Retirado da “Geringonça”
O ministro das Finanças dos Países Baixos, Jeroen Djisselbloem, que preside ao Eurogrupo (entidade que reúne todos os ministros das Finanças da zona Euro), criticou a Comissão por não aplicar automaticamente, ou seja, sem ter em conta causas e circunstâncias, sanções aos países ditos “pecadores em matéria de défice”. Não se sabe se falava em nome individual (e com que ousadia) ou de todo o Eurogrupo (difícil de acreditar). Mas o que é certo é que quer forçar a Comissão a tomar uma medida que nunca foi anteriormente tomada, apesar de os casos de violações do Pacto de Estabilidade já ascenderem a mais de uma centena.
Aproveito para lembrar que a expressão «pecadores», em si bastante carregada de puritanismo (doutrina que serve tão bem a alguns nesta crise) e portanto deslocada num contexto de crise essencialmente financeira, já não é de agora. Em junho de 2005, pelo menos, já se titulavam assim certos artigos, aparentemente sem jocosidade:
Pois é. Estava então a Alemanha no clube dos “sancionáveis”. Mas, apesar dos “pecados” aqui apontados, este país, assim como todos os mencionados no artigo, escapou tranquilamente a sanções e não tenho dúvidas de que muito apreciou na altura a compreensão/distração/obediência da Comissão Europeia. Agora, dez anos mais tarde, continua a haver países em infração por défice excessivo e um por superavit, a Alemanha, mas este último caso parece não suscitar em ninguém a exigência do cumprimento das regras, muito menos aos senhores Schäuble e Djesselbloem. Só os outros.
É evidente que Jean-Claude Juncker, o presidente da Comissão, teve uma tirada demasiado sincera, provocatória, infeliz, desastrada ou de ironia duvidosa, conforme a perspetiva com que se a queira encarar, ao dizer que a França é a França e por isso beneficia (ou deve beneficiar) de derrogações. No entanto, o conflito (mal-estar?) com a Comissão está declarado e, sendo assim, não me surpreenderá que, no estado de pré-desagregação em que se encontra a União Europeia e entrando os países sancionados ao barulho, as acusações de uns e outros comecem a surgir e se desencadeie uma guerra jurídica para resolver o que é ou não é justo à luz do Pacto. E, já agora, para recordar quem disse o quê de determinados governos “obedientes” de países resgatados e quais as responsabilidades de quem traçou, impôs, encorajou e elogiou as políticas que não evitaram o incumprimento do Pacto. Era giro. Sobretudo se nos ficarmos pela guerra jurídica.
Li a entrevista que Sérgio Sousa Pinto (SSP) deu hoje ao Público. SSP é um dos atuais dissidentes da linha seguida pela direção do PS e, tal como Assis, é de imediato muito solicitado pela comunicação social. Eu gostava de SSP e da sua alma inquieta e não percebi muito bem a rutura brusca com a atual direção. Mas o que é que acontece com a entrevista? Acontece que não se consegue perceber verdadeiramente o que incomoda SSP a nível político (recuso-me a acreditar que seja a legitimidade da atual maioria, mas será a não rutura total com a austeridade?) e, na questão europeia, o que o diferencia de António Costa.
SSP diz, por exemplo, que foi a postura conservadora de Guterres em muitas causas sociais que levou à formação e ao relativo sucesso do Bloco. Logo, deduz-se que esse potencial eleitorado flutuante estaria hoje todo no PS e que SSP estaria contente com isso, apesar de ser óbvio que a situação evoluiu com Catarina Martins e que atualmente a fixação do eleitorado do Bloco já não depende exclusivamente nem maioritariamente dessas causas. Mas enfim, nessa frente, tudo estaria tranquilo. No entanto, ao mesmo tempo, SSP defende que o PS devia ter deixado o PSD governar após as eleições de 2015, possivelmente apoiando umas medidas e chumbando outras (e quais, de modo a não fazer cair esse precioso governo, que forçosamente se vitimizaria?), parecendo não partilhar da opinião de que a direita que nos governou nos últimos quatro anos foi de um radicalismo nunca visto (à mistura com mofo de outros tempos, que eu estava convencida incomodava, e muito, SSP) e que havia que impedir a todo o custo o prosseguimento da devastação e da incompetência (que, aliás, deu lindos resultados). Como ficaria o PS, a servir de suporte ao governo de Passos (essa nulidade) e companhia, versão 2? Ficamos sem saber o que pensa SSP sobre isto. Também é verdade que não lhe perguntaram. Afinal, PSS acha que o PS está demasiado à esquerda para o seu gosto, mas não nas causas sociais. É isso? Quem diria. Ou está pouco à esquerda devido à alegada e já acima referida não rutura com a austeridade?
