Desconheço se a sua criadora, uma libanesa residente na Austrália, concebeu, além do modelo, também um tecido que seque facilmente no corpo, ou se são necessárias as antigas barracas de praia, fechadas, para a substituição de tal fatiota após o banho. No primeiro caso, se a resposta for afirmativa, por que não um tecido branco, que sempre resiste mais aos raios solares? No segundo caso, haverá, no Ocidente, vestiários considerados amigos do islão? Penso que até os pinguins terão mais sorte e conforto nos confins do hemisfério sul. Enfim, a mim, parece-me muito pouco prático. É certo que se assemelham aos fatos de surf ou de mergulho, incontestados na nossa sociedade, até por serem iguais para homens e mulheres, mas estes são para despir mal se saia da água, inclusivamente por razões de saúde, para darem lugar ao calção ou ao fato de banho vulgar/bikini. São fatos de trabalho, digamos. E são unissexo. Os burkinis, não. São, de facto, fatos de banho exclusivamente femininos, para nós fatos de banho de outros tempos, do tempo em que as mulheres tinham que ser inibidas e inseguras em público, propriedade de seus pais ou maridos. Umas peças, elas, uns objetos. Uns úteros, na prática. Uma perguntinha: não trocando de indumentária na praia, como regressam estas mulheres ao carro? Desconheço a resposta.
Há quem fale de desrespeito pela liberdade de escolha a propósito da proibição destes fatos. Mas estas mulheres não são livres de escolher vestir um bikini, por exemplo. A escolha aqui é extremamente limitada: ir com roupa de cidade (e não tomar banho), ir assim ou não ir. Será só graças à enorme benevolência dos machos muçulmanos (alguns) que elas poderão apresentar-se assim em público. Livres? Não brinquem.
Numa outra perspetiva, o burkini parece, sim, pretender ser um grande negócio à escala mundial e os três ou quatro exemplares avistados nas praias francesas são apenas pequenos ecos da revolução desencadeada noutras paragens. Segundo li, a Marks & Spencer, na gama popular, comercializa estas peças há algum tempo no Dubai e na Líbia e, há dois meses, na sua loja principal em Londres, e as firmas Dolce & Gabbana e Donna Karen NY já se lançaram no design de tais peças para a gama de luxo. As perspetivas de crescimento deste mercado são da ordem dos 82% em todo o mundo. É isto mau? Economicamente, é bom. E não, socialmente também não é mau, se considerarmos o mundo muçulmano, onde suponho que, antes desta modernice, as mulheres nem sequer fossem ao mar (ou à piscina). É uma vitória sobre os seus esclerosados hábitos sartoriais, que, a partir daqui, só podem avançar no caminho da descomplicação (digo «só», mas não é garantido; já houve regressões). Nesta perspetiva, o burkini representa, pois, uma abertura, tendo em conta que as formas das mulheres ficam à vista, isto é, os traseiros mais ou menos jeitosos, o peito, maior, mais pequeno, as pernas, mais bem ou mais mal torneadas. Só a pele não. Imagino bem o iraniano Mahmoud Ahmadinejad de má memória a proibir estes fatos por demasiado ousados.
A questão é o contexto em que são envergados em países como a França ou a Alemanha. Aqui, onde estão ainda frescas as imagens dos atentados cometidos em nome do islão, é pedir demais que as pessoas não associem a compra e ostentação destes fatos (e burkas e niqabes) a uma solidariedade com os praticantes de tais atos ou à identificação com a religião mais opressora das mulheres, retrógrada e violenta da era moderna. É natural que não se goste de ver reavivada a memória e que se hostilize o que se considera uma provocação. No contexto atual, repito. E sim, neste contexto, compreendo a sua proibição (embora entenda que a burka e o niqab devem ser proibidos em qualquer circunstância, e já são). Na verdade, quem discorda e protesta contra os presidentes de câmara ou ministros que decidem tal medida, melhor faria se incentivasse as mulheres muçulmanas a protestarem e a lutarem contra a supremacia masculina nas sociedades e comunidades islâmicas. Esse devia ser o alvo. E a protestarem mais alto, que ninguém as ouve, contra os terroristas que planeiam e executam os atentados. Pois é. Convivessem no Ocidente pacificamente e integradamente as comunidades muçulmanas (refiro-me à maioria, claro) com a restante sociedade, assimilassem alguns dos nossos valores, e não existisse a ameaça dos fanáticos religiosos islâmicos do Médio Oriente, que obriga à deslocação de contingentes de militares ocidentais para campos de guerra perigosos e à mobilização de milhares de polícias permanentemente na Europa para garantir a nossa segurança, e penso que até se encorajaria o uso de tal traje pelas mulheres destas comunidades, já que representa um certo avanço nas mentalidades. Assim, é difícil achar-lhe piada. A proibição tem em conta o contexto, creio que não mais.