Quando, visto da Grande Ilha, Tsipras é Thatcher

Nada como a simplicidade nestes tempos complexos. No Daily Mail, um jornal britânico mais conhecido pelo destaque dado a cenas escabrosas do quotidiano, ao esplendor e declínio dos corpos dos «A-listers» e à decadência dos trabalhistas (que o jornal odeia), a opinião de um tal senhor Peter Oborne sobre a crise grega é a de que Margaret é que tinha razão. A criação do euro foi um erro de que ela se demarcou com teimosia, mas visão e heroismo. Fazem os gregos muito bem em ir embora. Passado o caos, serão muito mais felizes… e livres.

“[…]The British politicians who encouraged this demented project — including Heseltine, Howe, Blair and Kinnock — should hang their heads in shame.
Bullies
They, too, bear their full share of responsibility for an economic and political experiment which has driven tens of millions of people out of work, and destroyed the economies of not just regions, but of entire countries.
The critics of Alexis Tsipras say that he is a deranged Marxist academic. Perhaps. Compared to Juncker or his predecessor Jacques Delors, or even President Mitterrand and Merkel with their obsessive attachment to the euro, he is a model of common sense and sanity.
Marxist or not, his courage stands in a direct line of succession to that of Margaret Thatcher 25 years ago. Like Thatcher, Tsipras has been patriotic and bloody-minded enough to stand up for his own people against the bullies of the European Union.
Terrible risks lie ahead, but he has already achieved something extraordinary. The idea of democracy was invented in Greece 2,500 years ago. Thanks to him, democracy inside the eurozone, snuffed out by the single currency, was reborn in Greece on Sunday.
We in Britain must give Mr Tsipras all the help and support we can as he sculpts a fresh future for his famous and wonderful country — and, let us all hope and pray, saves the continent of Europe in the process.»

Não é que Tsipras tenha até agora defendido em público a saída do euro e muito menos proposto tal saída no referendo. É que também ele anda às apalpadelas. Essa é uma responsabilidade que ninguém quer assumir. Nem ele, nem Merkel nem Hollande, nem os espanhóis num futuro próximo. Se houvesse a certeza de que tudo se passaria bem («bem», como quem diz, do ponto de vista do «diktat») para os restantes países membros caso a Grécia regressasse ao dracma, os gregos teriam já sido empurrados para a porta com ainda mais arrogância e também com força e alegria. Assim, como não há quase certeza alguma e as que há não são tranquilizadoras, tudo é nebuloso e experimental. Não se sabe se os gregos estão a ser empurrados lentamente para a saída ou se se estão a deixar empurrar lentamente (e a gostar). O problema é que a zona euro corre o risco de implodir e a Alemanha ficará perdida sem o seu euro-marco. Perdida e furiosa. Não é alheio a essa fúria o facto de os imprevistos não se encaixarem nos seus raciocínios de esquadria. Só por isso, grande gozo cá para o sul. Neste momento, os gregos são talvez quem menos perde, a prazo, com o abandono do euro, pese embora o ostracismo a que iriam ser votados e o castigo eterno que lhes tentariam ministrar pela dinamite que colocaram nos débeis alicerces do empreendimento. Nada que não lhes enalteça o orgulho, se bem os conheço. Por isso, sim, o «beef» thatcherista e simplista que escreve no Daily Mail deve estar cheio de razão. Os gregos já saíram e “they’re loving it“.

16 thoughts on “Quando, visto da Grande Ilha, Tsipras é Thatcher”

  1. Que injusto deixar de fora das caracteristicas do daily mail o “”Hurrah for the Blackshirts”” escrito em 1934 pelo proprietário. Ou dos parabéns que deu a hitler pela anexação da republica checa…

  2. “Fazem os gregos muito bem em ir embora. Passado o caos, serão muito mais felizes… e livres”

    “Não e que Tsipras tenha até agora defendido em público a saída do euro é muito menos tenha proposto tal saída no referendo”

    Ele há pessoas que nem a escola primária devem ter feito…

  3. BÁSICO, oiça: qual escola primária, qual carapuça! Não saíram da caverna. Estão cegos nas trevas, e só v~em sombras…mal delineadas.

  4. Entretanto, na Alemanha, o Der Spiegel recrimina duramente Angela Merkel, em artigo intitulado “As cinzas de Angela: como Merkel faltou à Grécia e à Europa. A sua incapacidade de tomar decisões impopulares exacerbou terrivelmente a crise grega.”

    Excertos:

    “Angela Merkel deleita-se com a sua reputação de rainha da Europa. Mas ela nunca aprendeu a usar o seu poder, tendo ao invés permitido que uma má situação aquecesse até ao ponto de ebulição. A sua incapacidade de tomar decisões impopulares exacerbou terrivelmente a crise grega.”

    “…….ela não teve a coragem de enfrentar as consequências. E havia alternativas.

    Ela podia ter oferecido à Grécia um caminho seguro e apoiado de saída da zona euro. Esse era o caminho que o Ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble, defendeu internamente durante muitos anos.

    Ela podia também ter oferecido à Grécia um perdão da dívida. Tivesse ela feito isso no momento certo e poderia, pelo menos, ter impedido a radicalização da política grega.”

    Texto completo (em inglês):

    http://www.spiegel.de/international/europe/merkel-s-leadership-has-failed-in-the-greece-crisis-a-1042037.html

  5. O tabloide Daily Mail não merece ser citado. Nós por cá temos o Correio da Mânha, e chega. Os “beefs” que se deliciem nos chafurdos da sua pasquinada. Os “beefs” são muito idiotas, não apenas por lerem os chafurdos, mas por gostarem de classificar os outros. Já nos chamaram de PIGS (porcos), a nós, aos irlandeses, aos gregos e aos espanhóis. Depois vieram com os EXIT (saídas) aplicados a Grexit, UKExit and so on. Os “beefs” viraram clowns, palhaços… Já não têm a graça nem o humor de antigamente. É tudo muito rasca.

  6. … e se tiverem a paciência de ler todo o original do Der Spiegel, não se esqueçam de ler com atenção — que, apesar dos desmentidos, as ordens para Passos Coelho vieram, afinal, da imperadora pedagógica — quando chegarem à passagem

    “.[Angela Merkel] seguiu uma política de imperialismo pedagógico, com a matéria dada na aula exigindo disciplina orçamental, reforma de mercado laboral e privatizações. Isso funcionou em Portugal, Espanha e Irlanda; mas na Grécia, as condições impostas pelos credores não eram vistas como medicina necessária mas como veneno que estava a destruir a sociedade.”

    E assim se confirma que as ordens que Passos Coelho seguia não derivavam, afinal, do célebre programa eleitoral com que o partido laranja embarrilou os portugueses, lá para os idos de 2011. O programa que Passos seguia e ainda segue é emitido — em directo e a cores — pela telescola berlinense do “imperialismo pedagógico”.

  7. Foi dado um prazo à Grécia para apresentar até amanhã à noite UM PLANO DETALHADO PARA UM 3.° RESGATE, ou em alternativa encarar a possibilidade de ser afastada da zona Euro .

    Os líderes da Zona Euro ficaram furiosos por ter sido marcada uma reunião de emergência e o novo ministro das finanças Grego não ter apresentado quaisquer propostas, compareceu na reunião com um rascunho de pequenas notas, sarrabiscadas num papel de hotel .

    http://www.thetimes.co.uk/tto/news/world/europe/article4491026.ece

  8. deixá, se insistirem muito na forma, para a próxima levam com um tatuado de toutiço a rappar propostas em papel renova olé folha dupla.

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