Ó César das Neves, pelo amor da santa!

Sempre atenta a como param as modas na sacristia, não pude impedir-me de ler a crónica de hoje do César das Neves, no DN, de imediato pronta para responder à hipotética pergunta que imaginei implícita no título “Deus ou nada” com um definitivo “nada”. Afinal, não havia pergunta. Mas a ideia de “nada” face ao proposto abre tantas possibilidades gostosas, não é? Eu iria por aí. Além do mais, ao dizer que a alternativa “nada” me seduz, estou a cumprir o meu dever e a satisfazer a minha necessidade de chamar a atenção dos leitores para os milhões de fervorosos crentes em deus que povoam o Médio Oriente e o norte de África. São ou não são estados de adoração e de fé em deus, vividos em Estados opressivos, alguns em estados de sítio, estados de guerra e estados de violência, para os quais a alternativa “nada” seria uma bênção? É só pensar nas possibilidades de soluções que abriria.

Mas, Zeus, porque é que este homem César desemboca sempre nos homossexuais e naquilo que ele chama “depravação moral”? Agora até já refere a sigla LGBT, não vão os seus leitores pensar que imorais só há uns, os G. Não, certifiquem-se de que o diabo é multifacetado e designa-se por várias letras.

Ora bem, sendo esse o rumo que as suas crónicas infalivelmente tomam, com a variante dos divórcios entre casais hetero e o a tragédia do fim do casamento tradicional, o que me traz aqui hoje, porém, é a revelação ao mundo que este homem faz da diferença entre “pobreza” e “miséria material”. Ora leiam, que vale a pena:

[Diz ele, citando o livro de um senhor bispo africano, a quem presta homenagem]

Os enganos surgem nos locais mais inesperados: “Lembro-me de me ter revoltado ao ouvir a fórmula publicitária de uma organização caritativa católica que não estava longe de um insulto aos pobres: “Lutemos por uma pobreza zero” (…) Aquele slogan não respeitava o Evangelho nem respeitava Cristo (…) A Igreja não deve lutar contra a pobreza, mas deve travar uma batalha contra a miséria, e designadamente a miséria material e espiritual” (166–167). “Os primeiros inimigos das pessoas homossexuais são os lobbies LGBT. É um erro grave reduzir o indivíduo aos seus comportamentos, designadamente os sexuais. A natureza acaba sempre por se vingar” (190).

Vêem a ligação? E, no entanto, ele acha que está lá. Liguemos, então: há pobres, ou antes “miseráveis materiais”, porque há gente depravada. Ou querem ver que há pobres porque, na ordem do mundo segundo Cristo, tem mesmo que haver? Tudo é possível. Lutar contra a pobreza é que não pode ser. Só combater a miséria material. E, já agora, espiritual. Decidam, caros leitores, qual é para ele a mais importante,

A propósito, o preço do quarto para ver o papa parece já ir nos 1500 euros. Mais caro do que para um concerto de uma banda rock ou um jogo de futebol. Não é decididamente preço para miseráveis materiais. Já para miseráveis espirituais está adequado.

 

8 thoughts on “Ó César das Neves, pelo amor da santa!”

  1. Na semana passada o Julian Assange ainda era pior que os cowboys que assaltavam as diligências dos correios. E que o bom do César ainda hoje pensa que iam atrás da correspondência.

  2. interpretamos o texto de forma muito diferente, Penélope. Como me é óbvio, a miséria é muito mais abrangente do que a pobreza – até porque o estado de pobreza pode não ser torpe naquilo que é ser humano. ademais, também me é óbvio que reduzir o Homem ao seu comportamento sexual é um engano.

    naquilo em que se acredita, assim como os outros crentes, não vejo onde está miséria neste texto que nem sequer está pobre. pelo contrário, possui abundância de citações que fazem pensar.

  3. Que o C. das Neves é uma pessoa atormentada, já se sabia. E que estas pessoas têm tendência para atribuir aos outros, os seus problemas “interiores” também. Acham que o C. das Neves anda com atormentações homossexuais e por isso os seus discursos moralistas, vão sempre descambar naquilo que o atormenta?

  4. O César das Neves diz de facto muitos disparates mas, neste caso, não percebo a tua perplexidade. Julgo que tu é que estas por força a querer ver uma ligação que o homem não faz, nem pretende fazer. O texto é claro, apresenta exemplos que não têm outra caracteristica em comum, a não ser ilustrarem a afirmação “Os enganos surgem nos locais mais inesperados”. Logo, não ha qualquer outro parentesco entre os exemplos, e o texto poderia muito bem apresentar outros sobre assuntos nada relacionados, sobre futebol por exemplo, ou mesmo o seguinte : “Penélope, querendo criticar um texto e demonstrar que diz disparates, esquece-se de ler o la esta escrito”…

    Resumindo e concluindo : os enganos surgem nos locais mais inesperados.

    Boas

  5. Ora bem, João Viegas: dizer, numa altura destas, que, no Ocidente, se matam pessoas e que existe “a cultura da morte” (!) estando a referir-se ao aborto, certamente, é gozar com o pagode, não achas? Vivendo o mundo atual sob a ameaça de movimentos que, esses sim, matam e literalmente esfolam em nome de deus centenas de pessoas na sua própria terra e ameaçam matar, matando por vezes, milhares de outras no chamado Ocidente, é extremamente oportuna a citação do livro do dito cardeal Sarah e da dita “cultura da morte” alegadamente ocidental. Mais oportuno e objectivo não há. O homem só pensa numa coisa.

  6. Penélope,

    Não estou a defender o Neves, como é obvio, apenas a salientar que a tua critica (no post) é um tiro ao lado. No texto que citas, o homem não estabelece nada que se pareça com a relação que achas chocante. De resto as frases que destacas não são dele e nem sequer são homofobicas. A primeira é criptica e inocua. A segunda é apenas uma provocação, que é provavel que cubra uma estupidez, mas não é homofobica.

    Não li o resto do texto dele. Dizes que ha la baboseiras sobre o aborto e sobre a famigerada (e estupida) guerra de civilizações. Acredito que haja. Se me das licença, não vou verificar. Porque não escreves antes um post sobre estes aspectos ?

    Boas

  7. Eu quando oiço esses pândego falar de pobreza recordo-me sempre da resposta do Bertrand Russell, que na altura tinha acabado de receber o Nobel de literatura, à pergunta de um entrevistador conhecido por ser muito pio e imbuído de devoção cristã. Perguntou-lhe o entrevistador, todo malandreco, se na sua qualidade de socialista não deveria distribuir o seu dinheiro pelos mais necessitados. Resposta do Russell: «sou um socialista, não sou um cristão!».

    Fico à espera que o César, que ja dá a deus o que é de deus, dê ao César essa pobreza tão enriquecedora, em vez de se sacrificar a aceitar o seu ordenado certamente jeitoso de pequeno burguês académico. Já aqui tenho um burel de serapilheira e uma gamela para lhe oferecer.

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