Arquivo da Categoria: Penélope

Vá, não custa assim tanto

Entrámos em campanha eleitoral. Sem surpresa, da parte dos partidos do Governo, a narrativa é a de que, depois de os socialistas terem levado o país à bancarrota, este governo fez o que pôde para «endireitar» as coisas, tendo-o conseguido, infelizmente através de um programa de que não gostava, mas que estava obrigado a aplicar.

Tudo isto é mentira: nem os socialistas levaram o país à bancarrota (foram muitos outros fatores, nomeadamente a inação do BCE face à especulação sobre os juros da dívida, muito ditada (a inação) pelo caso bicudo da Grécia, o aumento das falências e do desemprego na sequência de uma gigantesca crise financeira internacional e o chumbo, pela então oposição, de uma solução menos gravosa para a delicada situação financeira nacional), nem este governo endireitou, por sua ação direta, grande coisa (em muitos aspetos, pelo contrário, só agravou a situação, como na caso da dívida, das desigualdades e do panorama social), nem a aplicação do programa foi feita a contragosto – aqui também, muito pelo contrário, como abundante documentação audiovisual e escrita comprova.

Assim sendo, tem-me parecido frouxa e não suficientemente insistente a contra-argumentação de António Costa perante as patranhas da direita. É que o estribilho por eles usado, de tantas vezes repetido, acabou por se infiltrar na cabeça de muita e incauta gente. Vieram, segundo nos fazem crer, cheios de boa vontade de pôr cobro aos desmandos do Sócrates – um louco que finalmente está onde devia estar – e fizeram o melhor possível. Daí até dizerem que merecem ganhar as eleições não falta nada, como aliás já se vê nas suas peregrinações pelo país. O controlo da comunicação social (de que acusavam os outros) é quase total e a mensagem facilmente rola.

Por que não gosto da atitude da direção do PS? Porque não são capazes de se apresentar como não culpados e de «alma» limpa. E tinham todas as razões para o fazerem. Em matéria política, há muito pouco a censurar aos governos Sócrates e muito de que se orgulhar, nomeadamente o controlo do défice, que não impediu boas políticas sociais. Porque são renitentes, salvo honrosas exceções, em matraquear, como bem faz a direita com as deturpações que lhe interessam, e para seu proveito, o que verdadeiramente se passou em 2011. E incapazes de desfazerem a imagem de meninos bonzinhos com que esta autêntica corja, que domina todos os meios de propaganda, se pretende apresentar ao eleitorado.

Passos é o maior aldrabão que já passou por São Bento, os seus colaboradores e próximos idem aspas – basta ver o desplante com que a ministra das Finanças mente sobre tudo e mais alguma coisa (lembram-se dos «swaps»?), inclusivamente sobre os números. O mesmo se pode dizer do secretário de Estado Paulo Núncio a propósito da Autoridade Tributária e da famosa lista VIP, da ministra da Justiça e de Nuno Crato, um total incompetente, a que acrescem as negociatas de Aguiar Branco, e ao que tudo indica também as de Miguel Macedo, e toda a lista de falcatruas associadas a Miguel Relvas e ao próprio Passos. A lista é demasiado longa, por abranger também os amigos das direções-gerais e outras autoridades públicas. Mais a CRESAP, essa entidade que iria garantir a máxima seriedade e transparência na admissão de candidatos a cargos públicos. Nunca se viu uma ocupação do aparelho do Estado tão ousada, livre, completa e tão pouco denunciada. Este governo é um escândalo. E se, na Europa, a margem de negociação (que não é inexistente) ainda é estreita, apesar de um novo governo se poder comportar de maneira bem mais afirmativa e respeitável, a nível interno, pelo contrário, há mais do que margem para apelar ao repúdio do atual governo.

Diz o PS que não alinha em «casos». Mas que casos? Trata-se de mentiras e vigarices, muitas delas graves, que são bem reais e visíveis, de governantes pouco sérios, vingativos, incompetentes e até palhaços políticos (lá acima esqueci-me do Pires de Lima), que jamais hesitam em lançar lama sobre os seus antecessores ou adversários. Isso não importa?

