Esmiucemos o plano

Pessoas que já nos garantiram estar iminente a captura de Sócrates pelo James Bond, e que nem um projecto marado foram capazes de encontrar na Guarda ou que ficaram bovinamente a falar de cursos tirados ao domingo, estão agora convictas de que Sócrates é um mafioso de alto coturno. Bastou-lhes a exposição ilegal de um despacho com indícios vagos para se convencerem do desfecho do caso – assim revelando ao mundo o tipo de consideração que têm pelos direitos dos concidadãos. Muito bem, mas avancemos um pouco nesse caminho.

Qual seria a última coisa que qualquer um de nós faria se estivesse a planear uma golpada para correr com um jornalista através da tomada de poder accionista na sua empresa? Isso, acertaste: abrir um congresso com ataques a esse jornalista ou protestar contra ele numa entrevista. Nenhum de nós faria isso porque somos todos bué da espertos. Sabemos que ao romper com as convenções da hipocrisia à portuguesa, onde se esconde a raiva e as vinganças, estamos a chamar a atenção para o alvo. Tal escalada do confronto só iria tornar ainda mais difícil o já improvável plano de entrar na casa do inimigo e dar cabo dele sem que se topasse a autoria da manobra. Naturalmente, a sensibilidade à suspeita, e o seu efeito paranóico, cresceria para níveis máximos, levando a que todas as possíveis associações de causa-efeito fossem tidas em conta. Não se afigura sequer razoável que alguém tendo um plano tão cerebral tivesse também um comportamento tão desmiolado. Porém, como se trata de Sócrates, parece que dá para abrir uma excepção. Afinal, e como os reaças e os comunas berram, este engenheiro é o Alfa e o Ómega da corrupção.

Sócrates é apresentado como um déspota capaz de envolver os quadros accionistas e executivos da PT num capricho nascido do despeito, por um lado, e de uma vontade de poder típica do tempo em que só havia dois canais de TV a preto e branco, pelo outro. E isto sendo feito num ano eleitoral onde se tinha a certeza de que não haveria maioria do PS, quiçá ganharia o PSD com o CDS. Ainda faz sentido? Se sim, em que calendário? Quando é que a PT estaria em condições de começar a influenciar a linha editorial da TVI? Como é óbvio, nunca antes de 27 de Setembro. Este plano era de médio prazo, então, e nenhuma influência poderia ter nas eleições. Contudo, ficaria desactualizado caso o Governo fosse parar às mãos do PSD, pois a PT mudaria igualmente de mãos nesta lógica que os teóricos da conspiração dão como estabelecida. Parecem riscos a mais para o perfil de investimentos da PT, mas, lá está, estamos a lidar com o poder maléfico de Sócrates e sua legião de demónios.

Não é imaginável que a PT entrasse no capital da TVI e que tal não levantasse uma onda de suspeição. Caso o negócio se formalizasse, a consequência seria a permanente atenção ao que aconteceria a Manuel Moura Guedes. Calhando a senhora constipar-se por causa de uma corrente de ar dentro das instalações da TVI, saltariam logo acusações contra a PT e Sócrates. Devido a este fenómeno inevitável de constante suspeição, com enorme impacto social e político se fundado em factos, não se concebe como viável qualquer tipo de condicionamento de Moura Guedes após a entrada da PT. O contrário, sim, com a PT a servir de garante vitalício para os desmandos do seu pseudo-jornalismo, qual seguro de carreira. Neste aspecto, o plano não é brilhante; desculpa lá, ó Sócrates.

Quando se diz que Sócrates pressiona, ou prejudica, jornalistas porque se insurge contra eles, nunca se faz a demonstração. E por uma singela razão: por ser tanga. Como o João Miguel Tavares chegou ao ponto de explicar, ter um primeiro-ministro no currículo é fertilizante para os rendimentos. Os jornalistas visados adoram a fama obtida e sentem-se pares do Poder, capazes de o condicionar. Ao mesmo tempo que representam o papel de vítimas, gozam o prato de serem eles os algozes. Que pode Sócrates contra quem o difama e calunia na comunicação social? Nada, eis a resposta à luz do que tem acontecido.

