
Arquivo mensal: Março 2010
Alices no País da Maravilha
Este é o ano de todas as Alices. Mas ninguém estava preparado para a entrada em cena da inspectora Alice. Diz quem sabe que ela é permeável a telefonemas. Fosga-se, coitada. As dores que tal maleita provoca. Isso na minha vizinha do 4º andar já seria tramado, numa investigadora da Judiciária é incapacitante. E assim se prova como a Comissão de Ética tem toda a razão de ser, pois sem ela nunca saberíamos que, afinal, os assessores do Primeiro-Ministro lá conseguiram abafar o Freeport ao telefonema. Diz quem sabe.
E diz mais. Garante existirem documentos na TVI que entalam o engenheiro. Estão para lá esquecidos numa gaveta, desde Setembro, e ninguém lhes pega. É chato. Porque esse tipo de provas gosta é de estar com as autoridades. Sentem-se bem ao pé de fardas e togas, são lá coisas. Eis o que proponho: denunciar à polícia essa situação de abandono e maus-tratos. Se a polícia não souber onde fica a TVI, que telefone para quem sabe e peça a morada.
Quê? Um rei? Diz quem sabe que o Rei também é permeável a telefonemas. Mas, neste caso, não é defeito; é feitio. Noblesse oblige.
O Parlamento está a especializar-se em espectáculos dados por ratos, araras, lagartas e tartarugas falsas. O melhor continua a ser o do chapeleiro taralhouco e sua camisa de dormir, mas este da rainha que não se fecha em copas também foi baril. E a maravilha promete continuar.
Tens fotos?
V9
Parece-me que a questão talvez seja um pouco mais profunda do que as manigâncias do Pacheco Pereira, embora ele seja talvez dos que mais consciência tem do poder duma cultura de blogs – foi aliás pioneiro em Portugal na forma.
Já discutimos isto muitas vezes, mas a existências destes espaços de opinião livre (e quando digo livre, estou a falar de “livre acesso por quem quiser”, sem passar por nenhuma empresa ou editor) que confrontam, discutem, e muitas vezes desmontam o que vem escrito nos media tradicionais é uma ameaça directa a quem estava habituado a dominar, incontestado, o espaço de opinião neste pais. E agora, em tempo real, quantas doutas opiniões são desmontadas, e muitas vezes ridicularizadas, numa questão de segundos?
A questão é esta: numa cultura de blogs, para onde rapidamente se caminha, cada vez mais pessoas consomem as notícias devidamente explicadas e filtradas por inúmeros autores com os quais as pessoas se identificam, ou respeitam. No fundo, uma imensidão de Professores Marcelos a comentar e contextualizar os acontecimentos em tempo real, à medida que acontecem. Tal como o Val, ou o Manuel Abrantes. Querem-me dizer que quem estava habituado a dominar a capoeira, incontestado (a não ser pelos seus pares), vê com bons olhos o surgimento de uma imensidão de pintos a debicarem as canelas, alguns dos quais atingem já o tamanho de frangos?
Aliás, visto neste contexto, percebe-se melhor a obsessão com o anonimato que para aí grassa: estas pessoas estão habituadas a retorquir e reagir conforme o estatuto que atribuem à pessoa, não estão habituados a discutir directamente as ideias. Que me interessa a mim saber quem é Valupi? interessa-me o que escreve e as ideias que transmite, e o anonimato (perdão: pseudónimo) até ajuda a avaliar a escrita pelo seu verdadeiro valor.
São estes filtros, que esfrangalham uma cultura dominante, que incomodam tanto, inclusive muitos jornalistas, e que interessa por isso atacar. E é o que se passa.
__
Oferta do nosso amigo Vega9000
O Pacheco explica
O Conselho Superior do Ministério Público é composto por 19 individualidades. Reuniram durante 10 horas, fizeram todas as perguntas e mais algumas, depenaram o Pinto. Acabaram abraçados, trôpegos, a declarar apoio unânime ao encobrimento dos crimes do engenheiro.
É isto. Não é, Pacheco?
Coelho foi o caçador
Só rir. Coelho esmagou Rangel do princípio ao fim. E terminou a sová-lo sem piedade.
Eis uma incógnita que desaparece, Passos Coelho afinal é um guerreiro, tem tónus e agressividade. Contra um histérico do vale tudo, baralhado com a repulsa que a sua táctica suscitou a partir da vergonhosa actuação no Parlamento Europeu, Coelho apareceu muito bem treinado e não falhou os alvos. Foi a sua melhor prestação política, e televisiva, de sempre.
