g point

Também não percebo a relação entre o celibato e a pedofilia. Afinal, a maioria dos abusadores de crianças não são celibatários. A maioria são familiares ou pessoas próximas da família das crianças. E isso sim devia ser debatido, seria o mínimo que poderíamos fazer pelas vítimas, não o fazendo a sociedade faz exactamente o que critica à Igreja: assobia para o lado. Por vezes parece-me que se está a querer fazer da Igreja o bode expiatório de um mal que nada tem a ver com agremiações sejam elas religiosas ou não. Não sou crente em nenhuma religião, não entendo a língua que falam, não percebo a necessidade de um deus para amar e para ser solidário e por aí fora, mas não concordo com este tipo de argumentos por parte de quem os pretende atacar. É tudo muito humano de facto, dentro e fora dos templos, basta ver que nos baptizámos nós próprios de sapiens. A nossa sorte (ou azar) é que as outras espécies com quem partilhamos o planeta não se riem, pelo menos, de forma a que as possamos ouvir… :)

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Oferta da nossa amiga guida

40 thoughts on “g point”

  1. Bom? Isso é o que vamos ver. Esta malta das religiões não é para brincadeiras e eu não sei se me aguento à bronca. :)

  2. Pode não haver relação mas as razões que levam a uma poderão ser as mesmas que levam à outra – a diabolização da mulher, símbolo do pecado carnal.

  3. Estava a brincar, claro que me aguento, nem que tenha de chamar uma espécie amiga ou outra, para se rir comigo. Obrigada pelo destaque, Valupi. :)

  4. guida, sobre o ponto em questão não me parece que seja o de haver pedofilia no seio da Igreja Católica, por muito que alguns gostassem que o ponto fosse apenas esse. Todas as instituições que lidam com crianças estão sujeitas a isso – as diferenças vêm-se no modo como lidam com estas situações quando elas surgem, e o que fazem para as prevenir.
    Eu sou católico (recente), e sei que provavelmente a grande maioria dos membros abomina este tipo de comportamentos (sim, southpark à parte), mas se a hierarquia, aqueles que têm como responsabilidade guiar a igreja, resolvem simplesmente ignorar as situações, seja por que razão for, então não se podem espantar que a bomba acabe por lhes explodir nas mãos. Aprecio o pedido de desculpas e o arrependimento de Bento XVI, mas considero-o apenas um ponto de partida. As palavras são bonitas, mas é preciso acção.

  5. Olá.

    Concordo com o facto de que muitas vezes se tenta fazer da igreja um bode espiatório para muitos dos males da nossa sociedade. É um facto, sim.
    Mas neste caso específico não posso de modo algum estar de acordo.
    Sim, celibato e pedófilia não têm relação possivel, mas este não me parece ser o ponto G.

    Ficamos a saber que parte da igreja não só se manteve muda em alturas que tinha conhecimentos de abusos por parte de diversos padres, como também aplicou os seus esforços em ocultar e permitir que esses mesmos padres pudessem continuar em funções mudando-os de paróquias sempre que houvessem acusações.
    No meu entender, isto faz deles (todos os que estiveram envolvidos activamente) cúmplices de um crime. E, como tal deveriam ser chamados à justiça.
    A sério, revolta-me e não consigo compreender porque razão toda a tónica de um dos casos mais falados, Sean Brady, esteja sobre a sua continuidade no cargo.
    O sr. deveria ser chamado pelas autoridades e responder pelo encobrimento de um criminoso. Esse sim, deveria ser o pedido da vítimas.
    Mas pelos vistos a extenção e complexidade deste caso e de tantos outros é bem mais grave e extende-se até ao Vaticano, Papa incluído.

