O ataque ao Estado de direito vem das classes privilegiadas. Neste sábado, ter assistido ao Eixo do Mal e ao A Torto e a Direito foi confirmar a decadência das elites portuguesas. Para além daquelas pessoas se divertirem com a desgraça alheia, é o exemplo que dão que fica como um trágico testemunho do nosso atraso cívico. Salve-se o Francisco Teixeira da Mota, os restantes são cúmplices da manipulação criminosa que utiliza materiais judiciais para construir uma acusação política. As suas paixões partidárias e ideológicas reinam supremas e destroem a mais leve consciência dos direitos que assistem aos visados e vítimas dos crimes.
Repare-se que não se fala da matéria dos despachos e das escutas para discutir formas de investigar as questões implícitas, antes se dá rédea solta a sentimentos de vingança e ódio. Para estes comentadores, não há qualquer dever de isenção. Pelo contrário, promovem o sectarismo, mesmo quando a dimensão do problema transcende a natureza partidária. O Estado de direito diz respeito ao fundamento primeiro do que nos permite ser uma comunidade de paz e desenvolvimento, não pode estar sujeito aos ataques oportunistas que apenas visam a eliminação dos adversários. Não vale tudo.
Como é que eles sabem que as escutas, e sua interpretação pela Judiciária e Procuradoria em Aveiro, são capazes por si só de levar a uma conclusão do que significam e implicam? Que deboche vem a ser este de acusar sem prova? Acaso gostariam de ver relatos da sua vida pessoal na imprensa se se vissem num processo similar ainda a esperar desfecho judicial? Será possível que não admitam erro, equívoco ou conspiração nos elementos publicados? Por se tratar de Sócrates, permitem-se anular a presunção de inocência dos envolvidos, o direito à privacidade e ao bom nome, e ainda o segredo de Justiça? É que estamos a falar de documentos na posse de magistrados, não se está perante a denúncia de algo novo e carecer de acção judicial. Acima de tudo, fazer de meros indícios armas políticas é um retrocesso civilizacional que conduz à barbárie. Como é que estas pessoas iriam reagir se um seu inimigo preparasse uma armadilha onde se gravavam conversas que os implicavam em crimes? Aceitariam que a comunicação social, e os seus adversários políticos, de negócios ou pessoais, utilizassem esses materiais numa campanha difamatória destinada a retirar-lhes poder, privilégios e direitos?
À luz do exemplo que estas pessoas dão, e adentro da sua influência mediática, fica patente existir uma crise moral e cívica na sociedade portuguesa cuja magnitude ultrapassa os limites do que até agora era imaginável. Só há uma coisa a fazer, contudo: denunciar quem está a pôr em risco toda a comunidade ao desprezar as garantias constitucionais e legais a que temos direito.