Sócrates

I

Digam o que disserem os órgãos de comunicação social abrangidos pelo despacho da juíza Florbela Lança (e não só; também outros jornais, pressurosos a replicar o que os jornalistas-assistentes entendem confidenciar e, por isso, se confessam frustrados), o ambiente em torno da questão «Operação Marquês» está bem mais higiénico, decente e consentâneo com o Estado de direito em que todos devemos desejar viver, desde que os ditos órgãos foram proibidos de publicar (não é bem assim)  “notícias” sobre o processo, que se encontra em segredo de Justiça externo. Por via deste silenciamento, que a própria lei impõe, não apenas a juíza, fica claro o quanto a quantidade de pedras arremessadas contra os arguidos diariamente nas páginas de alguns jornais (com títulos enganadores, pesca à linha de certas passagens dos autos, por vezes mentiras descaradas, por exemplo) acicata e influencia os seus leitores, em primeiro lugar, e depois a opinião pública em geral, através das réplicas em televisão, noutros órgãos de comunicação, etc., até ao ponto de poder ser invocada por magistrados (e já tem sido) para justificarem uma acusação (ainda que forçada nos seus fundamentos) e uma condenação, que a «opinião pública» reivindica. Sem a dose regular de veneno, a inflamação tende a passar. Mas não necessariamente a investigação.

Toda a gente tem direito ao bom nome e à presunção de inocência até à prova final da sua culpa. Os juízes devem poder trabalhar sem ruído e os arguidos devem poder preparar a sua defesa. A diferença entre o que se passava até agora e este ambiente de respeito é abissal. A sensação é que, em relação a um aspeto só aparentemente formal, pelo menos, está a fazer-se justiça. Claro que isto não apaga todas as campanhas de ódio e perseguição e as calúnias que foram lançadas lá atrás durante meses e meses. Mas, a partir de agora, o jogo é mais limpo. José Sócrates e os restantes arguidos até podem vir a ser acusados e condenados. Mas, se tal acontecer, teremos a certeza de que a decisão se baseia em provas e não meramente em pressões da chamada opinião pública, instigada pelo Correio da Manhã. Espero que a Relação, na sua resposta ao recurso do jornal, não reinstaure a pouca vergonha.

II

A nossa Tânia insurge-se hoje contra a decisão da juíza e interpreta o conceito de «informar» à sua maneira peculiar:

Ao mesmo tempo, Florbela Lança voltou a confirmar o que já tinha dito. Que o direito de informar é um valor menor que o segredo de justiça e a presunção de inocência. Um entendimento que contraria o que vem sendo defendido em diversos acórdãos proferidos pelo Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, que tem sido perentório na defesa do interesse público quando está em causa a gestão do dinheiro pública.

Ainda bem que fala na “gestão do dinheiro público (pública?)”. A Operação Marquês não visa julgar as políticas do governo de Sócrates, ou seja, a gestão do dinheiro público. Se era melhor aplicar o dinheiro na qualificação das escolas e nos incentivos à economia para combater a crise financeira externa (como era avisado e a UE recomendava, até à crise da especulação com os juros), ou se era melhor retirar poder de compra à classe média, deixar as empresas falir, aumentar o desemprego e estimular a emigração. Visa, sim, apurar se houve ou não crimes de corrupção durante o exercício da governação. Ora, no meio de todas as notícias bombásticas com que Tânia pretendeu “informar” os seus leitores, nenhuma permitiu até agora concluir que as empresas de Santos Silva, o alegado banqueiro informal de Sócrates, foram favorecidas em relação a dezenas de outras que celebraram contratos com o Estado. De tal maneira que o processo teve que descobrir um Vale do Lobo qualquer.

Além disso, se um processo se encontra em segredo de justiça externo, parece-me evidente que não podem os jornalistas que se constituíram assistentes aceder ao mesmo para efeitos da sua publicação. Ainda por cima, para a publicação apenas das passagens que lhes interessam para a tese que vêm defendendo (eles ou outros). Nesse caso, mais valia abrir os autos ao público. Este tema levar-me-ia muito longe. É que parece que as notícas que se publicavam até agora  não tinham outra fonte que não o Ministério Público. Investigação jornalística, nenhuma. E essa podia haver.

III

José Sócrates dará uma entrevista à TVI amanhã. Espero que vá mais longe do que o habitual «não têm provas». Podendo ser verdade e até suficiente para a morte do processo, não chega. Não chega para um eleitor como eu. Votei sempre nele e considero-o o primeiro-ministro que sempre desejei ter e não sabia. Não tenho nada a ver com a relação pessoal de amizade que o une a Santos Silva, nem tenho nada que reprovar o pedido de ajuda financeira a um amigo para a realização de um sonho. Mas exigo outro tipo de argumentos. Uma pista: melhor dizer que não há crime algum e porquê, do que dizer que não há provas de crime.

25 thoughts on “Sócrates”

  1. a tóina laranja confunde o direito de informação com aldrabar, perseguir e difamar.