    Sugiro que vejam este documentário da BBC.
    http://www.youtube.com/watch?v=-wBExdblRNY

  6. Vega, diz que “todas as instituições que lidam com crianças estão sujeitas a isso”. A mim parece-me que a questão não tem nada a ver com instituições. As crianças estão por todo o lado e, infelizmente, os pedófilos também podem estar. Não estou a tentar desculpar o comportamento dos responsáveis da Igreja, o que digo é que, por muito que nos custe, a responsabilidade não é só deles. Calculo que os católicos não estejam muito satisfeitos com o encobrimento deste tipo de crimes, já que são eles que dão crédito ao estatuto de superioridade moral dos padres. Não é o meu caso. Para mim, são simples mortais que tentam vender o peixe deles, com bastante sucesso diga-se de passagem. É porque o artigo deve ser bom…
    Mas as comunidades onde estas crianças estão inseridas têm motivos para ter a consciência tranquila? Nunca ninguém se apercebeu do que estava a acontecer àquelas crianças? Se as crianças sentissem que a comunidade as poderia ajudar, será que se deixavam abusar durante anos, por padres ou por outros pedófilos quaisquer? São coisas que me intrigam. Infelizmente, penso que não, que não fazemos o suficiente para proteger as nossas crianças. E não é só na questão dos abusos sexuais. É por isso que falo nas outras espécies. É, sobretudo, da forma como cuidamos da nossa descendência que depende o nosso futuro, a nossa sobrevivência, e se fizéssemos um ranking a comparar-nos com o que fazem outras espécies, provavelmente, não ficaríamos muito contentes com a nossa posição. Não digo que não desse jeito, mas não posso atirar com as culpas disso para cima da Igreja.

  7. R.A., pois, não sei se é bode expiatório ou o que é, mas estou a lembrar-me dos brasileiros. Por esta altura andam todos com o credo na boca com o escândalo dos seus bispos pedófilos e atiram a matar na direcção do Vaticano que nada faz contra estes criminosos. Mas eu pergunto, onde estão os brasileiros que passam impávidos ao lado de milhares de crianças que se prostituem na rua, ou seja, bem à vista de toda a gente? Por acaso não estarão a fazer o mesmo que criticam à Igreja, não?

  8. o problema não são, nem nunca foi, os católicos como pessoas, mulheres ou homens, como é óbvio, o problema é a instituição. Não sou católico e nunca fui oficialmente, mas há um problema adicional com os miúdos e o sexo nas instituições religiosas, no caso católicas, é que ainda por cima aquilo é pecado e só o padre pode perdoar. Ora isto deve ser um círculo infernal na cabeça deles. Lamento muito. Felizmente tem-se os ensinamentos de Cristo,

    hasta

  9. As restrições de índole sexual que são impostas por doutrina aos padres católicos, sendo contra-natura, geram desvios, como é óbvio.

    Isto sempre foi observado pela igreja católica, mas a bem da a manutenção do dogma, optou-se pelo sacrifício das vítimas…

  10. edie, como é que se prova isso? Não faço a menor ideia das vantagens ou desvantagens do celibato para a manutenção do dogma, não o defendo, obviamente, nem o condeno. De qualquer forma, não entendo praticamente nada do que dizem. Mas dizer que é o celibato que leva aos “desvios” é esticar a corda. A que se deve então os “desvios” dos outros?

  11. Guida,
    Também será grave mas é uma situação muito diferente.
    Aí a crítica teria que ser feita primeiro às autoridades por não protegerem essas crianças.
    Sabe-se lá quantas queixas terão sido apresentadas por cidadãos brasileiros.
    Também soubemos de histórias de prostituição infantil em Portugal e, como é óbvio, apontamos o dedo à Polícia se nada é feito.
    A diferença começa logo pelo facto de ser a própria “igreja” a proteger e a tentar a todo o custo ocultar a situação – Chega ao ponto de fazer as crianças assinarem contratos de sigilo, disponibilizar dinheiro para manter as famílias caladas, transferir padres acusados para outras paróquias… Isto, quando o que teriam de fazer por lei, (já não falando da moral e da ética) seria denunciar a situação.
    Esta é uma realidade extremamente triste – Uma instituição que deveria estar acima de suspeitas participar activamente de forma criminosa no encobrimento destes actos.
    O que eu desejava ver e o que seria justo de acontecer (mas que sei que não vai) era ver essa gente toda, culpada de participar no encobrimento, caír nas mãos da justiça.

