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Como se fosse possível nada fazer

Começamos a ler opiniões sobre o que se passa nos Estados Unidos que se inclinam na seguinte direcção: protestar contra as medidas de Trump e as suas “executive orders” é contraproducente, é o que ele e o seu “staff” desejam e é totalmente ineficaz. E diz-se que é o que “desejam” porque os protestos são por eles (os da máquina do Trump) considerados um escape para o choque e as tensões provocados pela nova administração, um escape capaz de fornecer bem-estar aos participantes pelo cumprimento de um dever de consciência. No final, regressam a casa e ao trabalho e tudo se acalma. É um desejo com possibilidades de se realizar, de facto.

Este artigo (“The immigration ban is a headfake”), que se enquadra nessa perspectiva, aventa uma teoria ainda mais sofisticada: que a proibição de entrada no país a cidadãos de determinados países muçulmanos decretada por Trump serve para duas coisas. Primeira, testar os limites da obediência dos serviços; segunda, distrair as atenções de medidas muito mais graves que estão a ser tomadas, como a nomeação de Steve Bannon, o fascista e supremacista branco, para o NSC.

Também o jornalista comunista Pedro Tadeu, no DN de hoje, diz que os protestos não são maneira de combater o Trump. Que tal exige paciência e tempo.

Tudo isto pode ser verdade. Mas estas opiniões não deixam de ser derrotistas e imobilistas. No caso do Pedro Tadeu, a sua teoria de que o que Trump disse em campanha foi o que a maioria dos americanos sente e continua a sentir e a apoiar (fica subentendido que por ser verdade), e que por isso há que ter em conta e respeito(?) pela base de sustentação do novo presidente, parte de um princípio não atendível: o de que o retrato de declínio, má governação, pobreza e desemprego traçado sobre a América corresponde aos dados mensuráveis e observáveis. E de que as medidas por ele propostas e agora postas em prática conduzem a algum bom porto. É evidente que não corresponde e que não conduzem. São mentiras propagadas aos quatro ventos para justificar esta chamada «revolução», sustentada pelas petrolíferas, pelo ramo hoteleiro do próprio Trump, pela indústria das armas e pelos sectores mais retrógrados em matéria de direitos sociais, tolerância e igualdade, que nunca deixaram de existir nos Estados Unidos. Não reagir e não conduzir um combate inclemente contra as mentiras e a prepotência é pactuar com elas.

Ao contrário do Tadeu, eu espero que os norte-americanos civilizados e sensíveis aos valores da democracia e dos direitos humanos não se calem e não desistam de lutar. Nem que haja uma guerra civil. Trump não foi eleito por estar tudo mal nos Estados Unidos e a precisar de uma revolução. Nem por causa do protagonismo da China. Nada disso. O problema mais grave da especulação financeira que causou uma desgraça mundial há bem pouco tempo não irá ser resolvido com os Goldman Sachs contratados pela nova administração nem há qualquer vantagem em tentar dar cabo da China. De todo. Nem é essa a preocupação, de resto. Trump foi eleito porque lhe apeteceu divertir-se, em primeiro lugar, e porque tinha do seu lado uma poderosa máquina de marketing e propaganda, porque contou com a ajuda profissional da Rússia para o desgaste da opositora, porque esta já de si não era convincente nem genuína e porque todos têm medo do terrorismo e pouca gente consegue desligar o terrorismo da religião muçulmana, não sendo fácil esse desligamento para o combater.

Dito isto, e olhando para a Europa, seria desejável que não fossem precisos Trumps europeus, com toda a artilharia pesada dos tipos extremistas de direita – a xenofobia, o racismo, a homofobia, a intolerância, a loucura -, para se dizer o que deve ser dito e fazer o que deve ser feito em matéria de imigração e terrorismo e de defesa dos nossos valores, e também de funcionamento da moeda única. A social-democracia parece ter medo de exigir respeito pelos princípios que nos trouxeram desenvolvimento e bem-estar. Depois não se queixe. É que ninguém poderá chamar aos valores da trupe do Trump os valores ocidentais. A falta de coragem tem riscos.

Irreal! “God” digo eu

Como descrever isto? Trump não tem descrição possível. Um multimilionário rodeado de ouro discursando como se fosse um pregador pé-descalço no sertão brasileiro do século XIX. Vivemos tempos extraordinários, de facto. Penso que ainda não acreditamos em nada do que diz, olhamos para o Mike Pence e desejamos que tenha algum senso, mas receio que façamos mal. O que vai acontecer, céus?

Mas respiremos fundo. A cerimónia. Esta cerimónia, com aqueles padres, aqueles coros, aqueles mórmons, as leituras da Bíblia, recuámos quantos anos? Setenta?

