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Esta direita é um nojo (capítulo XXXII)

Quando nada mais há a fazer, a direita cria tempestades em copos de água, borrifando-se no país, como demonstra o caso CGD, ou atira, na comunicação social, lama para os seu rivais para ver o que é que dá. Vem isto a propósito da notícia da revista Sábado, logo reproduzida pelo Observador, pela Renascença e os habituais comparsas destas tácticas, segundo a qual António Costa foi escutado fortuitamente em conversa com um seu assessor, Bernardo de Lucena, que fora embaixador em Cabo Verde, no âmbito de uma investigação em curso a esquemas de emigração ilegal com suposta corrupção, em que esse ex-embaixador acabou sendo suspeito (alegadamente). Sem levar a fundo as averiguações (ou talvez por isso) e só porque sim, a Sábado resolve publicar a notícia dando-lhe este título:

Exclusivo SÁBADO
Escutaram, quebraram o sigilo bancário e quase prenderam assessor de Costa

O diplomata foi envolvido num esquema relacionado com vistos em Cabo Verde. Os mandados foram passados, foi-lhe quebrado o sigilo bancário e decretadas escutas telefónicas que apanharam conversas com António Costa

Um alarme, como veem.

Só mais adiante surge o parágrafo que devia, este sim, ter dado o título à notícia (que não li na íntegra, por falta de acesso, mas para o caso pouco importa):

{…} Mas tudo poderá não ter passado de uma denúncia caluniosa ou de uma enorme trapalhada que levou até o MP a ouvir e a gravar telefonemas com a intervenção do primeiro­-ministro, António Costa.

Entretanto, o MP já veio esclarecer, em comunicado, o que se passou, esvaziando o “balão” da Sábado, que, no entanto, continha a tal ventoinha que quiçá já produziu o efeito inicial desejado, ou seja, o da distribuição de lama. Sabem como é – António Costa >amigalhaços >governo >corrupção >gente presa.

Isto não vai acabar nunca. Um aviso para os distraídos.

Ordem no galinheiro, s.f.f.

E pronto. Está concluído com êxito mais um tiro no pé do PSD. De algazarra em algazarra a propósito da CGD, chegaram ao ponto de perderem por completo a noção do que fazem com esta história da ida a Bruxelas e a Frankfurt de António Domingues. O que tenho mais a dizer sobre isto? Pois que se podem juntar (ainda mais) ao Correio da Manhã. O convidado futuro presidente do banco público português vai ter reuniões com a Comissão e com o BCE para apresentar o seu plano? Ah, ali há marosca. Falta de transparência. E essas reuniões já eram conhecidas, tendo sido discutidas na AR? Não interessa. Se não havia, passou a haver. Domingues podia (e devia) lá ir, mas afinal é melhor que não possa. Decisão do PSD. O PSD não teve imaginação para mais do que agarrar-se à grafonola que já ia com as ondas. E vai daí, marosca é pouco: fale-se em falha grave, porque não em crime! Repito, nada disto havia há umas semanas, mas agora há. Logo, siga a peça e … o ministro das Finanças está em maus lençóis, o primeiro-ministro já está para além disso – está mesmo à beira do cárcere. E depois? Ora, com os dois virtualmente demitidos, é só um empurrãozinho e Passos tem o caminho aberto para São Bento. O Montenegro dá o mote, o Rangel, à noite, cacareja na TVI, o rapaz Leitão Amaro debita a lição na SIC Notícias o melhor que sabe e pode frente ao João Galamba, a Graça Franco desconfia e afronta-se na RTP 3 e uma pessoa não tem alternativa se não desligar a televisão e retomar a leitura do livro, em má hora interrompida. Pachorra! Algazarra mais estúpida não há. Respondeu bem João Galamba, respondeu bem Carlos César e respondeu bem António Costa, ouvido hoje de manhã. Assunto arrumado, meninos, podem ir inventar outra. Vejam lá se mais inteligente, tá?

Mundos paralelos

As pessoas sofrem horrores com medo de confessar que fizeram um aborto”, diz ao DN. Enquanto franciscano, o teólogo tem uma licença especial que lhe permite absolver o aborto a uma mulher que procure o perdão. “Em alguns casos, só conseguem fazê-lo ao fim de 30 ou 40 anos.” Ontem, na carta apostólica Misericordia et Misera, o Papa Francisco autorizou todos os padres a absolver as mulheres que tenham abortado e que procurem o perdão, mantendo a autorização que tinha dado para o Ano Jubilar da Misericórdia, que terminou no domingo. Os sacerdotes portugueses ouvidos pelo DN mostraram-se satisfeitos com a decisão do Papa.

Todos os sacerdotes passam agora a poder absolver as pessoas que praticaram o aborto e que se arrependeram, sem necessidade de passar pelo bispo ou pelo Papa. Em Portugal, há sacerdotes com licenças especiais que lhes permitem perdoar o pecado do aborto. “As reservas que existiam eram fruto de tradições. Nós, franciscanos, já tínhamos uma licença especial para absolver. E havia outras pessoas para quem estava desbloqueado”, adianta o padre e teólogo Carreira das Neves.

Franciscanos, seus privilegiados, hem? Há alguma razão para a especificidade do vosso perdão?

E as mulheres? A quantidade delas que foram parar ao inferno? Já viram? A decisão do Papa Francisco terá agora efeitos retroativos ou há almas que serão eternas vítimas das más interpretações do espírito cristão? Ah, mas o inferno é uma realidade virtual? Então, estamos a brincar?

