
(rapinado do Twitter da Shyznogud)
Perguntinhas:
O que foi lá fazer a Georgieva, hã?
O que pretendia a Alemanha, hã?
Pode um candidato a um lugar importante, como o de secretário-geral da ONU, entrar a meio do processo de seleção (enfim, chamam-lhe “escrutínio indicativo”), responder como que apenas às três perguntas do fim (e corrigir as de um concorrente antecessor) e ser aprovado com distinção e proveito? Pelos vistos, pode.
Kristalina Georgieva pode ser um caso muito pouco cristalino. O The Guardian explica como e porquê. Anda Guterres há já cinco sessões a dissertar e a responder a perguntas perante o Conselho de Segurança com o objetivo de conquistar o lugar – a “suar as estopinhas”, portanto – tendo já conseguido ficar muito perto, para alguém sacar agora da cartola uma búlgara eventualmente mais bem preparada do que a candidata sua compatriota Irina Bokova e, fresca que nem uma alface, ganhar o concurso. Isto merece um ponto de exclamação! Se ganhar, e atendendo às excelentes prestações de Guterres, Kristalina consegui-lo-á por duas razões principais: porque é mulher e porque “alguém” entende que o próximo secretário-geral tem que provir do leste da Europa.
Dir-me-ão que Guterres está perfeitamente a par das contingências deste processo e que, inclusivamente, poderia ser ele a colocar-se na posição de Georgieva. Poderia não ter ido a jogo até ver quem por lá andava e em que paravam as modas. Poderia, mas seria bizarro. As regras estão então muito erradas. Porquê começar formalmente o escrutínio sem estarem todos presentes? E, já agora, porquê o escrutínio sequer, quando tudo se decide entre os chefes dos cinco países membros permanentes, com direito de veto?

Desculpem os leitores que preferem temas mais leves, como a política… Hoje escolhi um mesmo pesado, como, aliás, podem ver pela decoração, as cores e… as sobrancelhas “à la” Cara Delevingne. Acontece que acabei de ver a série “The night manager“, protagonizada pelo senhor actor com voz de intérprete shakespeareano que ali aparece na fotografia (Tom Hiddleston), altamente sedutor, e ia-me dando um baque. Recordo que, na série, o seu papel é de agente secreto (e de apaixonado – por uma mulher) em missão de combate ao tráfico de armas para a zona mais explosiva da actualidade. E que bem o faz. Desculpem-me também os que eventualmente acham a indumentária que enverga na foto extremamente chique e bem conseguida pelo ateliê da Gucci. Mas, o que é isto? E as meias? E os sapatos? E a pose?
Ó Tom e Oh Tom! Porquê?
(foto retirada do DN de hoje)
E penso que há um país inteiro à espera do desfecho. Nesta altura do processo, quer seja tudo arquivado, quer haja acusação, a palavra escândalo estará sempre presente, pelo que este caso não tem como não ser apaixonante. Estou apaixonadamente interessada e assim me encontro desde o início.
Depois de ler esta notícia no jornal i, fui tentar contextualizar e perceber melhor a história da Oi, quais os seus negócios, qual o seu peso no mercado brasileiro e qual a sua situação atual. Descobri este artigo relativamente recente, de assinatura brasileira, que me esclareceu bastante. Não me pareceu tendencioso, mas, se há nele alguma informação errada ou incompleta, força nisso, digam aqui. Recomendo, pois, a leitura a quem, como eu, tenha um conhecimento à partida sobre esta matéria algo rudimentar. O mais importante que fiquei a saber foi que o governo brasileiro de então tinha, por motivos absolutamente legítimos, um objetivo grandioso, ou ambicioso, como agora se diz, de internacionalização para a Oi (e também para outras empresas brasileiras), sendo por isso que, embora não oficialmente, quase a renacionalizou com facilidades e tratou de a revigorar. E aqui junta-se a PT. A participação da PT e a fusão posterior visavam esse mesmo objetivo, aliás igualmente benéfico para a empresa portuguesa – que, penso eu, ambicionava um “império” equiparável à Telefónica. Tudo correu mal e a crise internacional e o estoiro do BES tiveram muito a ver com o que veio a passar-se. A Oi está agora insolvente e nas mãos dos credores.