A tia Assunção a fazer um número. Saiu-lhe tão mal

O senhor mentiu! O senhor mentiu perante este Parlamento” – vociferava há pouco Assunção Cristas na AR, dirigindo-se a um impávido António Costa. Dizia ela que o acordo de concertação social não tinha ainda sido assinado, que tinha fontes seguras, seguríssimas e fresquíssimas segundo as quais não, não tinha sido assinado por todos. O senhor mentiu! Costa não se descompôs e respondeu-lhe que, embora não houvesse cerimónia oficial de assinatura, as assinaturas lá estariam (como já estavam, de facto, em curso).

Bom, para até o José Gomes Ferreira vir dizer depois, na SIC N, que a tia dramatizou (calma, a «tia» não é dele e, além disso, começou vergonhosamente por corroborar Cristas), que era evidente que o acordo estava firme e que a assinatura era uma mera formalidade, o excesso de calor acusatório e de drama correu mesmo muito mal à líder do CDS. Quanto ao Ferreira, o texto em rodapé na televisão confirmando a assinatura não lhe deu outra hipótese que não fosse reconhecer o óbvio, caso contrário estaria a pedir, por detrás da autoridade dos seus óculos, a demissão de António Costa.

Mas, para além deste número patético de agressividade com tiros de pólvora seca, Cristas ainda se atreveu a dizer que o Governo PS era minoritário e que buscava acordos para poder governar, pelo que, atenção, Costa não devia estar ali. Este lembrou-lhe que o seu governo não era de coligação, como o anterior, uma espécie de fusão, e fez-lhe um breve resumo do acordo específico estabelecido com os restantes partidos à sua esquerda e o que isso implica. Infelizmente, esqueceu-se de lhe lembrar que, se o PSD tivesse podido governar, uma aspiração chumbada por uma maioria na Assembleia mas que Passos continua a considerar viável, só poderia fazê-lo precisamente buscando acordos a toda a hora, numa base muito mais instável do que aquela em que o governo assenta. Há uma razão para estar na oposição.

Não tenho por hábito acompanhar, nem sequer ver mais tarde, os debates quinzenais na Assembleia, mas hoje deu-me para ir ver o que se tinha por lá passado. Diria que ninguém tem juízo e sentido de responsabilidade a não ser o governo. Consigo perceber a estratégia dos elogios de Costa ao PCP e ao Bloco e respectiva coerência, mas o que dizem e o que pretendem,  benza-os deus, é totalmente irrealista e o desprezo pelos chamados “patrões” é inaceitável, mesmo que Costa tenha repetido ad nauseam que 56% das empresas abrangidas pela baixa (transitória) da TSU têm menos de 10 trabalhadores e 80% menos de 50. Não interessa. Para esses partidos, ser patrão é uma espécie de crime e o seu mero estatuto faz deles uns malfeitores. Idem para os banqueiros. Obviamente, para eles, só o Estado pode ser patrão e banqueiro. Há pachorra para esta conversa? Não há.

O PSD parece que fez triste figura, como seria de esperar, mas confesso que não vi. Apenas as acusações de António Costa, que me pareceram suficientes para os arrumar.

O proteccionismo de Trump e outros ataques

Porque é que, na Quinta Avenida, em Nova Iorque, toda a gente tem um Mercedes estacionado à porta de casa e na Alemanha ninguém tem um Chevrolet?”

Resposta de Sigmund Gabriel, ministro da Economia alemão: “Fabriquem automóveis melhores.”

Este é apenas um exemplo da guerra de palavras entre Trump, o elefante, e o resto da loja de porcelanas do mundo, que já teve início com a China e se irá intensificar a partir do momento em que o “desbocado” tomar posse e fizer questão de mostrar ao mundo todo o seu deslumbramento com o novo universo em que se inicia e toda a sua ignorância.

Vale, por isso, a pena ler neste artigo do “The Guardian” as reacções (também as russas) à entrevista que Trump concedeu à Bild e ao The Times:

(Alguns excertos)

Germany’s deputy chancellor and minister for the economy, Sigmar Gabriel, said on Monday morning that a tax on German imports would lead to a “bad awakening” among US carmakers since they were reliant on transatlantic supply chains.

“I believe BMW’s biggest factory is already in the US, in Spartanburg [South Carolina],” Gabriel, leader of the centre-left Social Democratic party, told the Bild newspaper in a video interview.

“The US car industry would have a bad awakening if all the supply parts that aren’t being built in the US were to suddenly come with a 35% tariff. I believe it would make the US car industry weaker, worse and above all more expensive. I would wait and see what the Congress has to say about that, which is mostly full of people who want the opposite of Trump.”[…]

[…]“If you go down Fifth Avenue everyone has a Mercedes Benz in front of his house, isn’t that the case?” he said. “How many Chevrolets do you see in Germany? Not very many, maybe none at all … it’s a one-way street.”

