Diabólico

Acabar com o celibato não resolveria o problema da pedofilia e dos abusos sexuais em institutos da Igreja Católica. Porque não há correlação.

Na verdade, o escândalo não vem dos casos conhecidos onde se violaram física e mentalmente crianças e adolescentes, nem mesmo da certeza de serem esses apenas a ínfima parte dos que terão acontecido ao longo das décadas, séculos e lugares. Humano demasiado humano.

O escândalo é só um, tão mais grave: não ter a Igreja encontrado o Espírito Santo na sexualidade.

Ícaros

A exposição dos monitores dos deputados ao público e jornalistas nas galerias do Parlamento permite reflectir acerca do que tem acontecido com a publicação não autorizada das escutas relativas ao processo Face Oculta e seus desenvolvimentos. Muitos, à esquerda e à direita, foram os que logo utilizaram essas passagens para fazerem ataques políticos, ataques de carácter, piadinhas e arroubos de santidade. Assim, havendo coerência, os mesmos estarão ainda mais interessados em conhecer o que fazem os deputados nos seus computadores de bancada. E aplaudirão o jornalismo que fornecer essas informações, é inevitável.

Pensemos, então. Que capa faria o Sol com uma foto do monitor de um deputado do PS onde se visse que o seu browser estava num qualquer website de propaganda nazi? Se o tema não estivesse em discussão no hemiciclo, que estava ali a fazer o deputado? Será que, no fundo, tem simpatias hitlerianas? E não faria essa consulta parte do plano socrático para dominar a Terra durante mil anos?

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Como é evidente

Os deputados do PS têm razão no protesto emocionado contra a violação da privacidade, e Gama tem razão no realce do estatuto público do espaço, da função e do material, e também na eventual solução.

É que as novas tecnologias obrigam a sucessivas adaptações da cultura, da moral, dos costumes. Sempre assim foi.

Um livro por semana 176

«A torre» de Baltazar de Matos Caeiro

A Torre de Matos é uma torre de atalaia militar anterior à nossa nacionalidade. O seu nome deriva dos extensos matos que a rodeavam e desde o século XIV passou da família Matos para a família Pinto até aos nossos dias. Nela situou Eça de Queirós a acção de «A Ilustre Casa de Ramires» em homenagem ao filho de Ramiro II de Leão, D, Alboazar Ramires. No último quartel do século X era esta a vida na região da Torre: «as fronteiras mudavam constantemente, flutuando a bel-prazer de belicosos reis cristãos, arrogantes condes, sanguíneos emires e ambiciosos califas, levando a combates renhidos com destruição de aldeias, inutilização de colheitas, destruição dos campos. Sucediam-se, assim, os fossados e as cavalgadas dos fronteiros para sul e as algaras muçulmanas que de rompante iam até ao curso do Douro».

A paixão infeliz do cristão Tedon pela moura Ardínia, filha do alcaide Alboacém de Lamego, acabou com a morte de ambos, executada por quem não aceitava as ligações entre mouros e cristãos: «Há muitos interessados para que as coisas corram mal entre os dois povos e se mantenha a guerra». Entre as diversas lutas e aventuras à volta desta Torre, cujo brasão vai terminar em Castelo de Vide, bem longe do Douro, só uma coisa fica imutável: «A vida na época era essencialmente pensada para a guerra e passada na guerra, quer pelo medo relativo que todos e principalmente os grandes senhores sentiam uns pelos outros, cujos limites eram frequentemente desrespeitados, quer pelo chamamento às Cruzadas contra os infiéis, fosse na própria terra, fosse na Terra Santa».

(Editora: Plátano, Prefácio: João Malta, Capa, design e paginação: José Maria Pires)

Génio de Carvalhal

Carvalhal não é um provinciano qualquer, como há muitos nascidos e criados nas cidades. Ele não se deslumbra com a Europa, não desdenha do que é nosso, não troca a comidinha caseira por essas mistelas que servem no estrangeiro. Por isso, tratou de resolver o assunto com classe: perdeu a eliminatória sem perder qualquer dos jogos. Pronto. Acabou-se o desperdício de dinheiro em aviões e pardieiros de 5 estrelas, mais a pegada ecológica. Há um glorioso 4º lugar para conquistar, as excursões ficam para a pré-época.