Mas, como era aqui na Terra? O que acontecia até agora às mulheres arrependidas de tamanho crime e que arriscavam confessá-lo? Eram escorraçadas da Santa Madre Igreja, ficando os restantes fiéis intrigados sobre a razão do afastamento? E quando esclarecidos, olhá-las-iam de lado, atirar-lhes-iam pedras? E as mulheres que não chegavam a confessar, morriam “em pecado”? Horror dos horrores. Saberiam da licença especial para perdoar dos franciscanos? Se não, porque não? Este perdão universal agora determinado pelo Papa equivale a uma carta verde para abortar ou haverá um registo (eletrónico, pois há liberdade de escolha do confessor) para prevenir abusos? Perguntas e mais perguntas. Ser teólogo não é fácil. Muito menos neste momento em que todos vemos onde leva a extrema fé. Por outro lado, também não vos são feitas muitas perguntas, não é? Há vidas piores.

Estes problemas (do perdão às abortivas) considerados verdadeiramente importantes – e que por isso me fazem duvidar da sanidade mental de pessoas que aparentam ter neurónios, mas não se riem do que dizem – são a prova de que dentro deste mundo, mesmo deste “ocidental”,  há mundos de outro tempo, de outra dimensão, em que basicamente se continua a infantilizar as pessoas e concomitantemente a assustá-las com o sobrenatural e a levar à letra, e a sério, ideias caducas e ridículas, do tempo em que os animais falavam e ainda nem Shakespeare era nascido. É inacreditável. Neste caso do perdão ao aborto, como se as mulheres não tivessem mais com que se torturar depois de decidirem interromper uma gravidez do que com a salvação da sua “alma”. Não vou enumerar aqui os dilemas e as angústias concretas. Para cada um, basta pensar um pouco.

O castigo (ou o perdão) divino está tão deslocado no mundo real que parece um fenómeno do mundo do ISIS. E o triste é que é, embora com consequências menos violentas. Nem para os verdadeiros crimes o castigo ou o perdão divino interessam. Não resolvem nada.

Em ciência, fala-se na possibilidade de universos paralelos, eventualmente com idades diferentes, dada a imensidão do espaço. O estudo dessa teoria está a avançar e eu espero viver para saber as conclusões. Infelizmente, este mundo paralelo criado e mantido pela religião é outra coisa e em nada contribui para o conhecimento do universo ou dos universos nem sobre o espaço-tempo e o nosso caráter mortal. É de lamentar que demasiada gente desperdice o seu tempo com morais sobrenaturais e salvações e acate sem qualquer distanciamento histórias bizarras. Eu estou no outro, ao lado, a olhar com estranheza.

Trumpusconi, uma desgraça. Quero confiar nos americanos

Felizmente há nos Estados Unidos quem esteja seriamente preocupado com o exuberante homem da poupa amarela que se prepara para assumir o comando da mais poderosa nação do mundo.

Neste artigo que aqui trago (cuja leitura integral recomendo) e de que deixo alguns excertos, publicado na VOX, o autor implora que se aja neste prazo crucial de 100 dias até à tomada de posse para pôr algum travão no previsivelmente sem freios comboio trúmpico e evitar um futuro sufoco.

As letras garrafais do título talvez ajudem.

We have 100 days to stop Donald Trump from systemically corrupting our institutions

The transition period is our last best chance to save the republic

 

 

[…]As Tyler Cowen wrote several months ago, “If there were a President who wished to pursue vendettas, the regulatory state would be the most direct and simplest way for him or her to do so. The usual presumption of ‘innocent until proven guilty’ does not hold in many regulatory matters, nor are there always the usual protections of due process.”

And Trump is certainly a vengeful man. As he wrote in his 2007 book, Think Big And Kick Ass, “When someone intentionally harms you or your reputation, how do you react? I strike back, doing the same thing to them only ten times worse.”[…]

[… ]The crucial difference is that Berlusconi’s Italy was a full member of the European Union, with many critical economic policy decisions made in Brussels, its citizens protected by the European Court of Human Rights, and Angela Merkel and the European Central Bank eventually able to bully the Italian parliament into booting him from office. If Merkel couldsomehow induce Congress to dump Trump in favor of Mike Pence, she almost surely would — but this is the United States of America, and nobody can save us from ourselves.[…]

[…]As Ezra Klein has written, he operates entirely without shame:

“It’s easy to underestimate how important shame is in American politics. But shame is our most powerful restraint on politicians who would find success through demagoguery. Most people feel shame when they’re exposed as liars, when they’re seen as uninformed, when their behavior is thought cruel, when respected figures in their party condemn their actions, when experts dismiss their proposals, when they are mocked and booed and protested.

Trump doesn’t. He has the reality television star’s ability to operate entirely without shame, and that permits him to operate entirely without restraint. It is the single scariest facet of his personality. It is the one that allows him to go where others won’t, to say what others can’t, to do what others wouldn’t.

Trump lives by the reality television trope that he’s not here to make friends. But the reason reality television villains always say they’re not there to make friends is because it sets them apart, makes them unpredictable and fun to watch. “I’m not here to make friends” is another way of saying, “I’m not bound by the social conventions of normal people.” The rest of us are here to make friends, and it makes us boring, gentle, kind.” […]

[…]Personnel is policy, and if fealty to Trump determines the personnel, then fealty to Trump will also be the policy.[…]

[…]Above all, senators from both parties who know in their hearts that we are living through a dangerous moment need to avoid falling prey to wishful thinking. Because Trump is a vengeful and irrational man, picking a fight with him over an SEC commissioner or an assistant attorney general feels unpleasant, and many would simply rather duck the issue. But that vengeful and irrational nature is precisely why the fights must be picked and must be picked now.

