Devemos enfrentar a possibilidade de Sócrates ser culpado de tudo ou de parte. E quão mais cedo o fizermos melhor, sendo que neste plural estou a incluir qualquer um que seja defensor do Estado de direito e tenha aversão à calúnia, seja lá qual for a sua preferência partidária ou ideológica. Creio poder contribuir para o exercício posto que tenho 7 anos, pelo menos, de treino na matéria.
Por estes dias de Novembro cumpriram-se 9 anos desde que o Aspirina B foi criado. Os seus fundadores estavam muito longe de imaginar no que um blogue conotado com a esquerda à esquerda do PS se viria a tornar a partir de 2007: um dos mais notáveis antros do socratismo militante neste cu do mundo que é, ou foi, a “blogosfera política”. Quem conhecer o Luis Rainha, o mentor primeiro deste espaço, sabe que tal destino teria sido uma aberração impossível de concretizar caso ele se mantivesse na equipa, e basta olhar para a lista de autores para o confirmar. Nos começos de 2006, Daniel Oliveira e Rui Tavares chegaram a passar por aqui. O Nuno Ramos de Almeida, um dos fundadores e comunista de lei, viria a ser um dos mais ferozes jornalistas da equipa da Moura Guedes no auge da exploração do caso Freeport. Outros nem sequer escreviam sobre política, e calhando escrever talvez se revelassem algo muito diferente de um apoiante do PS ou de Sócrates. Então, que se passou? O normal em blogues colectivos, as saídas dos que entraram. No Verão de 2006, o blogue esteve para acabar por desistências várias e fiquei como o único dos restantes e pouquíssimos autores a ter gosto pelos temas políticos. Logo eu que tinha entrado nisto apenas para me divertir com o que me desse na real gana escrever, não estando a política corrente no topo dos meus assuntos favoritos para tratar de forma sistemática. Porém, a natureza originária do blogue era essa e considerei que, à falta de melhor, pelo menos iria existir um palonço dedicado a acompanhar a actualidade política e a dizer muitas banalidades e alguns disparates a respeito (ou vice-versa). Ainda por cima, tinha já recebido uma menção honrosa acerca da figura que justifica esta prosa. In illo tempore, o Pacheco não estava alucinado pelo ódio.
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Em 2010, na ressaca do fracasso eleitoral de 2009 e numa explosão de ressentimento e velhacaria, o mesmo Pacheco elevou o Aspirina B ao estrelato na célebre patifaria da “frente da calúnia“. Para além do texto ser uma projecção exacta do seu método de ataque político a Sócrates, o que há nele de espectacular, do meu ponto de vista, é ter saído na revista Sábado. Isso significa que recebeu dinheiro para transmitir ao público que nos três blogues referidos escreviam “empregados do governo” e “às vezes mais acima“. Acima do empregado está o empregador, pelo que o Pacheco resolveu caluniar um número indefinido de pessoas, onde se incluem governantes, e ainda encheu o bolso com a mentira. É que não posso garantir se no Jugular e no CC escreviam estes ou aqueles, mas sabia o que se passava dentro desta casa. Como o Pacheco afiançava que conseguia detectar empregados e patrões só pelo cheiro do HTML, fiquei a possuir um conhecimento que não teria sem essa cena burlesca: o Pacheco era, e é, um dos mais poderosos caluniadores em Portugal – dada a sua influência e auto-inimputabilidade.
Que se passou para chegarmos a um estado demente na relação com Sócrates e fosse com quem fosse que se atrevesse a não o perseguir com forquilhas e chicotes? O meu caso poderá ser uma ajuda para essa compreensão. Todos os textos que escrevi sobre o homem estão disponíveis, e se algum maluco quisesse perder tempo a lê-los veria que não encontra neles qualquer apoio, ou tão-só meramente marginal e avulso, às suas políticas. Aliás, regularmente fui anunciando que não votei PS em 2005, nem em 2009. O que lá está à prova de estúpidos é antes uma reacção contra a estratégia dos assassinatos de carácter, das campanhas negras, das golpadas judicial-mediáticas, das inventonas. E por esta singela razão: qualquer partido, qualquer agente político, que vá por esse caminho estará a prejudicar-me e a prejudicar aqueles a quem quero bem – seja quem for o seu alvo. Ora, sendo Sócrates a personalidade mais polémica da história da democracia portuguesa, quiçá do século XXI lusitano pois custa a admitir que se volte a ver fenómeno igual, esta tomada de defesa da cidade seria inevitavelmente considerada pelos canalhas como uma defesa a soldo daquele que pretendiam destruir. E entendendo eu os inevitáveis mecanismos psicológicos da confusão, também sei que há milhares de anos e milhões de vítimas na tentativa civilizacional de fugir dessa pulsão animal onde a democracia é esmagada pela oligarquia ou pelo tribalismo. Eis o belo combate.