Mas voltando à notícia do jornal português, e tendo em conta o que li acima, se o Ministério Público português decide escarafunchar nos negócios da PT na altura em que o Estado português ainda detinha a Golden Share (e mesmo que não detivesse), incluindo a venda à Telefónica da participação da PT na Vivo e a compra da participação na OI (um negócio acima contextualizado), parece-me natural que encontre ministros brasileiros (ou ex-ministros) e advogados no caminho, não? A negociarem com a PT. Qual a surpresa de depararem com documentos de José Dirceu? Nenhuma? É que, pela notícia, parece surpreendente. O facto de o senhor estar preso em Curitiba por corrupção no âmbito da operação Lava Jato não faz necessariamente dos administradores da PT e sobretudo de Sócrates, o chefe de um governo durante cujo mandato os accionistas da PT decidiram não a vender à SONAE, um corrupto nem um ex-primeiro-ministro que, indirecta mas propositadamente, enterrou uma grande empresa portuguesa por ser amigo do Lula.
Mas é precisamente aí que a notícia acaba por nos levar, ou seja, à (última) tese do Ministério Público de que Sócrates recebeu uma comissão pelo negócio, comissão essa que, depois de umas voltas com passagem pela Abrantina, foi ter à conta de Carlos Santos Silva, que, como já sabemos, é o fiel depositário da riqueza de Sócrates. Ora, constato que esta tese continua a carecer de demonstração. Dos papéis de Dirceu encontrados num escritório da rua Castilho e que mencionavam comissões não parece constar, segundo a notícia, o nome de Sócrates. Nem no gentil esquema que a notícia nos desenha, com gravuras. Mas o jornal diz que, para Rosário Teixeira, “foi fechada a ligação entre todos os vértices da teia”. Então, já está. É só uma caneta para unir os pontos. Vamos finalmente ter acusação. Para quê seis meses, com ameaça de mais?
Segundo li no Observador, o Correio da Manhã desmente hoje as parangonas de anteontem impressas na sua primeira página sobre “a confissão de subornos a José Sócrates” por parte do presidente do grupo Lena. Afinal, dizem agora, com toda a ligeireza do mundo e numa página interior do pasquim (mas não online), que as declarações postas na boca de Joaquim Paulo Conceição eram … do procurador Rosário Teixeira. Um “lapso”, dizem.
Não acrescento comentários. Será escandaloso se o pedido de desculpas ao presidente da empresa for considerado suficiente para um não ressarcimento em sede judicial. Devem pagar e a vários atingidos.
O caluniador da última página do Público é um doente de Sócrates. Olha para o que se passou em 2008, 2009, 2010 e 2011, em Portugal e no mundo, e quer convencer toda a gente de que foi o Sócrates que esteve por trás dos esquemas financeiros do Lehman Brothers, do Goldman Sachs, dos bancos em geral, das falências em catadupa de empresas, aqui e lá fora, e não só. Para ele, Sócrates esteve ainda por trás das decisões da União Europeia, numa primeira fase, que visavam combater, com medidas que implicavam o crescimento das dívidas públicas, as consequências económicas da crise financeira geral. Só isto já seria suficiente loucura e sinal de destrambelhamento emocional. Mas a coisa não se fica por aqui. Não reconhece, e só a ideia de o admitir lhe provoca convulsões, o esforço feito pelo primeiro-ministro de então para evitar um resgate formal, muito menos o êxito desse esforço até ter sido atirado às malvas por quem só queria alçar-se ao pote.
Como o expoente da seriedade impressa, que dá pelo nome de Correio da Manhã, padece dos mesmos distúrbios e tem penetração nacional por intermédio de cafés, tabernas e salas de espera de meios de transporte e hospitais, criou-se no país um ambiente propício a que nada do que diga respeito a Sócrates seja tratado com razoabilidade e frieza. Assim é que, dois anos e tal depois da sua ida para Paris, tenhamos assistido à sua prisão em direto e ainda não saibamos, três anos depois do início da investigação, que provas havia para tão pesada, grave e inédita decisão. Mas ele lá esteve, encarcerado em Évora. E o JMT rejubilou. Agora, com Sócrates na rua, o caluniador vive expectante e insatisfeito e clama, dia sim, dia não, por um regresso do biltre ao cárcere.
O processo judicial aberto contra Sócrates por desconfiança quanto ao financiamento das suas escolhas de vida fez com que o caluniador desatasse aos beijos, agradecido, ao procurador Rosário Teixeira, ao juiz Carlos Alexandre e ao seu órgão oficial, o Correio da Manhã, por lhe terem corroborado a panca já antiga. São os seus heróis e, por isso, a osculação efusiva aos dois primeiros tem sido regular. É ver o que diz hoje.