Outra tendência que também censuro na oposição é a de, aparentemente à falta de melhor, acusar a direita de fazer isto ou aquilo por uma questão ideológica. Por que não explicar os prejuízos reais e concretos das políticas seguidas? Porquê este argumento? É evidente que é uma questão ideológica. Há fações da sociedade (que por vezes chegam ao poder) que entendem que vale tudo para ser rico e que não lamentam que nem todos o possam ser, repousando na ideia de que não podem nem devem fazer nada. Que o Estado não tem que interferir para assegurar iguais oportunidades para todos (sabendo que se nasce em berços muito diferentes), uma melhor distribuição da riqueza, nem para impedir que o país seja vendido ao desbarato e que a lei da selva económica se instale. É uma ideologia, à qual há que contrapor outras. Acusá-los de desmantelar o SNS por uma questão ideológica é uma estratégia totalmente ineficaz, é uma verdade de Monsieur de La Palice, para além de que a maior parte das pessoas nem percebe o que seja isso de ideologia.

Falta espírito aguerrido. A conquista de uma câmara (ainda por cima na zona mais desenvolvida do país) não é a mesma coisa que a conquista do país.

Mas quem é? Entrevista de 2013 a João Taborda da Gama

Depois da gaffe sobre o papel de Sampaio da Nóvoa no chumbo de Saldanha Sanches na defesa da tese de agregação, fui ver quem era João Taborda da Gama, o autor do polémico artigo do DN. Descobri esta entrevista dada ao Público em 2013. Aqui fica para se perceber quem é, para se poder enquadrar melhor a ligação a Saldanha Sanches, do qual se considera discípulo, e para se conhecer o seu percurso familiar, académico e político (filho de Jaime Gama, foi consultor de Cavaco).

Os personagens contraditórios, frutos de conflitos interiores, que o próprio confessa, podem ser interessantes de acompanhar e até estimulantes para discussões, mas não poucas vezes denotam alguma confusão. No caso, houve um descuido de informação da sua parte quanto à votação do júri, mas ao lermos a entrevista percebemos melhor – quem dera! – o porquê do ataque a Sampaio da Nóvoa. Ou não. O facto é que não percebo, pelo menos tendo em conta o fundamento (falso). Por outro lado, Saldanha Sanches era tão «esquerdista» como Nóvoa, ou mais. Mistérios do Senhor. Vão ler.

Começa assim:

Cresceu no Lumiar, é filho do ex-ministro Jaime Gama e da professora Alda Taborda. Nunca teve um blusão de penas. Nenhum dos seus cinco filhos tem um blusão de penas. Acaso está frio para isso? Converteu-se ao catolicismo tarde. Discípulo de Saldanha Sanches, foi consultor de Cavaco Silva até há dois meses. Como integrar estes elementos aparentemente contraditó-rios? Ele poderia dizer como Santo Agostinho: “O amor é o meu peso. Onde eu for, ele me levará”

Já a entrevista estava escrita quando saiu fumo branco da chaminé do Vaticano e o Papa Francisco pediu […]

Felícia Cabrita “et al”: é demais

“Há limites para a infâmia

Já não surpreende que o tabloidismo militante não tenha limites nem escrúpulos na campanha de condenação preventiva de José Sócrates antes sequer de qualquer acusação, espezinhando todas as normas deontológicas do jornalismo e a integridade moral das pessoas. Já é demais, porém, que a imprensa de referência também replique e veicule histórias como a de que o livro de Sócrates sobre a tortura foi escrito por outrem.
Sobre o assunto, cumpre-me dizer o seguinte: por iniciativa minha, tive a oportunidade de acompanhar a feitura da tese de mestrado de Sócrates que veio a dar no referido livro; enviou-me sucessivamente o draft de cada capítulo, tendo eu feito algumas observações e sugestões pontuais (incluindo bibliografia), sobretudo quanto aos aspetos constitucionais e afins do tema, que o autor em geral acolheu, mas nem sempre; tive também oportunidade de conversar ocasionalmente com ele sobre alguns dos temas da tese, sendo óbvio o seu domínio e à vontade na matéria. Sei também, por me ter sido dito por ele, que submetia o seu trabalho a outras pessoas, que igualmente contribuíam com críticas e observações, a quem agradeceu depois no prefácio do livro, como é de regra.
Nada disto — que é normal numa tese académica — é compatível com a tese de um trabalho apócrifo. Há limites para a infâmia.