Não é burro*

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De acordo com alguns leitores, tal afirmação nunca foi proferida por Trump. Segui o link aqui deixado e parece-me credível. Tal não impede, porém, e isto é uma maneira de corrigir as coisas bastante trivial, que eu ache que, se não disse, poderia ter dito. Mas, se não disse, não tenho dúvidas de que o pensou. É facílimo imaginá-lo a fazer uma aposta em como vai dizer tudo o que lhe apetece, verdades, mentiras, insultos, ofensas, ameaças, o cardápio completo de incorrecções, e vai ganhar as eleições. Foi o que aconteceu. Assim, mantenho que não é burro, que seguiu um capricho e se divertiu à brava com o resultado. Agora, o mais provável é não fazer nada do que andou a apregoar e faz sentido que tenha já anunciado que a América vai ser um enooorme estaleiro de construção civil. É o seu negócio, afinal.

OMG!

A esta hora, Trump ganhou e é o próximo presidente norte-americano. Como já foi dito, estamos perante uma espécie de segundo Brexit. Bastará agora Trump abrir a boca nas próximas horas, dias e semanas, à semelhança de Boris Johnson e Nigel Farage, para começarmos a ouvir muitos dos seus votantes a dizerem que não era a sério. No entanto, tal como na Grã-Bretanha, os dados estão lançados e não há outro caminho se não seguir em frente, não há volta a dar. Nas aterragens de emergência verdadeiramente arriscadas dizem aos passageiros em pânico: “brace for impact!” Os passageiros fazem-no com um misto de terror e de esperança de sobreviver. Assim se devem sentir 60% dos americanos e 70% do resto do mundo neste momento.

Uma coisa é certa: aquela poupa loira no alto da cabeça vai cair nos próximos dois anos, o que será provavelmente a única coisa boa a que o mundo vai assistir. A que preço iremos ver Trump a compreender que a vida não é um “reality show” sempre divertido?

Acudam à Helena Matos

Impressionante como a colunista do Observador abre fogo a propósito de tudo e de nada contra a Câmara Municipal de Lisboa. E o Governo nacional, evidentemente, que isto é tudo uma cambada. Imagina-se vítima de ocultação/sonegação de informações e parte do princípio de que ninguém em Lisboa quer dizer nada ao pagode, que se fala e fala e fala e anuncia e nada (de decente) acontece (!), que bom bom era ninguém pagar nada e a cidade ficar um mimo por intervenção divina ou por milagre de uma administração privada que nos poria a pagar exatamente da mesma maneira ou pior e com margem. Ou então, bom mesmo era a gestão entregue a Carmona Rodrigues outra vez. A sério. Ah, e tudo isto tem que ver com o modo de estar na vida das esquerdas. Convencidas de que só elas sabem fazer. E se só elas, Helena? Ai, pum! desmaiou.

Prossigamos. Vai haver uma Feira Popular para os lados de Carnide? Protesta: não sabe de onde vêm os 70 milhões de investimento anunciados e exige o nome e o NIF dos investidores, assim como a lista de compras, vendas e concessões por metro quadrado já. A distribuição exata dos postos de trabalho previstos. O número de carrosséis, rodas gigantes e montanhas russas e quem os vai instalar e o preço dos bilhetes. E quer que os moradores das imediações organizem manifestações ruidosas para fazer cair o executivo camarário por causa do ruído dos divertimentos, como fariam se a Câmara estivesse nas mãos dos amigos da Helena. É que, atenção, não sendo satisfeitas estas exigências, que mais ninguém ainda fez, o que é incompreensível, é tudo uma vigarice. Desde o Carmona Rodrigues e, presumo, do Santana Lopes do túnel, que a Câmara está entregue a vigaristas e incompetentes de esquerda, diz ela. Deve achar que a cidade está feia e pouco atrativa, querem ver?

Os obras da Segunda Circular foram suspensas em virtude de uma fraude não detectada anteriormente no concurso? Mas o que é isto? Rigor? Ela quer as obras já e mesmo assim! Depois, se se descobrisse um conflito de interesses estando a obra já em curso, ah, aí estaria a Helena a dizer que os socialistas são isto e aquilo e, no meio, as palavras corrupção e incompetência.

Mas afinal, ó Helena, dir-se-ia que nem tudo é conversa e há mesmo muitas obras em execução ou já executadas, adjudicadas sem qualquer problema ou esquema, e que tornam a cidade mais bonita e desfrutável. Pois é, a Helena não teve espaço, mas numa próxima oportunidade protestará porque a cidade está caótica. Possivelmente protestaria por haver carros e passeios estreitos a mais, ou passeios ocupados por carros, e em seguida também por haver carros a menos e pessoas a mais nas ruas em passeios demasiado largos.

Mas isto é um caso clínico. Esta história da Feira Popular, que vos parece? É isto normal?

Quanto às taxas. Voltemos às taxas.

E acalmemos a Helena, pelo menos com as taxas turísticas, que ela nem sequer paga. As outras são pagas praticamente em todo o lado – IMI, taxa de esgotos, etc. Em Bruxelas, por exemplo, paga-se ainda uma “taxa de chefe de família”, cuja designação nunca percebi. E há obras constantemente. E os muitos sítios feios da cidade têm agora alguma ou muita graça.

