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Lembram-se do Assange? Pois prefere Trump a Clinton

Ele próprio o afirmou numa entrevista ao canal inglês ITV antes da Convenção do Partido Democrático americano e próximo da publicação pela Wikileaks de e-mails pirateados da Comissão Democrática Nacional, que indicam que funcionários do partido apoiaram a título privado a nomeação presidencial de Hillary Clinton. (notícia no New York Times)

At one point, Mr. Peston said: “Plainly, what you are saying, what you are publishing, hurts Hillary Clinton. Would you prefer Trump to be president?

Mr. Assange replied that what Mr. Trump would do as president was “completely unpredictable.” By contrast, he thought it was predictable that Mrs. Clinton would wield power in two ways he found problematic.

First, citing his “personal perspective,” Mr. Assange accused Mrs. Clinton of having been among those pushing to indict him after WikiLeaks disseminated a quarter of a million diplomatic cables during her tenure as secretary of state.

“We do see her as a bit of a problem for freedom of the press more generally,” Mr. Assange said.

Freedom of the press“, diz ele. Sabendo que poderia dividir os democratas, acirrar os ânimos dos apoiantes de Bernie Sanders e favorecer assim, indiretamente, o candidato republicano, Assange usa da sua liberdade de imprensa, eventualmente garantida pelos russos, que parece preferirem também Trump, para vingar um ódio pessoal. De notar ainda como ser “totalmente imprevisível” (qualidade atribuída a Trump) é, para Assange, uma boa coisa. É caso para acreditar que está à espera de boas surpresas vindas do inenarrável candidato republicano.

 

Os jornalistas dos Panama Papers emudeceram para não levantarem ondas prejudiciais aos seus amigos; este publica fugas conseguidas sabe-se lá por quem para intervir politicamente em nome de uma vingança pessoal. São todos extraordinariamente isentos. Sim, é verdade que o New York Times, que também não tem que gostar do Trump e não gosta, sabe que o que publica tem uma intenção e também um efeito. A notícia é, porém, objetiva e pertinente. Dir-me-ão que o “leak” do Assange também era pertinente (embora quase ineficaz), porque ele preferia o Sanders (que não é má pessoa, só demasiado sonhador e utópico e com menos hipóteses de vencer a nomeação). Mas a verdade é que não era o Sanders que iria ganhar a nomeação e muito menos derrotar o Trump, caso tivesse sido nomeado. A questão é, pois, a seguinte: o Assange quer o Trump como presidente dos Estados Unidos? A sério?? Até o nosso PCP já conseguiu descortinar algumas diferenças entre os nossos dirigentes locais, quanto mais este pateta quando está em causa o governo da maior potência militar do planeta.

Religião e bestas

Não sei de nenhuma boa ação que um crente faça que um bom não crente não faça. Ao contrário de um crente, um não crente nunca matará em nome de uma religião. No entanto, tanto um crente como um não crente podem matar por qualquer outro motivo. Um crente, porém, mediante umas ladainhas, vai para o céu.

Para a vida pacífica em sociedade, é esta a importância que atribuo às normas e credos religiosos – nenhuma. Isto dito, do crime cometido ontem numa igreja em Saint-Etienne du Rouvray, extraio as seguintes conclusões:

  1. Felizmente, a frequência da missa era mínima; quase não havia quórum.

  1. Deus não impediu o ato cometido em nome de Alá na sua suposta casa. Trata-se, portanto, de um omnipotente que permite com divina indiferença que existam vítimas do amor por ele. A religião é de uma utilidade que me faz suspirar-

  1. Mortos os assassinos, que degolaram o pobre do padre no altar, ficámos sem saber se tinham ou não problemas psiquiátricos, para além do da adoração de Alá, o tal que venceu Deus numa igreja católica. Mas é indiferente, penso eu.

  1. Um dos assassinos estava já classificado de perigoso pelas autoridades e era vigiado eletronicamente por ter tentado viajar duas vezes para a Síria, mas – vamos rir – constava dos termos da sua libertação a interrupção dessa vigilância entre as 8h30 e as 12h30. O crime foi entre as 9h00 e as 11h00. A França era uma sociedade livre e despreocupada. Vai ter que mudar um pouco.

  1. As declarações de François Hollande a propósito foram confrangedoras. Andou tudo à volta da magnífica observação “Estamos em guerra com o DAESH.” Ora, numa altura em que já se percebeu que qualquer desequilibrado mental que saque de uma catana, faca, revólver ou bomba e desate a matar pessoas aqui no Ocidente depois de gritar que Alá é grande é imediatamente alistado, às vezes sem o saber, no exército de atacantes suicidas do “Estado Islâmico”, parece-me que haveria muitas coisas diferentes a dizer sobre estes crimes sem fazer inchar o ego das bestas com aspeto humano que se lembraram de “acelerar o apocalipse”, atribuindo-lhes a importância e o estatuto de inimigos (militares).