Rangel, entretanto, é uma fraude ambulante. Dizer-se que ele ganhou as Europeias, e sozinho, é daquelas bacoradas que até despertam um sentimento de compaixão. Basta ouvi-lo a falar do Ensino, prometendo acabar com a avaliação dos professores a troco de mais uns trabalhos de casa em cima dos chavalos, para termos a certeza de que o Paulo nunca ficará no desemprego enquanto se venderem conjuntos de atoalhados na feira da Malveira.
Canalhocracia
Ler O Jumento.
Voltar a ler o Eduardo.
Ler o Tomás, a quem devemos o carimbo.
Ler o Miguel.
Ler o Luís.
Ler o Gabriel.
Ler o Francisco.
Ler o Pedro.
Ler o Rui.
Ler o Ricardo.
Ler a Fernanda.
__
É também ocasião para lembrar isto, que tinha deixado sem comentário. Trata-se do Mascarenhas a avisar a malta de ter enviado um email ao Valupi, não fosse acontecer-lhe alguma coisa má depois de tão arriscada missão e não haver suspeitos para interrogar. Ele cumpriu com o que anunciou, honra lhe seja feita: pediu-me a identificação, qual bófia de serviço. Tentei conversar com o sr. agente, mas o pavio era demasiado curto. Ele achava que eu tinha a obrigação de lhe responder sem fazer perguntas ou tecer comentários, estava cheio de pressa para concluir que me tinha apanhado – desistiu ao terceiro email. Ficou sem saber, por mim, o que pretendia. Mas, antes deste episódio, já o Mascarenhas me tinha oferecido um ambicioso título nascido da sua provável bravura: provavelmente o mais cobarde dos anónimos.
Que se passa com este labrego? O seguinte: convenceu-se, ou alguém o convenceu, de que o Valupi era o Rogério da Costa Pereira, que em tempos usou o pseudónimo Afixe (e que com ele chegou a escrever cá na casa). O que quero realçar com a recordação não é a capacidade fantasista, ou paranóica, do Mascarenhas. Não, nada disso. Trata-se de outra competência, a literacia. Considerou que os nossos estilos de escrita eram iguais, prova suficiente para que os seus dois neurónios ainda activos começassem a disparar acusações sem mais demora ou carência de confirmação.
O atestado de iliteracia do Mascarenhas teria graça se não estivesse na origem da pulhice contra o Jumento. É que ele até pode ser um excelente rapaz, mas assim tão burro torna difícil a leitura do jornal onde zurra nas parangonas.
Vinte Linhas 456

A eterna luta entre o pó e a posteridade
Há 32 anos, quando comecei no «Diário Popular» não imaginava como tudo isto é efémero. Os jornais são como as pessoas; também morrem. De repente lembro-me de alguns onde colaborei desde 1978 e que deixaram de se publicar: «Diário Popular», «Diário de Lisboa», «Gazeta dos Desportos», «A Capital», «República». Mas se recuarmos 70 anos vemos nove jornais diários que não resistiram: «Jornal do Comércio», «O Comércio do Porto», «O Primeiro de Janeiro», «O SÉCULO», «Novidades», «República», «Diário de Lisboa», «A VOZ», «Diário da Manhã». Só ficaram o «Diário de Noticias» e o «Jornal de Noticias». A BOLA MAGAZINE, de onde foram recuperadas para o meu livro «As palavras em Jogo» estas entrevistas e a memória, também só vive hoje na memória afectiva de quem a guarda e nas prateleiras das hemerotecas. Há 370 anos nasceu a primeira Gazeta que dentro de meses pode dar origem a algumas efemérides. Somos os bisnetos desses obscuros redactores e somos os remadores dessa barca onde se procura vencer o pó do silêncio e alcançar a posteridade possível. O Mundo é uma terrível fábrica de esquecimento; compete a todos e a cada um de nós fazer com que o esquecimento seja uma injustiça. Ao procurar saber mais do jornalismo de há 70 anos apareceu em O SÉCULO de 1941 uma referência a José Bento Pessoa. Pois o nosso figueirense foi em 1897 o vencedor do I Campeonato de Espanha em bicicleta disputado em Ávila na distância de 100 quilómetros que fez em 3h 42m e 31s. Ele é uma relíquia do Desporto Português. Este livro não aspira a tanto; pede apenas um pouco de atenção ao leitor comum e um lugar no futuro Museu do Desporto.
Bufaria
Ler o Eduardo.
É ou não é verdade?
