Os sinais e o fogo

A 1ª parte, para vingar, tem de fornecer um produto jornalístico de excelência. Trata-se de pequenas sínteses sem contraditório, pelo que estamos dependentes da boa-fé e ousadia das investigações. Se resultar, como no caso da problemática das mortes hospitalares ao fim-de-semana, pode acordar a sociedade e os responsáveis. Pelo menos, será muito estranho que o assunto não tenha desenvolvimentos.

A 2ª parte, se repetir a qualidade desta entrevista com Sócrates, é uma fraude. É inaceitável que o super Miguel Sousa Tavares vá discutir o caso mais importante do momento com o seu principal protagonista político e cometa a calinada de pensar que o Rui Pedro Soares era uma escolha solitária de Sócrates e figura caída do céu, sem qualificações, para a PT. Acresce que o seu tom foi o de promiscuidade desleixada com o entrevistado, quando o que se pede com Sócrates – tanto por ser o Primeiro-Ministro como por ser combativo na discussão – é uma preparação técnica igual ou superior nas matérias onde se quer ir ao fundo dos problemas.

Bons sinais na 1ª parte, entrevistador queimado na 2ª parte.

Génio de Carvalhal

Mais nenhum treinador no Mundo faria o que o Carvalhal está a fazer, desafiando os deuses do futebol. E é isto: abdicar da terceira substituição. Nos últimos jogos, apenas se trocam dois jogadores. Há jogadores que se arrastam estafados, ou desorientados, e, mesmo assim, têm de aguentar sem ir para o banho mais cedo. E porquê? Por um lado, para que se cumpram os objectivos de lutar pela manutenção do 4º lugar. Ora, se o 4ª lugar estivesse garantido, isso seria mau para a bilheteira. Tem de se introduzir dramatismo e levar a equipa a ter mesmo de se esforçar, talvez até a ficar sob a ameaça de acabar em 5º, 6º ou 7º lugar. Por outro lado, porque assim não joga o Vuk. Isso também é coerente, pois o Saleiro, o Djaló, o Veloso e o Moutinho garantem com muito maior eficácia a realização deste plano.

Igualmente fascinante é o facto de à entrada dos reforços de Inverno ter correspondido o início do ciclo das derrotas e dos empates. Mais uma inovação de Carvalhal, escusam de procurar exemplo sequer aproximado.

És estúpido ou comes merda às colheres?

Filipe Nunes Vicente é um atento e entusiasta leitor do Aspirina B. Delicia-se com as referências aos ranhosos e aos imbecis e entra em êxtase quando se fala aqui do Louçã. Para além deste quadro já complexo o suficiente para ocupar uns 5 a 10 minutos de conversa, a vexata quaestio da sua predilecção é a do anonimato na Internet. Os anónimos são cobardes, diz ele cheio de bravura. Mas quem são os anónimos, para este labrego? Até hoje, não sabia. Por exemplo, não sabia o que ele diria dos milhares de casos em que os nomes dos autores lhe são tão desconhecidos como um qualquer pseudónimo, tal como não sabia se o pseudónimo de alguém que ele conhecesse continuaria a ser um caso de anonimato. Tais dúvidas, felizmente, foram hoje desfeitas. Assim:

“O Abraval é um cobarde de merda que tem medo de assinar o que escreve. Diz-me onde moras e vou lá ter contigo.”

Cá está: o antídoto para o anonimato é a morada. Isto esclarece, definitivamente, o problema. E permite dizer-te, Filipe, que a minha morada está à tua disposição. Só tens de a pedir com modos e ela chegará ao teu conhecimento. É como numa qualquer situação social, vou presumir que já tiveste algumas. Também nos podemos encontrar num local a combinar. Estou cansado de te ver a sofrer tanto com a falta de moradas na blogosfera e farei o que for possível para te ajudar.

Sim, o título expressa com rigor o que penso do teu caso.

Vinte Linhas 453

Ruslam Botiev – do cavaleiro da Mongólia ao cavaleiro Português

Ruslam Botiev provavelmente nunca leu «A última corrida de touros em Salvaterra» mas não precisa. A sua intuição de homem de artes diversas (escultura, óleo, aguarela, borras de café, etc.) levou-o a cedo perceber a respiração da corrida de touros à portuguesa.

Depois de alguma vagabundagem pela zona do Chiado e da Rua do Carmo, assentou arraiais no Largo do Carmo, à sombra do quiosque. Digo sombra mas também se trata de proteger os seus quadros da chuva. Ele tem o cuidado de os proteger com o plástico mas o vento também os ataca e é preciso evitar mais estragos dos pingos de chuva.