Adenda
Se, com a prestimosa cooperação da imprensa, a acusação continua a recorrer a estes golpes baixos para uma continuada operação de “assassínio de caráter” de Sócrates , é porque falta “corpo de delito” para sustentar a acusação pelos crimes que lhe são imputados, passados todos estes meses de investigação.”

(do blogue Causa Nossa)

Há dois testamentos que estão a faltar

Suponhamos que Carlos Santos Silva tinha um azar e morria. Os milhões que alegadamente pertencem a Sócrates passariam a pertencer à família de Santos Silva por herança. A contrario, caso Sócrates tivesse um azar e desaparecesse, os seus herdeiros ficariam a ver navios quanto aos milhões que alegadamente lhes deveriam caber por herança. No reino das espantações e da incredulidade em que os senhores magistrados decidiram viver, ao ponto de se valerem de provérbios populares para manter um homem preso sem culpa formada, tanto desprendimento, desprezo pelos seus e generosidade por parte de Sócrates não será credível. Falta também aqui outro provérbio.

Duplo fedor?

Mistérios do Aquém:

Por que razão Tânia Laranjo, do Correio da Manhã, ainda quer fazer perguntas a João Araújo na rua, quando diariamente, teclando no computador, se mostra sabedora de muito mais do que ele? Do que ele, do que Sócrates e do que todos os agentes da Justiça, incluindo os que ainda hão de vir a ter a palavra final.

 

Independentemente da factualidade do mau cheiro que o advogado hoje lhe atribuiu – ficámos sem saber se era real ou figurado – é por acaso possível ter um diálogo civilizado, por mais curto que seja, com alguém do Correio da Manhã sobre Sócrates? Um pasquim que vive à custa da injúria e da ofensa, gritadas nas primeiras páginas, e tão para lá do mau cheiro, contra o homem e a sua família, amigos e conhecidos, ao arrepio de tudo o que é o Estado de Direito, nomeadamente o respeito pelo bom nome alheio e a presunção de inocência?

É preciso muita lata e desejo de provocação para que a co-autora de tais julgamentos sumários, ataques e difamações diários contra Sócrates barre tudo isso e se aproxime do advogado, com ar pretensamente sério e profissional, munida de um microfone “à jornalista”. Lata está visto que tem e sem freios.  O mínimo seria, pois, esperar alguma falta de freios da outra parte, um dia. O que aconteceu. Não tem que se indignar.

Tem, evidentemente, todo o direito a apresentar uma queixa-crime. Não deixa de ser ridículo, mas ’tá bem. O pior é se cheira mesmo mal.

Ferro Rodrigues: quando a forma também dita o conteúdo

Deve um líder de bancada parlamentar ser capaz de falar, e bem, de improviso ou basta-lhe ler um papel bem escrito? Deve dar respostas imediatas e à altura ou deve privilegiar a contenção, o «por amor de deus» ou o «se você o diz, quem sou eu para o julgar»? Não me parece que haja dúvidas quanto à resposta a estas perguntas.

Por alguma estranha razão, Ferro Rodrigues não passa sem textos escritos. Desde o início me pareceu bizarro que as suas  intervenções na Assembleia se fizessem com base na leitura e, muitas vezes, de cabeça baixa por causa disso. Dei-lhe o benefício da dúvida e pensei que nem sempre seria assim, que se reabituaria ao plenário e que encontraria depressa o caminho da  espontaneidade. Mas achei desde logo surpreendente esta insegurança da parte de um homem que já foi secretário-geral do partido. Quando percebi que o fazia sistematicamente, comecei a não gostar. E comecei a imaginar o que seria o debate político naquela arena se todos fizessem o mesmo… Mais decente talvez fosse, mas 1) o desinteresse pelas questões políticas que estivessem em causa passaria a ser total, 2) os diretos do Parlamento passariam a ser terapia para quem tem insónias e 3) tal (toda a gente a ler) não vai acontecer. Ferro Rodrigues está, pois, fora do contexto.  Devia saber que o método é uma seca e muito pouco eficaz.