  12. guida,

    eu não quis dizer que a manutenção do celibato servia o dogma, mas sim que o encobrimento dos crimes de há séculos até agora serve a manutenção do dogma.

    Também não tenho dados para saber se a incidência de pedofilia na população clerical é superìor à da restante população. Mas sei que os padres têm tido protecção especial, fugindo sempre às malhas da lei… A instituição mãe protege uns filhos mais do que outros.

    Também ao que parece há muitissimo mais casos conhecidos entre o clero católico celeibatário do que, por exemplo, no protestante casado…

  13. Obviamente, o comportamento da Igreja é de tal forma que nem tenho palavras. Só não encontro relação entre celibato e pedofilia. Antes fosse essa a razão para esta verdadeira tragédia. A Igreja não teria outra solução senão mandar casar os padres e o problema ficava resolvido. Infelizmente, não é assim, e o número de vítimas é alarmante. Por isso penso que em vez de se culpar o celibato, se devem gastar as energias a tentar convencê-los que uma das formas de proteger as crianças destes predadores é educá-las sexualmente. Que devem mandar os tabus que metem falar de sexo à fava e prepará-las para o caso de serem abordadas. Que não se benzam dez vezes quando ouvem, por exemplo, falar de educação sexual nas escolas. E não se perdia se dessem o exemplo na catequese. É preciso muito mais, mas já não era mau para começar.

  14. Vega, pela sua pergunta percebe-se bem que o caminho que temos pela frente é longo.
    E não é aos oito anos, vamos ter de as educar antes. E sabe que mais, sei por experiência própria que isso é possível. Só tive uma professora primária, se não foi a melhor foi das melhores professoras que tive. Para ter uma ideia de quanto ela era católica, era ela a minha catequista. Pois bem ela dáva-nos aulas de educação sexual, penso que logo desde a primeira classe, com o estudo do corpo humano. Calculo que não tenha pedido autorização a ninguém, fez o que achou que devia fazer. Garanto-lhe que o fazia muito bem. Tive sorte, não tive? :)

  15. guida, antes de mais agradeço o seu diagnóstico do meu longo caminho a percorrer.
    Agora, vou refazer a pergunta tentando ser mais claro: como é que, no contexto da educação sexual (que concordo consigo que deve ser desde a infância) se preparam crianças para o caso de serem abordadas? Explica-se o que é a masturbação e o sexo oral a partir de que idade? E como é que se explica o que é que constitui um avanço sexual inapropriado? Dizemos que é errado um adulto tocar aqui ou acolá, ou pedir para tocar aqui ou acolá? Não estaremos, se o fizermos, a ensinar às crianças, desde muito novas, que certos actos são errados e maus? Dizemos que só se forem por estranhos? Acha que um Padre é um estranho, ou é uma pessoa em que as crianças confiam? E sendo assim, ensinamos que não se pode tocar aqui ou ali mesmo quando são pessoas em que confiam?
    Como é que se ensina uma criança de, sei lá, 6 anos, a distinguir o que é um mimo inocente dado por um adulto, uma festa, cobri-los de beijos, de um avanço inapropriado?
    E por último, acho muito bem que se ensine às crianças sobre o seu corpo e sobre a reprodução, e o acto sexual, mas acha que é justo, numa idade em que isso deve ser a última das suas preocupações, estar a passar para uma criança a responsabilidade de ter que distinguir entre um acto sexual saudável e outro não saudável?
    A sua professora primária, tem as respostas?

  16. “Mas as comunidades onde estas crianças estão inseridas têm motivos para ter a consciência tranquila? Nunca ninguém se apercebeu do que estava a acontecer àquelas crianças?”

    Pois. Certamente a culpa será dos pais que deixam os filhos ir à missa.

    Já alguém leu a “Vida Sexual dos Papas” de Nigel Cawthorne?