Disseram-me no Largo do Carmo que vai haver uma exposição dos trabalhos do Ruslam Botiev mas não me explicaram se é na Universidade Clássica ou na Nova. A seu tempo saberemos.

Este Largo do Carmo diz-me muito: quando lá andei a estudar nos anos 60 ainda havia uma memória muito viva do poeta Sebastião da Gama. Como professor deixou um rasto de luz e de bondade atrás da sua figura que ainda lá continua nos corredores da Veiga Beirão. Agora a Veiga Beirão não existe mas continua no afecto de quem lá estudou.

Hoje trouxe este desenho que quis compartilhar com todos vós. Ainda estou a aprender mas a imagem dá uma ideia embora não passe de uma cópia electrónica.

Depois da «Porca de Murça» e do «Fernando Pessoa», depois do «Eléctrico 28» e da «Tourada à Portuguesa», Ruslam Botiev não pára e vai descobrindo novas séries de desenhos. Sua maneira de dizer «Bom dia Portugal!», todos os dias.

Voltar da Madeira

Ah! Foi precisa esta agonia
para afinal apercebermos
que tudo quanto dividia
as nossas vozes poderia
harmonizar-se em litania
aos moribundos e aos enfermos …:
– que só na última agonia
irmãos e unânimes seremos!

David Mourão-Ferreira

Oferta da nossa amiga nanda

*

Pedro Sales, conhecido activista de um partido que votou a favor do envio de mais dinheiro para o Alberto João adentro da lei das Finanças Regionais, usou uma fotografia da catástrofe para atacar Sócrates. A tese é a de que algo de muito errado se passou neste sábado para que o encontro com os militantes, no Porto, não tivesse sido anulado face às notícias que iam chegando da Madeira. De facto, essa é uma situação que permite dúvidas do foro moral, podemos questionar o sentido de tal decisão, a polémica irrompe fatal. O que já não podemos fazer, se existir honestidade intelectual, é negar as evidências.

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Chegar à Madeira

Quando há uma catástrofe, há uma injecção de sanidade. Durante um curto período, o que mais importa une vontades, une adversários, liga o disperso, faz acontecer, resolve.

Haverá alguma forma de alcançar a mesma reunião de capacidades sem termos de esperar pela próxima catástrofe?

Anónimos à força

Para além do voto ser secreto – ou seja, anónimo – a Internet também é avessa a identidades. Isto porque não há forma de garantir que aos caracteres digitais correspondam cara e carácter. Qualquer um pode imitar qualquer outro, até um endereço de email pode ser falsificado ou usurpado. Aliás, a possibilidade de brincar num baile de máscaras, assumindo diferentes personalidades ou permitindo-se excessos, é um dos fascínios do meio e factor da sua imediata popularidade. Só um labrego é que chegaria ao ponto de vir para a Internet fazer queixinhas dos anónimos, o equivalente a ir para uma praia de nudistas protestar contra o exibicionismo. Qual será a proposta seguinte destas alimárias, um código de barras na testa não vá alguém começar a dar palpites na via pública sem estar devidamente identificado?

A perseguição aos anónimos, que faz parte da pulhice e indigência intelectual que marca a oposição, fez do Câmara Corporativa, do Jugular e do Aspirina B os exclusivos alvos por serem blogues que permitem alimentar uma conspiração anti-Sócrates – mais uma, a enésima. O irresponsável Pacheco é o mais importante cultor desta tosca mentira, o resto um bando de marias-vão-com-as-outras que dirão qualquer coisa, não importa o quê, desde que tal não lhes exija exercícios neuronais. O paroxismo na sanha foi atingido quando se passou a considerar o uso de pseudónimo como equivalente ao anonimato. O raciocínio é o seguinte: não sei quem é a pessoa que assina assim ou assado, logo, é um anónimo. Trata-se de um pensamento à cabo de esquadra, com bigode farfalhudo e pança cheia de ar.

