Quem preferes ver à frente do PSD?

Agora, angustia-me pensar na ausência de oposição ao PS. Naturalmente, num sistema assumidamente pluripartidario, a inexistência de partidos com lideranças à altura de formar governo é preocupante, tanto mais que depois utilizam a calúnia para desacreditar o partido dominante, fustigando a politica e infligindo à sociedade o penoso castigo de se aguentar sem alternativas credíveis que promovam o necessário escrutínio das politicas desenvolvidas pelo governo.

Oferta da nossa amiga Carmen Maria

Para animais com quatro pernas de manhã, duas ao meio-dia e três à noite

Neste sábado fui ver o Rei Édipo. Por acaso, entrei no foyer logo a seguir ao Ruy de Carvalho. Chegados às portadas interiores, e por causa do andamento da bicha, virou-se para trás e fez uns salamaleques brincalhões para nos ceder a passagem. Disse-lhe Primeiro a arte!, mas aposto que nem ouviu, já se virava para a frente. Cada casal foi para o seu lado no corredor.

Há actores de embirração. Que nos irritam seja qual for o papel que façam. O seu rosto, voz e maneirismos provocam um incómodo irracional, visceral. Como, no meu caso, o Michael York e a Sandra Bullock, insuportáveis. Depois há aqueles que o eram até deixarem de o ser. Como o Travolta até ao Pulp Fiction ou a Meryl Streep até The Bridges of Madison County. Pois bem, o melhor elogio que tenho para o Diogo Infante é isto de estar na dúvida acerca da embirração que sempre me provocou – terá acabado com o seu Édipo? Teria de voltar a ver a peça.

E bem que o gostaria. Só uma vez não chega, para mais com a agravante de ter vindo directamente do balcão do Gambrinus para a plateia do Nacional. Não chega para admirar a política encenação do Jorge Silva Melo. Política porque nos coloca a todos, espectadores, no meio da pólis. E não chega para saborear o magnifico texto em versão original. Esta peça devia voltar e ficar. Anos. E nem era por mim, que a voltaria a ver mais umas 10 vezes, era por ti e pelos teus.

Édipo, o Rei, chegou, viu e foi vencido. Por ele próprio. Pelo simples e brutal facto de existir. Não se tratou de ter errado algures no caminho da vida, mas do oposto: tinha a crença de conseguir evitar o mal. E conseguiu. Fugiu de casa e da cidade para proteger os pais, matou apenas para se defender, casou e deu filhas à sua mulher, foi amado pelo povo de uma cidade onde não tinha crescido. Um caso de sucesso a merecer inveja e lenda. Contudo, há algo muito pior do que o mal que ele conseguiu evitar. É o bem. O bem vai tirar-lhe tudo, até o olhar.

Sempre que vou ao teatro castigo-me por não ir mais vezes. Ao contrário do cinema, arte onírica, o teatro desperta o metabolismo, enche de energia. Os actores estão ali para nos provar que estamos aqui. É por isso que o teatro é a melhor escola de política que o Ocidente alguma vez criou. Se o Ensino tivesse como única finalidade formar estudantes que chegassem ao final do 12º ano com vontade de conhecer a tragédia do feliz Rei Édipo, este ou outro qualquer, a nossa terrinha seria um farol da civilização.

O longo bocejo

Se Sócrates tivesse faltado à cimeira europeia para ficar no Parlamento a discutir o PEC, a oposição entraria num berreiro de acusações contra a sua falta de sentido de Estado. Diriam que os maiores interesses de Portugal tinham sido descurados nesta altura tão crucial para a Europa e que estávamos entregues a um Primeiro-Ministro que fazia tudo para criar conflitos com a oposição.

Como Sócrates foi para Bruxelas, a oposição entrou num berreiro de acusações.

Belém – Porto Brandão

Nas pequenas viagens pode haver a saudade das grandes rotas.

Sombras, soldados, frades, caravelas perdidas, um império.

Ao fim da tarde jovens de calções enchem o barco, trazem ruidosos leitores de cassetes, quase não falam, beijam-se para que todos saibam.

Transportam o sal do mar e vão chegar a casa muito tarde.

Alguém cuidará do jantar. Há, pelo menos essa certeza.

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José do Carmo Francisco in «Transporte Sentimental» (1987)

Fotografia de António Brito

Para quem tiver ouvidos

O momento mais revelador da ida de Nuno Santos à Comissão de Ética consistiu na indignada recordação do processo de contratação para a SIC de um Mário Crespo emprateleirado e acabado, decisão do Nuno e de Emídio Rangel.