  17. Vega, quando falei no longo caminho a percorrer estava a pensar em todos nós e não em si em particular. Sendo a pedofilia, provavelmente, tão antiga quanto a Humanidade é estranho que ainda tenhamos de fazer essas perguntas todas. É sinal que temos andado todos a evitar o assunto.
    Estamos de novo numa fase em que basta ligar a televisão e ouvimos falar de pedofilia. Se uma criança lhe perguntar o que significa a palavra pedofilia, o Vega faz o quê? Desliga a televisão? Inventa uma história qualquer? Diz que aquilo são umas pessoas más que só existem nalguns sítios? Não sente falta de mais informação acerca do assunto? Eu sinto. Tenho muitas dúvidas que me atormentam. Que instruções dar a uma criança que saiba o que é a pedofilia e que sinta que está a ser abordada por um pedófilo (que o mais certo é ser uma pessoa em quem a criança confia)? E se o pedófilo perceber que o seu comportamento pode ser denunciado por aquela criança? De que será capaz para o evitar? Isto é muito angustiante, mas se as crianças aguentam serem vítimas durante anos, estou certa de que nós também aguentamos discutir o assunto uns com os outros e com elas, por muito difícil que pareça.

  18. guida, o meu ponto era exactamente esse: não se consegue explicar a uma criança o que é a pedofilia sem se entrar em detalhes que a criança não tem ainda maturidade para absorver. Se algum dos meus me perguntar o que é um pedófilo, digo-lhe simplesmente que é uma pessoa que gosta de magoar crianças. Sem grandes detalhes sobre o acto em si. Sempre foi o meu lema: dizer a verdade, mas de maneira a que consigam absorver conforme a idade. E uma criança, até uma certa idade, não tem, nem deve ter, a capacidade de aprender certos detalhes sem que lhe crie medos, fobias e uma grande confusão na cabeça. Não tem a ver com moralismos sobre a sexualidade, mas sim com dar a informação de uma forma que adequada à idade. Até porque os pais devem dar a informação, sim, mas não demasiada. Porque há coisas que as crianças devem ir descobrindo por elas, entre elas, e ao ritmo delas. É para isso que serve o quarto escuro ou o jogo dos beijos, por exemplo. E nós devemos então ir explicando as coisas à medida que a criança também cresce e pergunta.
    Daí, digo eu, a impossibilidade prática de ensinar as crianças a defenderem-se de certos actos sem lhes dar informações demasiado explícitas e que constituem uma violência. E se a informação não é explícita, só cria mais confusão, porque as crianças não são parvas. Eu falo pela minha experiência: até uma certa idade, as coisas ou são ou não são. As subtilezas aprendem-se com o crescimento. Daí o exemplo do “não deixes tocar aqui ou ali” – é contraprodutivo, porque uma criança pensa que sendo assim não se pode, nunca, tocar em certos sítios.
    A informação que se dá às crianças um equilíbrio delicado, em que não devemos confundir educação sexual com educação sobre o sexo. E eu, por meu lado, recuso que os pedófilos, para além de todo o mal que já fazem, ainda venham perturbar esse equilíbrio.

  19. jrrc, pelos vistos, tem muitas certezas acerca dos culpados. Eu não, a minha grande dificuldade é justamente essa. Foi por isso que falei em comunidades, assim de certeza que os estou a incluir. Não vejo os padres como potenciais pedófilos, para isso também teria de o fazer em relação aos pais, mães, irmãos, vizinhos, etc., todos podem ser potenciais pedófilos. Não sei qual o rigor do que acabei de dizer, dá-se o caso destes crimes viverem do secretismo, do medo e vergonha de denunciar e de portanto não fazermos a mínima ideia da dimensão desta calamidade. Seja como for, não é só a Igreja que é boa a encobrir, as famílias e restante comunidade também se ajeitam. Mais que não seja, somos culpados de não prestarmos toda atenção que devíamos às crianças, quando estas regressam da missa, da escola, da natação, da música, ou de outra actividade qualquer. Ou no sentido inverso quando vêm de casa e chegam ao pé dos padres, professores, médicos, etc.