  2. penélope,estou de acordo com o reivindicado por si no ponto III do poste.socrates tem que ser mais afirmativo do que foi até aqui.quanto ao” correio da manha” só posso dizer que é o jornal das pessoas que não gostam de ler!

  3. Está em causa a gestão de dinheiro público, sim. A primeira coisa que Tânia Laranjo nos deveria informar é quanto é que as dezenas de milhares de horas de magistrados, de centenas de inspectores, detectives e de polícias envolvidos, já gastos neste processo, custaram aos contribuintes portugueses. E quanto é que pode vir ainda a custar mais, acrescentadas da indemnização a que as fantasias judiciárias, abusos de poder e conluios com “jornais” que destruiram a reputação de várias pessoas dá direito.

  4. Portanto, Olinda: crime, mas sem provas. Assim como tu podias ser suspeita e presa por prostituição, mas como os investigadores não conseguem reunir provas, investigam-te por um, dois ou pelos anos que for preciso, até cansar, ou até que não reste de ti senão um farrapo. É este o teu sentido de justiça?

  5. É medonha esta situação ultimamente vivida, na vida de alguns cidadãos alvo de suspeitas de terem praticado presumíveis crimes. Medonha, porque, pelos vistos, neste país, ninguém se pode sentir verdadeiramente seguro de não vir, um dia, a passar por algo de semelhante. Admito e é o correcto que, perante boatos com algum fundamento, as entidades judiciárias investiguem o que têm que investigar. Só que, em tal situação, essa investigação deverá ocorrer com a máxima descrição possível e nunca sob os holofotes duma pseudo-imprensa sensacionalista que se alimenta de roupa suja e não tem escrúpulos em destruir a reputação de um qualquer cidadão, principalmente se for figura pública. E há evidências de que é assim que as coisas se têm passado e não só no “chamado caso Sócrates”. Confundirem-se situações de devassa da vida privada, com o superior interesse de informar, é o caminho mais curto para a destruição do próprio conceito de liberdade de informação . Mais, tal conceito de liberdade de informação não deveria ter qualquer acolhimento jurídico, pois vai confrontar um outro direito fundamental que é o da liberdade ao bom nome das pessoas e à salvaguarda da sua privacidade. Infelizmente, neste país a liberdade de informar permite tudo e mais alguma coisa sem necessidade de apresentação de quaisquer provas do que se publica, sob a protecção, diariamente desmentida, de um jornalismo deontologicamente neutro. Logo, podem avançar até ao infinito, no enlameamento de qualquer cidadão, com total impunidade e, isto, é absolutamente intolerável.

  6. O pior, Renzo, é ver a cobardia colectiva da classe política e das elites intelectuais perante magistrados e jornalistas que atiram para a fogueira os cidadãos. Já vi escritores como Lobo Antunes, por exemplo, repetir sem um mínimo de escrutínio e escrúpulo, as calúnias publicadas por verdadeiros pasquins da nossa imprensa, tomando-as como verdades absolutas. Perante este espectáculo degradante de caução à infâmia por parte das elites, que nos resta?

  7. Pénelope, ele afirmou sempre que não há provas porque nunca existiu, o que é diferente. E não haver existido é um bocado difícil explicar ao povinho algo que não aconteceu sem expor a vida privada justificando empréstimos pessoais. Mas creio que ele o vai fazer, da melhor maneira e com a sinceridade habitual. A questão é como os media vão depois usar o que ele diz,com os seus títulos enganosos do género “Sócrates sorri na entrevista dizendo que ninguém vai encontrar provas”. É assim que se escreve o lixo.

  8. Atão, mas a ‘lindinha anda no ataque? Quem diria……..
    Notem que eu só estou a interpretar à “moda”da Toina Laranja o que acima foi dito.

  9. E pronto, agora vai ser acusado de ofuscar os candidatos presidenciais !!!!

    Antes “interferia” e “prejudicava” o desvalido António Costa …
    Agora vai “interferir” (como se atreve), vai-se “intrometer” (como é possível), na Campanha para a Presidência da República !

    E que culpa tem ele de ser uma figura mil vezes mais carismática (e por isso muito mais interessante) que qualquer dos candidatos presidenciais ?

    Eu, além de desejar que ele mate as suspeitas da prática de quaisquer crimes, desejo que ele pique venenosamente (qual escorpião) certos candidatos presidenciais, especialmente um …
    Até porque esse mesmo atreveu-se recentemente a ensaiar um bicada em Sócrates num dichote que teve tanto de atrevido como de imprudente. Espero que não passe sem ser picado. Até porque se for picado vai saltar e é disso que as presidenciais estão a precisar. De alguém que faça um certo candidato dançar …

  10. E sim, Penélope

    Esta providência cautelar PROVA de forma absolutamente RUIDOSA que a “investigação jornalística” do Correio Manholas nunca passou de um “copy-paste” truncado dos autos, e de umas coisas bichanadas aos ouvidos, entoadas pelos ventos encanados nos corredores do Ministério Público.
    Ficaram com a careca ao léu.