Já não é a primeira vez que JMT vem defender os procuradores e o juiz e dizer que a excessiva quantidade de crimes cometidos por Sócrates é a razão da ausência de acusação. E lá vem a Cova da Beira, o Freeport, o Grupo Lena, o aldeamento de Vale do Lobo, o BES, a PT, etc. Crimes de Sócrates, ouviram? Ora, haver demasiados crimes e nem uma acusação para começo de ajuste de contas com um suposto criminoso é, para qualquer pessoa, estranho, além de ser uma contradição e um absurdo que só a alguém demasiado alucinado consegue escapar. Um crime basta, a meu ver, para ser formulada uma acusação. Acusem, com fundamento, o homem de um crime. Ao menos um. Algum. Qualquer que seja. Afinal prenderam-no. E isso, sim, é escandaloso, porque nos foi dito que havia indícios fortes. Não venham é dizer que são tantos os esquemas criminosos que nem sabem por onde acusar. Esta justificação é tão estúpida e pueril que mete dó. Eu sei que é poluição deliberada. Só que não existe a mínima qualidade e seriedade nisto.
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O juiz Carlos Alexandre volta à ribalta, desta vez através do Expresso, para dizer que lhe querem tirar os processos todos. Insinua que são as secretas e, deduz-se (só pode deduzir-se) que é a mando de Sócrates ou de Salgado ou dos dois. Ora, na cabeça do juiz, nada melhor, para combater essa “corja” de espiões a soldo de criminosos poderosos, do que desatar a dar entrevistas para acusar os arguidos de crimes não provados e dos quais não existe acusação, sabendo que essas afirmações lhe podem custar o lugar. Parece ser isso e é inqualificável. O juiz quer sair ou quer ficar? Se quer sair, seja frontal e peça-o, deixando-se de desculpas com supostas escutas (afinal ele também escuta outros); se quer ficar, cale-se e apresente queixa contra quem acha que o anda a escutar. Curioso é o vício, de que já suspeitávamos fortemente, de vir para os jornais procurar que se faça justiça. É tão vergonhoso como as “notícias” e fugas que aparecem plantadas num determinado pasquim. Se ele próprio não confia na Justiça e nos seus colegas, porque hão de outros confiar nele? Gosto da expressão inglesa “Get a life!” Esta é para ele.

Não é sem fundamento que se acusa o Correio da Manhã de ser um esgoto a céu aberto. Mas é pior do que isso. É um agente ao serviço da degradação da Justiça em Portugal. Então um juiz resolve, por sua livre vontade, dar uma entrevista para dizer, entre conversa mole, que um arguido cujo processo tem em mãos esconde dinheiro em contas de amigos, ao mesmo tempo que, decorridos mais de três anos de investigação, não surge acusação alguma por parte do Ministério Público contra esse mesmo arguido; arguido este que, numa encenação humilhante, foi mandado para a prisão durante quase um ano por esse mesmo juiz, com o fundamento de que havia indícios sólidos da prática de crimes de corrupção e branqueamento de capitais, entre outros, dados como provas irrefutáveis de crime pelo jornal, que todos os dias o acusa, julga e condena; o visado protesta e apresenta queixa das declarações públicas do juiz, recorde-se, num contexto em que continua a não haver qualquer acusação sobre qualquer matéria “noticiada” pelo dito jornal; pede em seguida o afastamento do juiz, cuja entrevista mais não visava do que pedir que o afastem, tal a impossibilidade de desconhecer as implicações das suas declarações. E o que diz o pasquim? Que o arguido tenta decapitar a investigação. Bate tão certo tudo isto!
Com Marcelo mudo e calado e na falta de solução para bestialidades destas, como é? Tudo bem e… embrulham-se castanhas com o papel?