Claro, o próprio Crespo já não está em condições de captar o subtexto do que ficou à mostra a seu respeito.

Na Inventona de Belém ninguém toca

Luciano Alvarez e Tolentino de Nóbrega não estão para se maçar a ir ao Parlamento explicar seja o que for acerca do mais debochado caso de manipulação mediática com intento de perverter um acto eleitoral que se regista na História da democracia portuguesa. Ou talvez apenas se sintam asfixiados, o que manifestamente os impedirá de falar. Ainda por cima, estamos perante um caso cujos mandantes são membros da Presidência da República, a gravidade não pode ser maior. Vai daí, o Bloco abandona a coisa. A direita, de resto, nunca foi uma preocupação para o BE, até podem ser aliados. O inimigo chama-se PS.

O que aconteceu entre o Público do Zé Manel e a Casa Civil, à mistura com o comportamento e declarações de Cavaco, é um escabroso escândalo. Não por acaso, aqueles que cavalgaram a inventona, e que aproveitam toda e qualquer calúnia contra Sócrates, são os que mais berram as palavras de ordem de qualquer totalitarismo: carácter, seriedade, verdade.

Hipócritas de merda.

Petição pública aos deputados do PSD e do BE

Excelsos e magníficos deputados sociais-democratas e bloquistas,

É por todos sobejamente conhecida a vossa imarcescível paixão pela Verdade, uns, e pureza ideológica imaculada, outros. Tanto que juraram erradicar da política a mentira e os mentirosos, obedecendo ao clamor do Povo. Convosco a Grei irá moralizar-se, corrigir-se, arrepender-se, converter-se e santificar-se. Só então, num ambiente político higienizado, Vossas Excelências tratarão dos assuntos correntes. Por agora, que se desinfecte a casa e perfume o ar. Finalmente!

Vimos, pois, os signatários, rogar igual empenho na descoberta da verdade, e castigo dos mentirosos, no caso Izmailov. Recordemos os factos:

– O jogador é emprestado ao Sporting em Julho de 2007, sendo imediatamente considerado um grande talento.

– No jogo de estreia, marcou o (enorme) golo da vitória sobre o Porto, dando ao clube a Supertaça. Jogou lesionado.

– No final da época, foi comprado pelo Sporting.

– As lesões foram alternando com as grandes exibições, assistências, golos.

– Na última lesão, que o parou durante 7 meses, ofereceu-se para deixar de ser pago por não estar a jogar há muito tempo.

– Quando voltou a jogar, logo ganhou a titularidade, sendo unanimemente reconhecida a sua influência na recuperação da equipa.

– Em Fevereiro, recusou ser vendido ao Lokomotiv, mesmo na condição de ir ganhar mais.

– Em Fevereiro, Costinha entra no Sporting para director desportivo.

– Em Fevereiro, perguntaram a Carvalhal se a vitória sobre o Everton se devia à entrada de Costinha no departamento de futebol. Costinha tinha entrado há 24 horas – se é que já tinha entrado.

– Em Março, Costinha discute com Izmailov, queima-o publicamente e diz que ele nunca mais voltará a jogar no Sporting.

Posto isto, só a santa aliança entre o PSD e o BE poderá esclarecer estas notícias de arrebimbomalho. Estamos certos de que uma comissão de inquérito, ou duas, seguramente não mais do que três, será o suficiente para apurar quem é que mentiu a quem, e quem é que não disse a verdade a quem, e quem é que não fez uma coisa mas fez a outra e vice-versa. De caminho, os excelsos e magníficos deputados poderão também inquirir acerca de um plano secreto de José Eduardo Bettencourt para acabar de vez com o futebol em Alvalade. Os indícios são avassaladores.

Muito obrigado,

[os signatários]

Viva o Porto!

Num feliz zapping, entrei no Metro a Metro. O entrevistado foi Júlio Magalhães, um duplo portista. A conversa ocorreu algures depois de Moura Guedes ter ido à Comissão de Ética, onde anunciou que a TVI escondia provas relativas ao Freeport. E esse acontecimento gerou outro, aquele em que o Júlio conta a sua versão dos factos relativos a toda a campanha contra Sócrates protagonizada pelo casal Moniz. É um relato que nos deixa de boca aberta a olhar para a oposição e para os deputados que utilizam o Parlamento para continuar esses ataques através das comissões que exploram até ao limite dos recursos e do tempo as calúnias, as insídias, as pulhices.