E ainda deixou o Vuk incendiar as bancadas, mas só um bocadinho e num espectacular abaixamento de forma. O jogador tem de ser reduzido a um farrapo para que possa ser vendido sem dificuldade neste Verão. Quando voltar a jogar num clube que o compreenda, aplaudiremos a genialidade de Carvalhal, sem a qual Vuk continuaria na prateleira do Sporting a criar sarro.

Roma, Bizâncio e Atenas

A comissão de inquérito ao negócio PT/TVI tem duas questões na agenda: a relação do Governo com a legalidade e a relação do Primeiro-Ministro com José Sócrates. Qual delas a mais inútil e perversa.

Quanto à primeira, já tudo foi explicado na Comissão de Ética. A PT queria fazer o negócio por razões estratégicas legítimas face ao mercado, as quais eram do domínio público há meses ou anos. Também se disse não haver interesse no controlo editorial da TVI com a entrada na Media Capital. A PT chegou ao ponto de tentar garantir Moniz nesse novo cenário, o próprio confirmou. Para além disso, o Governo não tinha de ser tido nem achado na matéria, fosse por que razão fosse, e para mais quando o negócio ainda não estava garantido e nenhum acto formal tinha acontecido que implicasse transmissão de informações ao Governo ou anúncio público. Isto significa que o negócio nunca existiu, posto que não se concretizou, e ainda que foi abortado por pressão política da oposição e do Presidente da República. Na ausência de novos factos que o contradigam, não existe ilegalidade alguma na situação. Mais: não se concebe como poderia existir, posto que uma situação onde a PT estivesse no capital da TVI levaria a uma completa blindagem protectora para o infotainment persecutório de Moura Guedes. Acabar com o Jornal de Sexta depois da PT entrar seria politicamente ruinoso para o PS, como até um calhau percebe. Mas acabar com ele antes da PT entrar, também!

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Não desistas, mesmo cansada

A Fernanda, que eu saiba, é a voz mais activa em Portugal na problemática. Sim, não se trata de uma causa, posto que diz respeito ao correcto uso da força policial. É antes uma problemática, onde cada caso exige investigação. O conjunto das ocorrências pede também reflexão estatística e comparativa, antes de se poder saltar para as conclusões.

Todavia, a radicalidade moral da posição da Fernanda é uma bênção política. Há aqui um absoluto a defender absolutamente, a vida humana. A formação dos agentes de autoridade que actuem com arma só terá a ganhar com a intransigência daqueles que exigem o fim deste tipo de mortes.

Vinte Linhas 461

Alexandre Herculano no bicentenário do seu nascimento

Alexandre Herculano (1810-1877) foi uma figura de escritor que sempre me fascinou. A biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa tem uma sua bibliografia seleccionada em mostra patente ao público até ao dia 31-3-2010 entre as 10 e as 13 e das 14 à 17 horas no seu edifício ali mesmo ao lado do Coliseu dos Recreios.

Um dos meus mestres no jornalismo – Jacinto Baptista – dedicou muito do seu estudo à obra de Alexandre Herculano nomeadamente à faceta de Herculano jornalista. Citava de cor uma frase de Raul Brandão sobre o labor de Herculano na História: «a seriedade, a obstinação, o amor à terra, ao azeite e ao pão…»

Mais tarde, jornalista na redacção de O MIRANTE em Santarém, li com prazer um trabalho muito completo de Jorge Custódio sobre Herculano agricultor e sobre os seus trabalhos para apurar a fabricação do azeite de modo a que ele deixasse de ser apenas elemento de iluminação nas candeias das cozinhas das nossas casas portuguesas.

Há nesta mostra da Sociedade de Geografia diversos livros com muito interesse para quem queria descobrir algo mais sobre Herculano. São seus autores: Cândido Beirante, Luciano Cordeiro, António Enes, David Lopes, Bulhão Pato, Carlos Portugal Ribeiro e Rebelo da Silva, entre outros. Há também obras colectivas.

