Semiótica da Política de Verdade

Quando eu levantei essa questão não tinha conhecimento de nenhumas escutas. As escutas neste momento vêm simplesmente confirmar aquilo que foi dito apenas na base dos sinais, sinais esses que eram evidentes.

Ferreira Leite

*

Na Política de Verdade a honra alheia, ou a mera legitimidade política, é uma questão de emissão e recepção de sinais. Seja, pois. Nesse caso, quais foram os sinais recolhidos em Junho que permitem confirmar o que vem nas escutas? Ou ainda melhor: o que é que vem nas escutas?

A presidente do maior partido da oposição está a dizer uma de duas coisas: (i) que conhece as escutas e as avaliou de forma suficiente para fundamentar a sua acusação; (ii) que é legítimo utilizar para fins de combate político notícias não confirmadas pela Justiça, as quais constituem enquanto matéria publicada um acto criminoso, e nas quais se apresentam alegados fragmentos de escutas relativos a uma fase de um processo judicial. Em qualquer dos casos, estamos perante um curto-circuito na epistemologia da política, a qual não deve utilizar escutas como arma de arremesso sob pena de fazer ruir o Estado de direito. Qualquer escuta é uma violência que gera violências – e ter de verbalizar esta evidência é bem o sinal da tragédia que a divisão partidária actual gerou. Se os critérios de legitimação dos governantes decorrem da interpretação que as oposições façam de escutas à privacidade desses mesmos governantes e equipas subsidiárias, então a Constituição deixa de ser válida, o sistema de Justiça será trocado por tribunais populares. O PS, face a estes ataques que já provaram não ter limites cívicos ou éticos, encontra-se isolado na defesa da legalidade e da democracia. À sua volta prepara-se a carnificina, num desses momentos da História onde a cobiça leva à cegueira.

Voltemos à Manela. Ela diz que Sócrates mente, logo que tem um plano para condicionar a comunicação social e que há factos que o provam. E vai mais longe:

Não há um português que não esteja desconfiado da isenção e da independência da justiça em relação ao Governo. Pela sua atitude, por todos os mistérios em que tem estado envolvido e esses mistérios não se desvendarem, leva a que as pessoas pensem que a justiça tem algo que não está correto na sua actuação.

Ou seja, o Governo tem um plano para acabar com a liberdade de imprensa e a Justiça é cúmplice dessa manobra. Ao mesmo tempo, o PSD viabiliza o Orçamento, não apresenta uma moção de censura e nem sequer propôs uma comissão de inquérito parlamentar para investigar os abundantes factos indiciando crimes variados, lembrou-se apenas da Comissão de Ética em resultado do raio do Sol e ficou-se pela abstrusa questão da liberdade de expressão.

Pergunta: tendo em conta estes sinais, não seria altura de encerrar o PSD por básico respeito pela Política de Verdade?

3 thoughts on “Semiótica da Política de Verdade”

  1. Está à vista de quem quiser entender os sinais, que a fulana já conhecia as escutas, como se tem vindo a referir, bastando para tal alinhar factos, quer da suas intervenções, quer do seu mentor ideológico o “grande educador” JPP. Quem lhas forneceu, isso não sei. Posso até desconfiar, mas como não sou como “eles”,quando falam e não mostram provas, porque as espúrias escutas transcritas no pasquim falido (que não li, nem quero ler…), pelo que ouço, nada conseguem transmitir a não ser lama. Não me alongo… há sempre “mosquitos por cordas”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.