Francisco Proença de Carvalho volta a mostrar que a direita tem quem a dignifique.
Arquivo mensal: Fevereiro 2010
Vénus & Marte
Neste artigo, noticia-se um estudo acerca do ciúme onde os resultados apontam para a confirmação de uma clássica divisão entre mulheres e homens: as mulheres perdoam a infidelidade sexual, mas não a infidelidade afectiva; os homens não querem saber da infidelidade afectiva, mas são implacáveis com a infidelidade sexual.
É assim contigo?
este nojo vai ficar aqui disponível anos e anos
No dia em que o país era confrontado com estes números: Orçamento 09, versão 05 (Jan 2010): Deficit de 9,3% do PIB o primeiro-ministro e dois ministros dedicavam o seu tempo e as suas preocupações não ao orçamento muito menos às implicações desse orçamento na vida dos portugueses. O que estava em causa era a única coisa que preocupa esta oligarquia: o que se diz deles. Agora os milicianos que têm por aí tentam desvalorizar o Mário Crespo. Mas quem dedicou parte do dia da apresentação do orçamento a falar do Mário Crespo foi o primeiro-ministro: «Terça-feira dia 26 de Janeiro. Dia de Orçamento. O Primeiro-ministro José Sócrates, o Ministro de Estado Pedro Silva Pereira, o Ministro de Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão e um executivo de televisão encontraram-se à hora do almoço no restaurante de um hotel em Lisboa.» – A isto chama-se gente sem vergonha.
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E a isto, chama-se o quê?
Sociedade Lusa de Negócios
Até tu, João Soares?
Crespo foi hoje para a porqueira exibir o seu avacalhante ar de gozo. Acabava de saber que tinha vencido. Três Ministros, um deles chefe do Governo, um director da SIC e uma vedeta da TV, todos têm de se sujeitar a prestar declarações acerca das suas conversas privadas num caso em que só a calúnia existe como matéria de facto. Crespo calunia e ganha: não ficou a falar sozinho.
Um dos convidados desta noite foi João Soares. É público o seu asco pelas escutas, qualquer escuta. Pois bem, o caso Mário Crespo é um caso de escutas. Como não foram feitas por nenhuma autoridade – pode até nem existir qualquer registo para lá do testemunho de terceiros – todas as manipulações são possíveis e não se tem a certeza de nada. Crespo diz-se a vítima mas é ele quem aparece ao ataque. O sentido que dá às citações implica que Sócrates deva ser demitido pelo Presidente da República, juntamente com os outros dois Ministros presentes. No mínimo dos mínimos, o Parlamento devia instaurar uma comissão de inquérito, pois não é admissível que o Governe atente contra a liberdade de algum jornalista – seja ele quem for, como é óbvio. Qualquer cidadão que expresse a sua convicção de que Sócrates persegue jornalistas está, no mesmo passo, a declarar que Sócrates deve ser destituído. E são muitos os que declaram publicamente que Sócrates persegue jornalistas, pelo que, se calhar, está na altura de os partidos da oposição, ou os jornalistas perseguidos, fazerem frente a essa situação aviltante e ilegal.
Voltemos ao João Soares. Lá vai ele para o talk-show do Crespo, um espectáculo de transformismo vendido como serviço noticioso. Crespo está impante e magnânimo, a classe política divide-se entre aqueles que rastejam a seus pés e os outros que ele humilha e tenta destruir. Crespo é o maior, derrotou o Regime. Pode dizer o que quiser de quem quiser quando quiser e como quiser. Do Portas ao Balsemão, passando por comunas alucinados, recebe louvores e apoios. E se tal não me pode surpreender, ver João Soares contribuir para a satisfação de um pulha deixa-me perplexo: que é feito da sua consciência ética, para quem guarda a indignação?
Galinha tonta
Sick da SIC
O caso Mário Crespo é de extrema importância para o diagnóstico da nossa saúde moral. E não precisamos de saber mais nada para além do que já foi publicado em ordem a tirar conclusões a montante e jusante da polémica.
A montante, estamos perante uma figura pública, jornalista há décadas, que faz uma acusação a três Ministros com base em supostas declarações que não foram autorizadas a serem publicadas, das quais não se apresentam provas, e que são apresentadas em fragmentos descontextualizados das supostas falas respectivas. O jornalista junta a esta acusação mais duas: a de ter sido afastado do JN e a de Medina Carreira ser também alvo da mesma ameaça que alega ter sido feita contra si. Crespo usa a expressão solucionar o problema como citação literal do que afirma ser uma intenção de o prejudicar.
A jusante, reina a algazarra na feira da calúnia. A exploração sensacionalista, e a impotência dos derrotados, cega de ódio à esquerda e à direita. Repete-se a manobra do caso TVI, onde se utilizaram indícios, ou informações, para acusar sem crime. A impunidade com que se ataca o carácter de Sócrates é espantosa, qualquer macaco se acha no direito de fazer processos de intenção sabendo de ciência certa que nada lhe acontecerá. Mas não só o carácter de Sócrates, antes todo o Governo e PS vão na enxurrada que reduz o combate político à intriga mais chula de que são capazes.