A biblioteca tem outros livros disponíveis sobre Herculano, nomeadamente dos seguintes autores: Fortunato de Almeida, Pinheiro Chagas, Teófilo Braga, António Barata, Anselmo de Andrade, Alfredo Pimenta e Vitorino Nemésio.

Vale a pena ir visitar a exposição de Herculano à biblioteca da Sociedade de Geografia.

É escusado explicar-lhes

Paulo Rangel tem o apoio de Ferreira Leite, Pacheco, Vasco Graça Moura, Jardim, Morais Sarmento, Santana, Fernando Seara, Paulo Mota Pinto, Deus Pinheiro e António Capucho, entre outros cromos do refugo do cavaquismo. E, mesmo assim, insistem em dizer que o homem dessocratizante é o melhor candidato para derrotar Sócrates.

Não admira que tenham deixado o partido chegar onde chegou.

Um livro por semana 174

«Sabores de África» de Conceição Santos

A Gastronomia tem muito a ver com a Literatura – ambas nascem de uma alquimia. Não por acaso a Revista Ler nº 89 deste Março de 2010 dedica um espaço significativo a textos, memórias e ideias de Maria de Lourdes Modesto, Alfredo Saramago, Marguerite Duras, Fialho de Almeida, Camilo Castelo Branco, Cesário Verde, Bento dos Santos, Brillat-Savarin, José Quitério e Francisco José Viegas – entre outros.

O que este livro nos dá em 126 páginas de receitas e 2 de vocabulário é uma grande viagem à cozinha tradicional de Cabo Verde, Guiné-Bissau, S. Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique.

Vejamos, como exemplo, um prato de peixe, o Polvo à São Tomé: «para 4 pessoas juntar 1 polvo fresco, 250 g. de cebola, 250 g. de tomate maduro, 1 pitada de vinagre, ½ chávena de óleo de palma, louro, picante q.b. e sal q.b.; depois leve ao lume o óleo de palma, a cebola e o tomate picados, a folha de louro, o picante e o polvo amanhado e cortado aos bocados. Deixe cozer em lume brando e vá mexendo de vez em quando para não se pegar. Se necessário vá juntando um pouco de água da cozedura do polvo. Depois de cozido adicione o vinagre. Deixe ferver com a vasilha tapada, para apurar. Rectifique os temperos. Sirva com papas de mandioca ou com arroz branco».

A partir deste apetitoso exemplo é só partir à descoberta dos outros pratos. Bom apetite!

(Edição: Porto Editora, Capa: Hugo Andrade, Fotos: Mário Santos, Imagem Capa: Masterfile Portugal)

Acabem com eles

Parece que Sócrates, Pedro Silva Pereira e Rui Gonçalves encheram-se à grande e à inglesa com o Freeport, e sabe-se lá mais com o quê. Uns tipos que dão uma golpada dessas, tão sofisticada ao ponto de incluir envelopes castanhos e encontros públicos em locais de salubridade pré-ASAE, devem ter dado dezenas de outras. O caso deverá estar concluído lá para 2030 ou quando Sócrates se reformar, o que chegar primeiro. Também consta que Vara fala ao telefone como os traficantes de droga, o magano, pelo que daí até ser mafioso já nem é uma questão de se dar um passo, basta inclinarmos o tronco um bocadinho para a frente. Como todas as figuras gradas do PS têm estado ao lado de Sócrates, incluindo Soares e Almeida Santos, Vital e José Magalhães, este e aquele, é de esperar que brevemente surja uma notícia a dar conta que Tino de Rans foi apanhado a cagar atrás de um sobreiro. Assim se conseguirá limpar do mapa o PS todo, e para nunca mais voltar.

Entretanto, na RTP socrática – III

Judite – Mas, por exemplo, o sr. Presidente da República, volto à questão, ficou melindrado com as referências, que foram públicas, quando se diz, por exemplo, que o senhor podia ir para casa cuidar do netos?

*

Foi esta a única citação das escutas publicadas que a Judite utilizou para confrontar Cavaco. Estamos perante uma curiosidade voyeurista, veneno alcoviteiro. Mas não só.