Infelizmente, os amigos do Porto Canal não acreditam na Internet, e mostram-no com exuberância ao não disponibilizarem o vídeo do programa. Vou pois pedir ao meu primo para falar com os gajos, ou com um gajo que conheça os gajos, em ordem a marcar uma reunião com os gajos do marketing, ou com os gajos da Direcção. Aí, o meu primo e eu explicaremos uma ou duas coisas (muito provavelmente, duas coisas) acerca das estouvadas vantagens de multiplicar os espectadores, mesmo se para tal for necessário recorrer à invenção do Al Gore.

Fracos da mona

A crise no PSD dura desde o tabu de Cavaco em 95, ou talvez mesmo desde o bloqueio da Ponte em 94. Toda a oligarquia do partido, sem excepção, falhou o intento de recuperar o império cavaquista ou a glória sá-carneirista. E por esta confrangedora razão: são pessoas intelectualmente medíocres. Incluindo o turificado Marcelo. Pessoas que se limitaram a aprender regras básicas para servirem os poderosos da finança e da economia, a troco de também se poderem servir das benesses e prebendas distribuídas pelo topo da hierarquia do Estado. Mas pessoas que não aguentam o exercício analítico e eticamente reflexivo sem o qual não se faz autocrítica e investigação que acrescente inteligência e vontade. O resultado é a decadência corrente, onde, para além das sucessivas golpadas contra o Primeiro-Ministro que os derrota e humilha, não conseguem apresentar qualquer ideia que interesse à sociedade. Ninguém associa uma mísera esperança ao PSD, só explosões de ressentimento, ódio, selvajaria política.

Pelo que a grande surpresa nestas eleições da Lapa é Aguiar-Branco. Não se dava nada por ele, tentaram que não fosse até ao fim e persistem em reduzir a sua candidatura a um capricho. E que vimos? Um político de garra e pose, que limpou o rabinho a um Rangel inane em que só os fanáticos acreditam. E um político que devia passar os próximos anos a formar o Passos Coelho, sendo o seu Presidente, não a assistir à deformação que se vai seguir se o candidato menos feio fizer cair o Governo e resolver atacar o Procurador-Geral.

Mas é assim a puta da vida, cheia de circunstâncias.

Vinte Linhas 463

Rute – dissertação breve sobre o teu nome

O teu nome hebreu ilumina dois sentidos: quer dizer «a amiga» mas, por metáfora, significa «a acumulada de bens». É um nome cheio de beleza. Rute.

Na Bíblia, o livro com o teu nome revela uma sociedade agrícola: entre sementeiras e colheitas, entre servas e ceifeiros, entre bilhas de água e paveias de cevada.

Rute, a Rute da Bíblia, entra no campo de Booz e vai recolher espigas atrás dos ceifeiros. Ela é a respigadora. Ao fim do dia debulha as espigas e junta quase um efá de cevada. Um efá são 30 litros. Nesse tempo não havia alqueires.

Booz era rico, tinha terras e servos. Quando disse ao supervisor para deixarem Rute respigar à vontade sabia que na cidade de Belém a tinham na conta de mulher de valor. Rute era estrangeira, veio do planalto a oriente do Mar Morto com sua sogra Noemi («minha doçura») que queria ser Mara («amargura») pelas lágrimas derramadas entre os campos de Moab e as muralhas de Belém, no regresso. Rute, a moabita, é a sombra de uma história: sendo uma estranha passa a elemento-chave na genealogia de David. Rute torna-se então semelhante a Raquel e a Lia, duas paredes da Casa de Israel.

Porque Rute foi a avó feliz do rei David, o filho de Jessé, filho do seu filho Obed. Rute nunca desistiu de respigar. Perdido o primeiro marido, não parou nas lágrimas e decidiu descer à eira de Booz: tomou um longo banho, perfumou-se e escolheu os seus melhores vestidos. Há no teu nome o peso duma história e a força de um exemplo: quando respigas recibos e facturas, notas de crédito e balancetes, é como se segurasses nas tuas mãos um efá de cevada na eira de Booz a caminho da tua casa na cidade de Belém.