Reaças e comunas, cegos de ódio e impotência, ao alimentarem a suspeita de que Sócrates tentou usar a PT e o BCP para criar um grupo de comunicação ao seu serviço têm de fazer um favor aos seus neurónios: contar o número de pessoas que seria preciso envolver para que tal se fizesse sem que ninguém desconfiasse. Acontece que a putativa operação, se o intento fosse o secretismo, é logisticamente impossível. Como o Expresso noticiou, desde Janeiro de 2009 que havia conversações entre a PT e a Prisa. Ora, se a manobra não podia ser escondida, como poderia ser realizada? O cenário em que a PT enterra a sua credibilidade num favor político lunático a um líder transitório e fragilizado é muito má literatura de cordel.

A chave do caso está no episódio do dia 24 de Junho de 2009. A intervenção do Presidente da República, é agora inegável, pressupõe o conhecimento dos despachos de Aveiro ou do que levou a eles. Daí o seu alarmismo e contundência, absolutamente anómalos para quem ignorasse o que estava em causa. Se tivesse uma chaimite por perto, seria em cima dela que Cavaco teria exigido transparência e ética nos negócios. Acontece que não havia negócio algum, apenas a sua possibilidade. Isso fez da intervenção presidencial um acto de aproveitamento da investida judicial. Para os interesses cavaquistas, não havia tempo a perder, sequer descobrir o que realmente se passava ou iria passar na eventual relação PT-Media Capital. A investigação e recolha de escutas em Aveiro era um trunfo que cortava todas as vasas ao inimigo. Estava em causa criar na opinião pública uma convicção de culpa que atingisse Sócrates no ponto que vinha a ser massacrado pelo PSD e Belém: o carácter e a confiança. Este foi o momento glorioso do ticket Cavaco-Manela, a qual teve a sua melhor entrevista precisamente nessa noite. A última pergunta, combinada, foi a ocasião para uma estocada dada com requintes de malvadez – Ferreira Leite garantiu que Sócrates mentia ao dizer que desconhecia o negócio. Claro que ela tinha razão, e isso é que é grave pelo que indicia de conivência com agentes da Justiça.

A ignorância é uma bênção para quem pretende especular. Não faço a menor ideia se Sócrates é inocente ou culpado seja do que for, tal como não faço a menor ideia se o que escrevi antes aconteceu tal como o fantasio. Mas sei que a tentativa de derrubar um governante de forma ilegal e ilegítima me prejudica. Os meus interesses não estão a ser respeitados, muito menos servidos, por comunas e reaças que caluniam e acusam sem provas. Quem o faz agora a Sócrates poderá voltar a fazer a outro, ou passa a vida a fazê-lo a qualquer. Não é esse o meu Portugal e não me irei adaptar à pulhice.

Estamos repletos de instrumentos para fiscalizar o Governo e os governantes. A situação é ridícula posto que a Assembleia da República pode investigar o que quiser, quando quiser. Se Sócrates, Procurador-Geral e Presidente do Supremo são gatunos de 2ª categoria, não poderão ir longe. Entretanto, que comunas e reaças pensem um bocadinho: querem mesmo abdicar do Estado de direito?

29 thoughts on “Esmiucemos o plano”

  1. Esqueces dois pequenos pormenores que deitam por terra esse teu delirio.
    1 o intelecto dos involvidos
    2 o facto de essa cambada pensar que era “á vontadinha”.

  2. Estamos a assitir a mais uma reedição do pacto germano-soviético versão portuga redux.
    A parte propagandistica retirada de Goebbels é tecnicamente bem aplicada (denotando até uma grande admiração e embevecimento) merecia no entanto melhores interpretes.
    O(s) historiadore(s) envolvidos mostram ter um conhecimento mais ou menos aprofundado da época embora tambem se note a falta de vivência pessoal do período.

    Obrigado Eduardo Barroso pela garra com que nos defendeste do nojo e da manipulação.

  3. Pois Helder… A inteligência esgota-se nos senhores que à direita criaram o BPN. Os outro são somente estúpidos e boçais. E já agora Helder se era à vontadinha, porque é que o Sócrates não comprou o SOL quando aquilo estava em saldo? esqueceu-se?

