Voltar da Madeira

Ah! Foi precisa esta agonia
para afinal apercebermos
que tudo quanto dividia
as nossas vozes poderia
harmonizar-se em litania
aos moribundos e aos enfermos …:
– que só na última agonia
irmãos e unânimes seremos!

David Mourão-Ferreira

Oferta da nossa amiga nanda

*

Pedro Sales, conhecido activista de um partido que votou a favor do envio de mais dinheiro para o Alberto João adentro da lei das Finanças Regionais, usou uma fotografia da catástrofe para atacar Sócrates. A tese é a de que algo de muito errado se passou neste sábado para que o encontro com os militantes, no Porto, não tivesse sido anulado face às notícias que iam chegando da Madeira. De facto, essa é uma situação que permite dúvidas do foro moral, podemos questionar o sentido de tal decisão, a polémica irrompe fatal. O que já não podemos fazer, se existir honestidade intelectual, é negar as evidências.

Sócrates não é só Primeiro-Ministro, é também Secretário-Geral do PS. O Primeiro-Ministro já tinha a viagem agendada para a Madeira, apenas esperava a permissão para voar. O Secretário-Geral, então, devia ter ficado sem cumprir a sua agenda? Se sim, porquê? Sales não explica, apenas faz a exploração sensacionalista, demagógica e difamante do facto. Nem sequer o exemplo dado colhe, pois, no caso da arriba em Albufeira, a interrupção da agenda não foi por luto, mas para a deslocação ao local. Neste caso da Madeira, essa deslocação não estava a ser impedida, ou atrasada, por causa do encontro com os militantes.

O que aparece inquestionável no que Sales escreve é a utilização das vítimas como arma de arremesso. Fez-se este ataque à esquerda e à direita, os espasmos de ódio e oportunismo vil transcendem os territórios ideológicos. Estas pessoas não irão mudar, há que o reconhecer sem pesar, lúcidos. Continuarão a considerar-se no direito de fazer política apenas com tentativas de assassinato de carácter, utilizarão futuras desgraças caso vislumbrem um ganho. Que podemos nós fazer? Muito.

Muito podemos fazer para introduzir civilidade na política. A maior parte das pessoas que se considera desgostada com a belicosidade partidária, ou que não se revê nesta cegueira que faz do abate de um homem o único propósito do combate político, é muito superior em quantidade aos que actualmente alimentam as campanhas de ódio. Esses – e pouco importando onde acabem por votar – anseiam por uma racionalidade baseada na ética, não este permanente estado de guerra civil. Não se trata de anular a conflitualidade, até porque seria impossível, mas de a transformar numa parte da solução. Podemos começar pela intransigência com que nos defendemos das calúnias, a mesma que Heraclito mandava ter na defesa das leis da cidade.

Tal mudança cultural tem de começar por algum lado, sendo certo que não irá começar pelo Pedro Sales e demais franco-atiradores.

19 thoughts on “Voltar da Madeira”

  1. Tal Pedro Sales tal valupi não abdicam de nenhuma oportunidade para atingir os seus fins, dando, erradamente a entender que estes justificam os meios. Enfim……

  2. A prontidão e eficiência em que a grande quantidade de lama fornecida por este tragico acontecimento foi aproveitada pelo pessoal do Bloco mostra uma frieza e ausência de sentimentos que só o ódio não consegue explicar.É estalinismo, é animalesco.

  3. Se Sócrates adiasse o encontro com os militantes no sábado passado no Porto, os seus detractores, Pedro Sales e quejandos, diziam: Sócrates quer fazer as pazes com o povo Madeirense, sobre a lei das Finanças Regionais e, usa esta catástrofe para tirar dividendos políticos. Se, se desse o inverso diziam: temia que a reunião fosse um fiasco.
    Estes fazedores de opiniões opinam para qualquer lado. Tudo vale para fazer gincana política. Vamos para longe com gente assim.

    http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1501027&seccao=Madeira

  4. O Bloco de Esquerda cada dia que passa fica, moralmente, mais atascado em “lama”. Não me arrependo de nele ter votado, convictamente, durante dez anos. Acontece simplesmente que, entretanto, cresci, casei, fui Pai de dois Filhos e olho para o Futuro, hoje, com olhos mais maduros. A pressentida proximidade da velhice dá-me já a capacidade de intuir que com o ódio, ainda que possa às vezes conseguir-se a destruição de algum mal, nunca se poderá criar nada de bom, o que só é possível através do Amor e da Caridade (que, como muito bem explica S. Paulo, na sua fabulosa Segunda Epístola aos Coríntios, são duas faces duma mesma moeda), que são porém qualidades que, infelizmente, não foram de todo concedidas aos dirigentes actuais do Bloco de Esquerda.

  5. Val,

    Curioso que não tenha dito o mesmo sobre o que se tem escrito em igual sentido no Jugular ou pelo Paulo Pedroso. Enfim, critérios.