Hoje reage às críticas (que, a meu ver, já tardavam). Vejamos: não é que a chicana política seja de louvar. Não é que o líder parlamentar deva constantemente, com as suas palavras, deixar um «cheiro a sangue» no hemiciclo. Mas há que ver o «galinheiro» em que se está, que adversário se tem pela frente e, enfim, a potencial e a real concorrência (fora e dentro do partido) no mercado dos debates públicos. Impossível acreditar que o líder parlamentar do PS não tenha ainda percebido que a atual direita é do mais baixo, inescrupuloso e mentiroso que há e que não olha a meios para atingir os seus fins. Responder a esta gente com discursos escritos é absurdo e até algo caricato. Não eleva o debate, porque ninguém utiliza, segue ou imita esta muleta anacrónica, e quem perde é o maior partido da oposição.

Por razões que podemos compreender (em Costa), Costa não vai substituí-lo. No entanto, se Ferro Rodrigues não consegue intervir de outra maneira, para além de dever já não ter aceite o cargo, deve agora demitir-se da função. Não vale a pena caricaturar recorrendo a imagens como a do cheiro a sangue. A sua atuação não está a ser eficaz e a forma tem um peso importante nessa falta de eficácia. Sim, está nisto incluído o papel. Lamento. Não está em causa, obviamente, a capacidade de Ferro Rodrigues para desempenhar outros cargos políticos.

Procexo Sócrates

Os advogados de José Sócrates deram hoje uma conferência de imprensa. Não ouvi na íntegra, mas do que ouvi, a ver se entendi: magistrados do Ministério Público andaram a escutar Sócrates enquanto era primeiro-ministro, por suspeitas de corrupção, sem autorização do Supremo, como manda a lei, nem sequer com o conhecimento do Procurador-Geral, escutas essas que agora usam no processo atual, não se sabe se para justificar a prisão preventiva, mas de qualquer modo para algum fim. Tudo isso enquanto decorria a polémica sobre a destruição das escutas em que Sócrates fora apanhado (indiretamente) no âmbito do processo Face Oculta. Os magistrados responsáveis pelo atual processo não  revelaram de início aos advogados de defesa a que período se reportavam os indícios de crime, levando-os a acreditar que seria a um período anterior a 2005. Lindo.

Num zapping, de passagem pelo canal CMTV, de imediato me deparei com Eduardo Dâmaso a dizer que Sócrates queria vencer na secretaria o que jamais venceria em tribunal. Este homem ajeita o esquema com precisão suíça.

Cavaco «chico-esperto» devidamente desmascarado

Para se dar ares de juridicamente culto e bem fundamentado, e de alguém que não receia a referência a juristas «de esquerda», Cavaco Silva teve a ideia peregrina de citar, no seu prefácio a mais um Roteiro, um parecer dos juristas Gomes Canotilho e Vital Moreira para justificar a sua tese de que o Presidente da República e o Governo devem colaborar no domínio da política externa, uma matéria cujo conhecimento considera agora, de repente, fundamental para o exercício do cargo pelo seu sucessor.

Ontem, no Prós e Contras, o professor Reis Novais contextualiza os ditos pareceres (pedidos por Mário Soares quando Cavaco era primeiro-ministro) e deixa Cavaco a fazer figura de imbecil e a plateia a rir.

Na impossibilidade de aqui deixar a imagem do vídeo, sugiro que cliquem no link que se segue e deslizem o cursor até ao minuto 4.30. Imperdível.

http://www.rtp.pt/play/p1772/e187208/Pros-e-Contras/416465

Arrotar num roteiro

Levar-nos-ia muito longe o que Cavaco afirma no prefácio a mais um Roteiro. Por exemplo, e só para nos ficarmos por bem perto, a opinião de que o seu sucessor deve dominar bem a política externa. Ter experiência nessa matéria.

Ora bem, comecemos por lhe olhar para a cara, já que é ele que escreve. Ter experiência como ele? Ou como ele não tinha? Perguntamos e perguntamos também. Estas perguntas ficam pairando no éter, dirá um alentejano atordoado com esta nova sentença de Belém. No entanto, como temos consciência de que dificilmente o próprio algum dia reconhecerá um defeito que seja na sua pessoa, é de crer que, em seu entender, o seu sucessor deva possuir a experiência que sua Eminência possuía, e que tão bem aplicou, derivado, diria o povo, do exercício do cargo de primeiro-ministro durante largos anos. Só esta convicção o poderá ter levado a proclamar tal desidério. Caso contrário, estava calado.