    É um silêncio, uma paz ! Até se ouviriam os pássaros a chilrear se já fosse Primavera !

    E aposto que houve uma queda a fundo nas vendas do Manholas, … porque quem é que quer saber que um banqueiro brasileiro partilha a cela com ratos ? ou que o Super-Juíz afinal engoliu a tese da “pobreza” de Ricardo Salgado ? … nem que metam a Sara Sampaio nua todos os dias na capa !

  11. Houve um condenado à morte na câmara de gaz nos EUA que morreu mesmo na dita câmara.
    Escreveu livros durante vários anos, e até o Papa pediu para não ser condenado.
    Tinha uma única resposta quando os juízes lhe diziam para confessar.
    Respondia sempre: Não conseguem provar.
    Mas também não negaria com muita «convicção»
    Chamava-se Caryl Chessman.

    Lá foi para os anjinhos!

  12. SÓCRATES é um nome que tem ajudado muita gente a ganhar a vida, nos jornais,
    nas televisões e na rádio! Até um padeiro que entrou nos Fedorentos já escrevinha
    para o pasquim usando o nome, para fazer afirmações de ouvido atribuindo a inten-
    ção do visado se querer comparar ao famoso preso angolano! Na realidade o que
    se falou foi sobre as Leis de diversos países sobre prisão preventiva, no caso ango-
    lano o que foi dito é que ninguém poderia ser preso por delito de opinião!!!

  13. Zunzuns sobre o Banif, ÚLTIMA HORA.
    (em rodapé na RTP 3, vem aí as notícias)

    Banco bom, banco mau, parece que o BdP do Carlos Costa está a ferver outra vez.

  14. Banif afunda para novo mínimo histórico – Expresso
    http://expresso.sapo.pt/economia/2015-12-14-Banif-afunda-para-novo-minimo-historico

    «As ações do Banif desceram 57% para os 0,0006 euros», ou seja, tanto Carlos Costa, no BdP, como Carlos Tavares, na CMVM, parecem estar apostados em fazer o mesmo sobre a desvalorização do banco que aquando do afundanço do BES. O papel dos tubarões pôs-se ao fresco seguramente como sempre acontece num carrossel até à próxima corrida, ou até à próxima viagem.
    E, em ambos os casos, há muito papel dos contribuintes portugueses, rios de dinheiro que os desgraçados dos portugueses pagaram historicamente com a carga ao lombo.

    O Mário Centeno e o António Costa herdaram um país armadilhado,
    não sei como se sai daqui, mas há que abrir as janelas para o ar entrar.

  15. septugenario,era miúdo e lembro-me desse caso que apaixonou o mundo. a morte na cadeira eletrica, foi varias vezes adiada.hoje, com o poder da comunicação social,e internet,não seria executado,pois negou sempre o crime e tinha a maioria da opinião publica a seu lado.

  16. Se ninguém se queixa contra Sócrates, nem o amigo que lhe empresta dinheiro se queixa, para quê andar a arrastar um processo destes?

    Que apareça alguém a queixar-se a dizer que o corrompeu!

    Alguém que tenha tomates, porra!

  17. Pois, é que um sentido aceitável seria abandonado e andava ao Deus dará (o que nem me parece verdade no caso de ambos, na verdade). Sócrates no almoço da FIL encheu a sala, parece-me também que António Costa teve o PS unido à sua volta. Apesar de não será fácil sem mais dizer-se que um deles é um deslavido (desvalido da vida, da política and so on), ou os dois, foi exactamente quando se tentou misturar as duas pesonalidades que surguiram as excepções, algumas por calculismo que são as piores, poucas por uma espécie de Trotskysmo Democrático Permanente em algumas ou algumas apoiantes do próprio ex-PM, etc..

    De resto, o Sócrates está na TVI e vamos ver se a “profecia” (com aspas) da Penélope se cumpre.

  18. Eu,no fim, se não morrer antes,vou aplaudir o afundanço do Ministério Público neste caso. Sempre o disse,desde o início.

    E estou a gostar de ver o desespero do pasquim Observador a distorcer tudo sobre a entrevista.Onde é que já vi isto? Tâo à la moda do Correiozinho amordaçado?

  19. Se desenharmos uma linha imaginária e se, então, pensarmos que aí reside o nosso “meridiano de qualidade” (à falta de melhor expressão, é de qualidade do produto que se vendem nas bancas de que falamos); se, de seguida, pusermos os jornais portugueses e a sua fauna existentes neste momento na parte de cima ou de baixo dessa linha; e, se, na parte superior desse meridiano colocarmos a Sábado e o Fernando Esteves da Cofina e o JMT da Sonae/Media Capital percebe-se que o nível (intelectual, profissional, de clareza, de inteligência, etc.) do panorama mediático português está pela hora da morte.

    Sócrates tem a sorte de ter estes inimigos, como hoje se viu na TVI 24.

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