Entrámos em campanha eleitoral. Sem surpresa, da parte dos partidos do Governo, a narrativa é a de que, depois de os socialistas terem levado o país à bancarrota, este governo fez o que pôde para «endireitar» as coisas, tendo-o conseguido, infelizmente através de um programa de que não gostava, mas que estava obrigado a aplicar.
Tudo isto é mentira: nem os socialistas levaram o país à bancarrota (foram muitos outros fatores, nomeadamente a inação do BCE face à especulação sobre os juros da dívida, muito ditada (a inação) pelo caso bicudo da Grécia, o aumento das falências e do desemprego na sequência de uma gigantesca crise financeira internacional e o chumbo, pela então oposição, de uma solução menos gravosa para a delicada situação financeira nacional), nem este governo endireitou, por sua ação direta, grande coisa (em muitos aspetos, pelo contrário, só agravou a situação, como na caso da dívida, das desigualdades e do panorama social), nem a aplicação do programa foi feita a contragosto – aqui também, muito pelo contrário, como abundante documentação audiovisual e escrita comprova.
Assim sendo, tem-me parecido frouxa e não suficientemente insistente a contra-argumentação de António Costa perante as patranhas da direita. É que o estribilho por eles usado, de tantas vezes repetido, acabou por se infiltrar na cabeça de muita e incauta gente. Vieram, segundo nos fazem crer, cheios de boa vontade de pôr cobro aos desmandos do Sócrates – um louco que finalmente está onde devia estar – e fizeram o melhor possível. Daí até dizerem que merecem ganhar as eleições não falta nada, como aliás já se vê nas suas peregrinações pelo país. O controlo da comunicação social (de que acusavam os outros) é quase total e a mensagem facilmente rola.
Por que não gosto da atitude da direção do PS? Porque não são capazes de se apresentar como não culpados e de «alma» limpa. E tinham todas as razões para o fazerem. Em matéria política, há muito pouco a censurar aos governos Sócrates e muito de que se orgulhar, nomeadamente o controlo do défice, que não impediu boas políticas sociais. Porque são renitentes, salvo honrosas exceções, em matraquear, como bem faz a direita com as deturpações que lhe interessam, e para seu proveito, o que verdadeiramente se passou em 2011. E incapazes de desfazerem a imagem de meninos bonzinhos com que esta autêntica corja, que domina todos os meios de propaganda, se pretende apresentar ao eleitorado.
Passos é o maior aldrabão que já passou por São Bento, os seus colaboradores e próximos idem aspas – basta ver o desplante com que a ministra das Finanças mente sobre tudo e mais alguma coisa (lembram-se dos «swaps»?), inclusivamente sobre os números. O mesmo se pode dizer do secretário de Estado Paulo Núncio a propósito da Autoridade Tributária e da famosa lista VIP, da ministra da Justiça e de Nuno Crato, um total incompetente, a que acrescem as negociatas de Aguiar Branco, e ao que tudo indica também as de Miguel Macedo, e toda a lista de falcatruas associadas a Miguel Relvas e ao próprio Passos. A lista é demasiado longa, por abranger também os amigos das direções-gerais e outras autoridades públicas. Mais a CRESAP, essa entidade que iria garantir a máxima seriedade e transparência na admissão de candidatos a cargos públicos. Nunca se viu uma ocupação do aparelho do Estado tão ousada, livre, completa e tão pouco denunciada. Este governo é um escândalo. E se, na Europa, a margem de negociação (que não é inexistente) ainda é estreita, apesar de um novo governo se poder comportar de maneira bem mais afirmativa e respeitável, a nível interno, pelo contrário, há mais do que margem para apelar ao repúdio do atual governo.
Diz o PS que não alinha em «casos». Mas que casos? Trata-se de mentiras e vigarices, muitas delas graves, que são bem reais e visíveis, de governantes pouco sérios, vingativos, incompetentes e até palhaços políticos (lá acima esqueci-me do Pires de Lima), que jamais hesitam em lançar lama sobre os seus antecessores ou adversários. Isso não importa?
Outra tendência que também censuro na oposição é a de, aparentemente à falta de melhor, acusar a direita de fazer isto ou aquilo por uma questão ideológica. Por que não explicar os prejuízos reais e concretos das políticas seguidas? Porquê este argumento? É evidente que é uma questão ideológica. Há fações da sociedade (que por vezes chegam ao poder) que entendem que vale tudo para ser rico e que não lamentam que nem todos o possam ser, repousando na ideia de que não podem nem devem fazer nada. Que o Estado não tem que interferir para assegurar iguais oportunidades para todos (sabendo que se nasce em berços muito diferentes), uma melhor distribuição da riqueza, nem para impedir que o país seja vendido ao desbarato e que a lei da selva económica se instale. É uma ideologia, à qual há que contrapor outras. Acusá-los de desmantelar o SNS por uma questão ideológica é uma estratégia totalmente ineficaz, é uma verdade de Monsieur de La Palice, para além de que a maior parte das pessoas nem percebe o que seja isso de ideologia.
Falta espírito aguerrido. A conquista de uma câmara (ainda por cima na zona mais desenvolvida do país) não é a mesma coisa que a conquista do país.