  4. À vontadinha, Helder? Um PM feito em farrapos durante quatro anos por um processo que teve origem numa carta anónima fabricada a mesa de um café? Processo em que foi sempre cabeça de cartaz apesar não ser nem indiciado, nem arguido nem acusado, porque nada se conseguiu descobrir contra ele em Portugal e no mundo? Onde é que tu vives homem? O que é que tu lês? Até começo a perguntar-me se não serás mesmo analfabeto.

  5. pois é, mas a merda toda para esta gentalha (pacto germano-soviético é sem dúvida um epíteto bem esgalhado) é que não houve compra alguma por parte da pt, que, merda outra vez, tinha tido o aval do moniz. mas apesar da compra não ter sido feita pela pt, foi feita pela ongoing (naturalmente a mando do sócrates) que recrutou o moniz levando-o a deixar a tvi. para além de que nessa altura o moniz queria abandonar a tvi para ser presidente do benfica. de que estão à espera para investigar a ongoing? foi essa empresa a responsável pelo afastamento do moniz! bom, parece que a ongoing vai vender a sua participação na impresa para poder ver a sua compra da tvi validada pela erc. e com isso teremos o moniz de volta à tvi (encaixando 6 milhões pelo meio). quanto à manela ela é um apêndice do marido: só ele proporcionará o seu capricho que é o jornal das 6ªs à noite.

  6. É como te digo Mario, á vontade não é á vontadinha.
    Desta vez esticaram de mais a corda , até para o “inginheirete”.
    E agora não adianta limpar as mão á parede, vai mesmo de vela .

  7. Heleder,

    com argumentos desses, não há Val nem qualquer comentador que se aguente. Que brilho de raciocínio, que articulação lógica… Bravo, convenceste-me!

  8. vvuuuu….às vezes vem uma revoada lateral e pode ser um sarilho, para quem vai, de facto, demasiado confiante, isto é, muito à vontadinha :)

  9. Curiosa a mentalidade deste Helder. O deltinho vai molhando a sopa, moldando o mundo ao seu redor à dimensão da sua natureza: anão cabeçudo.

  10. Não é fácil esmiuçar melhor o plano, Valupi.
    Sei que é pedir muito, mas gostava que o Rangel fizesse o mesmo exercício e nos explicasse tim-tim por tim-tim o que afirmou no Parlamento Europeu. De que forma Sócrates, mesmo que o tal negócio se tivesse concretizado, conseguiria condicionar a comunicação social. Teria pois de acusar jornalistas e opinadores de serem simples lacaios ao serviço dos patrões, sem qualquer espécie de independência de pensamento e capazes de mudar de opinião à velocidade com que as empresas mudam de dono, e da total falta de pluralismo de opinião nos vários orgãos de comunicação. Não sei como conseguiria provar tal coisa, que podendo ser verdadeira para alguns não o é certamente para todos nem nada que se pareça. Vemos pessoas a opinarem em vários orgãos de informação, com donos diferentes, e a manterem a mesma opinião. E também vemos opiniões totalmente opostas no mesmo jornal, por exemplo. Fico à espera… sentada, claro está.

  11. guida,

    o Rangel, porque é o Rangel (e não Sócrates) não tem de prestar contas das lesões que provoca no já debilitado país. Era o que faltava, o senhor deputado não poder dizer o que lhe dá na real gana, independentemente de ser verdade ou mentira e independentemente de nos prejudicar a nós todos, portugueses… Ora, se o PR o faz, se todos os líderes da oposição o fazem, se a maior parte da comunicação social o faz, e ninguém lhes pede contas, que raio.

    Se já temos o Sócrates a quem pedir contas de tudo…

  12. edie, li agora mesmo no Público que ele vai anunciar hoje a candidatura à liderança do partido. Entrando em campanha, se calhar, lá vai ter de explicar melhor o que disse, digo eu…

  13. De facto, por mais explicações, esclarecimentos, refutações, declarações de infámia ou calúnia, lá vêm os mesmos com ar inocente declarar: deve esclarecer, deve explicar, não negou as acusações, etc.

    O Sócrates, sabemos todos a algum tempo, é um político a abater.

    Acontece, que para muitos, nos quais me incluo, a paciência está esgotar-se.