Entretanto, surgiu uma nova modalidade neste desporto: o anonimato à força. É o que faz o Luis Rainha, nesta nugacidade. O Luis comenta um texto meu, mas sem me nomear. Será já o tal ostracismo, de que fala o Lomba, a funcionar? Começa por se apagar o nome dos registos oficiais, depois riscam-se os baixos-relevos e acaba a partirem-se as estátuas? Acontece que o Luis é o principal responsável por eu escrever neste blogue, foi ele que me convidou para o projecto no Verão de 2005. Jantámos duas vezes, talvez ainda tenha o meu número de telefone e emails pessoais – e sabe tudo a respeito da minha profissão, que continua a ser a mesma apesar de não ser com os mesmos à época. O Luis é um de vários ex-autores do Aspirina B que me conhecem com este detalhe de informações biográficas. E outros deste grupo de autores até conhecem muito mais a meu respeito, pois somos amigos. Não há nada de secreto na minha vida que não o seja na de todos. No entanto, este indivíduo não é capaz de me nomear – sendo que Valupi é um dos meus nomes, aquele que escolhi para este meio dentro da liberdade de me dar uma alcunha. Noutros lugares tenho outras alcunhas. Alguns colegas de rua, escola e meio profissional só me conhecem por alcunhas, nunca precisaram do BI para me apertar a mão.

Enfim, perante tanto moralista de archote na mão e nariz empinado, quem pergunta sou eu: mas quem são estes gajos?

Vinte Linhas 452

Pequena dissertação para um retrato de menina

A mulher-menina fixa o olhar num retrato de menina-mulher no lado esquerdo da secretária na tarde onde, devagar, declina o Sol de Fevereiro que todos os dias acrescenta um minuto ao tempo da luz.

Tem dez anos de idade essa menina-mulher que não conheço mas sei que existe, porque senti no seu olhar contido no rectângulo do retrato, a força e a cor de uma bandeira, o timbre altivo de um clarim, o mapa colorido e vário de um país sentimental.

Na organizada confusão do tampo da secretária, entre telefones e lembretes, entre telemóveis e faxes com anotações de «urgente» no cabeçalho, a única urgência é a ligação entre dois tempos: a mulher-menina recorda o seu tempo de menina-mulher quando tinha a idade da filha cujo retrato se fixa num rectângulo de luz de ouro.

Havia nesse tempo uma Cadeia, o fumo na chaminé da fábrica de cerâmica, carros de um só boi conduzidos por presos de confiança que empilhavam com paciência os tijolos ainda quentes nas tábuas do carro. De vez em quando passava uma camioneta que vinha carregar telha para as obras de um palácio da Justiça – quando a Justiça ainda vivia em palácios e não em páginas de jornal que terminam no fundo dos caixotes de lixo.

Havia nesse tempo recreios separados de raparigas e de rapazes, falava-se na Telescola para quem não podia ir estudar para a grande cidade, ainda se dizia quarta classe em vez de quarto ano, ainda havia o exame de admissão ao Liceu e à Escola Técnica.

Na luz que o Sol inunda na tarde sem fim do escritório, o sorriso da mulher-menina é uma agrafe gigante de ternura húmida a ligar o seu olhar ao retrato da menina-mulher.

Animus dolandi

A Fernanda escreve acerca do Miguel Abrantes. Mas não só: a Fernanda também escreve acerca de uma elite decadente – um grupo de pessoas, da direita e da esquerda, que escrevem em blogues políticos para se entregarem a perseguições difamatórias.

Mas é assim. É de todos os tempos. Só nos resta garantir que não será de todos os lugares.

Vara não engana

Assisti a toda a sessão da Comissão de Ética com Armando Vara. Não detectei nenhum sinal de que estivesse a mentir. Claro que pode ter mentido, qualquer ser humano pode mentir sem ser detectado, eu é que não topei qualquer manifestação disso. Vara parece-me genuinamente indignado e dá explicações que são lógicas. Para ir mais longe, só com uma investigação policial (como, por exemplo, para investigar as decisões de investimento publicitário).

Como regra de conduta, aconselho a que não se confie naqueles que fazem de Vara um bombo da festa. É como o teste do algodão, mas sem necessidade de sujar o algodão.

Bipolaridade

Felícia Cabrita, e com toda a razão, queixou-se de calúnias lançadas contra si onde se alegava que obtinha informações adentro de relações íntimas com polícias e magistrados. Disse:

Este tipo de pressão é das mais infames que se pode assistir, sem terem em conta que era casada e tinha uma filha.

Acontece que ela, e o órgão de informação onde trabalha, lança sistematicamente calúnias contra pessoas que também estão casadas, têm filhas, têm filhos, têm pais, têm amigos, têm colegas, têm vizinhos, têm bom nome, têm dignidade, têm honra.

A Felícia devia consultar um especialista. Ou dois.