Pois bem. As anteriores suspeitas sobre Sócrates foram de arrebimbomalho. Em todas elas me interroguei com radicalidade acerca da sua veracidade. Ver uma televisão validar institucionalmente uma peça onde aparece um fulano a dizer que o primeiro-ministro é corrupto cria um desafio cognitivo altamente custoso, dado que a reacção normal será a de ceder perante a “evidência”. Nós estamos geneticamente condicionados para seguir o grupo, trata-se do instinto de sobrevivência donde vem a segurança e a aprendizagem. Não acompanhar a multidão requer um esforço intelectual e volitivo muito maior que, amiúde, se consubstancia em actos de coragem. Mas recusar a pressão do grupo só por filiação afectiva ou identitária também pode ser fatal. É desta complexidade que vem a eficácia das calúnias, um recurso político tão mais usado quão mais livre e democrática for uma sociedade. Estando a autoridade política sustentada pela integridade moral, mais uma vez num nexo de raiz biológica, tal leva políticos sem qualidades de liderança a usarem a calúnia como o seu principal recurso na luta pelo poder. De usar a calúnia ninguém poderá acusar Sócrates, mas de tudo o resto foi acusado. O meu critério foi sempre o de esperar pela intervenção do Estado de direito. Se há um bife na TV a dizer que entregou envelopes castanhos a um chefe de Governo e, simultaneamente, não se ouvem sirenes da polícia nem porta-vozes dos partidos a chamar pela bófia, então não passa de pulhice. Algo (muito) mais fácil de explicar do que de fazer.
Em Novembro de 2014, tivemos carros da polícia sem sirenes mas com câmaras televisivas. O critério, mantendo-se o mesmo, implica outra conclusão: Sócrates poderá ser culpado. Se for a tribunal, e se for culpado de corrupção com prova material – e não apenas por fezada do juiz – estaremos perante um caso de repercussão mundial que se oferece para inúmeros estudos académicos em todos os continentes. Não tanto pela corrupção em si, um acontecimento socialmente banal, nem pela novidade histórica no contexto nacional, mas pela manipulação gigantesca, monstruosa, que tal configuraria. Sabemos da existência de assassinos psicopatas cujos vizinhos ou colegas de trabalho nunca desconfiaram que estivesse ali mais do que uma pessoa educada ou normal. A realidade de termos um Sócrates corrupto é dessa ordem mas elevado a uma magnitude colectiva, um choque que poria em causa a racionalidade de milhões. Se Sócrates for apenas acusado e declarado culpado de fuga ao fisco, por exemplo, a tragédia ficaria circunscrita ao PS. Nesse eventual cenário, partindo do princípio de que a sua culpabilidade fosse inquestionável, a sua conduta teria de ser considerada imperdoável. O grau de irresponsabilidade que resulta de se estar a prejudicar o PS e o País por venalidade não é sequer compatível com declarações de amizade pessoal. Qualquer um dos seus actuais amigos seria obrigado a refundar esse laço caso o quisesse manter tamanho o prejuízo causado. O seu papel na comunidade é maior do que ele próprio, resultado do seu trajecto e decisões.
Não se concebe que Sócrates seja este super-criminoso – ou este bronco que outrora chegou a usar “técnicas dos serviços secretos”, segundo denúncia do Pacheco, mas que agora se tinha dado à morte por causa de uns trocos – tal como retratado na acção da Justiça contra si. E igualmente não se concebe que Rosário Teixeira, Carlos Alexandre e Joana Marques Vidal tenham enlouquecido ao mesmo tempo. A situação é equivalente às das suspeições anteriores, mas com esta diferença: desta vez, vai acabar sem elas. Ou Sócrates perde ou perde o Estado de direito. Em ambos os casos, vamos ter muito para reconstruir e recriar.