  14. guida,

    quem lhe vai pedir que esclareça?

    Ficamos também a saber que o Sócrates anda a controlar os patrões todos da comunicação social, porque ele disse-o pessoalmente ao José António Saraiva:

    “”No único almoço que o ‘Sol’ teve com Sócrates em São Bento, ele às tantas disse-me que ‘isto de a gente tentar comprar jornalistas é um disparate, porque a melhor forma de controlar a imprensa é controlar os patrões’. Foi extraordinário o desplante de ter dito isto e depois ter posto esse plano em prática”.

    José António Saraiva, director do “Sol”, jornal “i”, 10-02-2010

  15. Nós, edie. Se ganhar a liderança mais tarde ou mais cedo é candidato a primeiro-ministro e nessa altura, fazendo uso da nossa liberdade de expressão, temos o direito e o dever de o questionar. É que para além de não estarmos asfixiados temos memória, e estou convencida que tão cedo os portugueses não esquecem a triste figura que ele fez, num minuto, em Estrasburgo.

    Já tinha lido essa do Saraiva. Será que ele está a dizer que balsemões e belmiros, por exemplo, são controláveis?

  16. Não, parece-me que está a dizer que são controlados… :D

    (Ok, mas é chato ter de esperar que o indivíduo ganhe as eleições no PSD e que depois se candidate a primeiro-ministro. E se não ganha?)

  17. Eu se fosse às pessoas que almoçam com o Saraiva tinha cuidado, a conversa, ou parte dela, pode vir a aparecer publicada num jornal qualquer.

    Pelos comentários que li num dos blogues em luta, já vi que o anúncio da candidatura os deixou eufóricos, alguns já gritam por eleições antecipadas. Talvez não seja preciso esperar tanto…

  18. lembro-me de ver, quando era pequena, uma galinha sem cabeça (cortada em casa, naqueles tempos) a correr freneticamente sem direcção pela cozinha fora.

    Não sei porquê, é essa imagem que me ocorre perante a histeria acéfala que se vive no momento.

  19. Só duas perguntinhas:
    1-leram as escutas?
    2-qual é a dúvida?
    Alcatrão e penas.
    O flagrante delito não é teorizável.
    Não percam o segundo fascículo na sexta.
    Cumps,

  20. Publicadas no Sol… ninguém até agora as desmentiu.
    Aguardo ansiosamente os próximos fascículos.
    Também acho feio espreitar-se pelo buraco da fechadura. Há evidentemente mais dignidade em dar um pontapé na porta de um qualquer sindicato como faz a GNR na beira alta, por exemplo. Mas se um dia caír nessa terrível tentação e vir alguém a violar criancinhas, não vou guardar para mim. Sou até capaz de confessar que se não for eu e for outra pessoa a espreitar e denunciar um crime, pedir a cadeira eléctrica para o delator não vai ser o meu primeiro impulso.
    Mas admito que as minhas posições sejam inaceitáveis para o bem-estar do “estado de direito” que temos. Provavelmente até existe aqui justa causa para me asfixiarem.
    :)

  21. Nesse caso, não ouvistes as escutas, leste um jornal. É uma diferença que importa para o Estado de direito. Quando forem os jornais a aplicarem a Justiça, e calhar tocar-te a ti, não vais rir.

  22. De facto aqui onde o bandido nos trouxe, o nosso nível de exigência para uma possível alternativa já não vai muito além de alguém que tenha acabado o curso… ou tirado o mesmo ANTES do mestrado… já damos até de barato se os exames forem feitos por fax ou o professor seja o mesmo em todas as cadeiras… não queria ser demasiado exigente, mas se for alguém que efectivamente tenha feito alguma coisa na vida fora dos partidos nos últimos 10 anos, talvez não seja pior… não, esqueçam esta última parte, nadei claramente para fora de pé.

    Respondendo a Val , só para pedir desculpa por as informações sobre o mundo em geral me chegarem por intermédio dos Media. Dificilmente conseguiria ir ao Haiti confirmar se aquilo tremeu mesmo, por exemplo. O que não quer dizer que não aguarde ansiosamente a versão audio das escutas mais sumarentas. Diz que é costume… :)

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