Um “razzie” para este argumento

Aprecio a boa publicidade e penso que, em Portugal, não nos podemos queixar de falta de imaginação e de qualidade nessa matéria. Mas passa atualmente nas televisões um anúncio de gosto assaz duvidoso a uma marca de automóveis. Na minha opinião, e sendo verdade que não há uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão, não se perdia nada em recolhê-lo, como se faz aos veículos com defeito de fabrico.

No vídeo, uma mulher em fúria destrói à paulada um automóvel estacionado à frente de um prédio, convencida de que é o do seu marido (namorado?) traidor. A violência é propositada e não é a brincar. Não se trata de furar pneus ou sujar o veículo com spray (se fosse, a ideia do anúncio até poderia ter alguma graça). É destruição à séria. Vandalismo. Mais do que provavelmente, crime. Além do mais, altamente improvável. Ora, em pleno ato tresloucado de vingança, a mulher vê um vizinho dirigir-se para um outro automóvel exatamente igual ao que ela acabara de destruir, ativar o comando e constatar que o automóvel intacto não responde. A mulher confundira os automóveis. O homem também, só podia. O anúncio não mostra, mas imaginamos que esta vândala não terá posteriormente uma vida fácil na Justiça.

Nada disso interessando ao autor, somos de seguida aconselhados a comprar uma marca e um modelo de automóvel diferentes dos mais vulgares, com a garantia de que será verdadeiramente inconfundível. Pois é, mas, no meu caso, e após algumas visualizações, ainda não me conseguia lembrar da marca sugerida. A cena de violência disparatada permanecia demasiado tempo na memória. Suponho que, para quem a concebeu, fosse igualmente aceitável filmar a mulher a atirar o automóvel por uma ribanceira… e só não o fizeram, porque interessava haver ali um prédio de onde o proprietário pudesse sair, assim como outros automóveis estacionados? Por favor.

Mas a questão é: assente neste drama, quem vai querer comprar o veículo sugerido? Falta de gosto (e de humor) é isto. E eu que pensava que a publicidade que recorre a imagens chocantes para vender um produto já estava ultrapassada.

6 thoughts on “Um “razzie” para este argumento”

  1. Há muito que deixei de ver publicidade,logo pode a dama do anúncio dar as pauladas seja em que pópó for que não me abala minimamente.Mas é para mim espantoso que a agressão do infernal telefone 760 em tudo que é directo ou a venda de pastilhas que curam até as dores de calos feitas em encontros “casuais”em pleno platot,tudo isto não suscite qualquer objecção,tanto mais que estamos perante um ataque abjecto a uma data de idosos,pensionistas e reformados que vêm nos apelos dos apresentadores a hipótese de um magro arredondamento do mísero passadio.E parece também não choca ninguém que o écran televisivo permaneça tempos infindos ou seja durante quase toda a emissão com uma barra preenchida pelo estupor do 760 e do prémio “garantido”dos Euros que nem são pagos a dinheiro,mas num cartão que dá de mamar a uma data de galfarros.Vejo pouca televisão,uns noticiários e um ou outro programa de índole cultural ou episódios do bendito cabo o que me permite ir fintando alguma publicidade emitida com o recurso ao telecomando.Tenho pena dos profissionais a quem é imposto um paleio repetitivo , bacoco e até indecente apelando ao telefonema e chegando até a enumerar o que o ganhador poderá comprar de maior necessidade.Uma vergonha inqualificável!

  2. aquilo está mal feito porque é confuso, é preciso ver várias vezes para decifrar a mensagem fraquinha que não promove a venda do produto. o que choca a penólope é o realismo trauliteiro, na cena clássica da mulher que se vinga do homem no parabrisas do carro, caso fosse um gajo a coisa não merecia poste.

  3. A internet, as redes socias, os blogues, alteraram dramaticamente a maneira como nos relacionamos com o que está à nossa volta. Vivemos de um ruído constante. De repente, damo-nos conta que estão alinhadas, separadas apenas por um deslizar de dedo, a denúncia da maior catástrofe humana que conhecemos na nossa vida e uma apreciação a um reclame de automóveis. É foda.

  4. Ignatz: Enganas-te. Mereceria três posts. Aliás, duvido que houvesse anúncio com um homem naquele papel.
    Olha que não é só o para-brisas.

  5. penélope: a cena da despeitada a destruir o brinquedo do homem é um clássico incontornável, tal como partir a loiça, dos grandes filmes amaricanos. os gajos geralmente ficam-se por papéis mais edificantes tipo ensaio de porrada, umas facadas ou tiro no coração em caso de flagrante. o anúncio tenta parodiar esta cena mas não consegue o objectivo. é tudo e como alguém sugeriu aí para cima não vale um poste.

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