Paris –  a taxa turística era 1,50 € em 2015, mas aumentou e tornou-se flexível em 2016

Berlim – 5% sobre o preço do alojamento

Amesterdão – idem, 5 % por pessoa e por noite

Barcelona – varia entre 0,65 € e 2,25 € em função do tipo de alojamento

Roma, Florença, Veneza, etc. – variável em função do alojamento, mas pode chegar aos 7% em Roma

Bruxelas – 7,5 € por noite.

A ira da Helena é profunda e não vai passar facilmente. Como sabemos? Porque ela partilha connosco os temores das suas noites em claro e os pesadelos de quando dorme, a saber: se fosse uma Câmara liderada pela direita, haveria uma revolta armada da esquerda contra a instalação em qualquer lugar de uma “instituição popular” do Estado Novo como é a Feira Popular. Bem lembrado, Helena. Bem visto. Há noites em que dormir descansada é perda de tempo.

 

Entretanto, na capital do império

A carta enviada pelo director do FBI aos congressistas norte-americanos após triagem e análise dos novos e-mails de Hillary. O que tenho a dizer? Que não estamos nos Estados Unidos, que , por lá, parece estar tudo à beira de um ataque de nervos e que também eu estaria ansiosa se fosse votante. E que há quem deva manter a serenidade e a isenção e não consegue.

 

 

Nada de importante a assinalar. Conclusões anteriores mantêm-se: não há motivo para investigação criminal. E assim se interveio na campanha, se gerou um alarme desnecessário e se conferiu uma vantagem inesperada a um palhaço. Será que esta carta ainda vai a tempo de repor as intenções de voto? “Buddies”, acabem lá com este sufoco. Anda meio mundo nervoso e o pior é que o outro meio anda divertido.

Ponderem queixar-se de vós próprios

Era de esperar que a publicação de um livro por José Sócrates levasse os jornais, sobretudo aqueles que mal falaram no assunto do livro, a dizer-nos qual o ponto da situação sobre o processo judicial em que está envolvido. Assim, apesar de não haver nenhuma notícia “fresca” sobre esta matéria, lê-se hoje no Diário de Notícias que os procuradores e o inspector tributário encarregados do processo “Marquês” se queixam, para além da imensidão de ficheiros e das cartas rogatórias que ainda não obtiveram resposta, ou resposta que lhes agrade,  sobretudo do fim do segredo de justiça interno e externo porque, dizem, assim alguns dos suspeitos que se encontram no estrangeiro ficaram com receio de vir ao país.

O fim do segredo de justiça interno passou rapidamente a externo, isto é, não só os intervenientes processuais tiveram conhecimento da investigação, mas também outras pessoas, fruto das inúmeras notícias que se sucederam; e o facto de suspeitos que se encontravam no estrangeiro terem mostrado “receio” de se deslocarem a Portugal.

Meus caros, a lei é a lei. Depois das fugas cirúrgicas e programadas para os jornais, todas da vossa inteira responsabilidade, que justiça haveria em manter os alinhavos, o poder e o arbítrio todos nas mãos dos procuradores feitos acusadores por interpostas pessoas? Mas também há que perguntar: se não tivessem prendido Sócrates com toda aquela ânsia e todo aquele aparato, não estariam agora a (continuar a) investigar o caso com toda a discrição e todas as condições que dizem faltar-vos agora? Não andariam todos os hipotéticos criminosos a circular livremente cá e lá fora e a passar várias vezes à frente das vossas instalações? Quem mandou a Vossas Excelências precipitarem-se para, aparentemente, se vingarem de frustrações antigas e, dizem alguns, intervirem no processo político, tendo para isso que mentir, dizendo que havia indícios suficientemente fortes para uma detenção? Não havia. E continuou a não haver até à atual hipótese PT, cujo desenvolvimento aguardo com extremo interesse, mas espero que não eternamente, porque vejo aí uma desumanidade inaceitável. Vale do Lobo e outros indícios fortíssimos ficaram mesmo lá para trás, não foi? E o que se disse na praça pública na ocasião?

Olhe, rico, vá o menino manifestar-se para a rua. Mas olhe que já tem os jornais

Qual é o último grito da moda entre a nossa direita mediática? É este lamento: “Que tempos estes, valha-nos deus, já nem os sindicatos protestam! Assim é difícil. Não há igualdade de oportunidades. Estou enfastiado, pois estou.”

Por estes dias, sentem-se vítimas da falta de solidariedade dos seus velhos aliados. E perguntam o que é feito daqueles bons velhos tempos em que os governos do PS eram minoritários e tinham líderes pouco carismáticos (estou a par, sim) ou eram minoritários pelo efeito de golpes sujos e começavam a ser derrubados pelas manifestações de rua, viam o processo agravar-se com os incentivos dados por Cavaco, veja-se bem, aos protestos de rua e depois era só um saltinho até ao derrube na Assembleia. Chamava-se a isso boas oportunidades e longe da direita falar em desigualdades.

Continuando nos factos. Até há pouco tempo, ouvíamos o PS a lamentar-se que só com maioria absoluta é que conseguia governar, pois nem a extrema-esquerda jamais aceitava juntar-se-lhe para uma solução governativa, nem a aliança com a direita (se fosse sequer possível) era conveniente democraticamente porque, com o tempo, constituiria um desgaste para os socialistas e significaria o reforço dos partidos da extrema-esquerda. Esta era a situação, que durou décadas. O lamento do PS tinha razão de ser e foi preciso Sócrates para abalar esta construção e conquistar uma maioria absoluta. É verdade que ainda não havia Costa e o seu gosto real por partir pedra à esquerda. Também nunca a direita tinha ido tão longe na falta de vergonha como de 2011 a 2015.