E nós nisto?

Eu sei que muitos dos leitores não dão grande crédito a Yannis Varoufakis e o acham demasiado vaidoso e provocatório (e agora uma espécie de Snowden, em vingativo, das manigâncias do Eurogrupo), mas, como mal não faz, convém ver estes cinco minutinhos de vídeo. O que nele se diz faz sentido e pode ajudar a esclarecer muita coisa sobre a atual União Europeia.

https://youtu.be/vyEVfzSHu68

 

(Cheguei a este vídeo através do blogue “Um jeito manso“)

Saudades do Oriente romântico por nós inventado

O Oriente violento está agora mais próximo. Na Turquia, as dezenas de milhares de pessoas que, no âmbito de um golpe de Estado desta vez não falhado, estão a ser expulsas dos serviços públicos por suposta traição – professores, reitores de universidades, governadores civis, militares, polícias, magistrados, funcionários – vão fazer o quê, vão pensar e sentir o quê, vão viver do quê e vão viver onde? Como pensará Erdogan manter a paz no país? Fuzilando estas dezenas de milhares de pessoas? Abrindo-lhes as portas para a Europa, quer dizer, para a Grécia (olha quem) e a Bulgária, esperando que prossigam para bem mais longe? E se estas pessoas encontrarem muros (ou armas), que cada vez mais se erguem e erguerão, à medida que o número de atentados executados por muçulmanos e o sentimento anti-imigração forem aumentando na Europa?

É claro que o risco é grande de alguém disparar sobre Erdogan ainda antes. Mas, dado o apoio de que goza, não faltava mais nada à Europa do que uma Turquia em guerra civil. Se não acontecer, tenho um receio igualmente grande: uma vez o país islamizado, com as mesquitas a comandarem a rua, como parece já estar a acontecer, será muito difícil reverter a situação, como vemos nos países da chamada «primavera árabe». E assim ficaremos paredes meias com a barbárie e o obscurantismo, que pensávamos um pouco mais distantes. E, se o Ocidente se mostrar hostil, o que impedirá uma população islamizada de simpatizar com o DAESH? Há quem diga que já não antipatizam muito, nem a nível oficial.

Se alguém tiver uma solução para o problema que a neo-selvajaria, seduzida por – e inspirada na – violência gratuita de muitos filmes de Hollywood (basta ver a propaganda do EI), coloca à paz no mundo, que a anuncie. Por mim, coroá-lo ou coroá-la-ei rei ou rainha do universo. A tarefa exige grandes dotes intelectuais e estratégicos. E não vale estar constantemente, e sempre de modo incompleto, a falar nas causas e nas responsabilidades do Ocidente. O que está feito, está feito e a violência existe mesmo entre correntes do islão e data de há séculos. O Ocidente tem jogado com os antagonismos intrarreligiosos para defender os seus interesses em cada caso. O caso mais recente foi na Síria. Mas não esteve só. Os seus aliados árabes e muçulmanos (mesmo os pontuais) estabeleceram acordos e pactos com o Ocidente. Uma solução para o futuro é o que se precisa. Possivelmente não bastará a paciência (apostando que esta onda passará) e os milhões gastos em reforço da segurança, aliás, muito fácil de contornar por quem não tem problema nenhum em morrer. Estarão para breve ditaduras violentas também no Ocidente?

É um terrorista, não era?

Driver of truck in Nice attacks not known terrorist

 

Esta frase, lida no canal France24 em inglês, está a tornar-se demasiado comum. No entanto, “não era um terrorista conhecido” (ou “não era conhecido como terrorista”)  é uma frase um bocado estúpida de se ouvir, na minha modesta opinião. Hoje em dia, a estirpe “terrorista” nasce e morre extremamente depressa para o género humano. É terrorista, não era? – é uma observação cada vez mais plausível. Já se percebeu que muitos indivíduos aparentemente inofensivos não precisam de mais do que dois dias para cometerem loucuras como as de Nice ou de Paris (ou de Orlando). O que torna a estratégia de combate a este fenómeno muito mais complicada. O Estado Islâmico fez soltar muita loucura escondida. Ou muita confusão de valores.

A opinião de um colega oxfordiano sobre os promotores do Brexit

Brexit: a coup by one set of public schoolboys against another

 

Começa assim (para aguçar o apetite):

 

To understand the situation the UK has got itself into, it helps to know that Brexit isn’t simply an anti-elitist revolt. Rather, it is an anti-elitist revolt led by an elite — a coup by one set of public schoolboys against another.