Asked what Trump could do to make sure German customers bought more American cars, Gabriel said: “Build better cars.”

Sobre a referência de Trump à admissão de um excessivo número de refugiados pela Alemanha e sobre a Nato, foi esta a resposta alemã:

There is a link between America’s flawed interventionist policy, especially the Iraq war, and the refugee crisis, that’s why my advice would be that we shouldn’t tell each other what we have done right or wrong, but that we look into establishing peace in that region and do everything to make sure people can find a home there again,” Gabriel said.

“In that area Germany and Europe are already making enormous achievements – and that’s why I also thought it wasn’t right to talk about defence spending, where Mr Trump says we are spending too little to finance Nato. We are making gigantic financial contributions to refugee shelters in the region, and these are also the results of US interventionist policy.”

Repito que vale a pena ler este artigo. Trump também declara na entrevista que apoia o Brexit e acusa a Alemanha de ser hegemónica na Europa e de pôr o continente ao seu serviço. É verdade. No entanto, isto não pode deixar de nos levar a pensar que Putin não diria melhor e a considerar a existência real de uma marioneta loira. O que interessa a Trump e à América o desmantelamento da UE? Querem ver que ainda vou defender a União tal como está? Não.

Shame

Estou a assistir à conferência de imprensa de Donald Trump, na CNN. Alguém me diz que diferença existe, com base na apresentação inicial que fez, entre este homem e um vendedor de cobertores numa das nossas feiras? Custa a crer que, dentro de nove dias, esteja a presidir à maior nação do mundo. Depois de enumerar as (três) empresas do sector automóvel que vão construir instalações em território americano desistindo de o fazer no estrangeiro, retive a seguinte frase: “Vou ser a pessoa que mais empregos criou na história da humanidade”.  Não percam, se puderem, este documento vivo do desastre humano. Como se os Estados Unidos dispusessem de todas as matérias-primas necessárias para todas as suas indústrias. Vai ser lindo de ver.

Assistindo ao painel que comentava antes do início da conferência, ocorre-me dizer que Putin está a ter um sucesso tremendo (ou “tremendous”, como Trump adora dizer e diz vezes em conta, a par de mil “fantastic” e mais mil “amazing”, para caracterizar as pessoas da sua escolha e as maravilhas que vão operar para tornar a América “great again”). O ambiente político parece ser de total incredulidade e mal-estar. Como é possível o próximo presidente, ainda antes de tomar posse, estar em guerra aberta com os serviços secretos?  Fará uma purga sem fim ao jeito de Erdogan?

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Para complementar, e já que Trump pôs uma advogada a falar sobre as soluções para os seus conflitos de interesses, vejamos onde trabalha esta advogada:

A rebuscada teoria de que a subida dos salários é uma descida – Helena Garrido «vintage»

Ler os colunistas do Observador é sempre edificante e emocionante. Pode por vezes ser uma aventura inesquecível.

Helena Garrido, por exemplo. Helena Garrido discorda, como sempre discordou, dos aumentos do salário mínimo, na linha da discordância da direita passista, ou seja, com base na ideia de que o aumento dos salários prejudica os empregadores e, logo, as empresas e, por conseguinte, o investimento, a competitividade, a criação de emprego, etc. Por isso, haverá que manter os salários ao nível mais baixo possível, de preferência – embora nunca o dizendo em voz alta – eliminando o salário mínimo (ou mesmo o salário, já agora, porque não?). No entanto, como nenhum dos prejuízos enumerados se verifica normalmente nem se verificou depois do último aumento do SMS, para continuar a discordar de toda e qualquer medida do actual governo, HG lembrou-se de conjecturar que o mais recente aumento do salário mínimo é um factor de manutenção dos baixos salários porque … e vejam bem porquê… porque, por exemplo, as pessoas que já ganhavam 557 euros (portanto, mais do que o salário mínimo) continuarão a ganhar o mesmo, pois os patrões terão um benefício de um vírgula tal por cento na taxa para a segurança social se pagarem esse salário mínimo, não tendo um incentivo para outros.

Bom, não sei se os trabalhadores que já ganhavam 557 euros – e muito me admiraria que alguém ganhasse exactamente este montante – contarão para efeitos da prevista redução da TSU. Se o mundo fosse justo, não deveriam contar, nem que, para isso, fosse obrigatório passarem a ganhar 560 euros (terá este item feito parte das negociações da “feira de gado”? Enquadrar-se-ia lá bem). Mas o que decorre normalmente do aumento do salário mínimo é precisamente o aumento correspondente dos restantes salários, pois dificilmente um trabalhador que não ganhasse o salário mínimo iria aceitar que os colegas que ganhavam menos fossem aumentados e ele não. Também não é de crer que os patrões despeçam pessoas que ganham, por exemplo, 600 euros para as substituir por outras, com menos experiência, que possam ser remuneradas com o novo salário mínimo, quarenta euros mais barato. Altamente improvável. E mais uma vez, se o mundo fosse justo, os tribunais fossem céleres e a inspecção do trabalho funcionasse, tal não poderia acontecer. Além de que não me parece que seja do interesse de nenhum patrão este tipo de substituições altamente ostensivas.