O lamento recente da direita, onde pontuam Tavares, Baldaia e toda a coluna da direita do Observador, além de muitos outros que não leio mas sei que existem e andam desesperados, é, portanto, mais uma das suas falácias. Cavaco Silva governou durante dez anos. Foi mesmo o governante que mais tempo se manteve à frente do executivo depois do 25 de abril (dez anos). Durão Barroso durou pouco, mas sabemos porquê e não foi de todo por “desigualdade de oportunidades”. Foi antes por uma grande oportunidade. Embora apenas para o chefe. Santana Lopes durou ainda menos e também sabemos, nós e os jornalistas (que andavam num virote surreal e nunca visto), muito bem porquê. Passos durou mais de quatro anos e sabemos por que razão foi travado. Foi uma razão de tal maneira ponderosa que, pela primeira vez, os partidos arqui-inimigos do PS sentiram a obrigação de mudar de agulha e transpor a enorme barreira que separava o fácil e confortável protesto da participação na responsabilidade da governação. Um milagre só possível graças ao massacre sobre os portugueses de quatro anos de directório alemão pelas mãos de Passos, Gaspar, Albuquerque e restante pandilha de submissos.

A direita anda amargurada e não tarda começa com os golpes sujos. Já está a ensaiar com o Fernando Medina. Não estou a vê-los na rua.

 

Recomendo

No blogue Ponte Europa, reflecte-se hoje muito bem sobre o Médio Oriente.

Reflexões outonais sobre o Médio Oriente…

 

Vi aqui levantada uma questão que eu própria já me coloquei muitas vezes: por que razão se está sempre a enfatizar o “massacre” da população civil em Aleppo, na Síria, sob os bombardeamentos russos, e só porque são russos, sem nunca se referir o que as bestas do Daesh fazem repetidamente, não sendo Aleppo uma excepção: obrigar as populações a ficar, impedi-las de fugir para servirem de escudo humano?  Fontes bem informadas dizem que é isso que se passa. Bestas que são bestas comportam-se como bestas e já vimos o Daesh fazer coisas que não lembrariam aos maiores psicopatas assassinos enjaulados nas prisões ocidentais. Obrigar as populações a morrer aparece no cardápio de horrores em posição rotineira.

Já no que respeita a Mossul, no Iraque, só porque os bombardeamentos para destruir o mesmo Daesh não envolvem os russos, mas contam com apoio militar ocidental, os tais civis usados como escudo humano para defesa da cidade não tardaram a aparecer nas notícias que nos chegam como selvajaria do Daesh. Não me digam!

Eu digo “pobres civis” e refiro-me às duas cidades, mas ainda sei ver quem são as verdadeiras bestas. É fineza ler a dita reflexão.

 

O João Galamba maça-o? Vá queixar-se para o Observador

E aproveite para pedir à TVI que corte o pio ao deputado do PS. A avaliar pela recente postura do director de informação do canal, Sérgio Figueiredo, é bem possível que lhe dêem ouvidos.

O João Galamba a debater o orçamento na televisão e a desmontar as falácias da direita parece que “maça” o Vasco Pulido Valente, agora contratado pelo Observador para expelir pesporrência e fel aos domingos, num jornal onde estes ingredientes já se encontravam concentrados em doses maciças, indigestas e, quer-me parecer, contraproducentes, nas pessoas dos seus azedos colunistas. Só mesmo a menção de João Galamba me levou a abrir a crónica, que, vamos lá a isto, encerra assim o assunto:

“Quinta-feira na TVI, Pedro Pinto [o jornalista] foi uma desgraça. Por que raio protegeu ele o abominável Galamba? São ordens da estação? Representa esse demagogo de feira o PS oficial ou directamente o governo? Seria bom que isto se esclarecesse ou que se impedisse o indivíduo de uma vez para sempre de maçar as pessoas.”

(in Observador)

Um duelo, já. Calma, não com ele, evidentemente. Mas esperem, duelos já era. Ministério Público já, para esclarecer tão dilacerante dúvida. A Joana, onde pára a Joana?

O Vasco gostaria de beber o uísque descansado enquanto escuta o ramerrame dos avençados da direita, a toda a hora a debitarem aldrabices frente às câmaras. Isso é que era vida! Em vez disso, leva com um homem de esquerda, jovem e a falar bem,  e fica fulo. Vai daí, do alto da sua exímia educação e com grande espírito democrático, chama-lhe “abominável” e pede que o despeçam.

Pois é. “Não existe intervalo algum entre as pessoas estarem fartas de Vasco Pulido Valente e perceberem que estão fartas dele” (cito com uma enorme liberdade o próprio). É imediato. VPV foi contratado para dizer mal, que é a sua especialização. Mas não da direita. Essa é a dona do jornal. O João Galamba está, claro, mais uma vez, de parabéns.

 

Achei os coches algo infelizes

Fui finalmente visitar o novo museu dos coches. Sei que o antigo edifício do Museu Nacional dos Coches, inaugurado pela rainha Dona Amélia no salão do Picadeiro Real, estava degradado, precisava de obras de renovação, era demasiado pequeno e que, enfim, Lisboa precisa de se modernizar enquanto busca novos espaços culturais. No entanto, havia uma harmonia entre o antigo local da exposição e os objectos expostos que é penoso reconhecer ter-se perdido. Não tenho prazer nenhum em dizer mal, por isso, uma vez que o novo edifício já lá está, procurarei não demoli-lo com a escrita.

