores, patrões, sindicatos, reforma agrária, lutas laborais locais e internacionais e outras questões importantes, muito mais importantes do que aquilo que os chavões já gastos, de tão repetidos, dos comunistas portugueses nos fazem crer. O monopólio que têm tido destas palavras quase as esvazia de significado. No entanto, o trabalho, a qualidade do trabalho, a capacidade de trabalho, a falta de trabalho, a luta pelo trabalho, a exploração do trabalho, os contratos de trabalho são o que de mais fundamental existe no mundo para o progresso, o bem estar e a sobrevivência dos humanos.

 

Sugiro, pois, a leitura de um simples artigo de Wolfgang Münchau, hoje publicado no DN, sobre a globalização e o trabalho no Ocidente. Deixo aqui um destaque, mas conviria ler tudo.

 

[…]Em grande parte da Europa, a combinação da globalização e dos avanços tecnológicos destruiu a antiga classe trabalhadora e prejudica agora os empregos qualificados da classe média baixa. Portanto, a insurreição dos eleitores não é chocante nem irracional. Por que razão saudariam os eleitores franceses as reformas do mercado de trabalho, se isso pode resultar na perda dos seus empregos atuais, sem esperança de conseguirem outros?

Algumas reformas funcionaram, mas perguntemo-nos porquê. As aclamadas reformas do mercado de trabalho na Alemanha, em 2003, foram bem-sucedidas no curto prazo porque aumentaram a competitividade dos custos do país através de salários mais baixos em relação a outros países desenvolvidos. As reformas produziram um estado de quase pleno emprego só porque nenhum outro país fez o mesmo. Se outros se tivessem seguido, não teria havido nenhum ganho concreto.

As reformas tiveram uma grande desvantagem. Elas reduziram os preços relativos na Alemanha e impulsionaram as exportações, gerando no entanto saídas maciças de poupanças, a causa profunda dos desequilíbrios que levaram à crise da zona euro. Reformas como essas dificilmente poderão ser a receita para os países desenvolvidos resolverem o problema da globalização. […]

[…] A Finlândia lidera todos os rankings de competitividade, mas a economia é um caso bicudo de não recuperação e tem um forte partido populista. O impacto económico das reformas é geralmente mais subtil do que os seus defensores admitem. E não há nenhuma ligação direta entre as reformas e o apoio aos partidos políticos estabelecidos. […]

Hoje é 25 de abril. A informação é essencial à democracia. Um grande viva à liberdade e ao fim do obscurantismo e da beatice (Salazar era solteiro, não copulava, só lia livros de santos e tinha um genuflexório no escritório).