Porém, pode dar-se o caso de estar enganada. Se assim for, corrijam-me, pois não sou economista. Pode até acontecer que os patrões baixem os salários todos dos seus trabalhadores para os 557 euros de modo a pagarem menos TSU, como parece antever Helena Garrido. Mas uma tal hipótese afigura-se-me como próxima do absurdo. Além de que deve ter sido ponderada e consequentemente desvalorizada há muito tempo e em muitos lugares.

Ora bem, para se divertirem como eu, deixo aqui dois excertos finais do artigo:

É impossível não recordar o caso da TSU na era da troika e que caiu pela força de uma manifestação de dimensão histórica dia 15 de Setembro de 2012 sob o lema “Que se lixe a troika”. A medida passava pela redução da TSU a cargo dos patrões e o seu agravamento na parcela suportada pelos trabalhadores – cada um pagava 18%. Era neutra em relação ao nível salarial – aplicava-se de igual forma a todos os salários – mas reduzia os custos salariais à custa do poder de compra dos trabalhadores. Uma medida politicamente impossível mas que, reduzindo o poder de compra, não criava incentivos para baixar salários.[…]

[…]Neste caso teríamos de pensar o que aconteceria se este prémio para salários baixos não estivesse a ser aplicado – e o que aconteceria seria seguramente mais poder de compra, mas a prazo. E o que interessa, na política que garante votos, é o que acontece aqui e agora. Assim se perpetua uma estrutura de produção de baixos salários.”

Portanto, é isto: o que convém é não aumentar salário nenhum (talvez com excepção do da própria). Em suma, Madame Garrido, segundo a senhora, se uma subida dos salários é na prática uma descida (que mais ninguém constata), uma descida é que era bom, pois acabaria por ser uma subida. Já desconfiávamos.

Beijinhos.

Um artigo da revista «Politico» sobre Putin e a nova ordem/guerra mundial

Vale a pena ler, embora eu esteja convicta de que a autora será acusada, por alguns, de alarmismo a mais e de sobrevalorização do homem do Kremlin e, por outros, de ainda ter expectativas positivas quanto a Donald Trump.

Putin’s Real Long Game

The world order we know is already over, and Russia is moving fast to grab the advantage. Can Trump figure out the new war in time to win it?

Rui Ramos está sempre a errar. Por mim, pode continuar

Passos Coelho faz muita impressão à oligarquia portuguesa“, começa por dizer Rui Ramos, que termina o seu artigo no Observador de hoje com uma acusação contra desconhecidos de “futilidade oligárquica”. Primeira pergunta: a que “oligarcas” se estará Rui Ramos a referir? Segunda pergunta: quem reprova Passos é oligarca? Querem ver que o país é um bem escondido fenómeno?

 

Rui Ramos, o intelectual que, num jornal passista, mais defende o passismo, está tão viciado na propaganda que nem se apercebe das inanidades que diz. E hoje são demasiadas.

 

Por exemplo, reconhece que não há, de momento, alternativa a Passos dentro do PSD, mas conclui que, sendo as coisas o que são, também não é preciso porque ele é perfeito. E é perfeito porquê? Pois porque tinha razão: as suas políticas foram tão acertadas que agora foi possível reverter os “cortes” (e não percebo a razão das aspas; não terá havido cortes?). Não reparou, contudo, que o próprio Passos veio ontem dizer, na Newsletter do PSD, no final de um palavreado oco e a carecer de especificações, que há que “enterrar as políticas de reversão“. Ou seja, a dose do chamado “ajustamento” que estava a aplicar era para continuar eternamente, alegadamente para tornar Portugal mais competitivo e mais resiliente. Na ponta da Ásia, o Vietname, na ponta da Europa, Portugal. Perfeito. Mas, assim, onde estava o acerto das suas políticas, se o futuro e a estratégia para Portugal eram o eterno empobrecimento, sem perspectiva de reversão da trajectória de miséria? Ou será que Passos enganou Ramos e o amor é mesmo cego?