O design exterior não é deslumbrante; ignorando-se o dístico, não se imaginaria este edifício a expor objetos barrocos, mas aceita-se porque gostamos que nos surpreendam. Eu gosto. O problema é quando se chega ao piso da exposição, se olha em profundidade e se tem a sensação de estarmos numa gigantesca garagem. Um gigantesco armazém. Os coches estão maioritariamente estacionados em fila, ou melhor, em duas filas paralelas, muito bem arrumadinhos uns atrás dos outros, o chão é semelhante ao de trezentas garagens que conhecemos e as paredes são brancas e totalmente despidas. Acreditem, não há qualquer arte na disposição daqueles objectos, muitos deles surpreendentes e até deslumbrantes no seu estilo barroco. Dá até a ideia de estarem ali provisoriamente, à espera de novo poiso mais vibrante, digno e compatível. Mas penso que não é, nem era, essa (a transitoriedade) a ideia por trás dos 40 milhões de euros que custou. O arquitecto brasileiro, sem saber, acabou por desenhar um cemitério.

Quanto a remediar o que está feito, compreendo que se levante aqui um problema de compatibilidade entre um edifício branco, de linhas totalmente modernas e sobretudo direitas e o estilo típico, por vezes grandioso e muito rebuscado e trabalhado, dos coches, berlindas, caleches, landaus, liteiras, etc., em exibição. Pode uma coisa albergar a outra? Para já, é o que acontece, mas infelizmente, e ao contrário da minha expectativa, o resultado, pelo menos para mim, não é espectacular e os coches perdem bastante com isso. A pergunta deveria ter sido feita há uns anos, claro, aquando da aprovação do novo projecto. Possivelmente foi e alguém entendeu que a conjugação era possível (e possivelmente parecia ser), mas agora outro alguém vai ter que corrigir alguma coisa para que o museu não deixe de ser um dos locais mais visitados da capital, como consta que era o seu antecessor.

Assim, vislumbro as seguintes soluções para este problema real de esmorecimento e dessintonia:

  1. Deixar estar. As pessoas habituam-se. Os visitantes serão, no entanto, em número inferior ao desejado e esperado, dado o poder das redes sociais no passa-palavra.
  1. Os queridos coches mudam, em filinha indiana, novamente de edifício. Para um que os mereça mais. Solução que tem tudo para ser cara.
  1. Mantêm-se ali, mas expostos de outra maneira, com uns tapetes coloridos pelo meio, umas plataformas elevadas para algumas peças, umas imagens “douradas” da época a enquadrá-los, umas pinturas naquelas paredes. Qualquer coisa. Por exemplo, no mínimo, uma disposição e uma iluminação diferentes já dariam uma ajuda.

Alguém por aqui acha que o museu está óptimo assim e que as carrocinhas reais, neste lugar meio tristonho,  continuam a ter poder de atracção e a ser fonte segura de receitas?

Quão mais trapaceiro se pode ser?

(Da entrevista de Passos ao jornal Público)

 

“Acho que o Governo foi desastroso a lidar com os problemas do sistema financeiro. Desastroso. Em primeiro lugar, porque mal  entrou em funções permitiu, lidando incorrectamente com a situação, que se gerasse um problema com o Banif que teve consequências para o sistema financeiro e para o Estado português.

Como sabe, o Governo diz o contrário: que a culpa foi do Governo anterior.

Sei qual é a propaganda que faz. Mas foi este primeiro-ministro a comunicar a resolução.

Mas disse que concordava.

O que eu disse é que, quando um banco chega àquela situação, só há duas soluções: ou é resolvido ou liquidado. Não estou na oposição a fazer uma política de terra queimada. Deixei que o Governo resolvesse aquela situação, mas o Governo aumentou o problema. Quando apanhei com o problema do Banif esse problema era muito maior do que quando saí do Governo. E era muito maior na CGD, e muito maior nos outros bancos.[… ]

[…]

Mas dizia que foi desastroso.  Porquê?

 

Por todo o processo de  recapitalização da Caixa, e pelo  condicionamento de venda  do Novo Banco, que pode  ter resultado em prejuízos  significativos. Foi frequente ouvir  o ministro das Finanças recordar  datas para fazer a liquidação do  banco, ou mesmo ameaças da  eventual necessidade de vir a  nacionalizar o próprio banco. Não  é possível que alguém que esteja  com a missão de vender um banco  para garantir a estabilidade…

 

Essas ameaças não vieram de  Mário Centeno…

 

Desculpe, mas acalentou-as.  O ministro das Finanças podia  ter logo resolvido dizendo que  a nacionalização não está em  questão. O Governo deixou isto em aberto, não facilitou a venda.  E as ameaças quanto à data de  liquidação não ajudam o banco.  Foi desastroso nesta matérias.  Mas foi desastroso também na  Caixa em vários sentidos. Em  primeiro lugar quase deixou a  Caixa sem administração. “

E por aí fora. A anedota atinge novo pico quando se pronuncia sobre o cumprimento do défice e os vaticínios que fizera. Convém também aqui deixar esta pérola:

E a Comissão Europeia, julga que poderá exigir mais ao Governo?

Não julgo nada, porque não estou em condições de o fazer. Mas se há Governo que não se pode queixar da UE é este, porque tem tido uma cooperação extraordinária das instituições europeias.”

Já pararam de rir? Então lembrem-se de como a “UE” governava por cá nos anos de mandato desta cabeça – que não via cruz nenhuma para carregar –  e recomecem.