Política da espionagem

É o sonho de qualquer político: conseguir que uma investigação legítima a um caso de corrupção permita escutar os adversários num ano triplamente eleitoral e tendo a sorte de se ter encontrado matéria para abrir uma outra investigação a tempo de influenciar os resultados eleitorais ou para explorar a decisão de não abrir essa mesma investigação no período posterior às eleições. O mais difícil, ou nem por isso, é inventar o caso adequado, de modo a que todos os magistrados envolvidos saiam impolutos de qualquer suspeita – em Aveiro, eles apenas começaram por ir à procura da sucata, o ouro foi encontrado absolutamente por acaso.

É uma situação original, tanto para a Justiça como para a sociedade. Obriga a encontrar soluções novas, como o Presidente do Supremo e o Procurador-Geral já começaram a fazer no seu âmbito. Os partidos ainda revelam não saber como aproveitar as benesses oriundas das revelações geradas pela comunicação social, sendo que o PSD é o exemplo mais interessante por ser o mais contraditório: diz que há crimes mas nada faz para os apurar ou sancionar. Esta postura permite concluir que o PSD prefere manter o assunto como permanente foco de desgaste de Sócrates e do Governo, não sendo do seu interesse que ele desapareça da agenda mediática. Os restantes partidos da oposição vão a reboque desta estratégia, todos procurando abater Sócrates.

A oposição não esclarece os portugueses quanto às formas como vamos resolver os problemas nacionais, por um lado, e faz da sua actividade um constante boicote da actividade governativa, pelo outro. Os partidos da oposição tratam o Governo como um corpo ilegítimo, preenchido por pessoas criminosas e incompetentes. Não há nada que o Governo faça bem ou que seja suficiente. Se não fala acerca das notícias, dizem que o Governo não esclarece. Se fala, dizem que o Governo não governa. Para cúmulo, não querem que o Governo se demita nem querem que o Governo cumpra o seu programa. As lideranças partidárias na oposição são o espelho de um país disfuncional.

A redução da política à devassa da privacidade é um legado desta oposição. As consequências são imprevisíveis. Mas algumas poderão ser excelentes, assim saibamos reconhecer que não é este o Portugal que merecemos e queremos.

Raposinhos

Portugal não tem apenas uma, tem duas Fox News: a TVI e a SIC. Mas pode vir a ter mais. Passos Coelho pretende vender a RTP a um outro capitalista qualquer. Creio que esta intenção configura a existência de um plano para dominar a comunicação social. Todinha.

Pacheco prepara adesão ao Bloco

Isto do Pacheco estar no PSD é um erro de casting. Não foi um acaso a alergia que a sua presença sempre causou no povo social-democrata, trata-se de uma aversão que nunca como agora foi tão marcada. Exemplo? Nesta última edição da Quadratura, o marmeleiro declarou a inutilidade de continuar com a Comissão de Ética. Ora, esta é uma iniciativa do PSD, presidida por um deputado do PSD. Depois, afirmou que se deve viabilizar a comissão de inquérito que o BE pretende. Essa, sim, é que vai conseguir entalar o engenheiro. Entretanto, o mesmo BE incluiu Fernando Lima na lista de audições na Comissão de Ética. Será que o Pacheco também está sintonizado com essa escolha ou, pelo contrário, é por causa dessa e outras escolhas que pretende acabar com a coisa? Nunca o saberemos.

Mas ficámos a saber algo muito mais importante. Pacheco partilhou a sua suspeita de que Sócrates trocou de telefone ao ser avisado de estar a ser escutado e que foi só após essa troca que foi gravada a conversa onde ele se mostra contrariado por não ter sido avisado da intenção de entrada da PT na Media Capital. Assim, um dos argumentos do Procurador-Geral para ilibar o malandro pode não passar de uma farsa, foi divulgado em primeira mão na SIC Notícias. Muito bem, temos Sherlock.

Acontece que também temos deputado. Como é que um deputado da oposição convive com uma suspeita – expressada em forma de certeza – deste calibre? Não pode um deputado do meu país denunciar no Parlamento um Primeiro-Ministro acerca do qual garante estarmos perante um criminoso, em vez de ter de andar pelas televisões a espalhar suspeições, coitadinho? Talvez tudo fosse mais fácil se o Pacheco mudasse para a bancada do BE. O ódio a Sócrates é exactamente igual nos dois partidos, mas o Bloco está mais avançado no processo de explorar as escutas até à última gota de sangue socialista.

O ex-maoísta, actual mauísta, anseia por regressar ao frenesim revolucionário. A Manela foi apenas um estádio dialéctico, o penúltimo, do seu percurso.

Semiótica da Política de Verdade

Quando eu levantei essa questão não tinha conhecimento de nenhumas escutas. As escutas neste momento vêm simplesmente confirmar aquilo que foi dito apenas na base dos sinais, sinais esses que eram evidentes.