Relegados para a porta dos fundos, o PSD e, por inerência, passos Coelho decidiram sobreviver um pouco na ribalta começando a construir e a narrar uma história pouco depois das últimas eleições. Uma história de presságios. Que a nova aliança das esquerdas não duraria mais do que uns meses, que a economia regrediria com as novas políticas, que um orçamento rectificativo era inevitável, que a União Europeia não iria permitir a injeção de capital na CGD, que não haveria entendimento quanto ao orçamento para 2017, que o aumento do salário mínimo iria aumentar o desemprego, em suma, que o governo liderado por António Costa provocaria o caos e cairia dentro de pouco tempo. Para quem quer entender, este era o único discurso que justificaria a presença de Passos Coelho à frente do partido depois de perdida a maioria no Parlamento. Assentava na premissa de que lhe tiraram o poder “à má fila”, mas que, com a mesma rapidez com que o novo governo se atolaria na lama, assim Passos regressaria a São Bento.
Passaram 10 meses. Os dados de que vamos tendo conhecimento não confirmam nenhum dos maus presságios do áugure. Antes pelo contrário. E quanto ao hipotético rompimento da aliança, só posso dizer, daqui que ninguém nos ouve, que é por demais evidente que a presença, no lado da alternativa, da figurinha expectante de agente funerário de Passos é um incentivo mais do que suficiente, interminável, ao entendimento a todo o custo das esquerdas.
Mas eis que hoje (pelo jornal i) somos surpreendidos com o fim abrupto da história. Num contexto de dados positivos sobre o desemprego, sobre as perspectivas de novas contratações e investimentos, de tranquilidade na aliança, diz Passos, aproveitando o facto de o ministro das Finanças ter tido que responder a uma pergunta que falava em resgate, que “sempre soube que este modelo ia falhar, nunca pensei que fosse tão rápido”. Vejamos, a jornalista da CNBC fez a já clássica pergunta do resgate, Centeno respondeu de improviso e o melhor que sabia, os maus jornalistas e os seus ecos puseram de imediato a palavra “resgate” na boca do ministro das Finanças e Passos? Ora, Passos decretou de imediato o segundo resgate dos seus sonhos, o falhanço rotundo do Governo. Segue-se, pela lógica, o fim do mesmo. Acabou, vamos a eleições.
Não fosse a Moody’s a desmanchar tais prazeres e era uma orgia até às tantas.
Ao mesmo tempo, faz-nos rir que ninguém esteja a acompanhar esta ficcionada narrativa. E, sendo assim, eu pergunto: se a história ainda há pouco começada por esta criaturinha já acabou mesmo, vão permitir-lhe um segundo volume, um mero epílogo sequer? Sugiro a epístola de despedida do bardo armado em profeta.
Lançar um programa de conversa do tipo “à volta do arbusto” com o juiz responsável pelos casos mais importantes e polémicos em Portugal? Aconteceu ontem na SIC, que achou deveras importante entrevistar o juiz que mandou prender Sócrates para não lhe fazer quaisquer perguntas sobre a Operação Marquês ou sobre decisões que tomara. Segundo a SIC, o importante mesmo é saber se o senhor dorme, ou come. Sobretudo com a pança e o pernil gordo constante e repetidamente a serem exibidos nas imagens. Também sabermos onde come é fundamental. Olhem, caso não soubessem, come em casa, porque, no restaurante, toda a gente o escuta e ele não aprecia. Já escutar os outros, adora. Não sabíamos, pois não? Sabermos que tem a sorte de ter uma mulher conservadora, que compreende o seu “espírito de missão”, é também interessantíssimo. Bravo, SIC. Até porque nunca nos passou pela cabeça. Pensávamos que era casado com uma mulher modernaça ou até uma Messalina, uma loba, quem sabe. E que depois do TIC o nosso Carlos ainda tinha muito que dar ao pedal. Mas não, em casa reina a modorra. Até dá para ouvir escutas tranquilamente e tudo. Porque este homem não faz mais do que o normal: leva-as para casa. Claro, como não nos ocorreu?
Onde a entrevista deslizou um pouco foi na história de sacar do juiz a confissão de que trabalhava muito porque não tinha dinheiro em contas de amigos. Então, ó senhora jornalista, o que é que lhe deu depois de ouvir esta patetice? A coisinha menos importante da entrevista e logo a senhora lhe foi perguntar se conhecia alguém que tinha! Quero dizer, dinheiro em contas de amigos. Não se faz. Uma entrevista até aí tão interessante, com procissões, falta de amigos, queixumes salariais e tudo…
Sobre a Madre Teresa, hoje canonizada pelo Vaticano, vale a pena ler o que escreveu Christopher Hitchens em 2003, ano em que a senhora foi beatificada. O texto é agora republicado pela Slate.