A restante entrevista pareceu-me bastante (ou igualmente) enovelada. Ah, e a que propósito Isabel Moreira, Pedro Nuno Santos ou João Galamba terão pena de não estarem no Bloco ou não terão espaço no PS? SSP não diz nomes, mas não é difícil perceber a quem se refere.
Em suma, Sousa Pinto não quis esperar para ver. Não quis dar o benefício da dúvida. Cortou logo à partida com a solução de António Costa. Mas verdadeiramente, nestes seis meses decorridos, há alguma coisa na atual fórmula de governo que esteja a ser pior do que um segundo governo de Passos, aliás bem mais inseguro e incerto do que este e, ainda por cima, sem a simpatia, vá lá, empatia de Marcelo? Não me parece.
3% de colégios privados mantêm, em 2016, turmas subsidiadas pelo Estado – através de contratos de associação – mesmo quando e onde existe oferta pública. Escreve Helena Matos que, na sua maioria, tais colégios são católicos. Ora, a intenção do Governo de pôr fim a essa concorrência desleal em relação aos restantes colégios privados, não subsidiados, e de dar cumprimento ao princípio da laicidade do Estado e do não confessionalismo do ensino público pela singela e mui pragmática circunstância de haver escolas públicas desaproveitadas na mesma zona, levou Helena Matos a ir buscar os jesuítas e a sua expulsão de Portugal no século XVIII para a sua campanha o seu artigo no Observador em dia de manifestação amarela. O Marquês de Pombal desgraçou o país, diz ela. O governo de Costa, quase três séculos depois, quer desgraçar o país (3% de escolas, lembram-se? Das quais só metade perde subsídios, não ficando de forma nenhuma impedidas de abrir turmas). Como se Tiago Brandão Rodrigues fosse fechar todas as escolas privadas e expulsar os «padres» (como Helena lhes chama). É preciso fanatismo. E desonestidade. Se vivesse no século XVIII, Helena Matos pegaria em armas para defender os jesuítas! Mesmo que a Companhia de Jesus não admitisse mulheres e que a sua visão do sexo feminino fosse a seguinte:
“é tão forçoso pelas traças da mulher o engano, que até o demônio se vale delas para o que quer fazer; não é mais sábio para maquinar intenções do que a mulher advertida para fingir indústrias; o que não confia de si, só fia da mulher o demônio, tudo isto é verdade que no paraíso sucedeu e ainda hoje no mundo se lamenta. (…)Como o intento do demônio é fazer na terra todo o mal que pode, por isto conserva as mulheres, porque elas são de todo o mal o instrumento”.
(António da Silva, pregador jesuíta no Brasil)
OK, já evoluíram um bocadinho desde então. Helena Matos é que está a precisar de um banho de Iluminismo.
Na entrevista que hoje dá ao DN, Assis reafirma basicamente que não se identifica com a aliança de governo feita pelo PS após as últimas eleições. Já sabíamos. Possivelmente o que interessava aos entrevistadores era essa reafirmação, sem mais, pois a entrevista não é longa. E também a opinião, de imediato destacada, de que Passos “não é um neoliberal” (matéria que não é desenvolvida, hélas). Passos, de facto, não é nem deixa de ser coisa alguma substancial. É uma nulidade apoiada por neoliberais e por calculistas eleitorais, imaginando-o eu mais facilmente a ir tomar copos com estes últimos em pé de igualdade. Assis embrulha-se um bocado quando diz que Passos também não é social-democrata. Pois é. Se optasse pela nulidade sair-se-ia melhor. Mas a pergunta que importava fazer-lhe e não fizeram e que eu gostaria muito de ver respondida é a seguinte: o que propunha Assis após o resultado das últimas eleições? O cinismo de um governo minoritário de direita (Assis esquece a devastação e a frieza dos últimos quatro anos), derrubável na altura oportuna? Qual? Uma coligação com esta nulidade nem neoliberal nem social-democrata? Para quê? Partilha da opinião da direita de que não havia alternativa?
