A falta de assunto não pode justificar tudo

Estávamos em julho. O mês corria quente. Como não era credível que não houvesse incêndios no país, convenci-me de que teria finalmente sido estabelecido um acordo entre os principais canais de televisão para que não fossem transmitidas imagens das labaredas que destroem grande parte das nossas florestas nesta altura do ano e das tragédias pessoais das numerosas vítimas. Evidentemente que isto não significa não dar notícias dos incêndios. O assunto é grave e deve ser notícia. No entanto, há maneiras inteligentes e comedidas de o fazer. O facto é que aquela suposta decisão agradou-me e supus até que tivesse sido promovida pelo Governo. Puro engano. Agosto chegou. Políticos de férias. Os assuntos escasseiam. Ontem, e dizem-me que nos dias anteriores também, não havia um canal que não ocupasse as longas horas de programação da noite com chamas e mais chamas e pessoas desesperadas e novamente chamas, até já não se suportar tal insistência sádica. Os próprios convidados que, nos estúdios, peroravam sobre as soluções espectaculares que facilmente implementariam caso tivessem poder, apareciam apenas em metade do ecrã, para que, enquanto falassem, se continuassem a ver, em repetição constante, as chamas e as faúlhas e as casas e paisagens destruídas. Como é possível? Como é possível a falta de assunto toldar o raciocínio dos responsáveis televisivos ao ponto de não se importarem minimamente com o efeito de deleite que tais imagens provocam nos incendiários? Será este incentivo ao crime aceitável? Alguém já “falou” com as televisões? A ERC, o Governo?

5 thoughts on “A falta de assunto não pode justificar tudo”

  1. nem todos os políticos estão de férias – o Marco Martins não tem tido descanso na desgraça do combate ao fogo no concelho de gondomar. literalmente; as televisões, ai as televisões!, andam a atirar mais lenha para a fogueira. literalmente.

    moral da história: fogo!

  2. “Gozem bem as férias que em Setembro vem aí o diabo”
    Será que o anormal já sabia alguma coisa o mês passado?

  3. Excelente, Penélope. É todos os anos a mesma coisa, Telejornais=deleite de incendiários. Cadê legislação para regulara a coisa? Alguém anda a dormir na forma, literalmente.

  4. Eu cá tenho uma forma simples de resolver o problema: Não vejo! Se toda a gente desligasse o aparelho quando este circo começa, a ver se eles não mudavam de “estilo”.
    E já agora, porque é que o pessoal que anda aflito a tentar apagar o fogo que lhes ronda a porta e os haveres, ao ser intrepelado por um, ou uma, repórter de TV com perguntas parvas
    não os corre à mangueirada ou à sacholada, para não andarem ali a fazer “telenovelas” à custa do sofrimento alheio?

  5. “… não os corre à mangueirada ou à sacholada, para não andarem ali a fazer “telenovelas” à custa do sofrimento alheio?”

    porque são uma cambada de parvos que querem aproveitar o tempo de antena para ver se alguém tem dó deles e lhes paga os prejuízos. limpar as matas e os quintais tá quieto, depois culpa-se o abstrato e responsabiliza-se o público.

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