I went to university with both sets, and with hindsight I watched Brexit in the making. When I arrived at Oxford in 1988, David Cameron, Boris Johnson and Michael Gove had just left the place. George Osborne and the future Brexiters Jacob Rees-Mogg and Daniel Hannan were all contemporaries of mine.[… continuar a ler]

 

Destaque sumarento:

In Britain, humour is used to cut off conversations when they threaten either to achieve emotional depth or to get boring or technical. Hence Johnson’s famous, “My policy on cake is pro having it and pro eating it”, a line that doesn’t seem quite so funny now.

Assim estão os jornais: maus

Diz o DN, em título, que Portugal “não irá corrigir o défice“. As aspas são postas pelo jornalista que é o autor da notícia, pelo que se deduz que se trata de uma citação. Acontece que no corpo da notícia tal frase não volta a aparecer, ficando nós sem saber quem a disse e a que se referia. A afirmação é dúbia, pois utiliza-se o verbo no futuro. Algum comissário ou algum porta-voz da Comissão disse que Portugal, com base nos dados de 2016, não vai corrigir o défice excessivo? Ou quer  dizer que o que passou já passou em 2015? Ou simplesmente este título é “wishful thinking” do jornalista, sendo estas as palavras que ele próprio quer dizer, uma espécie de aposta?

Tribunal ou demissão

Esta novela das sanções está a deixar-me deveras furiosa. Imagino ao Governo. Vão ser aplicadas, não vão ser aplicadas, são punitivas (por 2015), são preventivas (preventivas do quê, se provocam desgraça maior no curto prazo? Além de que ser preventivo é ilegal), só serão aplicadas se no prazo de três semanas o Governo não anunciar mais medidas de austeridade para reduzir o défice, que, a propósito, já está a ser suficientemente reduzido sem mais medidas…, são aplicadas apenas a Portugal, são também aplicadas a Espanha (que, a propósito, nem fala disso; por cá, a CS, esmagadoramente de direita, está a adorar empolar o tema), e mais outras tantas incógnitas no meio de “notícias” sem fonte identificada da Comissão, logo prontamente parangonadas. Estes disparos sobre o nosso país, alegadamente por causa de duas décimas de desvio, não pode ser positivo e não está a sê-lo. Tem consequências. E o mais trágico é que cada vez me parece mais difícil um recuo das chamadas «instâncias europeias» encarregadas do chicote. Vamos descer ao nível da imploração? Já descemos?

A direita portuguesa, totalmente imoral, como sempre, deixou-se das iniciais e artificiais humildade e indignação e resolveu agora aproveitar a possibilidade real de sanções (se é que não as está a incentivar nos bastidores) para dirigir a responsabilidade para o Governo atual, dizendo claramente que um governo-marioneta como o de Passos conseguiria todos os perdões. O descaramento, tal como a sede de poder e o gosto pela triste figura, é descomunal. No fim de todo este suspense e, pior do que isso, de toda esta campanha de destruição do atual governo, se chegarem mesmo a impor-nos sanções, não me parece que reste qualquer alternativa a António Costa que não seja o recurso corajoso para o Tribunal de Justiça Europeu (há fundamentos) ou a demissão pura e simples acompanhada da denúncia veemente e internacional destas jogatanas político-ideológicas, que arruínam um país para o tornar mais dependente.

Com o caos político gerado no Reino Unido por causa do «sim» à saída da União Europeia, os alemães (já que são alemães os que recentemente se têm pronunciado), pressentindo os ganhos que a deslocação do centro financeiro, ou de parte dele, de Londres para Frankfurt lhes pode trazer, sentem-se ainda mais reis e senhores do «feudo europeu» e é já à descarada que ameaçam um país que ousou eleger um governo que, embora não desrespeite os seus compromissos financeiros externos, não alinha pela cartilha do empobrecimento competitivo (uma autêntica falácia)  nem pela submissão a Berlim. É também à descarada que anunciam, pela voz do ignóbil Schäuble, a intenção de tomar decisões que a todos afetam e vinculam na Europa, mas apenas com alguns Estados-Membros à sua escolha.

Não tendo nunca sido aplicadas sanções a nenhum país que tenha violado os limites do défice, o sentimento de injustiça só pode crescer e alimentar o desencanto, e o mal-estar, com os atuais líderes do projeto europeu. Não sei quando é que os europeus (em geral, e nós também) aprendem que é sempre desastroso entregar a liderança de um projeto comum aos alemães. Primeiro, lixamo-nos todos. No fim, sobre os escombros, e ao contrário do futebol, lixa-se a Alemanha. Não sei como evitar esta fatalidade. No entanto, ela está à vista de todos.