  20. Vega, defende então que devemos deixar tudo como está?
    Que continuem a descobrir uns com os outros, logo desde o jardim de infância o significado destas palavras difíceis. O Vega diz bem, as crianças não são parvas. Muitas vezes só perguntam para nos testar, e é nessa altura que descobrimos que lá pelo meio da sua sapiência estão muitos erros. Normal, já fomos crianças, sabemos como é. O que defendo é que se podem reduzir esses erros, sem precisar de entrar em pormenores que não estão preparadas para entender.

    Quando define o pedófilo como uma “pessoa que gosta de magoar crianças” está, para mim, a cometer um erro terrível. Se fizermos o exercício (bastante repugnante) de nos colocarmos na pele de um pedófilo, rapidamente, percebemos que deve ser por aí que começam: por garantir à criança que não a vão magoar. Têm a fama de ser pessoas inteligentes, precisamos de ser mais inteligentes do que eles. E isso só é possível com muito mais informação, para nós e para as crianças.

  21. Bom, ou eu já estou a perder o point aqui, ou então:

    Está ou não está provado que os pedófilos são pessoas cujo desenvolvimento sexual e de personalidade sofreu bloqueios, repressões e traumas prematuros, no processo de crescimento?

    Está ou não provado que meter um puto num seminário e privá-lo de vida sexual para sempre é um bloqueio ao seu normal desenvolvimento como pessoa?
    É ou não verdade que esta norma condiciona a forma como se vê a relação com os outros adultos?

    Não há um só factor causal da pedofilia, mas negar que este sistema é uma fábrica da mesma, parece-me que…não me parece.

  22. Ai, o caraças. Quem perde o point não tarda nada sou eu. Isto para mim é uma novidade absoluta, estar a defender os seminários da Igreja!? Já faltou mais para acreditar que afinal deus existe e tirou dois diazinhos para gozar comigo. Oh pá, se são fábricas de pedófilos, estão à espera de quê para arrasar aquilo tudo? Mas, por favor, façam um servicinho asseado, não deixem pedra sobre pedra!

  23. Pois guida, a minha pergunta mantém-se: qual informação é que lhes daria? E se estou a cometer um erro terrível, como é que a guida lhes explicaria o que é um pedófilo? Uma pessoa que gosta de fazer sexo com crianças? Qual sexo, o que a professora explicou na aula, e que serve para fazer bebés? Sexo é mau, é? Ou sexo entre rapazes é mau, é?

    O objectivo de dar mais informação às crianças pode estar cheio de boas intenções, mas vai causar mais mal do que bem, e provavelmente dar às crianças um motivo de confusão e ansiedade. Passarem a desconfiar das intenções dos adultos, todos eles, todos os que as rodeiam e interagem com elas. Já imaginou as consequências para os professores de ginástica, por exemplo, cuja função envolve sempre tocar-lhes? Por causa dos pedófilos, acha que vale a pena? Acha que é justo passar esse tipo de preocupações às crianças, ou deverá ser algo que nós, adultos, é que temos que nos preocupar, estar atentos, e punir?

  24. Vega, faz aí umas perguntas, no mínimo, estranhas. Adiante.
    As crianças sabem que existem pedófilos, é impossível não saberem, só se as fecharmos numa redoma. O que as deve baralhar é que os adultos que as rodeiam só as alertem para atravessar sempre a estrada na passadeira e não as avisem deste perigo. É como se fôssemos um rebanho de ovelhas e se as nossas crias nos perguntassem que bichos são aqueles, nós em vez de dizermos que são lobos, lhes disséssemos que eram… ovelhas com uns dentes maiorzinhos. Ovelhas ranhosas, pronto. E fazíamos muito bem porque explicar às ovelhinhas que nem todos são herbívoros pode baralhá-las, e, provavelmente, o perigo real que são os lobos não justifica.