Mas podiam ainda ter-lhe feito outra pergunta: já que coloca na «fila dos burros» os dois partidos da extrema-esquerda, não acha que, por mais pequena que seja, a aproximação desses partidos às lides da governação lhes poderá curar muitas das utopias, sendo uma oportunidade para repensarem o seu papel na democracia? Aqui até seria fácil desenvolver um provável «não, não acho». Mas perguntas destas nunca são feitas.
O enterro da seleção já tem música. Do Pedro Abrunhosa.
Agora já está. Já paguei. Mas, se algum dos leitores está a pensar comprar a revista Sábado desta semana por causa do Sócrates, fique desde já a saber que basta mesmo ler a capa para saber as novidades, que são as seguintes: Sócrates era referido como “Chefe” pelos primos – umas pessoas que têm negócios no Brasil e em Angola – e foi ao casamento de um deles, acompanhado dos filhos. Oito páginas. É obra.
Nesta fase do campeonato, pede-se aos senhores jornalistas que digam coisas com mais substância ou que se calem.
Apesar de ter depois corrigido a primeira declaração de maquinação com repetidas afirmações de desejo de estabilidade em toda a legislatura (ver o resto da notícia), Marcelo Rebelo de Sousa não deixou de aludir aos superpoderes de que se considera imbuído, incluindo o de provocar instabilidade noutro momento que não este, consoante lhe aprouver. Deus nos livre de deus, que, neste caso, já foi um simpático, superficial e inconsequente comentador político.
Passos Coelho, que a muito custo deixa o estado de estupor catatónico em que mergulhou após as últimas eleições, decidiu que nada mais lhe restava perante o partido do que retomar a azáfama da antiga campanha de mentiras, confiante de que ninguém dá (mais uma vez) por nada. Ontem já o ouvi nas televisões e rádios, algures longe de Lisboa, a dizer que este governo destruiu quase 60 000 empregos desde novembro, com a precisão de que 48 000 foram este ano e os restantes no ano passado. Ou seja, que Costa tomou posse e, mal a tinta da sua assinatura secou, começaram as empresas a despedir pessoal. Certo? Errado. Eis a verdade, reposta por Nicolau Santos no Expresso:
llinois
Illinois has a statute highly favorable to gestational surrogacy which governs the process from contract formation to the issuance of birth certificates. It applies to single parents who have furnished their own gametes or heterosexual couples where at least one person has furnished his or her own gametes.
Em boa hora alguém no PS descobriu esta senhora para fazer parte do Governo. Combativa, preparada, totalmente desprovida de demagogia, clara e objetiva.
Vem isto a propósito de ter visto ontem um bom bocado do Prós e Contras sobre os contratos de associação, tema que, confesso, não sei por que razão ainda anda a ser debatido. Está tudo mais do que claro. Os colégios com contratos de associação que dizem ter enorme qualidade e que por isso advogam o encerramento da escola pública mais próxima deviam deixar de berrar (ou, se quiserem, deixar a sua zona de conforto estatal), porque, além de conhecerem a lei e o histórico destes contratos, se realmente são tão bons como dizem, não vão perder clientes. E ainda têm uns aninhos para fazerem a transição.
Por mim, quero ser governada pela Alexandra Leitão. Parabéns.