 

Acontece, entretanto, que nem os nossos credores europeus estão alarmados, nem a maioria dos portugueses está insatisfeita com aquilo a que Rui Ramos continua a chamar “manobra” pós-eleitoral. Refere-se ao acordo político entre as esquerdas com vista a garantir uma maioria duradoura no Parlamento, alternativa à da “falta de alternativa”. RR continua a achar que Passos tinha condições para governar com os votos obtidos nas eleições apesar de não dispor de maioria parlamentar que lhe aprovasse as propostas. Nunca explica como. Será porque pretendia que o PS servisse de (na expressão reprovadora que utiliza para o papel actual do BE e do PCP) “escudeiro” de Passos Coelho? Se assim for, muito me conta.

 

Alega Ramos que o governo sobrevive graças ao BCE e à sua política de compra de dívida, que mantém os juros baixos. Só que o mesmo já acontecia durante o governo de Passos. E até já tardava demasiado, como toda a gente reconhece hoje. Claro que, na altura, o que diziam os PàF era que os juros baixavam porque os mercados estavam entusiasmadíssimos com as políticas de austeridade e sentiam-se confiantíssimos, e que Portugal recuperara a credibilidade. Tretas que Rui Ramos, se não estivesse cego, deveria identificar. Não consta que o país tenha perdido agora a credibilidade. Assim como devia ter percebido a encenação que foi a “saída limpa”. Não viu. Continua a dizer, apesar da banca e da terra queimada que nos legou a coligação, que Passos cumpriu com esmero e sucesso o programa de resgate.

 

Para Rui Ramos, Passos foi um ás porque soube recuperar “a credibilidade externa” (pressupõe-se que perdida). Não diz é que a subserviência, a submissão e o apelo à auto-flagelação dos portugueses foram os presentes inaceitáveis oferecidos para apaziguar a ira dos (considerados) deuses. Coisa irónica, não só não havia deuses, como também os presentes eram absolutamente desnecessários, pois a verdade e o mais extraordinário é que José Sócrates não estava mal visto nem era desconsiderado nas instituições europeias, que até com ele tinham acordado um plano de sustentabilidade que evitava o resgate, plano esse atirado para o lixo porque sim e porque se mentiu. Por outro lado, Costa soma e segue sem qualquer subserviência nem reverência.

 

Ramos diz que Passos pode continuar onde está. Eu digo que deve. Por favor.

2017: o ano da Rússia e valha-nos Zeus

Prestes a terminar 2016, ocorre-me dizer que há muito tempo que não via a Rússia tão presente nos noticiários e devido a posições que considero potenciais “game changers”. E isso é não só uma surpresa como também uma possível antecâmara para uma nova ordem internacional. As “alhadas” em que o Ocidente se envolveu no Médio Oriente (com destaque recente para a Síria) e na Ucrânia, onde não contou com a estratégia de protagonismo e de ambição facilmente concretizável da Rússia, e ainda a perspectiva de ascensão ao poder de Donald Trump, abriram a Putin grandes janelas de oportunidade de afirmação, apesar das informações que temos de que o país está falido.

O manancial de peritos em informática e de espiões e de colaboradores locais de que a Rússia dispõe e também, há que dizê-lo, a sua determinação na Síria face a inimigos que todo o mundo considera animais menos os que neles continuam a ver hipotéticos instrumentos úteis, são trunfos que lhe granjeiam um respeito que julgávamos morto. O condicionamento imposto a Trump com a não retaliação à expulsão, por Obama, de 35 diplomatas russos, é uma jogada de força. Na Europa, já se temem interferências russas em todas as eleições, e são várias a terem lugar no ano que agora começa. Para variar historicamente e introduzir picante no processo, parecem ser os partidos populistas de extrema direita os novos amigos de Putin, sintoma de que os partidos comunistas que ainda não faleceram terão de recorrer à exo-astronomia para encontrarem defensores do seu ideal e fontes de sustento.

Assim, é com expectativa que aguardo para ver se o novo slogan “Oligarcas, bilionários e Rambos de todo o mundo, uni-vos!” trará mais paz e sossego, além de diversão, a este mundo ou se nos levará a todos para o outro quando os americanos acordarem.

Aos curiosos como eu, aos nossos leitores, incluindo os biliáticos, desejo, mesmo assim, um 2017 feliz e surpreendente.

O romance do ano: Assis “in love” com Passos

A tendência já de há muito se desenhava. Hoje, no Público, temos a declaração.