  25. Perguntas estranhas, guida? É o que se calhar acontece quando se tenta passar de uma bem intencionada teoria de “dar mais informação” à prática. Se a minha conversa, que se tem centrado nos aspectos práticos de como é que se transmite efectivamente informação sobre pedofilia a miúdos já lhe parece estranha a si, imagine a eles. É que uma coisa é saber que existem pedófilos, como a guida parece assumir, outra completamente diferente é saber o que fazem. É que garanto-lhe que para a grande maioria dos miúdos, “pedófilo” é apenas outro nome para “pessoa má”.
    É que andamos aqui há vários dias a discutir este assunto, e ainda não me respondeu à pergunta original: como é que, na prática, se ensina uma criança a reconhecer um pedófilo para se poder defender? Ou duma maneira ainda mais clara: a guida está numa aula de miúdos de 7 anos, e quer alertá-los para a existência e perigos dos pedófilos. O que é que lhes diz, exactamente?
    A comparação com a passadeira falha, por uma razão: é que atravessar a rua faz parte do quotidiano de qualquer criança. Na educação sexual, por outro lado, estamos a ensinar algo que não praticam, não são suposto praticar, e não têm experiência para saber avaliar o que é perigoso ou não é.
    Já a comparação com cordeiros e lobos é gira, se os pedófilos fossem, como os lobos, efectivamente diferentes e facilmente reconhecíveis. Mas não são, pois não? São cordeiros como os outros, tanto que até nós temos muita dificuldade em reconhecê-los, e entramos sempre em estado de choque e indignação quando descobrimos que uma pessoa que somos suposto confiar, um padre ou um professor, é uma dessas bestas.
    Por isso, depois de me responder à pergunta da sala de aula, responda-me a outra, aparentemente mais fácil: está na reunião de pais de uma escola, para alertar sobre os perígos dos pedófilos. Como é que se ensinam pais, que são adultos, a identificar um possível pedófilo entre os professores? De preferência, já que estamos a tentar encontrar fórmulas de prevenção, ANTES de poderem abusar de alguém. O que é que lhes dizia?

  26. são muitas histórias, e é só a ponta do iceberg, por certo. Não sei ajudar-vos nessa conversa, não entendo como se pode ter parazer a abusar sexualmente de crianças, e também não sei como se podem distinguir os pedófilos de outros. Tudo isto é triste.

  27. Vega, os telejornais constantemente nos dão, a nós e às crianças, notícias relacionadas com pedofilia. Utilizam expressões tais como: suspeitos de abusos sexuais sobre crianças, redes pedófilas em que são apreendidas milhares de fotografias de actos sexuais entre adultos e crianças, assistimos a relatos de vítimas, etc. Qual é a parte que o Vega acha que as crianças não percebem? A menos que sejam crianças que vivam isoladas do mundo ou que pensem que os bebés vêm de Paris no bico das cegonhas, ou seja, que desconheçam por completo o significado da palavra sexo, sabem perfeitamente que algo de errado se passa entre alguns adultos e as crianças. Vou repetir o que já lhe disse, as que por um qualquer motivo, por exemplo não verem televisão, acabam por perceber com os colegas na escola.

    Não lhe respondi à pergunta porque as conversas sobre este assunto que tive com crianças não são nenhuma fórmula que se possa aplicar a outras crianças, foram tidas em determinados contextos, com crianças que conheço bem, e tidas em função do conhecimento que tenho acerca do que elas sabem sobre sexualidade, e mesmo assim não estou certa de que não tenha cometido erros, por isso é já escrevi noutros comentários que é necessária mais informação. Sim, Vega, sou uma grande adepta de ‘mais informação’ seja no que for e mais ainda nos assuntos onde acho que ela é escassa, como me parece ser o caso do assunto que estamos a discutir.
    O exercício que me pede de estar à frente duma turma não é fácil para mim já que não sou professora nem sexóloga, mas sei que há pessoas para quem o exercício não levanta problemas de maior. Mas não responderia simplesmente a criança nenhuma que um pedófilo é ‘uma pessoa má’, não é que não seja, mas se uma criança se contentar com essa resposta e não fizer mais perguntas do tipo ‘má porquê?’, é porque já ouviu falar em pedófilos e nesse momento com a minha resposta fica a saber que não estou muito interessada em desenvolver o assunto.