Embora discordando do calor posto nalgumas causas que defende, gosto muito da Fernanda Câncio como jornalista. Reconheço-lhe competência e coragem e, ultimamente, muita coragem na resposta às acusações de que é vítima. Mas acontece aos melhores. Estatelou-se um bocadinho no esclarecimento concedido à revista Visão. Depois de longas e substanciais linhas de argumentação impecável, clara, certeira e bem redigida (como sempre) a propósito das acusações que lhe foram feitas de envolvimento e cumplicidade em crimes no âmbito da Operação Marquês e depois da denúncia do papel revoltante, frustrante, discriminatório e criminoso do Ministério Público nesta charada, Fernanda Câncio resolve dizer que, se soubesse da “relação pecuniária” de Sócrates com o amigo, teria feito perguntas por considerá-la, no mínimo, eticamente reprovável.
Aqui está o que não percebo. Como pode ser eticamente reprovável uma chamada “relação” pecuniária entre dois amigos que mais não pode ser, na prática, do que um acordo? Sobretudo quando não existe evidência alguma de esse amigo ter sido favorecido durante o mandato de Sócrates como primeiro-ministro e, logo, evidência alguma de pagamentos feitos a Sócrates? Evidência alguma.
Para classificar a relação pecuniária entre os dois amigos de, “no mínimo, eticamente reprovável”, Fernanda Câncio teria que saber mais do que aparenta. Por exemplo, saber não só os termos exatos do acordo entre os dois e os seus motivos (que teriam de ser sujos), mas também que o dinheiro de Santos Silva era ilícito. Ora, tudo indica que a Fernanda não sabe e tudo indica que não é. Se ao menos soubesse de fonte segura que o dinheiro emprestado por Santos Silva tinha proveniência ilícita e que Sócrates tinha disso conhecimento, ainda teria alguma lógica o que diz e deveria até ir mais longe, embora aí pudesse ser acusada de sonegação de informação relevante e de cumplicidade. Como tal não é o caso, deveria guardar os juizos morais para mais tarde.
É que, se a Fernanda não sabe nada dos termos, das condições e das razões do acordo entre os dois, como eu não sei nem quem lê o Correio da Manhã sabe, não tem que reprovar nem aprovar. Era isso que devia ter dito. Ou evitar dizer o que disse. Eles lá sabem. Carlos Santos Silva não foi seguramente obrigado a nada. Deste modo, a Fernanda está pura e simplesmente a dar crédito às insinuações do Correio da Manhã que, no seu caso, tanto repudia. Também não quero acreditar que, se a Fernanda soubesse que quem pagara o aluguer da casa de Formentera fora Santos Silva, não teria ido passar férias com Sócrates. É que a Fernanda diz ter acreditado que era Sócrates que pagava a sua (dela) parte das despesas de férias. Afinal quem pode e quem não pode ser graciosamente convidado para férias (e dispor de uma casa emprestada)? Só a Fernanda e o Marcelo?
Neste processo Marquês, a única coisa que interessa verdadeiramente é se houve corrupção ou se Carlos Santos Silva fez fortuna de forma ilegal. Se não houve nem se provar nada disto, o que cada um faz ao dinheiro é consigo.
Não foi por nada que a fotografia do José Gomes Ferreira (jornalista da SIC) apareceu no elenco de ministros das Finanças convocados para uma das últimas reuniões do Eurogrupo. É que a fama do seu crânio já pode ter chegado longe. A sua tese sobre o BANIF, ontem ratonamente exposta na entrevista a António Costa, testemunha bem a injustiça que é o homem não ser realmente ministro das Finanças. A sabedoria e a matreirice com que é apresentada, senhores. Ferreira conhece os segredos dos deuses. Ferreira priva com os deuses. Não percam.