Pedro Passos Coelho percebe-se a si próprio e como tal apresenta-se ao país como uma espécie de Primeiro-Ministro no exílio. Acredito que isso corresponda simultaneamente ao seu estado psicológico e à sua percepção do que corresponde ao seu interesse político imediato. Depois de uns longos quatro anos de aplicação de uma política de austeridade pura e dura, assistirá agora, com perplexidade, à festiva governação que lhe sucedeu. No fundo sente-se um incompreendido, que só uma grave crise a curto prazo poderá reconciliar com o seu próprio país. Só que esse é precisamente o seu drama político mais profundo; não sendo – estando mesmo muito longe de o ser – um abutre, corre sérios riscos de o país o confundir com essa ave tão pouco popular. Pelo meio, alguns verdadeiros abutres, que os há a sério no PSD, já sobrevoam despudoramente aquilo que antecipam como o seu cadáver político. Tem a seu favor o facto de a história estar repleta de aves dessa natureza condenadas ao fracasso pela precipitação de falsas partidas.”

Síria: quatro não alinhados e um moderador

Para se ter uma perspectiva diferente da versão oficial ocidental sobre Alepo e a Síria, deixo aqui o link para um programa de debate (intercalado com breves reportagens) que ontem, dia 15, passou no canal francês LCI (La Chaîne Info). Dura um pouco mais de uma hora. É preciso perceber francês e ter uma certa paciência com os anúncios iniciais e a meio. Mas vale a pena ouvir os participantes que, não parece, mas foram convidados pelo moderador. Infelizmente, não arranjei maneira de colocar aqui a imagem com ligação direta ao vídeo.

 

Alep seule au monde

 

Pata de urso

As petrolíferas americanas, mais os russos, cujos oligarcas dependem das receitas geradas pelos combustíveis fósseis, ditaram a eleição de Trump (a piratagem dos sistemas informáticos pelos russos aconteceu mesmo, e não tendo apenas como alvo o campo democrata, mas era este que interessava abater; o restante material, o do campo contrário, guarda-se para uma futura necessidade. As notícias falsas também funcionaram na perfeição) e irão procurar continuar a ditar o rumo da política do palhaço rico, que mais não será do que uma marioneta. E porque é que isto acontece? Simples. Os russos não estão interessados na adopção generalizada das fontes de energia alternativas e renováveis, tão apreciadas pelo ocidente, e que por cá ganham rapidamente terreno. A Rússia é o maior exportador de gás natural do planeta e o segundo maior exportador de petróleo. Assim, resolveram dar uma ajudinha logo durante a campanha a quem os podia ajudar. E conseguiram uma inesperada e estrondosa vitória. Depois, foi para eles um prazer assistir ao alarido mediático todo em volta dos escolhidos para as diferentes pastas, mais os tweets do Trump e as suas bizarrias, mais as provocações à China, enquanto tranquilamente ocupava o seu lugar o homem que verdadeiramente interessa nesta estratégia – o Secretary of State. Pois é, os oligarcas russos não estão dispostos a assistir sem luta, e sem guerra suja, ao seu próprio declínio. Parece que os americanos estão dominados.

Esta tese não é minha. É de uma pessoa próxima que vive nos States. Parece algo estapafúrdia, mas, observando o que se tem passado e o que tem sido noticiado nas últimas semanas e dias, penso que faz sentido.

É evidente que, em matéria de interferências na política de outros países, nada aqui é novo, a não ser as técnicas, que acompanham os tempos. Novo é o alvo. É também é sabido que os americanos tinham, e têm, uma grande rodagem nessa matéria das interferências e da manipulação. Mas os russos agora surpreenderam-nos.  Enfim, não aos que “lutam pela mesma causa”. Conjugação de interesses, chama-se a isto. Bem aproveitada.

Ocorre-me que o estado de espírito de quem por lá, nas esferas do actual poder e entre os democratas, e em geral entre a gente decente e bem informada, esteja a deduzir nestes mesmos moldes com base no que se vai descobrindo não deve ser famoso. Que tempos.

 

USA Inc.

Tudo indica que Donald Trump se prepara para gerir o seu país como quem gere uma empresa. Na realidade, como quem gere todas as empresas norte-americanas. Aliás, como quem gere todas as empresas norte-americanas que estejam com ele. E ai das outras.

Assim, com a Rússia, podem fazer-se grandes e bons negócios. Logo, Putin é um amigo. Já era, aliás! Pelo menos para alguns espertalhões, os que sabem da poda. Não os míopes dos Obamas deste país. A política, a geopolítica, os aliados, a NATO, mas o que é que isso? Come-se? Aliás, compra-se? A NATO, por exemplo, é um bando de caloteiros. Ora, como eu dizia, negócios – business – e os russos que tratem do Médio Oriente, que estão mais perto. A gente vende-lhes o armamento que quiserem. Eles gramam. E nós facturamos.

