
A propósito de Guterres passar a liderar as Nações Unidas. (Na foto, dirigentes da Boko Haram e respetivas armas)
Tal como não existe tal coisa de uma mulher ser melhor do que um homem só por ser mulher (e, por tê-lo afirmado, a ONU está de parabéns), também não existe tal coisa de um português ser melhor do que um búlgaro/chinês/malaio só por ser português (podem pôr no feminino). Ser português não é, infelizmente, garantia de qualidade, como ilustra o caso de Barroso, e, quando a má qualidade e o umbiguismo de cariz financeiro se dão a ver internacionalmente, a vergonha pode ser total. Apesar disso, estou contente pelo facto de o português António Guterres ter sido considerado por avaliadores internacionais, e num processo inédito de transparência (resta saber se se mantém), o mais apto e preparado para liderar a ONU. Foram eles, os representantes dos diversos países, sobretudo os dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, e após escrutínio também por organizações civis, que o escolheram, não fomos nós, convém lembrar. No entanto nós, e penso que nós todos, com excepção de Mário David, considerámo-lo merecedor do cargo pelo percurso seguido, pelo seu humanismo e pelo seu dom da palavra (importante sem dúvida) e solidarizámo-nos com a sua vontade de exercê-lo. A responsabilidade e os louros pelo que acontecer nos próximos cinco anos ficam assim, de certo modo, partilhados. Espero, muito esperançada, pelos louros.
Guterres nasceu em Portugal, estudou em Portugal, teve mestres portugueses, fala português, gosta possivelmente de sardinhadas e de bacalhau à Zé do Pipo. Nós também. Ele podia ser eu ou tu. Essa sensação, ainda em estado puro, é boa. Confirma-se que não somos um Estado falhado – temos uma sociedade organizada, instituições estabelecidas, boas escolas (Guterres sempre estudou cá), tranquilidade suficiente para produzir académicos e políticos de qualidade. Mas atenção: Guterres não deixa de ser escrutinado a partir do momento em que assume o cargo de secretário-geral das Nações Unidas. Aqui, em Portugal, pelo menos, o escrutínio vai ser permanente e emocionante.
Sabemos que o novo cargo não lhe confere um grande poder. A sua acção será a montante e a jusante dos poderes políticos. Ganhará mais poder de intervenção na medida exacta do prestígio que for ganhando no exercício da função.
Embora sabendo que, ao contrário de Barroso, Guterres vai por bem, espero que não desperdice esta oportunidade de acção limitando-se a mensagens genéricas de paz e concórdia entre os homens como se fora um papa. O planeta Terra não está fácil de gerir. As armas parecem fluir livremente. Há um ponto sobre o qual Guterres tem que conseguir um acordo mundial: secar as fontes de abastecimento de armas a grupos de bestas como os lá de cima, o Daesh, a Al Qaeda, a Al Nusra e mais uns tantos já bem identificados. Estarei a ser utópica, mas esta é a minha missão pessoal para Guterres. Depois, chegámos a um ponto em que mesmo os mais humanistas dos humanistas têm que estar conscientes de que a tolerância tem limites. Não podemos cristãmente “dar a outra face” a assassinos e a australopitecos sociais e deixar assim morrer tudo o que de bom a humanidade já conquistou. Não passando Guterres a ser o dono do mundo – pois não só não tem acesso a um famoso botão como também não possui, por si só, um exército interventor e nem sequer dissuasor e muito menos uma potência atrás de si – compete-lhe gerir equilíbrios de modo a prevenir conflitos graves ou de consequências brutais para populações desprotegidas. A ver vamos. Desejo-lhe sorte e sabedoria.