Mommie Dearest
The pope beatifies Mother Teresa, a fanatic, a fundamentalist, and a fraud.

Já há uns tempos me vinha perguntando por que razão não via nada mudado na Segunda Circular. Isto porque imaginei que as obras anunciadas há uns meses estivessem a ser executadas à noite. Hoje, atravessando-a para apanhar a A5, estranhei, de novo, nada ver. Fui procurar informação sobre o assunto. Havia, e fresca. Hoje mesmo vem noticiado (aqui) que a autarquia decidiu suspender as obras, porque surgiu um conflito de interesses entre a empresa encarregada da pavimentação e a empresa fabricante da mistura betuminosa. Eh, pá. Então? Foi mesmo isso?
Fui das pessoas que receberam com satisfação a notícia de que a via mais longa e mais movimentada da cidade, e perto da qual habito, ia ser renovada, redesenhada na medida do possível e os seus acessos e pavimento melhorados. Trata-se de uma estrada que, apesar de ser de entrada e de saída da cidade, já há muito deixou de ser periférica e está totalmente integrada no tecido urbano. No entanto, na sua maior parte não tem qualquer graça (saúdo aqui a passagem elevada para peões, cor de laranja, que é bonita) e, em muitos pontos, é demasiado perigosa. Por exemplo, quem pretenda entrar nela no sentido Leste/Norte em direção à A1, na zona do Júlio de Matos, pode ter que esperar longos minutos até alguma alma caridosa que circule na faixa da direita lhe permitir o acesso, pois não existe sequer faixa de segurança, ocorrendo aí inúmeros acidentes ao longo do ano. Também a zona da Buraca, sobretudo para quem vem no sentido do Campo Grande (mas também no sentido contrário – confusão de placas e inscrições no piso), é um novelo onde há constantemente acidentes, e nem todos os condutores facilitam a passagem para a faixa que indica Segunda Circular. Entradas coincidindo com saídas são várias. É, portanto, difícil alguém dizer que o que está, está muito bem. Tem mesmo que se mexer na Segunda Circular: arborizá-la, sim, embelezá-la em geral também, mas sobretudo rever os acessos, prever faixas para bicicletas, repavimentá-la, forçar a redução da velocidade. Sei que há quem não concorde, mas eu penso, tal como o executivo camarário atual, que a força das circunstâncias, ou seja, o crescimento da cidade, obriga a repensar o conceito inicial desta circular, que deixou de poder ser uma via rápida e muito menos uma muito rápida. Noto que em Portugal muita gente ainda não percebeu, para grande desgaste do seu sistema nervoso, que nas cidades se circula devagar e que essa é a única maneira de lá encontrarmos pessoas.
Espero, pois, que esta suspensão das obras não dure anos. Se as verbas já lhes estavam atribuídas, não há razão para isso. Mas que este percalço sirva para nos dizerem qual é a ideia agora. Isso sim.
A direita anda muito destroçada com o facto de a chamada Geringonça estar a provar ser de longa duração. Mas já se conformou – ouvi ontem Luís Nobre Guedes declarar a sua impotência, na RTP3, e é também informativo ler a desesperada coluna da direita do Observador. De modo que agora nada mais lhe resta, à direita de boca aberta de incredulidade, do que proclamar que os dois partidos à esquerda do PS “estão domesticados” (com amarga surpresa o dizem, mas constitui uma forma de os acicatar e desinquietar) e tentar que o PCP, pelo menos, abandone o barco, dizendo que as sondagens indicam que o PS mais o Bloco já quase formam uma maioria absoluta.
Porquê o PCP? É apenas uma questão de contas ou têm saudades e sobretudo necessidade do seu antigo aliado para efeitos de combate ao partido socialista e também do barulho nas ruas, a que tanta graça acham e que tanto jeito lhes dá?
Mas a pergunta é esta: sem maioria absoluta, poderia o PS (se liderado por António Costa, que já conhecemos melhor) prescindir do PCP e não do BE? Ou do BE mas não do PCP? Qual é mais fundamental? E qual deles estaria disposto a ir fazer coro com Passos Coelho? Não há aqui um bloqueio positivo, embora totalmente dependente de António Costa?
