Depois de ler este post, no qual há matéria com que concordar, é de facto altura de falar da estratégia de António Costa face à campanha do governo e à base em que a mesma assenta, a saber – que havia um bandido que levou o país à falência; vieram o Pedro e o Paulo para tratar do Portugal moribundo, dar-lhe um remédio violento mas necessário, levá-lo a mudar de vida, cortar com o passado. Qual crise internacional? Qual especulação? Qual euro? Qual acordo com as instituições europeias? Não houve nada. Estes dois puros, estes heróis merecem, pois, ganhar as eleições e continuar o trabalho de regeneração. Tanto mais que, olhem, ó gentes, Évora lá está para provar o que mereceu quem nos conduziu à tragédia!
Sócrates está detido há seis meses. Para a opinião pública, que apenas farejo, e que presumo orientada pela leitura dos títulos do Correio da Manhã, que o governo agradece e aproveita, tudo entretanto se confunde no que respeita aos motivos da sua estadia em Évora. Está lá, porque ganhou milhões com negócios que promoveu e porque escondeu esses milhões na conta de outro para mais tarde desfrutar; está lá, porque levou o país à bancarrota; está lá, porque foi ele que mandou vir a tróica; está lá, porque roubou os contribuintes com extravagâncias; está lá, porque cá fora é um perigo; enfim, está lá porque muita coisa de mau e criminoso deve ter feito. Como político, foi o que se viu; como pessoa, um vigarista. Assim, tudo junto. Não dois em um; mas mil em um. Um bolo de razões. Nenhuma obviamente boa.
Com esta amálgama, Costa tem vários problemas que não está a conseguir resolver: se, receoso do peso da dita opinião pública, opta pelo mais fácil e por ignorar o preso 44, que é o que parece fazer, dá um crédito à Justiça que nenhum jurista minimamente isento lhe pode dar, nem dá, neste momento. E isso começa por estar errado. Mostra-se fraco, refém das parangonas do pasquim e das mentiras da direita, e conivente com os responsáveis pelas fugas de informação e com a respetiva estratégia. O que não augura nada de bom quanto às futuras melhorias do sistema de justiça como alicerce de um Estado de direito. Se defende o preso 44 (e já não digo defender, pode ser apenas mencionar o assunto como, pelo menos, mandaria a decência), receia que o governo o venha identificar em campanha com o «vigarista», o esbanjador e, pior, o corrupto e o criminoso, coisa que já quase descaradamente os apoiantes e delegados do PSD e CDS fazem, ao acusá-lo de querer «voltar ao mesmo». E a prisão ali tão perto.
Estes receios impedem Costa de desmontar eficazmente a base da campanha da dupla Passos/Portas, acima referida, o que permite assemelhá-lo a Seguro. Valerá a pena recordar como o governo endrominava o então secretário-geral, dado o silêncio sobre Sócrates e a aparente vergonha (e ainda o homem não estava fechado em Évora)? Pois é, ó Costa. Foi confrangedor que nem uma só vez na convenção se tenha referido o nome do ex-secretário-geral, que, recorde-se, governou o país durante seis anos. E bem.
Sócrates está na prisão, diz-se inocente e não foi ainda acusado fundamentadamente de nada e muito menos julgado e condenado por quem de direito. Enquanto primeiro-ministro, o PS só tem de que se orgulhar. Não vale a pena aqui repetir tudo o que de progressista, necessário e certo foi feito nos dois governos anteriores. A vinda da tróica foi da responsabilidade da oposição e desejada pela atual maioria, que decidiu e anunciou ir ainda mais longe do que ela na dureza das medidas. É facílimo desmontar, caso se queira, a narrativa da direita (a da esquerda comunista é desmontável há, pelo menos, 70 anos). Porque não se faz? Com medo de uma identificação com Sócrates e da consequente perda de votos? Ocorre-me a palavra cobardia.
Caro António Costa: Sócrates, repito, não está acusado de nada nem condenado. Esta verdade é uma resposta clara contra ataques soezes. Está, para já, a ser vítima da arbitrariedade dos agentes da Justiça. Podia até estar a ser investigado. Não podia era estar onde está e sujeito aos atropelos das regras básicas do processo judicial. Por isso, parece-me igualmente fácil, caso se queira, denunciar a falta de celeridade e mesmo de legalidade da Justiça no caso do anterior líder do PS. Porque ele está presente na campanha. Dá trabalho pegar o boi pelos cornos? Imagino que sim. Mas perguntem ao preso 44, que entende não ter feito nada de condenável. Ele sabe como se faz. O silêncio é que não compensa. Além de não ser decente nem justo nem solidário. Nem de boa política.