Red Dead Redemption
Estamos naquela fase do desenvolvimento das civilizações galácticas em que para se encontrar uma mulher a sério, uma mulher que mande uns balázios, temos de a procurar num joguinho de computador. Carl Sagan pensou nisto, mas não chegou a escrever nem a dizer nada a respeito; talvez por se ter esquecido.
Gazeta do optimista
– Temos eurodeputados a declarar no Parlamento Europeu que em Portugal já não vigora o Estado de direito, que a liberdade de expressão foi abolida e que o Governo quer rivalizar com o Balsemão.
– Temos a Presidente do maior partido da oposição desasada a pedir às agências de rating para darem cabo da economia nacional.
– Temos a CGTP, o PCP e o Bloco prontos para barricarem as ruas e derrotarem o capitalismo, o imperialismo e os fachos do PS.
– Temos jornalistas que gozam com deputados no próprio Parlamento e depois vão para a televisão gozar com os espectadores.
– Temos um Presidente da República que gastou as suas energias nos meses que antecederam as Legislativas, um tempo em que a ética e a transparência punham na ordem o Governo corrupto.
– Temos um Procurador-Geral que não presta porque não alinhou numa golpada.
– Temos o Benfica mais forte dos últimos duzentos anos.
– Temos o Sporting mais forte das últimas duas semanas.
– Temos ainda mais dez meses do melhor 2010 de sempre.
Perguntas do camandro
Este artigo faz a seguinte pergunta:
Será que a promiscuidade impede a extinção?
A resposta é relativa ao reino animal, sem aplicação para humanos. Contudo, e recentemente, estudos sobre o adultério revelaram uma paisagem genética muito mais poliândrica do que a moral das esposas e a auto-estima dos maridos preferem admitir.
Os genes são uns marotos.
Vinte Linhas 455

«Padre Cruz – um salvo-conduto do Dr. Afonso Costa para ninguém o prender…»
O Padre Cruz (1859-1948) nasceu há 150 anos. A efeméride foi comemorada aqui em São Roque com uma missa solene transmitida pela TVI. Há muitas histórias do Padre Cruz como aquela do barbeiro perto da igreja da Conceição Velha onde o Padre Cruz cortou o cabelo, não pagou porque tinha dado o dinheiro aos pobres mas, passado pouco tempo, a barbearia encheu-se de fregueses como antes nunca tinha acontecido. O barbeiro já tinha ouvido falar dele por trazer sempre uma carta do Dr. Afonso Costa para ninguém o prender. Esta história da carta do Dr. Afonso Costa tem uma origem curiosa. Depois de 1911, com a «Lei da Separação», surgiram muitos problemas para os Padres. Numa localidade perto de Torres Vedras o Padre Cruz estava a pregar mas acabou preso pelo Regedor local que o enviou para Lisboa acompanhado de um polícia mas o Ministro da Justiça mandou-o em paz. Tempos depois à porta do Limoeiro, depois de visitar os presos, o Padre Cruz ficou detido e incomunicável durante nove dias. Como o mundo é pequeno, o mordomo do Patriarca tinha um familiar licenciado em Direito e que conhecia o Dr. Afonso Costa da barra dos Tribunais. Pediu-lhe que contactasse o Ministro da Justiça e este ordenou uma investigação para se descobrir onde parava o Padre Cruz – estava numa enxovia imunda no Limoeiro. Para evitar males maiores foi o próprio Dr. Afonso Costa que escreveu pelo seu punho um «Salvo-conduto» em favor do Padre Cruz. Este mandou colocar um caixilho no documento e andava sempre com ele. No meio das maiores confusões, passava sempre e nenhum polícia o impedia de ir às cadeias ou aos hospitais visitar os presos e os doentes.
Senhores da Guerra
Paulo Pinto de Albuquerque escreveu mais um libelo contra Sócrates. Ele diz que o Procurador-Geral errou e que o caso pode ir parar ao Tribunal de Estrasburgo. Pelo meio, aconselha a que se faça queixa, a partir das escutas, para a abertura de um processo criminal, e ainda que se peça a inconstitucionalidade da decisão de Pinto Monteiro. Chega ao ponto de citar uma passagem das escutas publicadas ilegalmente para sustentar a sua posição. Ou seja, declara que gostaria de ver Sócrates passar os próximos 20 anos entalado entre a PT e a TVI.
Acontece que ele pode ter razão. Em tudo. Sei lá eu. Afinal, estamos perante um doutor das leis, um cromo da jurisprudência. Só há uma coisinha que me baralha no seu comportamento: fará sentido usar a ilegalidade para fazer política em nome da Justiça? Se sim, o actual ganha-pão do Pinto de Albuquerque tornar-se-á rapidamente obsoleto.