É longo, mas ninguém precisa de o ler todo de uma vez. Versa sobre a influência da Arábia Saudita e da versão ultraconservadora e literalista do islão sunita que por lá se professa e prevalece, o Wahhabismo, na difusão e na expansão do extremismo islâmico um pouco por todo o mundo. O autor do artigo não é categórico. Apresenta os vários ângulos da questão. Cita estudiosos que consideram, nomeadamente, ser a Arábia Saudita tanto a incendiária como a bombeira neste caso. Desenvolve e analisa estas contradições. Diz claramente que pode haver outros factores para o recrudescer da violência e do radicalismo em países concretos, e menciona-os. Vai buscar a História para contextualizar. Põe cifrões na questão. Em suma, um trabalho bem feito.
Vale a pena ler.
Deixo aqui umas breves passagens do artigo (em inglês), só para aguçar o apetite.
[…] “In the realm of extremist Islam, the Saudis are “both the arsonists and the firefighters,” said William McCants, a Brookings Institution scholar. “They promote a very toxic form of Islam that draws sharp lines between a small number of true believers and everyone else, Muslim and non-Muslim,” he said, providing ideological fodder for violent jihadists.
Yet at the same time, “they’re our partners in counterterrorism,” said Mr. McCants, one of three dozen academics, government officials and experts on Islam from multiple countries interviewed for this article.
Saudi leaders seek good relations with the West and see jihadist violence as a menace that could endanger their rule, especially now that the Islamic State is staging attacks in the kingdom — 25 in the last eight months, by the government’s count.[…]
[…]Thomas Hegghammer, a Norwegian terrorism expert who has advised the United States government, said the most important effect of Saudi proselytizing might have been to slow the evolution of Islam, blocking its natural accommodation to a diverse and globalized world. “If there was going to be an Islamic reformation in the 20th century, the Saudis probably prevented it by pumping out literalism,” he said.[…]
[…]Yet some scholars on Islam and extremism, including experts on radicalization in many countries, push back against the notion that Saudi Arabia bears predominant responsibility for the current wave of extremism and jihadist violence. They point to multiple sources for the rise and spread of Islamist terrorism, including repressive secular governments in the Middle East, local injustices and divisions, the hijacking of the internet for terrorist propaganda, and American interventions in the Muslim world from the anti-Soviet war in Afghanistan to the invasion of Iraq.[…]
[…]The second historical accident came in 1938, when American prospectors discovered the largest oil reserves on earth in Saudi Arabia. Oil revenue generated by the Arabian-American Oil Company, or Aramco, created fabulous wealth. But it also froze in place a rigid social and economic system and gave the conservative religious establishment an extravagant budget for the export of its severe strain of Islam.
“One day you find oil, and the world is coming to you,” Professor Ahmed said. “God has given you the ability to take your version of Islam to the world.”

Apesar de a intenção não ser essa, mas a de ridicularizar a proibição dos trajes de banho femininos muçulmanos em algumas praias francesas, as pessoas que assim posam para as fotos que começamos a ver com abundância na Rede, de “motoquínis”, “Darthvaderquínis, “surfquínis” e outros “quínis”, que podem bem incluir a “combinaçãoquíni”, servem também para tornar ainda mais ridículos os “burquínis” nas praias francesas (sei bem que o ridículo não pode ser crime, sob pena de os tribunais entupirem de vez, e já disse aqui o que pensava da questão). Portanto, apoiado. Significa que ir à praia de burquíni equivale, em termos de conforto, a ir à praia (e ao banho) de fato de motard, de surf, de freira, etc. Duas vezes apoiado!
(Extraído do Esquerda.net)
É, de facto, aberrante que André Macedo não concorde com a existência da televisão pública e aceite o cargo de seu director-adjunto.
Desconheço se a sua criadora, uma libanesa residente na Austrália, concebeu, além do modelo, também um tecido que seque facilmente no corpo, ou se são necessárias as antigas barracas de praia, fechadas, para a substituição de tal fatiota após o banho. No primeiro caso, se a resposta for afirmativa, por que não um tecido branco, que sempre resiste mais aos raios solares? No segundo caso, haverá, no Ocidente, vestiários considerados amigos do islão? Penso que até os pinguins terão mais sorte e conforto nos confins do hemisfério sul. Enfim, a mim, parece-me muito pouco prático. É certo que se assemelham aos fatos de surf ou de mergulho, incontestados na nossa sociedade, até por serem iguais para homens e mulheres, mas estes são para despir mal se saia da água, inclusivamente por razões de saúde, para darem lugar ao calção ou ao fato de banho vulgar/bikini. São fatos de trabalho, digamos. E são unissexo. Os burkinis, não. São, de facto, fatos de banho exclusivamente femininos, para nós fatos de banho de outros tempos, do tempo em que as mulheres tinham que ser inibidas e inseguras em público, propriedade de seus pais ou maridos. Umas peças, elas, uns objetos. Uns úteros, na prática. Uma perguntinha: não trocando de indumentária na praia, como regressam estas mulheres ao carro? Desconheço a resposta.