    Mas a minha dúvida e a razão porque aqui escrevo é outra. Qual é o sentido que faz, neste contexto, a sua referência ao Bloco de Esquerda? Acaso o Bloco disse alguma coisa parecida com o teor do meu post, ou foi só para conseguir o efeito que se está a ver nesta caixa de comentários? Mais a mais acho engraçada tanta preocupação com a contextualização das posições de uma pessoa com base na sua actividade quando, como se sabe, o Valupi escreve no anonimato…

    Depois, falar de ética e de belicosidade, como faz, dois posts antes de chamar labrego a uma pessoa a quem recomenda que coma merda às colheres chega a ser cómico e patético.

  6. Pedro Sales, agradeço o teu comentário. Vamos lá:

    – Julgo que te estás a referir à opinião da Isabel Moreira, no Jugular. Não consta que ela tenha usado uma fotografia da catástrofe para ilustrar um ataque de carácter. Aliás, não consta que ela tenha feito um ataque de carácter, sequer. O mesmo para o Pedroso.

    – A referência ao Bloco é para contextualizar a opinião em comentário. Tu és do Bloco, pelo que as tuas opiniões, seja de que forma for, relacionam-se com essa dimensão da tua vida pública.

    – Por que razão dizes que escrevo sob anonimato? O que é para ti o anonimato?

    – Chamar labrego e mandar comer merda a quem nos faz uma provocação gratuita e desmiolada é um acto de belicosidade ou uma falha ética? Então, como te adjectivas a ti próprio, tu que utilizas os mortos da Madeira para obter um qualquer ganho de baixa política?

  7. Val,

    A fotografia tem a ver com a tragédia que ocorria na Madeira, que o primeiro-ministro ou secretário-geral do PS já conhecia às 17 horas quando decidiu manter o comício para “malhar” na oposição. Ou seja, enquanto se contavam já 30 mortos na Madeira, e Sócrates sabia-o pois até já tinha comentado a tragédia para a imprensa, o secretário-geral do PS preferiu animar as hostes, que agitavam bandeiras do PS, e animar a malta. parece-me mal. simples. Há momentos para tudo. Paulo Portas cancelou a agenda nesse dia. Parece-me bastante mais sensato.

    É isso que critico no post. A falta de tacto e de bom-senso de José Sócrates. Aproveito para pedir para que refiras uma única linha onde é feito o ataque de carácter a que te referes.

    Dizes que eu sou do Bloco e que isso contextualiza a minha opinião, mas não assinas com o teu nome. (de resto, não sei como é que contextualiza quando, como é sabido, o Bloco não fez nenhuma referência ao assunto) Mas, quem sabe se assinasses com o teu nome não podiámos também contextualizar a tua posição? Sei lá se a empresa onde trabalhas faz, ou não, campanhas publicitárias para o governo da república ou da Madeira? Para quem gosta tanto de “contextualizar” era capaz de ter a sua piada sabê-lo.

  8. Gostei muito do argumento do Pedro Sales. A juntar ao nome que consta no BI e morada acrescenta-se o local de trabalho. E se nada disso justificar o facto de não se atacar Sócrates, continuamos à procura. Talvez algum familiar ou amigo tenha alguma relação com o Governo, esmiuça-se tudo. O que não se admite é que alguém não ataque Sócrates sem um interesse qualquer, monetário de preferência.

  9. Cara Guida,

    Se houve alguém que aqui fez referência ao local de trabalho, completamente a despropósito, foi o Valupi no seu post, ou não reparou? Se achamos que esse dado é irrelevante, e é uma opinião como outra qualquer, não desatamos a falar do que fazem os outros para “contextualizar” enquanto nos mantemos no anonimato. Parece-me simples.

  10. Pedro Sales, agradeço continuares à conversa. Vamos lá:

    – As expressões que configuram o teu ataque ao carácter de Sócrates são estas: “entendeu por bem continuar a sua agenda partidária como se nada fosse”; “Bom senso esse que parece agora estar de todo ausente das prioridades do primeiro-ministro”; “o céu pode desabar que José Sócrates continua a falar para “os seus” como se nada fosse”; “A falta de tacto chega a ser chocante.”

    – Trata-se de um discurso fulanizado, psicologista e moralizante. Que se pode entender do “como se nada fosse”? Que sabes tu das decisões tomadas e dos sentimentos não expressados? Apenas aproveitas o facto de ter existido esse encontro nesse dia e nessas horas, e colas com uma situação paralela e para a qual haveria um desfecho político já anunciado: o Primeiro-Ministro iria à Madeira dentro de horas.

    – Dizes que eu falei do teu local de trabalho, mas se o fiz foi inadvertidamente – ou ser activista é agora uma profissão? Referia-me às tuas posições públicas, as quais incluem o blogue Arrastão, também palco da tua militância política. E liguei à temática da Madeira para realçar um caso de contradição e duplicidade de critérios. Este é o contexto onde comento uma posição tua que também é do foro político.

    – Se queres saber onde trabalho, os dados do BI e pedir uma fotografia autografada só tens de entrar em contacto comigo e fazer esses pedidos. Logo veremos se são satisfeitos. Mas não há nada de secreto a meu respeito e são várias as pessoas que te rodeiam, ou com quem te cruzas, que me conhecem com esse grau de informação a que aludes. Não sou uma figura pública, e isto não passa de um blogue privado. É só por isso que não me conheces, como não conheces milhões de outros portugueses (imagino).