Por outro lado, alguém poderia fazer a fineza de ensinar este homem a falar português? Expressões como “para futuro” ou “acesso a mercado” arranham os nossos ouvidos para além do suportável.

Se esta entrevista pretendeu ser o contraponto da entrevista de António Costa à TVI, conseguiu. O contraste é total. Quanto a constituir uma resposta por antecipação ao que Costa iria dizer, só tenho a dizer que achei um bom momento de humor.

Sozinhos em casa (sem Mário Nogueira)

Paulo Baldaia, do DN, mostra-se hoje surpreendido e aparentemente desiludido por Mário Nogueira não aparecer nas televisões e nos jornais a protestar contra os “graves” problemas no arranque do presente ano lectivo (ler aqui). Digo “graves” entre aspas, porque, do que tenho observado e lido, o ano escolar arrancou a tempo e horas, com os professores colocados, os alunos devidamente transferidos, os colégios pacificados e apenas uma ou outra escola (contam-se pelos dedos de uma mão) com falta de pessoal auxiliar. Mas, enfim, foi o bastante para afligir o Baldaia ao ponto de clamar pelo Mário Nogueira do pré-perestroika. Ora, perante o gravíssimo problema apontado, que toda a gente facilmente atribuirá ao legado dos enormes cortes efectuados pelo governo da coligação PàF no ensino público e que o atual governo já prometeu resolver, Baldaia gostaria de ver Mário Nogueira, o líder sindical mais furioso, sectário e útil que o país jamais ostentou, a vociferar para as câmaras contra o escândalo. Desorienta-o o silêncio. À direita também e, em desespero, já se tem manifestado no mesmo sentido. Há políticos e jornalistas com uma sensação de abandono por parte do Mário Nogueira. Já choram.

 

A mensagem que tentam, porém, fazer passar é a de que se sentem injustiçados, ou seja, que, se a direita teve à perna, durante o seu governo de coligação, um homem tão agressivo, ameaçador e contundente como o sindicalista dos professores, então o mínimo seria que o governo do rival PS tivesse de suportar a mesma dose. Não será justo uns terem de sofrer o martírio e outros não. Não compreendem.

 

 

Pois bem, meus caros, essa mensagem é impossível de passar. Todos nos lembramos que, durante o governo de Passos e Portas, Mário Nogueira praticamente não existiu (grande parte do país ficou basbaque com a chamada “TINA”, incluindo o sindicalista, também ele treinado há anos para atacar o PS), não organizou manifestações (grandes ou pequenas), assistiu praticamente impávido à degradação da escola pública – cortes de pessoal docente e não docente, aumento do número de alunos por turma, fim das obras de requalificação, fim do programa Novas Oportunidades, criação de novos agrupamentos escolares, alguns ingeríveis, regresso a um ensino de orientação classista e de pendor salazarista,  favorecimento do ensino privado (bailando constantemente na orla do cheque-ensino), fim dos passes bonificados para os jovens, etc, etc.

A verdade verdadinha é que Mário Nogueira e o PCP, foram, até ao final do ano passado, uns preciosos aliados da direita. Para não irmos mais longe, basta-nos comparar qualquer situação governativa com o que aconteceu a Maria de Lurdes Rodrigues e ao governo a que pertencia graças à acção do sindicalista furioso. Nunca tal vimos acontecer com um governo de direita e Mário Nogueira já lidera o sindicado dos professores há décadas. A verdade verdadinha é que ficaram sem a muleta.

Portanto, Baldaia e meus caros outros, percebam que, com o Costa, até o Mário Nogueira cresceu. Vocês dirão que se vendeu e lamentam. Eu direi que o PCP negociou. Não pode?

Mas, enfim, estou a gostar de assistir ao desenrolar da vossa nova vida. Vão ter que se esforçar, agora que estão sozinhos.

Ó César das Neves, pelo amor da santa!

Sempre atenta a como param as modas na sacristia, não pude impedir-me de ler a crónica de hoje do César das Neves, no DN, de imediato pronta para responder à hipotética pergunta que imaginei implícita no título “Deus ou nada” com um definitivo “nada”. Afinal, não havia pergunta. Mas a ideia de “nada” face ao proposto abre tantas possibilidades gostosas, não é? Eu iria por aí. Além do mais, ao dizer que a alternativa “nada” me seduz, estou a cumprir o meu dever e a satisfazer a minha necessidade de chamar a atenção dos leitores para os milhões de fervorosos crentes em deus que povoam o Médio Oriente e o norte de África. São ou não são estados de adoração e de fé em deus, vividos em Estados opressivos, alguns em estados de sítio, estados de guerra e estados de violência, para os quais a alternativa “nada” seria uma bênção? É só pensar nas possibilidades de soluções que abriria.

Mas, Zeus, porque é que este homem César desemboca sempre nos homossexuais e naquilo que ele chama “depravação moral”? Agora até já refere a sigla LGBT, não vão os seus leitores pensar que imorais só há uns, os G. Não, certifiquem-se de que o diabo é multifacetado e designa-se por várias letras.