Crystal clear, professor

Paul De Grauwe defende o investimento público para contrariar os efeitos da globalização na Europa e o descontentamento generalizado com a União Europeia. E isto na sequência do Brexit e na perspetiva de novos “exit”. Sabemos que não vai ser ouvido por aqueles que critica, mas devia. Os alemães estão bem, obrigada, não têm qualquer interesse em mudar seja o que for no sentido que De Grauwe deseja. A isto chama-se pregar no deserto, mas com  muita clareza.

Um excerto (leitura integral aconselhada):

[…]The European institutions have become major promoters of globalization. The single market and the trade agreements reached by the European Commission have widely opened up the European gates to globalization. There is nothing wrong with that per se. Except that there is a complete failure to organize the necessary compensation towards the losers of the globalization. The European institutions have no power over social policy, which has been kept in the hands of the national authorities. However, the hands of these authorities have been shackled by the same European institutions’ fiscal rules.

The European fiscal rules not only make it extremely difficult to compensate the losers from globalization. What is worse, they have amplified the hardship of the losers from globalization. Since at least five years the European Commission has pushed all member-countries of the Eurozone into an austerity straightjacket that has produced economic stagnation and rising unemployment mainly of those who had already been hit badly by globalization. It will be no surprise that many turn their backs towards the European institutions that are seen as cold and ready to punish when millions live in hardship.

Not only the fiscal rules but also the structural reforms that have been imposed by the same European institutions are to blame for the rejection of the European Union by millions of people.  European policy makers have adopted the neo-liberal discourse. According to this discourse, workers must be flexible (read: they should be happy when their wages fall, when they can be dismissed quickly and when they receive less unemployment benefits). The neo-liberal policymakers that now dominate the European Union preach that social security is unproductive and should be downsized. These policies are euphemistically called structural reforms. They are imposed on millions of people, mostly the losers of globalization, by European institutions and national governments alike.[…]

Schäuble, exit, pá

A agência Bloomberg citou esta quarta-feira declarações de Wolfgang Schäuble que diziam que Portugal iria “pedir novo programa” e que iria tê-lo. Mas, minutos depois, o ministro alemão voltou atrás e esclareceu. Afinal, “Portugal não quer um novo programa e não vai precisar dele se cumprir as regras europeias que obrigam à consolidação orçamental e à redução do défice. Mas “Portugal tem de cumprir as regras ou corre o risco de entrar em dificuldades” e precisar de um novo programa de ajuda.

 

(acrescento aqui o link para a notícia da Reuters)

O Governo português não deve assobiar para o lado nem procurar disfarçar a indignação perante as declarações do ministro das Finanças alemão. Deve reagir ao mais alto nível e de preferência em “estrangeiro”, ou seja, na imprensa internacional através dos seus porta-vozes, para ele perceber, denunciando o seu jogo sujo, de que o aparente recuo também faz parte. O momento é mesmo o ideal para fazer disto um escândalo europeu: acrescentaria algo de importante ao Brexit e seria um pequeno conforto para os nossos velhos aliados, numa altura de confusão, dúvidas e angústias sobre a saída da União. A intromissão abusiva deste protagonista alemão, sem qualquer mandato nem salvo-conduto para tal, no destino de outros países prejudicando-os é uma das muitas razões para o descontentamento e o mal-estar com a atual União Europeia e um poderoso contributo para a sua dinamitização. Se o embaixador alemão em Lisboa levasse uma guia de marcha para Berlim seria justíssimo.

Pândegos e aventureiros e a razão do seu sucesso

Tem razão Bernardo Pires de Lima quando diz, hoje no DN, que o mundo está entregue a pândegos e aventureiros, a propósito do Brexit. Vou ser rápida nas razões que podem explicar esse fenómeno: talvez porque os que o não são sejam demasiado sinistros e também, ao seu modo, nacionalistas, egoistas e anti-europeus. Não será? A Alemanha é um bom exemplo. Sob o discurso “europeísta”, esconde-se a mais determinada defesa dos seus interesses de que há memória na construção europeia. Já não falo na crise do euro e na política do castigo. Veja-se a questão dos refugiados. É em defesa dos seus interesses que, numa primeira fase, anuncia que os acolherá a todos e, numa segunda fase, confrontada com a realidade interna e na sua vizinhança, que sejam distribuídos pelos restantes Estados-Membros. Se isto não é ser centralista e anti-europeu na postura, não sei o que é. Depois surgem palhaços a dizer que eles é que são os verdadeiros nacionalistas. Estes, ao menos, não têm discursos europeístas. Daí, a sua aparente sinceridade e clareza.

