Apocalípticos e desintegrados

1. Segundo os extensos e excelentes artigos que tenho lido sobre o DAESH (ou ISIS), os seus combatentes e mentores acreditam serem os agentes do Apocalipse, que estará próximo. Sugiro ao resto do mundo que, em podendo, lhes mostre quão próximo está, ou estava. Para eles.

2. Há quem diga que se pode decapitar a organização terrorista, mas mais dificilmente a ideia. Penso que há, mesmo assim, grande vantagem nessa decapitação. Em primeiro lugar, as ideias não existem sem os homens. E esta ideia macabra partiu de alguém (provavelmente renascerá em outras cabeças; mas a luta contra o obscurantismo é eterna, com períodos de pico). Depois, a essa decapitação, pode seguir-se o desmantelamento e o desmembramento da organização (ainda que possa ser temporário, dá tempo a que mais mentes progridam, que o financiamento seja dificultado, que se descubra haver vida inteligente noutros sistemas estelares, enfim). Sem as escolas terroristas, por exemplo, que exigem alguma organização política e social, será mais difícil formar militarmente e preparar psicologicamente os recrutados ou aderentes. Em terceiro lugar, quando muitos compreenderem que o tal Apocalipse é só para eles e nem sequer é causado por eles, talvez comecem a utilizar a parte adormecida dos seus cérebros, os neurónios. De qualquer maneira, penso que não será tempo perdido.

3. Há também quem se interrogue por que razão jovens nascidos, criados e educados na Europa se deixam seduzir por uma organização tão violenta, fanática e alucinada. Na verdade, estes jovens nasceram geograficamente na Europa, mas as respetivas famílias nunca abandonaram as práticas e os valores do Islão, sendo nesses valores que educam os filhos. Claro que o Islão pode não ser isto, havendo milhões de muçulmanos  a viver pacificamente no Ocidente. Mas há uma raiz comum e uma interpretação literal do Corão possível. Entre o mundo à sua volta, altamente contrastante, e os apelos e o colete de forças da religião do profeta, é plausível que algumas cabeças menos equilibradas, sem futuro ou mais perdidas entrem em curto-circuito e passem a ter orgulho em morrer, matando. “Eager to recruit, the group may spend hundreds of hours trying to enlist a single individual, to learn how their personal problems and grievances fit into a universal theme of persecution against all Muslims.” (fonte: The Guardian). A chamada «integração» plena só excecionalmente acontece. E é lenta. A organização acena-lhes com uma identidade (que sentem não ter) e com uma causa e não custa perceber que eles as agarrem. Além disso, para muitos jovens, há toda uma adrenalina em manejar armas. Capture the rebelliousness of youth, their energy and idealism, and their readiness for self-sacrifice, while fools preach ‘moderation’ (wasatiyyah), security and avoidance of risk.” (excerto do Manifesto “The Management of Savagery/Chaos”, assinado por um tal Abu Bakr Naji, para o ramo da Al Qaeda para a Mesopotâmia, que se transformou no DAESH, citado no mesmo artigo do The Guardian).

3 thoughts on “Apocalípticos e desintegrados”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.