Fraude, diz ele

Rui Ramos, no Observador, acha que a coligação de direita pode governar sem maioria na Assembleia e classifica de fraude um hipotético acordo governativo pós-eleitoral entre os partidos ditos de esquerda. Ainda não percebeu que é do Parlamento que emana o governo. A coligação só pode governar se o PS e os outros dois partidos quiserem, já que representam 60% dos votos.

Quando Sócrates venceu, em 2009, sem maioria absoluta, era impossível, e ainda hoje é e sê-lo-á sempre, a constituição de uma aliança de governo à cabeça (mas não de coligações pontuais negativas, como veio a acontecer) envolvendo o PSD, o CDS e o PCP ou o Bloco. Os primeiros por umas razões, os outros por outras (perderiam para sempre a pouca credibilidade que tinham). Se tal fosse possível, a direita não teria hesitado um segundo, só para impedir Sócrates de governar. Mas não foi. O derrube ficou adiado.

De facto, temos pena, mas esta oportunidade única e histórica para o PC, para o Bloco e também para o PS não pode ser desperdiçada. De nada serve acusar Costa de não ter obtido tantos votos como o PSD e o CDS juntos. É inútil. Também é com uma calculadora que se forma um governo. No entanto, se querem tanto governar, experimentem sem o apoio das restantes forças políticas. Se conseguirem e, antes disso, se Cavaco vos der posse, tudo bem. Terá havido uma bizarra extinção em massa no ocidente da Península Ibérica.

Há muita coisa importante em jogo do lado da esquerda neste pós-eleições. Sem nunca excluir a hipótese de todas as aproximações a que estamos a assistir não passarem de um jogo do PCP, ciumento do BE, e de uma alegre folia do BE assente num triunfalismo juvenil – que a ambos sairá muito caro, caso não resulte em nada de palpável (ficando o PS a ganhar com a falta de coerência e de ousadia dos outros) -, poder-se-á estar perante uma alteração histórica do exercício do poder em Portugal e da natureza dos partidos da extrema-esquerda também por cá. O radicalismo da direita de Passos em muito, se não em tudo, contribuiu para isso. Mas há também um factor que não é despiciendo: parece que o eleitorado gosta de novidades. Porque ganhou Passos, esse medíocre, as eleições em 2011? Porque, mesmo pondo em causa o apoio de grande parte do PSD social-democrata (e perdeu-o, sem dúvida),  se apresentou com a cartilha, inédita por cá, do neoliberalismo (com gurus tugas da Goldman Sachs por trás), da liberdade de escolha, do fim radical do Estado como interventor na economia, do endeusamento dos privados, etc., etc. a par da história da expiação dos pecados da soberba e da luxúria. Depois, deu no que deu e deu muito mal para a maioria dos portugueses. Deu numa oligarquia e numa grande miséria. Mas era novidade.

Agora a novidade é outra e vem da esquerda; não só os protagonistas não são medíocres, como também o resultado só pode ser bem melhor, já que pior é impossível. Não há como não achar a ideia atraente. Mais do que novo, o cenário é totalmente inesperado, arriscando-se a produzir mesmo uma revolução no panorama político português – a esquerda de protesto a querer finalmente assumir responsabilidades. Penso que a maioria dos portugueses, por estes dias, já classificaram Passos e Portas de lixo menos menos.

4 thoughts on “Fraude, diz ele”

  1. Estão com uma cabeça pior que um melão porque começam a temer que possa não ser um bluff.
    Mas segundo este cavalheiro nem que fosse apenas um bluff o PS estaria autorizado a brincar assim as casinhas com a esquerda má!
    A LATA desta gente que julga que vai continuar a mandar em tudo como se não tivesse perdido a maioria no Parlamento.
    A supremac vingança seria mesmo enfiar um governo PS + BE + PCP pelas goelas abaixo do Cavaco em final de mandato. Não era ele que queria um governo de maioria ?

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