A China, mas quem pensam estes “olhos em bico” que são? Produzem a preços inaceitavelmente baixos e inundam o mercado mundial, e sobretudo a América, com bonés, T-shirts, jeans, alhos e lâmpadas ao preço da chuva. Chuva de Xangai, clima do caraças. Mas dão-nos cabo dos salários e da indústria, como eu disse na campanha. Eu quero pagar mais aos meus trabalhadores. Só que não posso! Pois que os chinocas vão vender para o raio que os parta. Por aqui, porta fechada. Ai dizem que vão vender armas aos nossos inimigos? Ah, ah, mas que inimigos? Que é isso? Quem usa ainda inimigos?  Quem não quer fazer dinheiro?

E a OMC, quem são esses gajos? Têm hotéis? Donald Junior, vê se pões esses gajos a trabalhar para nós. Perdão, a facturar. Olha, a ONU também. Bando de inúteis. No Sudão estão a matar-se? Mas o que é que o Sudão tem para vender, além de areia? Estás-me a dizer que tem petróleo, mas só numa parte? OK, Ivanka, compra-lhes lá uns barris e constrói um hotel com vista para os campos de refugiados. Ou para os campos de guerra. Uns tantos da outra parte podem vir trabalhar nas cozinhas. Quanto à natureza dos hóspedes, no problem. Há ou não há quem goste de ver “walking deads“, afinal? Ali serão reais! Reais, estão a ver? Olha, na Turquia também pode ser interessante.

E é isto. É isto e pode ser mais. As chaminés a fumar na Pensilvânia e no Michigan que será uma alegria. America great again.

A 20 de janeiro, ponhamos os cintos de segurança que este tipo vai divertir-se à grande aos comandos.

Cuidado aí com o orgulho em ser… muçulmana

O credo demasiado ligeiro e apressado da canadiana Ms. Massa, uma cara bonita:

«When it comes to her detractors, Ms. Massa has adopted the following credo: “That negative reaction comes from reading a headline and seeing a photo and deciding they don’t like the way I look. That’s not my problem. That’s theirs.” »

Eu sei que a sociedade ocidental deve respeitar as opções individuais, que uma mulher muçulmana não está mais condicionada nas suas escolhas do que uma filha de católicos ou de evangélicos, ou até de ateus, e que, portanto, o que vale para umas vale para outras, como dizer-se que a liberdade de opção religiosa, ou qualquer liberdade de escolha, é relativa, etc., mas que, esquecendo a intolerância que prevalece nas famílias muçulmanas, aceita-se que se diga que, chegadas à idade adulta, as mulheres que cobrem a cabeça em público o fazem por opção individual. Tudo bem.

Acresce que a “socialização” das vestes femininas muçulmanas menos encobridoras (caso da sua exibição em desfiles de moda) pode ser um bom sinal de integração social, de desdramatização e até de laicização dessas indumentárias. Também passar na rua por um homem de turbante ou de túnica ou por uma mulher de chador ou hijab enquanto usamos calças rasgadas, mostramos o umbigo e parte dos seios e abanamos a cabeleira colorida ao vento pode querer dizer que se aceita a diferença e a liberdade de cada um e que é possível conviver em paz com pessoas educadas para visões do mundo e dos sexos diversas. Na sociedade ocidental, em que, recorde-se, predominam os valores ocidentais, pode querer dizer isso e quer certamente dizer isso.

No entanto, alguém me explique por que razão uma mulher há de ter orgulho em não sair de casa sem cobrir totalmente os cabelos com um lenço (e o corpo com vestes largas para esconder as formas), alegadamente para não suscitar a lascívia dos “machos”. Que orgulho haverá em se considerar e ser considerada não mais que uma “fêmea” que se arrisca a ser atacada se mostrar o cabelo e as pernas? Isto no mundo ocidental, entenda-se, pois no outro está instituído e exarado em acta há vários séculos que os machos são bestas.

Considerando eu que a sociedade ocidental evoluiu no bom sentido no que respeita às mulheres e compreendendo eu que a mudança das mentalidades dos imigrantes não acontece de um dia para o outro, custa-me a aceitar que, ainda que indiretamente, se encorajem, ou que não se desencorajem de todo estes sinais externos de mentalidades há muito ultrapassadas por cá. Da minha perspetiva, tolerância transitória e apreciação do pitoresco são uma coisa. Excessivo respeito por hábitos e práticas indignos contra os quais lutámos e aceitação acrítica ou indiferente dos mesmos é outra coisa. Reagir parece-me saudável.

Assim, aquela mulher lá em cima pode apresentar todos os telejornais que quiser escondendo o cabelo por “pudor” e nos canais que o entenderem. Já achar bem ou achar graça a isto é que não devia acontecer. E se aos homens não incomoda, às mulheres livres devia incomodar. E mais, não considero que qualquer reação a isto se enquadre sempre no conceito de “hate”, termo usado na peça. Pode ser repugnância e bem sentida. E incómodo. É que a pena não faz nada pela evolução dos humanos. Nem o silêncio.