Estamos também perante a legitimação da devassa da privacidade. Partindo do princípio que a Judite não ouviu a gravação onde supostamente se encontra essa passagem, como se permite utilizar uma transcrição escrita, descontextualizada e não confirmada para com ela tentar invadir a intimidade do Presidente da República? É a perversão máxima, explorar a espionagem a terceiros para espiolhar a primeiros.

Muitas pessoas só aprenderão com a experiência de serem vítimas da completa ausência de escrúpulos. Ou talvez nem aí. Mas é nosso dever fazer o possível para que nunca passem por ela.

Vinte Linhas 460

Fotografias de Joe Fernandes na Fabula Urbis

Até ao dia 31 de Março podem ser vistas na Fábula Urbis (Rua Augusto Rosa 27) uma livraria atrás da Sé de Lisboa as 21 fotografias sobre a cidade de Lisboa deste fotógrafo com vínculos a Portugal e à Inglaterra.

Ao longo do tempo Joe Fernandes viajou por e fotografou em vários países: Irlanda França, Bélgica, Itália, Espanha, Noruega, Polónia, Roménia, Bulgária, Chile e Índia.

Estudou técnica de fotografia na Universidade de Brighton e estes 21 trabalhos são apenas uma pequena amostra do seu material acumulado ao longo dos anos.

Neste conjunto percebe-se que o seu olhar se demorou em pormenores de uma Lisboa que parece estar a desaparecer. Mas resiste com teimosia ao cilindro normalizador.

Por exemplo há três fotografias de mulheres a lavarem a roupa em tanques públicos. O excelente bacalhau da Islândia da Manteigaria Silva na Rua D. Antão de Almada 1-C ao Rossio, surge com algum destaque. O velho Animatógrafo do Rossio também faz parte da recolha em exposição. Outras fotografias contemplam as drogarias, as padarias, as frutarias, as casas de carimbos, as capelistas que ainda vendem estampilhas postais, os bolos, os vinhos finos, as conservas em lata, as leitarias e as floristas.

É todo um mundo que ainda resiste aos avanços das novas tecnologias, lojas onde ainda existe o contacto humano e humanizado, onde a velocidade das máquinas e a técnica impessoal das pessoas não ganharam espaço nem ganharão nos próximos tempos.

Para mais pormenores o contacto na Internet da Livraria é www.fabula-urbis.pt e o mail é o seguinte fabula-urbis arroba fabula-urbis.pt

Génio de Carvalhal

Chapa 3, a especialidade do genial Carvalhal. Quando não, empate sem golos. Ou versões 3 + n. É assim desde 12 de Fevereiro. E tamanha genialidade acaba de me garantir uma refeição a custas do nosso amigo António P., posto que a heróica façanha de agarrar o 4º lugar sela um compromisso inquebrável até ao fim da época, quanto mais até à Páscoa que está mesmo aí ao virar do calendário.

António, quem paga é quem escolhe o local do repasto. Se quiseres, até pode ser na Marmeleira.

Balada da casa de Ermelinda

Casa que é um museu
Baixo-relevo, escultura
O jantar aconteceu
Numa mesa de ternura
Pinacoteca no armário
Brasil, Tailândia, China
Com Tomás no calendário
Toda a paixão é rotina
Na biblioteca diferente
Um sentido profundo
Livros, Extremo Oriente
Outra visão do Mundo
Veio o vinho de Azeitão
Para festejar iguarias
Entre o queijo e o pão
Não é em todos os dias
Na cabeceira da mesa
No centro da liturgia
Avó Mam sem surpresa
Num ritual da alegria
Entre copos e talheres
Toalha nova estreada
Voz de cinco mulheres
Fez a minha voz calada
Casa à prova de bulício
Bem perto do Regueirão
Os Anjos fogem do vício
Entre o passeio e a pensão
Onde Indianos, Chineses
Fecham tarde o estaminé
Já há poucos portugueses
Junto à porta dum café
Casa do Mundo, alegria
Trazida pelo teu olhar
Se começou em Leiria
Não diz onde vai parar
Trouxe um antigo postal
Terreiro do Paço, parada
O coração de Portugal
Respira sem dar por nada