O plano da direita

A direita diz que Sócrates é mentor de um plano do qual não existem provas, que foi desmentido e que é inverosímil.

A direita afirma que o plano seria levado a cabo por Sócrates e duas ou três figuras menores, o resto do Governo e do PS não saberia de nada.

A direita quer que o PS substitua Sócrates por outro socialista, um qualquer, prometendo portar-se bem caso o pedido seja acatado.

Conclusão: a direita deixou de querer governar o País, já só pretende uma vingança.

Graça/Prazeres

Por aqui vivi outras manhãs

a caminho dum emprego pontual

arrepiado à porta da PIDE

duas vezes por dia todos os dias.

Mesmo ao domingo por aqui passava

Para o cinema ou para o futebol

havia uma linha pela Rua Augusta

e ia até ao Rossio – só ao domingo.

Assembleias Gerais na Voz do Operário

Alguns mortos queridos nos Prazeres

Eu próprio que morri aos poucos nesta linha

E até Fernando Pessoa tem uma paragem

porque a aldeia dos sinos da minha aldeia

é aqui e não como eu vi nos livros escolares

uma aldeia vulgar como o romantismo queria.

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José do Carmo Francisco in «Transporte Sentimental»

Edição da Câmara Municipal de Lisboa

O quadro anexo é da autoria de J. B. Durão

e está na Galeria All Arts Gallery

na Rua da Misericórdia 30 ao Chiado

Se o ridículo pagasse imposto

Tendo em conta os desvarios megalómanos que os proponentes e divulgadores da manifestação Todos pela Liberdade exibiram frenéticos, e face à hilariante fantochada em que tudo acabou, é grande azar não se pagar imposto pelas figuras ridículas na via pública. A dívida de Portugal teria desaparecido por volta da 13.30, de fronte ao Palácio de São Bento.

Mas saber que este rancho de cínicos, decadentes e avariados dos cornos não faz a menor ideia da razão pela qual ficaram a falar sozinhos é ainda mais engraçado.

Crachá d’ouro

Espectáculo dantesco dado por Judite de Sousa. Ela entrou e saiu da entrevista a Noronha do Nascimento sem perceber como funciona a relação entre Supremo e Procuradoria, muito menos as obrigações do entrevistado no processo em causa. Mas que todo o mal fosse esse. O pior é ver uma jornalista que é parte da perversão populista, ao serviço de interesses bem identificados, onde se afunda o Estado de direito. A sua convicção é a de que Noronha omitiu informações de cariz criminal, por isso repetia e repetia as mesmas perguntas. Se calhar entrevistar Pinto Monteiro, e mantiver as mesmas certezas, é provável que nem consiga falar pelo medo de estar frente a bandido tão perigoso.

Proponho que se ofereça à Judite uma imitação do crachá de ouro conquistado pelo judite de Aveiro. Ela já fez o suficiente para o merecer.

Curiosidades do reino da estupidez

A deputada bloquista Helena Pinto considera que a providência cautelar configura uma “situação inédita e surpreendente” e que “dia após dia cresce a confusão em torno desta situação”.

Fonte

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Eis o que esta senhora está a dizer:

– Que a existência do Estado de direito configura uma situação inédita e surpreendente para o seu entendimento da realidade.

– Que dia após dia cresce a sua confusão em torno desta situação, mas não explica que raio temos nós a ver com o facto de andar à nora.

O BE é mesmo um partidozinho de merda. E de merdas.

Da crispação à crespação

Miguel Esteves Cardoso escreveu um texto (o Câmara Corporativa fez a transcrição, mas também o nosso amigo Joao) onde aparece esta súmula histórica:

Sócrates, ao reagir como cidadão e abster-se das condescendências e pseudo-aristocracias da democracia, presta um serviço e rompe com uma tradição.