    Pois, Vega, os pedófilos não se deixam identificar por outros adultos, são pessoas aparentemente normais, até as podemos considerar ‘boas pessoas’. Eles identificam-se é às crianças. Daí eu defender que temos de as preparar, garantir-lhes que quando sentirem que estão numa situação fora do normal que há quem acredite nelas, quem já lhes tenha falado no assunto e que as vai ouvir. Se o Vega tem outra solução para lidarmos com este problema partilhe-a, por favor, quanto mais informação melhor.

  28. *sigh* bom, vou fazer um resumo: a guida pelos vistos não tem filhos, nunca educou nenhum, a sua experiência nisso resume-se a conversas “com crianças que conhece bem” (a.k.a. sobrinhos), não é professora, sexóloga ou psicóloga, é uma grande adepta de “mais informação” mas não sabe qual é que se deve dar, embora ache que as crianças sabem exactamente o que é um pedófilo, uma vez que já ouviram tudo nos telejornais, pelo que também não é claro o que é que lhes quer esclarecer mais, mas sabe que “alguém” devia fazer “alguma coisa”, porque se não fizermos “alguma coisa” então é porque preferimos que nada se faça.

    E no entanto não hesita em afirmar que eu (perdão, nós) tenho “um grande caminho a percorrer”, e que cometo erros na educação dos meus filhos.

    guida, tem sido um prazer falar consigo, embora ache que saímos daqui a discordar num ponto essencial: a guida acha que a prevenção e solução do problema da pedofilia passa de alguma maneira também pelas crianças, por isso quer esclarecê-las para que fiquem alerta, vigilantes, atentas. Pode haver quem concorde consigo. Eu não concordo, porque acho que no respeitante à sexualidade as crianças têm o direito essencial à despreocupação, a terem uma infância livre de angústias nessa matéria. Não estou disposto a sacrificar esse direito por causa de uns quantos anormais. Apesar de afectar crianças, acho que é um problema a ser resolvido exclusivamente pelos adultos. E acho que até à puberdade a educação sexual se deve centrar nos aspectos positivos, não nos negativos.

  29. Vega, está mais interessado em discutir-me a mim do que o problema (aka pedofilia). E assim vai cometendo erros, inevitavelmente. É verdade que tenho sobrinhos, mas as crianças que “conheço bem” são os meus filhos. Dois, um filho e uma filha. Se tivesse dito que são meus filhos e que os conheço muito ou extremamente bem, o Vega nesta altura, provavelmente, estaria a dizer-me que estas conversas só são possíveis se forem os pais a tê-las, e que os professores e outros técnicos devem ficar de fora. Não penso assim, de facto, penso que basta conhecer ‘bem’ as crianças. Por outro lado, não estou certa de que os conheça extremamente bem, os malandrecos passam a vida a surpreender-me, se fossem do tipo transparente, isso não acontecia. E depois não quero passar a ideia de que os pais que têm ou tiveram filhos vítimas de pedófilos são piores pais do que eu, e que tal só aconteceu porque não conheciam suficientemente bem os filhos e não se aperceberam dos sinais. Pode acontecer a qualquer um, e tanto a vítima como o agressor podem ser pessoas que julgamos conhecer extremamente bem. Essa é a grande dificuldade do problema, não conseguimos detectá-lo facilmente.

    Quanto à sua teoria que defende que a sexualidade só é uma preocupação a partir da adolescência, creio que qualquer sexólogo lhe pode explicar que está errada e que não tem correspondência com a realidade. E continuo a defender que as crianças têm o direito a aprender mais sobre a sua sexualidade. Se ‘alguém’ os ajudar a percebê-la sem complexos ficarão melhor preparados (por exclusão de partes) para se defenderem.