A palhaçada – Poucas horas depois de conhecido o resultado do referendo britânico, já muito eleitores procuravam informação no Google sobre o que tinham votado, sobre o que estava verdadeiramente em causa e sobre o que era afinal a UE. Distinguindo-se muito pouco destes votantes, também Boris Johnson, o ex-presidente da câmara de Londres, do partido conservador, e quem mais promoveu a campanha pela saída, coçava a cabeça e despenteava-se estudadamente, intrigado, sem saber muito bem o que dizer e sobretudo o que fazer. Não excluo a hipótese de também ter ido ao Google. Ocorreu-lhe declarar, à falta de melhor e já o sol ia alto, que não tem pressa. Um vagar que ninguém que o viu inflamado lhe atribuiria ainda há uns dias. Enquanto isso, o seu colega de pândega, Nigel Farage, declarava, com o à-vontade de um palhaço, que o que dissera em campanha sobre o dinheiro que atribuiria ao SNS não era a sério. Se mais o espremessem, mais mentiras revelaria.

Enfim, com tanta comédia junta a encobrir a tragédia, só espero que, no final, o Reino Unido não acabe por voltar a entrar permanecer na UE em posição ainda mais frágil e que a orientação alemã e seus satélites não saia ainda mais reforçada. Isso seria a maior desgraça. Não só nada do que está mal na UE não mudaria, como também os Schäuble desta Europa reforçariam a sua visão mesquinha das relações intra-europeias e apertariam mais o garrote aos países do sul, os bodes expiatórios.

Para nunca chegar a sair, basta ao RU que, nas próximas eleições, a realizar brevemente, de preferência antes do arranque das negociações de saída, ganhe um partido (que pode ser o trabalhista com outra liderança) favorável à permanência na UE que anule o resultado do referendo. Ora, se assim for, apetecerá bastante responder-lhes já que se aguentem com a decisão que tomaram, a qual não foi sem consequências. Apetecerá. Mas não vai acontecer, penso eu, mas posso enganar-e. Há muito comércio e muitos milhares de milhões de euros e de libras em jogo. O Reino Unido vai muito provavelmente voltar a entrar, enquanto os discursos oficiais serão de que respeitaremos a decisão soberana do povo britânico (embora quase exclusivamente inglês).

Tudo indica, pois, que a saída vai correr mal. Pela agitação na Escócia e na Irlanda do Norte, pelas inseguranças, hesitações e revelações dos principais líderes da campanha pelo Brexit, pela surpresa de muitos dos votantes com o resultado inesperado pelo qual foram corresponsáveis, pelas ameaças de saída de Londres de grandes empresas e instituições financeiras, pela pressão mais ou menos velada do “Continente”, etc., seria necessário haver líderes muito determinados e convictos que conduzissem este processo de saída sem deixar dúvidas de que é esse o único e o melhor caminho. Ora, se existem, não se viram ainda.

Aos líderes europeus continentais restam duas atitudes: ou acelerar o processo, erguendo assim uma barreira, considerando que o desamor foi ofensivamente declarado, para que não voltem nunca mais – e aí estarão a esquecer as maiorias claras que nas ilhas votaram pela permanência -, ou aproveitar estes primeiros tempos conturbados e de desnorte no Reino para, enquanto declaram que respeitam a decisão soberana do povo britânico, deixar que os próprios ingleses mostrem ao mundo que tudo não passou de uma brincadeira de mau gosto e se arrependam do que fizeram, e deixar que os futuros novos líderes peçam desculpa pelo aventureirismo dos seus predecessores e recomecem tudo de novo. Tenho dúvidas do que será melhor. Quem liderou a campanha pela saída não deve e não pode agora soçobrar. O único caminho é mesmo em frente. Sem Escócia, sem Irlanda do Norte, sem União Europeia, mas com o Mundo. “Out and into de world”. England, porém.

Foi pena. Tanto que haveria a mudar nesta União Europeia.

 

Britânicos atiram a UE ao lago

Com razão? Não sabemos. A UE não é bem bem exatamente a CMTV. Estes foram bem para o lago, embora devessem ter ido para o charco. Farage e Boris Johnson são uns demagogos que souberam aproveitar o péssimo momento que a UE, com a crise dos refugiados, e sobretudo a zona euro, atravessam para virem com nacionalismos eventualmente utópicos e tomarem o poder. Mas lá que esta era um pedrada necessária no charco, era. E se os tempos que aí vêm forem piores para nós, e tudo indica que sim (o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão já convocou uma reunião com os seis países fundadores da CEE e eu ainda não sei o que pensar acerca disso) “we will always have Britain“.

Será que algum dia a casa vai abaixo, ladies?