Há quem fale de desrespeito pela liberdade de escolha a propósito da proibição destes fatos. Mas estas mulheres não são livres de escolher vestir um bikini, por exemplo. A escolha aqui é extremamente limitada: ir com roupa de cidade (e não tomar banho), ir assim ou não ir. Será só graças à enorme benevolência dos machos muçulmanos (alguns) que elas poderão apresentar-se assim em público. Livres? Não brinquem.
Numa outra perspetiva, o burkini parece, sim, pretender ser um grande negócio à escala mundial e os três ou quatro exemplares avistados nas praias francesas são apenas pequenos ecos da revolução desencadeada noutras paragens. Segundo li, a Marks & Spencer, na gama popular, comercializa estas peças há algum tempo no Dubai e na Líbia e, há dois meses, na sua loja principal em Londres, e as firmas Dolce & Gabbana e Donna Karen NY já se lançaram no design de tais peças para a gama de luxo. As perspetivas de crescimento deste mercado são da ordem dos 82% em todo o mundo. É isto mau? Economicamente, é bom. E não, socialmente também não é mau, se considerarmos o mundo muçulmano, onde suponho que, antes desta modernice, as mulheres nem sequer fossem ao mar (ou à piscina). É uma vitória sobre os seus esclerosados hábitos sartoriais, que, a partir daqui, só podem avançar no caminho da descomplicação (digo «só», mas não é garantido; já houve regressões). Nesta perspetiva, o burkini representa, pois, uma abertura, tendo em conta que as formas das mulheres ficam à vista, isto é, os traseiros mais ou menos jeitosos, o peito, maior, mais pequeno, as pernas, mais bem ou mais mal torneadas. Só a pele não. Imagino bem o iraniano Mahmoud Ahmadinejad de má memória a proibir estes fatos por demasiado ousados.
A questão é o contexto em que são envergados em países como a França ou a Alemanha. Aqui, onde estão ainda frescas as imagens dos atentados cometidos em nome do islão, é pedir demais que as pessoas não associem a compra e ostentação destes fatos (e burkas e niqabes) a uma solidariedade com os praticantes de tais atos ou à identificação com a religião mais opressora das mulheres, retrógrada e violenta da era moderna. É natural que não se goste de ver reavivada a memória e que se hostilize o que se considera uma provocação. No contexto atual, repito. E sim, neste contexto, compreendo a sua proibição (embora entenda que a burka e o niqab devem ser proibidos em qualquer circunstância, e já são). Na verdade, quem discorda e protesta contra os presidentes de câmara ou ministros que decidem tal medida, melhor faria se incentivasse as mulheres muçulmanas a protestarem e a lutarem contra a supremacia masculina nas sociedades e comunidades islâmicas. Esse devia ser o alvo. E a protestarem mais alto, que ninguém as ouve, contra os terroristas que planeiam e executam os atentados. Pois é. Convivessem no Ocidente pacificamente e integradamente as comunidades muçulmanas (refiro-me à maioria, claro) com a restante sociedade, assimilassem alguns dos nossos valores, e não existisse a ameaça dos fanáticos religiosos islâmicos do Médio Oriente, que obriga à deslocação de contingentes de militares ocidentais para campos de guerra perigosos e à mobilização de milhares de polícias permanentemente na Europa para garantir a nossa segurança, e penso que até se encorajaria o uso de tal traje pelas mulheres destas comunidades, já que representa um certo avanço nas mentalidades. Assim, é difícil achar-lhe piada. A proibição tem em conta o contexto, creio que não mais.