A entrevista a Costa, mais o antes e o depois

Foi premonitório e certeiro o que António Costa disse à entrada para as instalações da RTP: que era muitas vezes mais importante responder diretamente às pessoas que lhe fazem perguntas, como acontecera há uns dias, do que responder a estas entrevistas com jornalistas que muitas vezes enveredam por assuntos que apenas interessam aos próprios enquanto agentes dos media. Também à entrada, uma jornalista perguntou a Costa se se tinha preparado melhor para esta entrevista… Insinuando que, para a outra, estava mal preparado? Que deselegância, para não dizer que estúpida insinuação de boas-vindas.

De facto, os temas mais demorados foram completamente os que fazem os títulos dos jornais e que, já se viu pelas sondagens, interessam muito pouco à generalidade da população. Os jornalistas detiveram-se demasiado tempo na Caixa Geral de Depósitos, mas lamentavelmente não à volta dos princípios (o porquê de um banco público, dados sobre o plano para a Caixa, qual a explicação para o ruído criado no Parlamento, etc.); sempre à volta da coscuvilhice. Sobre o Novo Banco, chegou André Macedo ao ponto de querer saber qual o preço que estaria bem para o Governo. Isto é absolutamente ridículo, estando em curso o processo de venda. Depois lá foram abordados temas como a dívida, o código laboral, as relações com a oposição, com o Presidente da República, os transportes públicos, tudo muito bem respondido por Costa, embora com pouco tempo, ficando André Macedo com cara de parvo pela ignorância e o sectarismo que demonstrou nas perguntas e interrupções.

E o pós-entrevista? Não deu para acreditar: os comentadores convidados para os painéis tanto na RTP3 como na TVI24 eram todos da direita, ou seja, contra Costa. Como é óbvio, nem um minuto perdi com aquele espectáculo, mas deu para ver que eram o David Dinis, a Helena Garrido, o Paulo Ribeiro, o José Manuel Fernandes…

Como é, Bloco? Mandam ou não passear o PSD?

É evidente que aquela aliança do Bloco com o PSD e o CDS para deitar abaixo a administração da Caixa deu ideias à direita para continuar a “entalar” uma certa esquerda que, em nome de uma propalada pureza de ideais, cai demasiado facilmente em armadilhas:

A demissão de António Domingues está longe de ser o último episódio da novela da Caixa Geral de Depósitos (CGD). O próximo está já marcado pelo PSD para terça-feira quando for discutido o projeto de lei social-democrata que volta a pôr em cima da mesa os salários dos gestores da Caixa, mas não só.

A proposta do PSD – que se destina a todo o setor empresarial do Estado – prevê a criação de quotas de género (num mínimo de 33% de mulheres na administração), um limite ao número máximo de administradores e a publicitação na internet, não só das orientações de gestão dadas pelo governo, como os relatórios trimestrais das administrações.”

Os objetivos do PSD são lógicos e conhecidos: desestabilizar o acordo quadripartido de governo, colocando pressão sobre os seus elementos, 2) impedir a solução pública para a Caixa e 3) iniciar as já típicas campanhas de lançamento de sujidade para cima de quem governa, valendo-se dos inúmeros amigos de que dispõe na comunicação social. A estratégia para tal é clara e está à vista de todos: até agora mortiços e sem hipóteses de ataque, descobriram o filão da CGD e, tendo alcançado uma vitória com a súbita decisão do Bloco de aprovar a reversão do estatuto do gestor público, absolutamente desnecessária dada a avaliação em curso pelo Tribunal Constitucional e as exigências do Presidente da República sobre a apresentação das declarações de rendimentos e património, trata-se agora de apelar mais uma vez à advogada pureza/ grandes causas e à burrice do Bloco para prosseguirem os seus intentos.

Eu só pergunto: o que impede o Bloco de os mandar passear? O receio de que a suspensão da “pureza” não agrade ao seu eleitorado? Parece-me estupidez aguda. Sabem o que é uma balança? Se não sabem, informem-se, comprem uma e utilizem-na para fins úteis frente aos vossos eleitores. Acaso os limites salariais para altos cargos públicos alguma vez preocuparam o PSD? E as quotas para as mulheres? Não nos façam rir.

E por falar em rir… jamais irei chorar pelo Bloco, mas é pena a triste figura que fazem na tentativa de serem puros. Há quem aproveite e os utilize e pelas piores razões. Sempre foi assim. Se vos falta matéria para negociar com o PS, como acontece em política e com o PCP, ponderem ao menos se é mesmo melhor alinharem com este nojo de direita – cínica, hipócrita, oportunista, interesseira e rasteira. E sobretudo que já mostrou em quatro anos ao que vem. Ainda haverá quem não tenha percebido?