E em quem estaria o homem a pensar? Em algum ex-primeiro-ministro? Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros? Ou acordou nesse dia a lembrar-se do Machete e vai daí? A resposta pouco interessa, até porque a mais provável é esta: não está a pensar em ninguém. Está, sim, a pensar em surpreender o pagode de modo a que muita gente passe a estar entretida a discutir o mistério e as insondáveis intenções do presidente ao caracterizar o seu substituto. Isso chega-lhe.

Quanto aos seus bastos conhecimentos em matéria internacional, que presumivelmente servirão de inspiração a um sucessor, apraz-me dizer o seguinte: se o seu brilhante e exemplar desempenho como PR em matéria de política externa e de defesa dos interesses do país foi o de submissão incondicional aos ditames (e interesses) da Alemanha, em pandã com este governo (como ele quer que continue a ser), estamos demasiado bem esclarecidos para perdermos muito tempo. Infelizmente, algum temos que perder. É certo que ele e o Governo não provocaram agitação na Europa, não questionaram a mínima alínea do programa, nem perante resultados catastróficos, esmifraram mesmo mais o Zé Povinho do que aquilo que lhes pediam, mas o país, o que ganhou com isso? Que interesses foram defendidos? Que interesses defendeu ele no nervo do problema, que é a Europa? Estamos bem? Estamos sequer benzinho? Livrámo-nos de algum fardo, de algum garrote? Estancámos a hemorragia de quadros? Não, nada. Pelo contrário. Assim sendo, o Presidente deveria ter tento na pena e não escrever patacoadas na linha da sua célebre teoria segundo a qual todas as mentes inteligentes debruçando-se sobre uma mesma questão chegam às mesmas (as suas) conclusões. Isso devia acontecer em Boliqueime em 1950.

O que eu acho é que Cavaco não devia ter interrompido os estudos tão precocemente só para ir ver o mar bravo da Figueira da Foz. E depois, fica a pergunta: não estava Sócrates a defender os interesses nacionais quando este mesmo PR decidiu proclamar alto e bom som que havia limites para os sacrifícios que se podem pedir aos cidadãos, só para lá pôr um governo que pediu ainda mais, muitos mais, insuportavelmente mais sacrifícios?

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Não incluída no Roteiro, e é pena, está a declaração desta Eminência de que o facto de Passos Coelho, o primeiro-ministro que mais sobrecarga fiscal impôs aos portugueses e que mais implacável se mostrou na sua cobrança, não ter cumprido durante vários anos as suas obrigações fiscais e para com a Segurança Social, como noticiado fundamentadamente por um jornal, é uma querela político-partidária, própria de um período pré-eleitoral. É pena que esta visão da política e da ética não conste do Roteiro, porque é digna de registo e devia constar, assinada, de algum documento escrito, com ou sem rota.

Cavaco canta bem mas não encanta. Porque sabemos bem que as irregularidades vindas a público em relação à Quinta da Coelha e à compra e venda de ações do BPN também se enquadram, para ele, nas querelas político-partidárias. É assim que ele quer que seja. E olha que bem que tem vivido com isso! Este homem tem-se como exemplo e até dá conselhos. O problema é que cheiram mal.

Internacionalizemos então

Já que Passos internacionalizou a campanha eleitoral portuguesa ao denegrir primeiro e dificultar depois, no Eurogrupo, a vida ao Governo eleito da Grécia para colher dividendos a nível interno, o que impede a imprensa internacional de noticiar o seu calote de cinco anos, cinco, à Segurança Social? Espero que aconteça.

Penso que está na altura de se demitir, se tem um resto de verticalidade. E mesmo que não tenha. Será pior demitir-se depois da internacionalização dos seus incumprimentos. A sua permanência no cargo transforma este país numa anedota. Não era ele que falava constantemente em «credibilidade»?

Eu ia pagar, mas não agora

Se o assunto não viesse a público, pagava depois, sem alarido.

Ou não. Era uma questão a ver. Nada o obrigava. Mas, como o assunto veio a público, Pedro avança essa extraordinária intenção de pagar o que devia à Segurança Social quando deixasse o cargo que ocupa (?!), ultrapassando-a, porém, de imediato com o pagamento já.

E note-se que fala em acusações «infundadas». Um farsante é isto, tenho a certeza.