Tem, pois, toda a razão e toda a graça Ferreira Fernandes no seu comentário de hoje no DN à dita entrevista. Uma treta de «preâmbulo» e, no conjunto, um formato assaz estranho. Para quem não viu, o que aconteceu foi que, finda a entrevista no estúdio conduzida pelo José Gomes Ferreira, sentado, frente ao entrevistado, também sentado, passou-se a uma segunda entrevista, de pé, também em direto para as câmaras, feita por outro jornalista ao longo de um corredor e depois de outro, em ritmo de amena cavaqueira. Ao contrário do que é costume aqui em Portugal, o segundo lote de perguntas do jornalista à saída do estúdio não incidiu sobre a forma como correu a entrevista lá dentro. Era mesmo sobre matérias políticas que não foram abordadas na sala ou que, tendo-o sido, se pretendia abordar de outro modo ou desenvolver. Era uma segunda entrevista, em que o jornalista parecia verdadeiramente entusiasmado e sem mais nada de importante para fazer. Supinamente cómico foi o facto de Gomes Ferreira alegar, no estúdio, a falta de tempo como pretexto para interromper o entrevistado, quando, afinal, havia todo o tempo do mundo para a segunda entrevista. Não sei o que foi mais parvo: se o José Gomes Ferreira propriamente dito com as suas teses e gráficos e loas à austeridade, se o melão com que o presentearam com a segunda entrevista.
Na minha missão de descoberta do Portugal desconhecido, ouvi hoje mais uma Helena, a Garrido, na Antena 1, pouco antes das 9h00, a opinar sobre a questão dos contratos de associação. Não gritem. Impus-me esta missão, pronto. A teoria da nossa Helena de hoje é a seguinte: não interessa que haja, numa dada escola pública, capacidade para receber mais alunos, que essa capacidade esteja desaproveitada, apesar do investimento público efetuado, e que o Estado financie a escola privada ao lado para esta acolher os alunos que poderiam estar a rentabilizar o investimento feito na escola pública, poupando dinheiro aos contribuintes. Isso não interessa. O que interessa (e deve ser esse o critério para decidir o fim do contrato) é a qualidade do ensino ministrado na escola privada financiada. Se é boa (e devemos em absoluto abstrair da possibilidade de seleção, das instalações, etc.), o Estado deve continuar a financiar as turmas (e a fazer exposições nas salas vazias do outro lado da rua). Se é má, não deve e as crianças passarão então para o que será, para Helena, um mal menor, mas ainda assim um mal, que é a dita escola pública.
Inevitável será concluir que, para esta opinadora, a escola pública, se por acaso é má, não pode, nem deve, melhorar a qualidade do seu ensino, as suas instalações, etc. A escola pública parou no tempo e assim é que deve ser. Os tempos são outros para Helena: há que dar lugar aos privados. Gastámos acima das nossas possibilidades, não há dinheiro para escolas públicas. Os cidadãos não têm que reivindicar e exigir melhorias nas escolas públicas. O Governo não pode querê-lo. Deixem isso aos privados. À Igreja, sei lá. As públicas estarão para todo o sempre condenadas à degradação e à mediocridade.
Acontece que, localmente, pode calhar a escola pública ter qualidade. Pode calhar, oxalá, vir a ter qualidade! E se calha os professores do colégio ao lado serem tão bons que o sistema público os acolha? Investir na qualidade não interessa, se for o público, Helena?
Ora, meus caros, sem surpresa, HG passa rapidamente para a Parque Escolar. E que diz ela? Diz, literalmente, que o que a Parque Escolar fez nunca devia ter sido feito, isto é, investir milhares de euros na melhoria das instalações de ensino público. Para ela, isso foi deitar dinheiro ao lixo. E sabem porquê? Ela responde: porque o que interessa é a qualidade do ensino. Lá está. Perceberam? As paredes estão a cair, chove lá dentro, não há ginásio, o material pedagógico está obsoleto, o mobiliário velho, alunos e professores desmotivados, mas o que interessa é a qualidade do ensino. A Parque Escolar devia ter respeitado a qualidade do ensino!
Ainda me estou a rir.
Por aqui, a minha missão está cumprida.
(Helena Matos)
Helena Matos tem presença assídua na comunicação social: escreve no jornal digital da direita passista, o Observador, tem uma rubrica diária na Antena 1 e faz comentário político semanal na RTP 3. Alguém saberá porquê. Do que já ouvi e li dela, formei a opinião de que é confusa na exposição das ideias, não se percebendo por vezes onde quer chegar, apesar da voz e da dicção claras e do discurso aparentemente articulado. Quando se cala, ouço-me invariavelmente a perguntar “Quê? Não percebi nada.”. Vê-se bem que é de direita, é certo, mas os assuntos não parecem estar arrumados na sua cabeça e frequentemente mistura alhos com bugalhos. No entanto, no assunto «Sócrates», esta mulher é cristalina e transparente, à luz da psiquiatria, entenda-se: odeia-o. Talvez porque tema adorá-lo e/ ou invejá-lo. É grave, porém, o ódio ser de morte.