Para contemplarmos a magnitude desta alteração na simbólica do Poder, levada a cabo sem um momento de vacilação até esta altura em que escrevo, lembremos que a oposição aparece invariavelmente crispada quando discursa ou assiste. Este comportamento é tribal, tão mais tribal quanto a inexperiência, a cegueira ideológica e a hipocrisia dos políticos em causa. Por isso – e não só em Portugal, evidentemente – os debates políticos obedecem a códigos tácitos onde se representa o adversário como inimigo, não como parceiro de solução. Esta lógica de conquista e ocupação do espaço governativo por exclusão, num qualquer futuro, será vista como arcaica. Corresponde a um absurdo económico, pois esbanja inutilmente recursos intelectuais ao não procurar consensos. Mas adiante.

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Quem é que se baldou?

Acabo de ver numa reportagem da TVI que os participantes na manifestação Todos pela liberdade não chegam a corresponder ao número de blogues apoiantes – e isto esquecendo que muitos desses blogues são colectivos, apenas para o cálculo fazendo corresponder 1 participante por blogue.

Enfim, a ala comuna do movimento que comece já a purga porque este fiasco não pode ficar sem consequências.

Um livro por semana 169

«Divina Música – Antologia de Poesia sobre Música»

O Conservatório Regional de Música de Viseu celebra o seu 25º aniversário com esta edição organizada por Amadeu Baptista, São 130 poetas de diferentes espaços geográficos: Portugal, Angola, Brasil, Moçambique, Cabo Verde e Timor Leste. De «A» a «Z» surgem registos poéticos tão diversos como os seus nomes e origens: Adalberto Laves, Alexei Bueno, Ana Hatherly, António Osório, António Rebordão Navarro, E.M. Melo e Castro, Fernando Echevarría, Fernando Grade, João Camilo, João Candeias, João Rui de Sousa, José Luís Peixoto, José Mário Silva, Maria Teresa Horta, Nicolau Saião, Ruy Ventura, Vergílio Alberto Vieira e Zetho Cunha Gonçalves. Na impossibilidade de os citar todos fica uma lista como sugestão de procura. Duas notas: o meu poema na página 106 foi repescado do «aspirinab» e cito o poema «Iannis Xenakis – sugestões» de Levi Condinho:

«Contra a gaguez dos deuses que nos confundem / erguem-se as ásperas vozes ossificadas / de dentro das pedras talhadas a pique / nas rebeldes falésias sobranceiras ao mar / pedras brancas habitadas por seres de eras submersas.

são coros cavados sobre peitos de cobre / metais que respiram no coração das lâminas / ecos sobre ecos sobrevoam vales ácidos / em busca do segredo das sibilas / ou do signo das maresias loucas incidindo sobre as têmporas / tambores de bronze conclamam as grandes aves das alturas/ as casas da música são brancas de ferir a areia / e o Homem desafia os deuses no gume do meio-dia – arrepio telúrico na arquitectura vermelha do Sol –

grande é esforço das ondas / no árduo combate às alcateias cegas / que o deserto transporta no seu ventre.

no topo da cidade a árvore gigante / reflecte-se no vidro – efémero triunfo das alquimias / onde a Razão namora o lagarto solar».

Isto é só para tentar engatar a Blonde

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O verdadeiro caminho passa sobre uma corda que não está esticada ao alto, mas rente ao chão. Parece antes destinar-se a fazer tropeçar do que a ser percorrida.

Der wahre Weg geht über ein Seil, das nicht in der Höhe gespannt ist, sondern knapp über dem Boden. Es scheint mehr bestimmt, stolpern zu machen, als begangen zu werden.

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Franz Kafka, «AFORISMOS», Assírio e Alvim, p. 27

A alma é a forma do corpo

Não há nenhuma dicotomia entre forma e conteúdo na problemática das escutas, pese a facilidade com que se compreendem as palavras do João Galamba. A violação do segredo de Justiça não é uma formalidade, é em si um conteúdo, é substantiva. Trata-se de um acto ao serviço de interesses que colidem com direitos dos implicados e a segurança da comunidade. As escutas até poderiam incluir passagens onde Sócrates fosse dado como um serial killer, para o caso era igual. Pura e simplesmente, não temos os materiais, os meios e os conhecimentos para nos substituirmos à Justiça. Assim, qual o resultado da publicação de um despacho cujo desfecho ainda é desconhecido? Apenas a criação de um ambiente perverso onde se explora a suspeição. Como está em causa o Primeiro-Ministro e o Governo, e os seus adversários políticos estão a usar a publicação para lançarem ataques, a situação é gravíssima.

