Nuno Melo é quiçá o mais demagógico/malcriado/trauliteiro político a ocupar o espaço público. Dele é sempre de esperar uma brejeirice qualquer, invariavelmente sobre os socialistas. Se há coisa que o diverte, é bolçar baboseiras, trivialidades ou aldrabices para fazer rir a audiência. É, pois, sem surpresa que lemos a sua leviana crónica de hoje («Lá vamos nós outra vez») no JN, alusiva às propostas políticas e económicas apresentadas por um grupo de economistas para servirem de base ao futuro programa de governo do PS. E que diz ele? Sendo ele quem lá vem outra vez, as seguintes não surpresas que, de tão debitadas, já enjoam.
- Que os socialistas sempre levaram o país à bancarrota. Crises internacionais? Quais crises? Sócrates, que conseguiu um défice de 2,8 antes do eclodir da crise, foi, para Melo, o grande responsável pelo pedido de ajuda externa, dados os desvarios despesistas dos seus governos. Quais desvarios? Não diz. Quais as verdadeiras razões para o aumento da despesa pública, também não diz. Qual a responsabilidade dos governos do PSD e do CDS (nomeadamente enquanto partidos da oposição a um governo minoritário) na situação das contas públicas também não interessa. Os jornais e a televisão são, para este homem, uma espécie de camioneta de caixa aberta, de onde vende ao Zé Povinho maledicência e o seu produto.
- Que os socialistas prometem tudo em períodos eleitorais e nada cumprem, porque o que interessa são os votos. Isto é giro, porque basta ver os vídeos da última campanha eleitoral da direita e recordar o que se seguiu às eleições para termos a medida exata dos mentirosos. Também é interessante rever as intervenções de Paulo Portas na oposição sobre os contribuintes e os pensionistas.
- Que os economistas do PS não fizeram contas. Ora bem. Quem as fez foi o CDS, que, só pela boca de três dos seus militantes, já apresentou três números diferentes para a despesa que as propostas do PS implicam, nenhuma acompanhada de fundamento. Milhões atirados para o ar, para escandalizar a parvónia.
- Que a dívida que os socialistas deixaram era astronómica. Ora bem, é conhecida. 94% do PIB em 2010, já sob os efeitos da crise internacional. Em quanto é que já vai com a salvífica austeridade? 130%? E que benefícios para o país?
- Que houve obras faraónicas. Esta tecla já gasta devia dispensar comentários, mas deixo aqui alguns. Nem foram faraónicas, nem algumas delas se concretizaram, nem Nuno Melo tem em conta as orientações da Comissão até 2010 nem os incentivos e as condições dos empréstimos do BEI, nem a história da maior parte das PPP, nem a continuação das PPP noutros domínios com este governo, e por aí fora.
- Que, com este governo, o país voltou aos mercados e recuperou credibilidade. Nuno, és um pantomineiro. Isso aconteceu porque o BCE finalmente fez o que já devia ter feito há muito desde que a crise rebentou, acabando com a especulação em torno das dívidas soberanas, e porque este governo, com tudo a correr mal, se comportou como um cachorro acocorado junto de Angela Merkel, à espera de compreensão e de ser exibido como exemplo. Até Vítor Gaspar deu de frosques, ó Melo.
- Que a equipa de Costa é a mesma de Sócrates. Ou seja, que os «criminosos» serão, portanto, os mesmos, só um pouco mais velhos. Costa não é Sócrates e a equipa não é a mesma, mas mesmo que fosse, o passado foi um período de esperança, de orgulho, de confiança e de incentivo às capacidades dos portugueses. Não fora a crise internacional e teria sido um período verdadeiramente transformador – a nível económico, estrutural, administrativo, educativo e de mentalidades, como aliás já se sentia e verificava, motivo pelo qual a direita espumava de raiva e urdia campanhas demolidoras com a ajuda de Cavaco. O passado não era mau, era bom, e não foi Sócrates o responsável pelo pedido de ajuda externa. Muito pelo contrário. Foi a direita e a coligação negativa. O presente, esse sim, é mau, é péssimo, humilhante e, passe o paradoxo, sem futuro algum. E o que quer o CDS-PP? Mais do mesmo. Resultou tão bem.