No Diário de Notícias

 

Um dos prazeres das crianças enquanto não são adultas e não podem ter uma carta de condução é conduzir carrinhos de choque. Um cheirinho de algo proibido, uma ousadia, um teste de orientação e destreza, sobretudo quando já podem tomar o volante sozinhas. Uma experiência, uma fase da infância, em suma. Mas aqui trata-se de mulheres adultas que simplesmente estão proibidas de conduzir.  E sobre as quais impende a ameaça de humilhação, violação ou morte se ousarem autonomizar-se neste e noutros aspetos da vida. Tenho verdadeira vergonha de certos animais com forma de espécie humana. Está tudo tão, mas tão errado nestas sociedades, que é difícil escalonar os motivos de espanto. Por exemplo, há parques de diversões só para mulheres. Os trapos pretos que as cobrem não visam mais do que esconder o corpo dos olhares dos machos (bestas incontroladas, pressupõe-se), pois quando sozinhas, é como quiserem. Isto faz algum sentido?

Não há nada neste mundo que mais me custe a entender do que  a perenização destas sociedades e a total passividade das mulheres. E não há nada que menos me espante do que o choque das respetivas mentalidades com o modo de vida ocidental, nele incluindo o da China e do Japão (e peço desculpa se ignoro que estes países se enquadram, para efeitos históricos e sociológicos, no chamado “mundo ocidental”). Mundo ocidental esse de cujos avanços tecnológicos não hesitam, porém, em tirar partido, apesar de serem fruto da cabeça de filhos de Satanás. É triste. E pior do que isso: os transtornos psíquicos que tal fechamento causa matam.

Se o Reino Unido ficar

Um bom papel poderá estar-lhe destinado. Será possível tamanho empreendimento?

(sugiro a leitura integral)

[…]And the UK has an even more important role to play. A two-speed EU in which non-Euro members are systematically sidelined cannot be sustainable. The UK, as the second largest economy in Europe and by far the largest of the non-Euro countries, should lead the reconstitution of the EU into a multi-currency area in which countries have the right to use their own currency or the Euro as they decide. A sovereign bankruptcy procedure is needed, along with a formal exit procedure for the Euro: the UK, which has been friendly to Greece and other distressed countries throughout the crisis, is well placed to campaign for these. And going further, the UK can help the EU to decide how best to reform the Euro, retaining its important role as an international trade currency while dismantling the straitjacket that it creates for domestic users and for the ECB.

Further integration of the EU is not the right way forward. Ultimately, EU member states will break the bonds that further integration creates, since in the absence of any willingness to share risks and losses, they are far too restrictive. The EU needs to be looser, not tighter: wider, not deeper. It is not yet too late to turn around this particular Titanic. Rather than launching a solo lifeboat, the UK should take the helm.

I hope and pray that the people of Britain recognise the vital role that the UK can have in the essential reforms that the EU must undergo if it is to survive, and vote to Remain. I shall do so.

E se fosse consigo? Votaria pela saída?

Vale muito a pena ler este artigo de Ambrose Evans-Pritchard, no Telegraph, escrito já há cinco dias, sobre as razões que o levam a votar pela saída da Grã-Bretanha da União Europeia. É evidentemente a perspetiva de um britânico, que calha viver em França. Dado o abalo (a esperança?) que esta saída pode provocar, penso que é nosso dever pensar no assunto.

O artigo espelha muitas dúvidas e farta-se de apontar boas razões para o não rompimento dos laços. No entanto, prevalece o protesto contra o funcionamento deplorável da UE, a gestão da moeda única na recente (e atual) crise, a estranha democracia vigente, o método de aprovação dos Tratados, o papel das instituições e a substituição da soberania dos países por uma coisa (um poder) que poucos reconhecem e a que ninguém realmente adere.

O Reino Unido não adotou a moeda única, não está na zona euro e não faz parte do famigerado Eurogrupo. No entanto, quem está atento do lado de lá do canal (e Pritchard está lá forçosamente em “alma”), consegue perceber a que extremos nos poderá levar a atual orientação política da UE, muito ditada pela crise do euro, que ninguém sabe verdadeiramente quem define. Ou melhor, suspeita-se, mas ninguém assume…

A verdade é que, mesmo que o Reino Unido fique, o facto de não pertencer ao clube do euro, leva a que muito dificilmente possa  voltar a influenciar o rumo dos acontecimentos, como sucedeu durante muitos anos. Por isso, ficar, penso eu, também não fará grande diferença para  travar a desintegração já observável e eventualmente melhorar o que há a melhorar. O euro é o verdadeiro tumor do momento. Tudo indica que maligno.