Ferreira Leite

*

Na Política de Verdade a honra alheia, ou a mera legitimidade política, é uma questão de emissão e recepção de sinais. Seja, pois. Nesse caso, quais foram os sinais recolhidos em Junho que permitem confirmar o que vem nas escutas? Ou ainda melhor: o que é que vem nas escutas?

A presidente do maior partido da oposição está a dizer uma de duas coisas: (i) que conhece as escutas e as avaliou de forma suficiente para fundamentar a sua acusação; (ii) que é legítimo utilizar para fins de combate político notícias não confirmadas pela Justiça, as quais constituem enquanto matéria publicada um acto criminoso, e nas quais se apresentam alegados fragmentos de escutas relativos a uma fase de um processo judicial. Em qualquer dos casos, estamos perante um curto-circuito na epistemologia da política, a qual não deve utilizar escutas como arma de arremesso sob pena de fazer ruir o Estado de direito. Qualquer escuta é uma violência que gera violências – e ter de verbalizar esta evidência é bem o sinal da tragédia que a divisão partidária actual gerou. Se os critérios de legitimação dos governantes decorrem da interpretação que as oposições façam de escutas à privacidade desses mesmos governantes e equipas subsidiárias, então a Constituição deixa de ser válida, o sistema de Justiça será trocado por tribunais populares. O PS, face a estes ataques que já provaram não ter limites cívicos ou éticos, encontra-se isolado na defesa da legalidade e da democracia. À sua volta prepara-se a carnificina, num desses momentos da História onde a cobiça leva à cegueira.

Voltemos à Manela. Ela diz que Sócrates mente, logo que tem um plano para condicionar a comunicação social e que há factos que o provam. E vai mais longe:

Não há um português que não esteja desconfiado da isenção e da independência da justiça em relação ao Governo. Pela sua atitude, por todos os mistérios em que tem estado envolvido e esses mistérios não se desvendarem, leva a que as pessoas pensem que a justiça tem algo que não está correto na sua actuação.

Ou seja, o Governo tem um plano para acabar com a liberdade de imprensa e a Justiça é cúmplice dessa manobra. Ao mesmo tempo, o PSD viabiliza o Orçamento, não apresenta uma moção de censura e nem sequer propôs uma comissão de inquérito parlamentar para investigar os abundantes factos indiciando crimes variados, lembrou-se apenas da Comissão de Ética em resultado do raio do Sol e ficou-se pela abstrusa questão da liberdade de expressão.

Pergunta: tendo em conta estes sinais, não seria altura de encerrar o PSD por básico respeito pela Política de Verdade?

Vinte Linhas 450

O nome do cavalo inglês era bem português

Este cavalo retintamente inglês foi o vencedor do derby «Great St. Leger» em 1815. O seu proprietário era o fidalgo inglês Sir W. Maxwell. Ora acontece que o dono do cavalo quando o baptizou não fazia a mínima ideia do real e profundo significado da expressão. Porque de uma expressão se tratava: o bom do tratador português ou porque se sentisse mal pago ou porque o cavalo fosse mesmo insuportável, ia dizendo enquanto esfregava e penteava o belo cavalo – «Ai o filho da puta! Ai o filho da puta!».

Hoje lembrei-me desta velha história porque vi na televisão uma cavalgadura a fazer uma triste figura e a dar uns coices repugnantes. E já não é a primeira vez. Foi essa mesma cavalgadura que deixou passar sem punição o golo francês duas vezes irregular pois Thierry Henry tocou a bola com a mão antes de o seu colega facturar o golo que ditou o abandono da República da Irlanda do Campeonato do Mundo da África do Sul.

A coisa teve hoje requintes de malvadez. Perante a gravidade da decisão tomada (marcação do livre contra a equipa inglesa) o árbitro deveria ter tomado uma atitude minimamente digna. Seguraria a bola com a mão e esperaria que se formasse a barreira. O guarda-redes estava muito longe da baliza, ainda surpreendido com a decisão – que não discuto. O que é indiscutível é que o árbitro foi (pelo menos) parcial ao pegar na bola e entregar a mesma a um jogador de azul e branco que não se fez rogado: mesmo perante o absurdo da situação com o guarda-redes fora (e bem fora) da baliza pôs a bola a rolar e ela entrou na baliza. Pudera… o guarda-redes não estava lá! Ao menos o do golo contra o Sporting num lance parecido ainda esperou pela formação da barreira…