O artigo acima lincado é um bom exemplo do que acabo de dizer. Já vamos ao brilho de Sócrates no Marão, que, pelos vistos, a ofuscou. A que propósito é mencionado Pablo Iglésias, líder do Podemos, quando o tema é a inauguração do túnel do Marão e a presença de Sócrates? Responda quem souber.
[…]As democracias tornaram-se o berço de ouro dos radicais, sobretudo daqueles que a rebaixam e destratam: que melhor símbolo dessa esquizofrenia das democracias que a forma como Pablo Iglesias, líder do Podemos, se apresenta e fala nas audiências com o rei de Espanha? Sim, esse Pablo Iglesias que chega à Zarzuela com ar de quem acabou de sair da cama é o mesmo que põe laço e smoking para ir às festas do cinema e da televisão! É tudo uma questão de prioridades.[…]
Mas vamos lá então ao eterno sufoco desta mulher. Bastou Sócrates aparecer num ato oficial e pronunciar uma frases de circunstância para os microfones que logo esta alminha entrou em polvorosa e rapidamente no delírio de imaginar que, se alguém na Justiça se lembrar de não o acusar de nada, de não o julgar e, sobretudo, de não o condenar, os políticos deste país estão feitos. Siderados. O homem arrasa tudo! Isto é Sócrates visto pelos olhos dela.
O último parágrafo, que destaco para memória futura e prova da alucinação que Sócrates provocou nalgumas mentes, é do mais cruel e transparente que já li: é perigoso deixar o caso da estadia de Sócrates em Paris (será só isto?) à Justiça, não vá o homem ser ilibado ou pior, escapar mesmo à acusação de crime, não havendo sequer julgamento. Isso não pode ser. É inadmissível, pensa Helena com base na imensidão do que sabe. O melhor, o mais seguro, é acusá-lo mesmo na praça pública, no Pelourinho, e enforcá-lo. Melhor ainda: não o enforcar, mas ir enforcando para doer mais. Helena tem medo. Helena treme. Helena adora o Correio da Manhã. Helena pagará para manter o Correio da Manhã.

Marques Mendes debita semanalmente na SIC sem contraditório. Agora acabou. Veja o vídeo, clicando neste link:
Um artigo do Guardian que vale a pena ler. Começa assim:
(Traduzindo livremente – Angela Merkel veio finalmente permitir responder à famosa pergunta de Henry Kissinger sobre a aliança ocidental: “Que número se liga para falar com a Europa?” Mas, se esse número tem o indicativo da Alemanha, também conduz a um atendedor automático: “Não a tudo”).
E continua:
Deste «Não a tudo» se queixa precisamente Mario Draghi.
«This phrase – “No to everything” – is how Mario Draghi, the European Central Bank president, recently described the standard German response to all economic initiatives aimed at strengthening Europe. A classic case was Merkel’s veto of a proposal by Italian prime minister Matteo Renzi to fund refugee programmes in Europe, North Africa, and Turkey through an issue of EU bonds, an efficient and low-cost idea also advanced by leading financiers such as George Soros.
Merkel’s high-handed refusal even to consider broader European interests if these threaten her domestic popularity has become a recurring nightmare for other EU leaders. This refusal underpins not only her economic and immigration policies, but also her bullying of Greece, her support for coal subsidies, her backing of German carmakers over diesel emissions, her kowtowing to Turkey on press freedom, and her mismanagement of the Minsk agreement in Ukraine. In short, Merkel has done more to damage the EU than any living politician, while constantly proclaiming her passion for “the European project”.»
Deixo-vos com a leitura do restante artigo (basta clicar lá atrás), que não é muito extenso. A Itália de Matteo Renzi é o destaque, pela positiva, mas é o pretexto para falar da Europa. Os tempos mudam e António Costa não está só.