O primeiro-ministro diz também que a informação oficial que lhe foi fornecida em 2012 indica que os referidos 2880,26 euros, mais os juros, poderiam ser pagos “a título voluntário e a qualquer momento para efeito de constituição de direitos futuros, desde que o contribuinte não optasse por invocar a sua prescrição, a qual já ocorrera em 2009”.

Perante esta informação, Passos também nada fez, explicando agora que pretendia “exercer o direito, que  a lei lhe reconhece, de contribuir voluntariamente para a sua carreira contributiva”, mas “apenas em momento posterior ao do exercício do actual mandato”.

No entanto, acrescenta, face às perguntas do PÚBLICO, “decidiu proceder desde já ao pagamento daquele montante, pretendendo assim pôr termo às acusações infundadas sobre a sua situação contributiva”. A resposta do gabinete diz que a decisão de pagar agora o valor de 2880,26 euros, acrescido de 1034,48 euros de juros foi tomada por Passos Coelho apesar de a obrigação de o fazer “se encontrar prescrita, logo, de não ser legalmente exigível a qualquer contribuinte nas mesmas circunstâncias”.

Animais à solta

A culpa será dos americanos?

 

Na segunda imagem, destruição de uma estátua do século IX a.c., que representa uma divindade assíria.

Lê-se no Daily Mail, de onde retirei as imagens, que o homem que aparece no vídeo disse que as estátuas estavam a ser destruídas porque promovem a idolatria.  Ora, não havendo relatos de que, hoje, alguém ainda adore tais divindades, razão pela qual estas peças se encontram num museu, conclui-se que o sentido de história da humanidade destas bestas é notável. Desconfio que rejeitam mesmo o conceito de museu. Provavelmente porque sentem que seria lá a morada natural dos seus ossos e dos escritos de um tal profeta.

«’The Prophet ordered us to get rid of statues and relics, and his companions did the same when they conquered countries after him,‘ the unidentified man said.»

Não se percebe é por que razão não prescindem da maquinaria, das armas e da tecnologia de telecomunicações que possuem, concebidas e fabricadas por hereges, e não se cingem aos instrumentos disponíveis no século VII.

O «tempo da mão estendida»

Segundo Paulo Portas, Portugal já não precisa de pedir ajuda à Europa porque, deduz-se, o seu governo conseguiu equilibrar as contas e afastar o país da bancarrota. Ora, há tanta verdade nesta afirmação quanto glúten numa salada de alface.

Os fatores que levaram ao desequilíbrio das contas públicas em 2010/11 foram as despesas sociais acrescidas do Estado devido ao encerramento de milhares de empresas na sequência da maior crise financeira internacional de que temos memória, o aumento vertiginoso das «yields» pelos empréstimos concedidos a Portugal (a chamada especulação) e a inação do BCE, controlado por uma Alemanha que, por interesse próprio, adotou e impôs um discurso moralista contra certos países europeus mais soalheiros.

A mão estendida, que, convém não esquecer, Sócrates procurou evitar a todo o custo,  tendo-lhe sido retirado o apoio num segundo e derradeiro instante por interesses meramente eleitorais, foi substituída pela mão reverente e submissa, que mais não é do que uma forma mais sofisticada de mão estendida. Indigna, porque implica bajulação.

O facto de o BCE, perante o risco de deflação e crise do euro, ter finalmente decidido intervir para travar a especulação em torno dos juros das dívidas soberanas, a par de uma baixa acentuada do preço do petróleo, determinaram o alívio sentido. O empobrecimento de milhões de portugueses e a fuga de largos milhares foi o preço a pagar pela paz, infelizmente podre. Aliás, para este governo, não se trata sequer de «preço pago», trata-se de castigo cumprido e merecido.

Atentos ao meu segundo parágrafo, a narrativa oficial e a de Paulo Portas fazem muito pouco sentido. O país não está melhor: a dívida agravou-se e a economia não prospera, apesar da nova lei laboral e da facilitação da vida das empresas. Os serviços públicos degradaram-se e a sua modernização foi suspensa.

Paulo Portas não estende a mão, mas isso é porque aceitou a condição de escravo. Não lhe fica bem empinar o nariz quando o país que tem para apresentar brilha e sonha tão pouco.

Colaboras ou … colaboras?