Caso não consigamos estancar a instrumentalização da Justiça pelo poder político e mediático, a democracia deixa de ter condições para subsistir.

Mudar, romper e…

Passos Coelho quer mudar. Paulo Rangel quer romper. E Aguiar-Branco quer o quê? Como poderá subir a parada e mostrar que os outros dois são uns meninos e não têm aquilo que é preciso para pôr isto na ordem?

Deixo algumas sugestões para slogans de campanha:

Partir
Moer
Picar
Cuspir
Espremer
Triturar
Diluir
Maldizer
Estraçalhar
Cortar aos bocadinhos
Grelhar numa chapa pré-aquecida
Passar o corredor a pano

Vinte Linhas 449

Um minuto de silêncio por PB algures por aí e por JEB no Brasil

Aquele minuto de silêncio por Libânio, o lendário guarda-redes do SCP que fez parte dos cromos do meu tempo de menino, deu-me um estremecimento. Nasci em 1951 e vi o Libânio em algumas colecções num tempo em que o guarda-redes podia ser Octávio de Sá, Aníbal ou Carvalho mas também Libânio. Jogava muitas vezes nas «reservas» cujo campeonato era disputadíssimo. O minuto de silêncio deu origem a um coro de assobios alguns minutos mais tarde. Ora os assobios não são dirigidos só contra o jovem candidato que os recebeu (diz ele que entram a cem e saem a duzentos) mas contra quem o colocou lá. Os assobios são contra PB que afastou Stojkovic depois de uma frase assassina nas Antas («Em caso de dúvida devia pontapear a bola») quando o erro crasso foi do árbitro e não do jogador. Com os seus delírios e as suas alucinações, PB afastou sempre jogadores que tinham jogado muito bem no domingo anterior colocando em seu lugar quem tinha treinado bem durante a semana. Foi assim com Adrien, com Pereirinha, com Yannick, com Vukcevic, depois de exibições magníficas contra Roma, Porto, Braga e Benfica. Suprema humilhação: tirou Vukcevic da final da Taça quando foi ele e Derlei que mais fizeram pelos 5-3 ao Benfica. O minuto de silêncio tem a ver com JEB no Brasil pois fugiu na pior altura, quando o seu treinador (PB for ever!, lembram-se?) depois de afastado ainda é responsável pelo descalabro por si instalado na equipa. Aquele minuto de silêncio lembrou-me também Emídio Rafael na Académica afastado por PB do SCP; ele era capitão dos Iniciados em 2000/1 ao lado de André Vilar, João Moutinho, Carlos Saleiro e Miguel Veloso. O minuto de silêncio foi para ele também.

Curiosidades do reino da estupidez

Comparar a publicação do email do Público pelo DN com a publicação de documentos sujeitos a segredo de Justiça é, mais do que um teste moral, um teste cognitivo. Desconfio que serão muitos os que, honestamente, não sabem qual é a diferença. Para eles, é tudo privado; pelo que agora é a sua vez de gozarem, depois de terem fingido serem contra essas manobras quando elas os prejudicaram.

Acontece que termos ficado a conhecer a origem das espantosas notícias do Público acerca de eventuais vigilâncias do Governo ao Presidente foi um favor que se fez ao eleitorado e ao País. A forma de explicar a situação passava por furar uma privacidade que estava a ser danosa para o futuro da política nacional. A reacção atarantada do Presidente validou a bondade dessa decisão do DN e restituiu a sanidade possível ao acto eleitoral. Neste caso de materiais em segredo de Justiça, é precisamente ao contrário. Há magistrados que os conhecem e sobre os quais tomam decisões. As suas decisões podem ser objecto de recurso, inquérito ou estudo. A privacidade da Justiça está ao serviço do interesse maior para a política. Porque não se pode admitir que a privacidade se torne critério de destruição de políticas e de políticos. Isso é o que acontece em estados totalitários.