Estávamos em julho. O mês corria quente. Como não era credível que não houvesse incêndios no país, convenci-me de que teria finalmente sido estabelecido um acordo entre os principais canais de televisão para que não fossem transmitidas imagens das labaredas que destroem grande parte das nossas florestas nesta altura do ano e das tragédias pessoais das numerosas vítimas. Evidentemente que isto não significa não dar notícias dos incêndios. O assunto é grave e deve ser notícia. No entanto, há maneiras inteligentes e comedidas de o fazer. O facto é que aquela suposta decisão agradou-me e supus até que tivesse sido promovida pelo Governo. Puro engano. Agosto chegou. Políticos de férias. Os assuntos escasseiam. Ontem, e dizem-me que nos dias anteriores também, não havia um canal que não ocupasse as longas horas de programação da noite com chamas e mais chamas e pessoas desesperadas e novamente chamas, até já não se suportar tal insistência sádica. Os próprios convidados que, nos estúdios, peroravam sobre as soluções espectaculares que facilmente implementariam caso tivessem poder, apareciam apenas em metade do ecrã, para que, enquanto falassem, se continuassem a ver, em repetição constante, as chamas e as faúlhas e as casas e paisagens destruídas. Como é possível? Como é possível a falta de assunto toldar o raciocínio dos responsáveis televisivos ao ponto de não se importarem minimamente com o efeito de deleite que tais imagens provocam nos incendiários? Será este incentivo ao crime aceitável? Alguém já “falou” com as televisões? A ERC, o Governo?
Não sei se é consequência da política de cortes dos últimos anos, ou se o problema (e qual será?) já vem de trás. Confesso que não tenho aprofundado as causas reais da carência de profissionais de saúde no Algarve (que, no entanto, me parece uma região muito agradável para se viver e trabalhar). Sei que o Centro Hospitalar do Algarve (segundo informação disponível no seu sítio Web) precisava, em julho, de 51 profissionais, entre os quais 4 ortopedistas, e abriu concurso para o preenchimento dessas vagas. Será que é só para o hospital de Faro? Será que alguém se apresentou? Se sim, serão suficientes para os meses de verão? Imagino que, atingindo o Algarve grandes picos de ocupação numa altura precisa do ano, não seja a tarefa mais fácil do mundo recrutar médicos temporários só para os meses de maior afluência turística. Mas penso não ser o caso dos ditos 51, que serão carências permanentes. Mas, e ignorando se a carência de Portimão se verifica durante todo o ano (podem os médicos estar de férias, claro), parece-me inaceitável que a cidade, de dimensão razoável (60 000 habitantes), e o seu concelho não disponham de um serviço de ortopedia nas urgências. A expressão dos técnicos da ambulância, de que “não há urgências de ortopedia em Portimão”, sugere uma situação constante.
Uma pessoa amiga teve o azar de fraturar uma perna no mar, num dia de rebentação forte, e teve de ser transportada para Faro, onde, à hora a que escrevo, ainda não é certo que permaneça para ser operada. Possivelmente irá para Lisboa, onde reside.
Ainda me lembro bem de, há uns anos, eu ter ido parar às urgências de Portimão com um problema no tornozelo, depois de um salto na areia que acabou com o meu pé esquerdo em cima de um calhau escondido. Não só o serviço existia, como também estava repleto de “acidentados”, desde crianças a velhotes, muitos deles casos bicudos de fraturas expostas que muito me impressionaram. Imagino estes casos todos multiplicados por dois, ou mais, a sobrecarregarem as urgências do hospital de Faro. É o caos. E o trágico é que já deixou de ser apenas imaginação. O que aconteceu entretanto? Não teriam esses médicos muito que fazer? Eram uma gordura do Estado? Foram embora para países que pagam melhor? É que ninguém terá dúvidas de que o número de turistas no Algarve aumentou consideravelmente desde então, assim como a população residente no concelho de Portimão, muita dela estrangeira. Além de que o agora chamado Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio (Portimão) acolhe a maior parte dos doentes de Lagos, cujo hospital me parece prestar apenas serviços básicos, apesar do crescimento visível da cidade. Um mistério que não tem graça e uma situação que, a avaliar por muitos comentários deixados por estrangeiros na rede, é vergonhosa. E dissuasora.
Ocorreu-me, ao deparar-me com um painel de discussão inopinado ontem na SIC Notícias, pensar exatamente o que ocorreu pensar ao autor (ou autora) deste artigo, ao qual acedi via o blogue Estátua de Sal:
A acrescentar ao dueto de jornalistas imbecis que integravam o painel, lembraram-se de pôr o José Gomes Ferreira a falar de Faro para ajudar à festa. Tinham mesmo a artilharia toda preparada. Que espetáculo degradante. Ainda por cima não havia nada de novo para discutir.