Sair será um salto no desconhecido; será também, para a maior parte dos votantes, uma decisão bastante ditada pelos populistas e demagogos, pelos xenófobos e racistas, que buscam o poder e se aproveitaram do afluxo de refugiados deste último ano para ganhar adeptos. No entanto, quem gosta desta União Europeia? Os sonhadores não são de certeza. Uns países por uns motivos, outros por outros, todos gostariam de romper nem que fosse um bocadinho (e estes são os do sul). Possível e infelizmente não rompem, mas vão rompendo. Acontece que o Reino Unido pode fazê-lo, até porque nunca deixou de ter um pé de fora. A questão é se o vai fazer. Esquecendo todo o populismo e as utopias reinantes na campanha, quem, olhando para a União Europeia atualmente, não está com quem quer sair?

Quem não concordará com Pritchard (e com as suas dúvidas)?

Um excerto:

[…]

Nobody has ever been held to account for the design faults and hubris of the euro, or for the monetary and fiscal contraction that turned recession into depression, and led to levels of youth unemployment across a large arc of Europe that nobody would have thought possible or tolerable in a modern civilized society. The only people that are ever blamed are the victims.

There has been no truth and reconciliation commission for the greatest economic crime of modern times. We do not know who exactly was responsible for anything because power was exercised through a shadowy interplay of elites in Berlin, Frankfurt, Brussels, and Paris, and still is. Everything is deniable. All slips through the crack of oversight.

Nor have those in charge learned the lessons of EMU failure. The burden of adjustment still falls on South, without offsetting expansion in the North. It is a formula for deflation and hysteresis. That way lies yet another Lost Decade.

Has there ever been a proper airing of how the elected leaders of Greece and Italy were forced out of power and replaced by EU technocrats, perhaps not by coups d’etat in a strict legal sense but certainly by skulduggery?

On what authority did the European Central Bank write secret letters to the leaders of Spain and Italy in 2011 ordering detailed changes to labour and social law, and fiscal policy, holding a gun to their head on bond purchases?

What is so striking about these episodes is not that EU officials took such drastic decisions in the white heat of crisis, but that it was allowed to pass so easily. The EU’s missionary press corps turned a blind eye. The European Parliament closed ranks, the reflex of a nomenklatura.

While you could say that the euro is nothing to do with us, it obviously goes to the character of the EU: how it exercises power, and how far it will go in extremis.[…]

Adivinhem a quem apeteceu caluniar Sócrates e Vara*

Em 2008 houve uma crise financeira internacional de grandes proporções. Nas crises, as coisas correm mal. Pessoas perdem o emprego, países ficam económica e financeiramente ameaçados, empresas vão à falência, investimentos ficam congelados ou perdidos, casas ficam por vender ou por pagar, bancos ficam com dívidas por cobrar. Até a Europa, na sequência da crise que teimou em agravar, se desagrega, de súbito transformada em campo de batalha (silencioso, para já, apenas com ocupação dos mais fracos pelo mais forte) entre credores e devedores. É uma cadeia de acontecimentos que frustra expectativas e deixa muitos na miséria.

Querer agora apontar à Caixa Geral de Depósitos a culpa por ter concedido empréstimos, bem antes da crise, a empresas que se propuseram investir em Portugal e desenvolver certas regiões, mas que, devido à balbúrdia da crise financeira, viram os seus negócios «borregar» deixando o credor em apuros é totalmente desonesto. Mais, selecionar um só administrador da Caixa como responsável pela “catástrofe” que é a necessidade atual de capitalização do banco público, gerido nos últimos cinco anos por pessoal do PSD e do CDS e auditado sob os seu auspícios, quando todos os outros bancos, cá e no estrangeiro, também a sentiram, muitos deles tendo falido, é, além de desonesto, uma perseguição. Uma panca. Ainda por cima, não dizendo J. M. Tavares nada de especialmente desabonatório de Vara na crónica (não teria conhecimento das matérias para fazer de outro modo), aliás, completamente superficial. Apeteceu-lhe, como sempre lhe apetece, caluniar seletivamente para o ar. Para isso, bastou-lhe falar em Vara, Sócrates (claro) e Caixa. Como se Faria de Oliveira, que se seguiu na administração, não tivesse concordado com a avaliação feita antes de si ao interesse de financiar Vale do Lobo e outros projetos.

Uma crónica digna do Correio da Manhã ou do i. Um cronista que não se compreende estar ainda no Público.

*O Valupi já aqui referiu esta mesma temática, mas, já que tinha o post escrito, decidi publicar.

CGD – Bem o Ministério das Finanças. E rápido

O PSD, como já é hábito, tenta pôr a panela a ferver, com o também já habitual descaramento, para que os vapores atordoem alguns e fazer assim politiquice javarda (Diz o Observador: “A revelação parcial desta auditoria à Caixa surge no momento de grande fricção política sobre a recapitalização do banco do Estado. O PSD tem liderado as dúvidas sobre esta operação, que poderá implicar um esforço dos contribuintes até 4.000 milhões de euros que terá de ser negociado com Bruxelas.”).