Aqueles que se permitem tirar conclusões a partir do que leram nos jornais têm uma urgente tarefa à espera: estudar jornalismo ou Direito. Caso já sejam jornalistas e juristas, azarinho.

Esmiucemos o plano

Pessoas que já nos garantiram estar iminente a captura de Sócrates pelo James Bond, e que nem um projecto marado foram capazes de encontrar na Guarda ou que ficaram bovinamente a falar de cursos tirados ao domingo, estão agora convictas de que Sócrates é um mafioso de alto coturno. Bastou-lhes a exposição ilegal de um despacho com indícios vagos para se convencerem do desfecho do caso – assim revelando ao mundo o tipo de consideração que têm pelos direitos dos concidadãos. Muito bem, mas avancemos um pouco nesse caminho.

Qual seria a última coisa que qualquer um de nós faria se estivesse a planear uma golpada para correr com um jornalista através da tomada de poder accionista na sua empresa? Isso, acertaste: abrir um congresso com ataques a esse jornalista ou protestar contra ele numa entrevista. Nenhum de nós faria isso porque somos todos bué da espertos. Sabemos que ao romper com as convenções da hipocrisia à portuguesa, onde se esconde a raiva e as vinganças, estamos a chamar a atenção para o alvo. Tal escalada do confronto só iria tornar ainda mais difícil o já improvável plano de entrar na casa do inimigo e dar cabo dele sem que se topasse a autoria da manobra. Naturalmente, a sensibilidade à suspeita, e o seu efeito paranóico, cresceria para níveis máximos, levando a que todas as possíveis associações de causa-efeito fossem tidas em conta. Não se afigura sequer razoável que alguém tendo um plano tão cerebral tivesse também um comportamento tão desmiolado. Porém, como se trata de Sócrates, parece que dá para abrir uma excepção. Afinal, e como os reaças e os comunas berram, este engenheiro é o Alfa e o Ómega da corrupção.

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Raçudos

Está a ser uma época fascinante para o Sporting. Um case study do que é um ambiente disfuncional numa organização. Por exemplo, que leva um marmanjo como o Tiago a fazer-se expulsar do banco, deixando a equipa sem guarda-redes substituto a meio do jogo? Ou que leva os jogadores a protestarem contra as decisões do árbitro, sabendo que só irritam o senhor ou que se arriscam a serem penalizados pelos protestos? Que leva os jogadores a passarem o jogo todo a largar caralhadas? Que leva os treinadores a berraram contra os árbitros? Que leva os dirigentes a comportarem-se como capatazes?

Se eu fosse treinador de futebol, nenhum dos meus jogadores alguma vez responderia a um árbitro. Nem que ele os expulsasse aos 10 segundos de jogo. Protestar contra os árbitros, durante e depois dos jogos, devia ser interdito em Alvalade. É, simultaneamente, um sintoma e uma causa de pouca inteligência. Contribui para a fraqueza física e técnica por ser uma fraqueza moral. Quem protesta assume uma postura subserviente, exprime uma impotência, deixa de ser um guerreiro.

Idealmente, o Sporting devia ter equipas de futebol que fossem exemplares no campo da disciplina, do desportivismo e da entrega ao espectáculo. É este o sentido aristocrático que está na origem do clube. Mas, para tal, teríamos de ter dirigentes que fossem do Sporting, o que não é o caso presente. É que não é do Sporting quem quer, só quem faz prova de lhe pertencer através de feitos valorosos. E isso começa nas derrotas, no saber perder.

O presidente tem de ser o símbolo da união entre a equipa e os adeptos, independentemente dos resultados e dos eventuais conflitos. Quem não for capaz de compreender esta missão, não pertence a esta raça. Não é Leão.