    – A decisão de não cancelar a agenda é passível de críticas, isso é inegável. Mas tal não justifica o aproveitamento demagógico e sensacionalista que tu fizeste. A utilização da foto é do domínio do obsceno, tendo em conta a finalidade da mesma. Depois vieste com o exemplo do PS e do BE (cá está mais uma razão para realçar o teu activismo) onde fazes mais uma falácia: as actividades foram interrompidas, no caso do PS, para que os dirigentes se deslocassem ao local, não por comoção e recato.

    – Eu não falei da posição do Bloco, falei da tua que, e por várias razões, representa a opinião dos militantes do Bloco. Não quero dizer que a tua se substitua à de qualquer outro, quero é dizer que a tua opinião é típica do pensamento e valores do Bloco. Não há nisto qualquer referência à tua profissão que nem sequer sei qual é na sua especificidade. Mas já te vi na TV a opinar, e não creio que estivesses a ser pago para tal (mas corrige-me se estiver enganado).

  11. Pedro Sales, o Valupi faz referência ao facto de ser activista do Bloco, o que aliás não é segredo nenhum. Voltei a ler o post e não li nada acerca do seu local de trabalho. O Pedro no seu post ataca politicamente o primeiro-ministro, quem o lê não deixa de ter em conta que a crítica é feita por um bloquista, mesmo que o partido não se tenha pronunciado oficialmente (seja lá isso o que for) acerca do assunto. Ou os bloquistas são diferentes dos outros? É que sempre que alguém de outro partido qualquer se pronuncia politicamente, o partido a que pertence não é ignorado, ou é?

    Seja como for, não vejo em que contexto a sua referência ao local de trabalho do Valupi faz sentido. Basta ser leitor do Aspirina para conhecer as suas posições, é essa contextualização que interessa. Insinuar que o facto de não assinar com o nome de registo pode servir para esconder interesses relacionados com o seu trabalho e que tal pode condicionar a sua opinião, para mim, para além de denunciar a falta de outros argumentos, é rasteiro.

  12. Caro Valupi,

    Aproveito, também, para agradecer a resposta. Como a conversa vai longa vou tentar resumir a questão.

    Desde quando é que criticar a falta de bom senso e de tacto político é um julgamento de carácter? É uma apreciação política. Se achamos que essas referências são julgamentos de carácter, então sim, tenderemos a concluir que é difícil fazer apreciações políticas que não sejam fulanizantes.

    Já expliquei a razão de ser da foto. Diz que é obscena. Ela apenas confronta o que se estava a passar numa cidade portuguesa, como era do conhecimento do secretário geral do PS, enquanto o PS decidiu manter a sua agenda “como se nada fosse”. Volto a recordar. Paulo Portas cancelou as suas iniciativas partidárias. No meu entender, fez bem.

    Quanto ao meu lugar no Bloco de Esquerda ele é público e pode ser consultado na página “autores” do arrastão: http://arrastao.org/autor

  13. Muito bem, Pedro Sales. Conseguimos concluir uma conversa e chegámos a um ponto em que ficaremos barricados nos significados que atribuímos às palavras. Para mim, o teu ataque não foi político porque não há nenhuma ponderação desses factores, antes uma exploração falaciosa de uma situação trágica – o facto de Sócrates ter feito o discurso alterou alguma coisa na Madeira? É que analisar politicamente a decisão implicaria ter em conta que Sócrates não é apenas Primeiro-Ministro, é também Secretário-Geral do PS. Ao longo de sábado fizeram-se variadas actividades políticas, é injusto dizer que todos que estiveram nelas envolvidos estavam imunes à comoção das notícias. Seja como for, e repito, não está em causa para mim a censura que fizeste, sim o modo como a fizeste.

    Da leitura desse resumo biográfico eu não fico a saber o que fazes, exactamente – era o que estava a querer realçar acima. Tal como por aqui já por várias vezes declarei que trabalho em publicidade como criativo (assalariado), não se trata de nenhum segredo. E daí? Queres passar para a investigação dos clientes dos meus patrões? E se não chegar, vais ver a minha conta bancária à procura de financiamentos suspeitos que permitam explicar as minhas opiniões? É que é isso tudo que está implícito nesta perseguição aos pseudónimos, considerados “anónimos”. Não há anonimato nenhum, como rapidamente poderás constatar se quiseres falar comigo privadamente. O que há é o direito à reserva, à discrição e ao estilo, como espero que aceites.

  14. Esclarecedor, sem dúvida. E que baste. O Pedro Sales pois que durma lá descansado da sua vidinha: não pense que é por vir aqui de vez em quando ler o “malandro” e “subversivo” do Valupi que me desiludi definitivamente com o seu Bloco de Esquerda. Por favor não me chame de parvo e, já agora, não faça mais figura de tolo com cada resposta que dá.

    Lamentável, na minha modesta opinião, é no que a aventura de dez anos do Bloco de Esquerda deu…

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