Ora, em 2012, a CGD recebeu uma injeção de capital no valor de 1.650 milhões de euros. Estava por cá a Troika e governava a coligação. Foi necessariamente feita, na altura, uma avaliação das imparidades existentes. O que é agora esta chicana, veiculada e encabeçada, como é hábito, pelo ?

?

«O Ministério das Finanças recorda que a Caixa recebeu uma capitalização pública de 1.650 milhões de euros decidida pelo anterior governo, “em estreita colaboração com o Banco de Portugal e com a Troika”.

“A injeção de capital realizada em 2012, de acordo com as regras de capitalização no quadro do programa de ajustamento, foram as necessárias para fazer face às imparidades detetadas”. Neste contexto, sublinha o Ministério das Finanças, “todos os créditos existentes terão sido avaliados pela administração, pelo Banco de Portugal, pelos auditores da CGD e pela troika.

Face à avaliação realizada, o Ministério das Finanças conclui que os“prejuízos decorrentes de imparidades de crédito não registadas em 2012 apenas podem decorrer de”:

Por isso, sublinha, “se houve créditos concedidos em período prévio à recapitalização de 2012 sem a devida avaliação de crédito então essa questão deveria ter sido reportada à altura da recapitalização e sujeita às diligências entendidas por convenientes, nomeadamente no campo do apuramento de responsabilidade civil e criminal.”

Não tarda, em vez de uma questão de justiça será uma questão para a justiça

O ministro das Finanças dos Países Baixos, Jeroen Djisselbloem, que preside ao Eurogrupo (entidade que reúne todos os ministros das Finanças da zona Euro), criticou a Comissão por não aplicar automaticamente, ou seja, sem ter em conta causas e circunstâncias, sanções aos países ditos “pecadores em matéria de défice”. Não se sabe se falava em nome individual (e com que ousadia) ou de todo o Eurogrupo (difícil de acreditar). Mas o que é certo é que quer forçar a Comissão a tomar uma medida que nunca foi anteriormente tomada, apesar de os casos de violações do Pacto de Estabilidade já ascenderem a mais de uma centena.

Aproveito para lembrar que a expressão «pecadores», em si bastante carregada de puritanismo (doutrina que serve tão bem a alguns nesta crise) e portanto deslocada num contexto de crise essencialmente financeira, já não é de agora. Em junho de 2005, pelo menos, já se titulavam assim certos artigos, aparentemente sem jocosidade:

Meet the EU’s Deficit Sinners

 

[…]Germany

Due to Germany’s poor economic climate, the European Commission put on ice disciplinary measures against the country. But it’s questionable whether the respite until autumn 2005 will have helped. Even Germany’s optimistic finance minister, Hans Eichel, has admitted that sticking to the 3.0 percent limit in 2005 will be difficult. Every year since 2002, Germany has violated the Stability Pact rules. In 2004, the budget deficit reached 3.9 percent, and the commission predicts the 2005 deficit to reach 3.3 percent of GDP. Since Germany is expected to benefit from the reformed (and relaxed) Stability Pact rules, it’s likely that it the EU will accord it another year to consolidate its budget.[…]

 

Pois é. Estava então a Alemanha no clube dos “sancionáveis”. Mas, apesar dos “pecados” aqui apontados, este país, assim como todos os mencionados no artigo, escapou tranquilamente a sanções e não tenho dúvidas de que muito apreciou na altura a compreensão/distração/obediência da Comissão Europeia. Agora, dez anos mais tarde, continua a haver países em infração por défice excessivo e um por superavit, a Alemanha, mas este último caso parece não suscitar em ninguém a exigência do cumprimento das regras, muito menos aos senhores Schäuble e Djesselbloem. Só os outros.

É evidente que Jean-Claude Juncker, o presidente da Comissão, teve uma tirada demasiado sincera, provocatória, infeliz, desastrada ou de ironia duvidosa, conforme a perspetiva com que se a queira encarar, ao dizer que a França é a França e por isso beneficia (ou deve beneficiar) de derrogações. No entanto, o conflito (mal-estar?) com a Comissão está declarado e, sendo assim, não me surpreenderá que, no estado de pré-desagregação em que se encontra a União Europeia e entrando os países sancionados ao barulho, as acusações de uns e outros comecem a surgir e se desencadeie uma guerra jurídica para resolver o que é ou não é justo à luz do Pacto. E, já agora, para recordar quem disse o quê de determinados governos “obedientes” de países resgatados e quais as responsabilidades de quem traçou, impôs, encorajou e elogiou as políticas que não evitaram o incumprimento do Pacto. Era giro. Sobretudo se nos ficarmos pela guerra jurídica.