Ora bem, sendo esse o rumo que as suas crónicas infalivelmente tomam, com a variante dos divórcios entre casais hetero e o a tragédia do fim do casamento tradicional, o que me traz aqui hoje, porém, é a revelação ao mundo que este homem faz da diferença entre “pobreza” e “miséria material”. Ora leiam, que vale a pena:

[Diz ele, citando o livro de um senhor bispo africano, a quem presta homenagem]

Os enganos surgem nos locais mais inesperados: “Lembro-me de me ter revoltado ao ouvir a fórmula publicitária de uma organização caritativa católica que não estava longe de um insulto aos pobres: “Lutemos por uma pobreza zero” (…) Aquele slogan não respeitava o Evangelho nem respeitava Cristo (…) A Igreja não deve lutar contra a pobreza, mas deve travar uma batalha contra a miséria, e designadamente a miséria material e espiritual” (166–167). “Os primeiros inimigos das pessoas homossexuais são os lobbies LGBT. É um erro grave reduzir o indivíduo aos seus comportamentos, designadamente os sexuais. A natureza acaba sempre por se vingar” (190).

Vêem a ligação? E, no entanto, ele acha que está lá. Liguemos, então: há pobres, ou antes “miseráveis materiais”, porque há gente depravada. Ou querem ver que há pobres porque, na ordem do mundo segundo Cristo, tem mesmo que haver? Tudo é possível. Lutar contra a pobreza é que não pode ser. Só combater a miséria material. E, já agora, espiritual. Decidam, caros leitores, qual é para ele a mais importante,

A propósito, o preço do quarto para ver o papa parece já ir nos 1500 euros. Mais caro do que para um concerto de uma banda rock ou um jogo de futebol. Não é decididamente preço para miseráveis materiais. Já para miseráveis espirituais está adequado.

 

Quando há que destacar, há que destacar

O artigo de Ferreira Fernandes hoje no Diário de Notícias. Muito bem escrito, sensível e sem saltos/cortes abruptos que, por vezes, nos desorientam. Fala de John le Carré, Graham Greene e do “voar em círculo”. Parabéns.

Completamente diferente, o artigo de Anselmo Borges, padre católico, também no DN de hoje.  Fala do Islão e da não separação da religião da política. Ou de como a pensar talvez a gente se entenda.

No planeta Terra, papa já há um e tem um público limitado

 

A propósito de Guterres passar a liderar as Nações Unidas. (Na foto, dirigentes da Boko Haram e respetivas armas)

 

Tal como não existe tal coisa de uma mulher ser melhor do que um homem só por ser mulher (e, por tê-lo afirmado, a ONU está de parabéns), também não existe tal coisa de um português ser melhor do que um búlgaro/chinês/malaio só por ser português (podem pôr no feminino). Ser português não é, infelizmente, garantia de qualidade, como ilustra o caso de Barroso, e, quando a má qualidade e o umbiguismo de cariz financeiro se dão a ver internacionalmente, a vergonha pode ser total. Apesar disso, estou contente pelo facto de o português António Guterres ter sido considerado por avaliadores internacionais, e num processo inédito de transparência (resta saber se se mantém), o mais apto e preparado para liderar a ONU. Foram eles, os representantes dos diversos países, sobretudo os dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, e após escrutínio também por organizações civis, que o escolheram, não fomos nós, convém lembrar. No entanto nós, e penso que nós todos, com excepção de Mário David, considerámo-lo merecedor do cargo pelo percurso seguido, pelo seu humanismo e pelo seu dom da palavra (importante sem dúvida) e solidarizámo-nos com a sua vontade de exercê-lo. A responsabilidade e os louros pelo que acontecer nos próximos cinco anos ficam assim, de certo modo, partilhados. Espero, muito esperançada, pelos louros.

Guterres nasceu em Portugal, estudou em Portugal, teve mestres portugueses, fala português, gosta possivelmente de sardinhadas e de bacalhau à Zé do Pipo. Nós também. Ele podia ser eu ou tu. Essa sensação, ainda em estado puro, é boa. Confirma-se que não somos um Estado falhado – temos uma sociedade organizada, instituições estabelecidas, boas escolas (Guterres sempre estudou cá), tranquilidade suficiente para produzir académicos e políticos de qualidade. Mas atenção: Guterres não deixa de ser escrutinado a partir do momento em que assume o cargo de secretário-geral das Nações Unidas. Aqui, em Portugal, pelo menos, o escrutínio vai ser permanente e emocionante.

Sabemos que o novo cargo não lhe confere um grande poder. A sua acção será a montante e a jusante dos poderes políticos. Ganhará mais poder de intervenção na medida exacta do prestígio que for ganhando no exercício da função.

Embora sabendo que, ao contrário de Barroso, Guterres vai por bem, espero que não desperdice esta oportunidade de acção limitando-se a mensagens genéricas de paz e concórdia entre os homens como se fora um papa. O planeta Terra não está fácil de gerir. As armas parecem fluir livremente. Há um ponto sobre o qual Guterres tem que conseguir um acordo mundial: secar as fontes de abastecimento de armas a grupos de bestas como os lá de cima, o Daesh, a Al Qaeda, a Al Nusra e mais uns tantos já bem identificados. Estarei a ser utópica, mas esta é a minha missão pessoal para Guterres. Depois, chegámos a um ponto em que mesmo os mais humanistas dos humanistas têm que estar conscientes de que a tolerância tem limites. Não podemos cristãmente “dar a outra face” a assassinos e a australopitecos sociais e deixar assim morrer tudo o que de bom a humanidade já conquistou. Não passando Guterres a ser o dono do mundo – pois não só não tem acesso a um famoso botão como também não possui, por si só, um exército interventor e nem sequer dissuasor e muito menos uma potência atrás de si – compete-lhe gerir equilíbrios de modo a prevenir conflitos graves ou de consequências brutais para populações desprotegidas. A ver vamos. Desejo-lhe sorte e sabedoria.