Diz-se hoje em notícia do DN que os procuradores que, nas palavras da advogada Paula Lourenço, «sequestraram» Carlos Santos Silva e o advogado Trindade Ferreira alegam que os visados deram o seu consentimento. Ora vejamos: chego a Lisboa, sou abordada por polícias que me detêm e me comunicam o propósito de fazerem buscas na minha residência, automóvel e escritório. Não sou criminosa. Dão-me um papel a assinar. O procurador responsável pela investigação está presente.

Digo que não autorizo. Digo??

Que métodos, que pulhice, senhores procuradores! E que justificações.

De acordo com informações recolhidas pelo DN, Rosário Teixeira admitiu que os agentes da Autoridade Tributária e da PSP foram, no dia 19 de novembro, ao aeroporto esperar pelo avião que transportava Carlos Santos Silva (em prisão preventiva), amigo de José Sócrates (também preso preventivamente) e Gonçalo Trindade Ferreira (obrigado a apresentar-se duas vezes por semana no Departamento Central de Investigação e Ação Penal). Porém, ainda segundo o magistrado, depois de abordados pelos agentes, ambos, mesmo ainda sem terem sido formalmente detidos e constituídos arguidos, consentiram nas diligências que se prolongaram até à madrugada do dia seguinte: buscas aos carros, escritórios e casas e revistas pessoais. Para isso, Rosário Teixeira terá invocado o artigo do Código do Processo Penal que prevê a realização de buscas noturnas com o “consentimento do visado, documentado por qualquer forma”. Como ambos assinaram os respetivos autos de buscas, tal poderá servir para o procurador fundamentar o consentimento. Para confortar o MP, o juiz Carlos Alexandre escreveu num despacho assumir toda a responsabilidade pelas promoções do procurador.”

Enquanto esperam pelas malas, ó Pires de Lima

Ouve-se e não se acredita. Pires de Lima está convencido de que fala exclusivamente para estúpidos quando tenta impedir através de patetices a vitória de António Costa nas próximas eleições. Quem o ouviu a insurgir-se contra a taxa turística de 1 euro planeada pela Câmara de Lisboa, cenarizando filas e filas intermináveis no aeroporto e o bloqueio do mesmo devido ao seu pagamento, não pode senão interrogar-se sobre as suas capacidades para o cargo. Outra hipótese é o próprio achar-se engraçado. Um conselho: para fazer ataque político a um adversário é de toda a conveniência não fazer de palhaço burro.

O número circense, para quem não viu:

 

http://www.tvi24.iol.pt/economia/parlamento/pires-de-lima-taxa-turistica-vai-bloquear-aeroportos

 

E para informação do próprio, eis o panorama da cobrança de taxas de turismo na Europa,das modalidades e do local onde são – quando são – cobradas (páginas 7, 8 e 9 deste documento):

 

http://www.cuttourismvat.co.uk/wp-content/uploads/2013/08/140614-EU-Tourism-tax-comparison-tables-Final.pdf

 

 

Luxo. Notícias do cárcere!

Acabei de ver as respostas de Sócrates às perguntas da SIC. Muito boas. Claras e bem escritas. Mal posso esperar pelas provas de crime de que o Ministério Público dispõe e que o juiz sempre avidamente aguarda, embora não apresente. Peço eficácia, meus senhores. De momento, tudo aponta para a paródia.

Será isto, ou seja, a desmontagem, a tal «perturbação do inquérito»?

FMI. Que bem choram depois do leite derramado

O FMI, por alguma estranha razão, considera-se numa posição que lhe permite apreciar criticamente os seus dois outros parceiros na tróica. Algo esquizofrénico. A menos que o FMI tenha instituído um departamento cuja função é desempenhar o papel de coro grego?

 

Há peritos no FMI especializados em análises de rescaldo. São muito bons. Teriam talvez era de mudar de departamento. Sugiro o da prevenção.

Este artigo alusivo à Irlanda  e à sua tragédia (“The IMF’s lament for Ireland”), agora que todas as tragédias emergem, graças à grega, dá bem conta do que se passou com o país desde a adesão ao euro. Baseia-se num relatório acabado de publicar pelo Fundo e que é totalmente crítico da atuação da tróica – sim, da qual faz parte o próprio (ou fez, paz à sua alma – grande Varoufakis). Porém, nada há a fazer contra o facto de vir tarde demais.

Vale muito a pena ler.