Da elite e do escol

Mas há uma coisa que eu noto nos meus amigos que emigraram, alguns deles pessoas absolutamente excepcionais, da minha idade. Do ponto de vista intelectual, profissional, pessoas absolutamente excepcionais, e que podem competir, e que têm estado a competir, com os melhores do Mundo. E têm-se safado muito bem até à data. Há uma coisa que eu noto quando falo com eles. Em primeiro lugar, eles não têm nenhuma vontade de regressar. E em segundo lugar – isto não é unânime, mas acho que abrange muitos dos casos que eu conheço pessoalmente -, não só perderam qualquer ligação afectiva a Portugal, eu não queria utilizar a palavra desprezar Portugal, mas acham que houve qualquer coisa aqui que eles não encontraram, um horizonte cinzento de bloqueio, de ausência de energia, que os faz sentir repúdio por Portugal, uma certa repugnância por Portugal.

Miguel Morgado

*

O Miguel tem a idade da democracia portuguesa. E pertence à elite. Alguns dos seus amigos foram trabalhar no estrangeiro. Trata-se de um conjunto de pessoas absolutamente excepcionais, capaz de rivalizar com os melhores do Mundo, a fazer fé no seu testemunho. Mas não ficámos a saber em que campo de actividade, nem em que parte do Mundo. Serão taxistas? Empregados de mesa? Futebolistas? Cabeleireiros? Pescadores de atum? Não interessa.

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g point

Também não percebo a relação entre o celibato e a pedofilia. Afinal, a maioria dos abusadores de crianças não são celibatários. A maioria são familiares ou pessoas próximas da família das crianças. E isso sim devia ser debatido, seria o mínimo que poderíamos fazer pelas vítimas, não o fazendo a sociedade faz exactamente o que critica à Igreja: assobia para o lado. Por vezes parece-me que se está a querer fazer da Igreja o bode expiatório de um mal que nada tem a ver com agremiações sejam elas religiosas ou não. Não sou crente em nenhuma religião, não entendo a língua que falam, não percebo a necessidade de um deus para amar e para ser solidário e por aí fora, mas não concordo com este tipo de argumentos por parte de quem os pretende atacar. É tudo muito humano de facto, dentro e fora dos templos, basta ver que nos baptizámos nós próprios de sapiens. A nossa sorte (ou azar) é que as outras espécies com quem partilhamos o planeta não se riem, pelo menos, de forma a que as possamos ouvir… :)

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Oferta da nossa amiga guida

Somos todos benfiquistas

Celebrei o golo do Carlos Martins por ser um golo à Carlos Martins marcado pelo Carlos Martins.

E celebrei o terceiro golo por ser o terceiro golo marcado à equipa do Bruno Alves.

Como insultar o Bruno Alves com suficiente rigor e amplitude? Talvez dizendo que o Bruno Alves conseguiu transformar todos os amantes da bola em adeptos do Benfica. É bestial.

Vinte Linhas 462

Dia Mundial da Poesia e depois?

Acabo de ser convidado para um evento poético na Ericeira e recebo do Brasil o livro «O que poesia?» organizado pelo poeta Edson Cruz e editado pela Confraria do Vento e pela Calibán. 45 Poetas responderem neste livro à pergunta «O que é poesia?».Uma pergunta, quanto mais ingénua e simples, mais difícil de responder. Aqui há tempos na nota de leitura de um livro de José Mário Silva recordei uma frase de Camilo Castelo Branco: «A poesia não tem presente; ou é esperança ou saudade». Descobrem-se aqui ideias novas quando parece que tudo já foi dito. Bárbara Lia (n.1955) por exemplo afirma: «A poesia é universal mas cada poeta é único». Já Cláudio Daniel (n.1962) lembra Jorge Luís Borges («a poesia vem da poesia») para apelar à leitura incessante e define a poesia como a «deslocação entre perplexidade e descoberta, incerteza e encantamento». Para Cláudio Willer (n.1940) «a poesia é uma aventura, um modo de expressar a imaginação e de expressar a paixão. Uma operação sobre a linguagem. Uma experiência de liberdade e também de possessão.» Para concluir as palavras de Nicolau Saião (n.1946): «A poesia nada tem a ver com a literatura, essa que os aproveitadores ou os simples falsários erguem (como se ergue um bloco de apartamentos) e que depois habitam com todas as vantagens que em geral esse tipo de gente artilha. A poesia pode ser, e muitas vezes é, uma maldição ou uma incursão no mistério ou uma aventura no mal ou uma naturalidade doméstica… Mas nunca um sujeito de literatura como infelizmente certa gente medíocre ou primária mas altamente colocada sectorialmente no país que melhor conheço (Portugal) pretende incutir nas gentes.» E continua…