  30. guida, tem sido uma conversa interessante, como já lhe disse, mas acho que vamos parar por aqui, porque começamos a andar em círculos com os argumentos, e já percebemos que temos posições diferentes nesta matéria. Haverá certamente outras oportunidades, até porque gosto desta tasca e das pessoas que a frequentam, guida incluída.
    Dito isto, não estou nada interessado em discutí-la a si, se a desafio a dar respostas é porque acredito que não há nada melhor do que um cenário real para testar teorias, e verificar que as boas intenções são muitas vezes muito complicadas de pôr em prática. Que era, no fundo, a intenção original da minha pergunta: “como é que se preparam crianças de 8 anos para o caso de serem abordadas?”. Vários dias depois, não chegámos a conclusão nenhuma. Você defende uma vaga noção de “mais informação” sem especificar, eu continuo a achar que é um problema de adultos a ser tratado exclusivamente por estes sem envolver demasiado as crianças. E se cometo “inevitavelmente” erros, não os cometa a guida a seguir assumindo que eu “provavelmente” lhe diria X ou Y, e não ponha palavras que eu não disse na minha boca (ou neste caso, no teclado). Quanto à minha teoria sobre as preocupações sobre a sexualidade, como é que a guida transforma a frase “acho que até à puberdade a educação sexual se deve centrar nos aspectos positivos, não nos negativos.” em “a sexualidade só é uma preocupação a partir da adolescência” é para mim um completo mistério, a não ser que os séxologos defendam que se deve falar de doenças sexualmente transmissíveis, de violações e de gravidez indesejada (para dar alguns exemplos do que considero os aspectos negativos da sexualidade) a crianças de 8 anos, ainda longe de iniciarem uma vida sexual activa. Desconheço se assim é, mas se for alegremente me coloco na posição contrária. Fará, talvez, parte do meu “longo caminho a percorrer”. Tudo bem, o caminho é meu, eu percorro. Desde que não me queiram empurrar.

  31. Vega, nós não estamos em posições contrárias. Ambos gostaríamos que esta maldita palavra (pedofilia) nem sequer existisse, quanto mais ter de a explicar às crianças. Divergimos na questão de deixar ou não as crianças de fora. O Vega acha que os adultos hão-de resolver o problema sozinhos (não disse como), e eu penso que é impossível deixá-las de fora uma vez que são elas o alvo e são elas que têm de decidir se aquele comportamento que subitamente um adulto (em quem confiam) assume é ‘normal’. Os pedófilos exploram a ignorância delas, não é Vega? Obviamente, não tenho nenhuma fórmula mágica para resolver isto, daí sentir necessidade de ‘mais informação’. Ainda não percebi que mal encontra o Vega nisto, no problema ser discutido e que da discussão resulte mais informação. Foi por aí que comecei, se o Vega ler o que digo no meu primeiro comentário lá em cima.
    Quanto aos erros nesta discussão, também estamos empatados, como é óbvio, a diferença é que o Vega é mais simpático e não me apontou tantos, mas eu fartei-me de os ver nos meus comentários (deve ser porque agora de cada vez que abro o Aspirina aparece uma mensagem a informar-me que a página tem erros. Olha a novidade!). Sendo assim, com tantos erros temos (todos) um longo caminho a percorrer, só não seria assim se já tivéssemos a solução, e não temos.
    Por fim, dizer-lhe que também gostei de conversar consigo e dizer-lhe que não é assim tão difícil falar deste assunto com as crianças, elas próprias têm necessidade de perceber o que ouvem acerca do assunto e não ficam ‘traumatizadas’, são crianças entra-lhes por um ouvido e sai-lhes pelo outro.

    Tenho tido mais dificuldade em explicar ao meu filho (que vá lá saber-se porquê é sportinguista) que o Sporting já ganhou campeonatos e é o melhor clube do Mundo. :)

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