Crespo tem dito e escrito o que lhe dá na telha desde que está na SIC e no JN. Já correu a maralha da política nacional com os seus espasmos verrinosos, não deixando palhaço sobre palhaço, e nem um processo recebeu para se consolar e ostentar na lapela. Mesmo assim, permite-se denegrir pessoas – que nos representam politicamente – por razões que se esgotam nos seus interesses e vantagens. Este caso, na sua faceta mais grave, revela que uma parte da nossa comunidade – muito vocal porque domina posições políticas, mediáticas e sociais – despreza o Estado de direito.
Eis mais um dos legados de Sócrates, entre outros de fértil destino, este de nos estarmos a conhecer de ginjeira.
Curiosidades do reino da estupidez
Na segunda-feira, numa conferência dedicada ao Orçamento, Sócrates disse uma banalidade:
Decidimos aumentar o nosso défice não por descontrolo, mas para ajudar a economia, as empresas e as famílias.
À noite, na porqueira do Crespo, ensaiava-se a indignação deturpando à má-fila o sentido da declaração. Dizia-se que Sócrates estava a desautorizar Teixeira dos Santos, o qual tinha recentemente explicado a diferença entre as previsões durante 2009 e o resultado apurado em 2010 recorrendo à mais humilde das confissões: enganei-me mas não engano. Pelo resto da noite, e ainda nesta terça, várias catatuas repetiram a manha de transformarem uma declaração política genérica e indiscutível numa farsa onde o que estaria em causa já não era a decisão de acudir aos necessitados mas o processo de apuramento final do défice. Para estas alimárias, Sócrates teria estado a defender o valor 9,3 por cento como meta específica a alcançar.
Claro que alguns estarão apenas a mangar com o pessoal, mas a maior parte destes camurços há muito tempo que não regista actividade sináptica.
Génio de Carvalhal
Tareia das antigas. Baile. Recordações do futebol dos anos 80. Gozação suprema para o Pinto da Costa e suas contratações de jogadores do Sporting. E este maravilhoso espectáculo só possível pelo génio de Carvalhal.
Manter o Veloso a médio, para depois mandar embora o Adrien, não está ao alcance de qualquer. Tal como preferir o Saleiro, que talvez ficasse no banco se jogasse no Belenenses. Mas é na colocação de Matías e Pereirinha fora da equipa inicial, ao mesmo tempo que mantém uma actual fraude chamada Moutinho a espalhar mediocridade pelo relvado, que o génio de Carvalhal consegue vergar as evidências para lá do seu ponto de resistência. E dá nisto: uma equipa que não merece o Izmailov.
As derrotas são belas quando dão que pensar.
Mercado da decadência
Já sabíamos que Portugal estava cheio de quem queira que se publiquem escutas sob segredo de Justiça, ainda por cima ilegais e sem relevo criminal. Agora, sabemos que há quem se ofereça para captar, divulgar e explorar pedaços de conversas privadas, usando-as em benefício próprio e com a intenção de causar prejuízo a terceiros. Salazar ri à gargalhada.
Tirando o processo Charrua, que as abéculas bolçam por não terem outro – e o qual acabou com a desautorização ministerial de quem iniciou o processo e ainda com a elevação a celebridade do protagonista -, gostava de conhecer o caso de alguém que tenha sido prejudicado em matérias de liberdade de expressão pelo Governo de Sócrates. Um caso. Basta um.
Entretanto, os jornalistas tentam prejudicar o Governo por razões onde se misturam corporativismo endémico e deboche, não por amor à Cidade. Crespo é um caso de deboche, venha ele do calculismo ou da paranóia. Os textos do JN revelam um autor de género: catastrofismo. Daí a sua aliança com o Medina, outro catastrofista que já conseguiu ter um show na TV.
Estes são os tempos em que os decadentes ocupam os lugares vagos, são usados para entreter. Há uma geração que apodrece frente às câmaras, na tribuna, pendurados na coluna de opinião sem nada que valha a pena conhecer, muito menos lembrar. Servem-se do espaço público para nos massacrarem com a sua derrelicção. E pagam-lhes bem.
Depois do Zé Manel, convidem o Crespo
O palhaço compra empresas de alta tecnologia em Puerto Rico por milhões, vende-as em Marrocos por uma caixa de robalos e fica com o troco. E diz que não fez nada. O palhaço compra acções não cotadas e num ano consegue que rendam 147,5 por cento. E acha bem.
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O Blasfémias vai ter um novo autor, o celebérrimo Zé Manel. Contudo, não é crível que esta vedeta escreva prosa tão interessante como a que cito. E o universo há-de arrefecer, e esfarelar-se, antes que a Helena Matos sequer ouse sonhar com negociatas onde o palhaço abarbata 147,5 por cento. Assim, apertem-se um bocadinho e acolham o Crespo. É que a sua carreira está ameaçada, ele praticamente já só aparece na televisão e publica livros.
Resolver o problema
Nesta direcção do JN, sou um problema resolvido, Moura Guedes, é um problema resolvido na direcção da TVI, José Eduardo Moniz é um problema resolvido na direcção da Media Capital, José Manuel Fernandes é um problema resolvido no PÚBLICO
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Como é que se poderá resolver o problema do Crespo? A fazer fé nas suas declarações, a solução passa por:
– Demitir-se da SIC – exemplo JN
– Meter baixa médica na SIC – exemplo Moura Guedes
– Ser contratado para vice-presidente de um poderoso grupo de comunicação interessado em comprar a SIC – exemplo José Eduardo Moniz
– Ser demitido pelo Balsemão por manifesta incompetência profissional – exemplo José Manuel Fernandes
Se alguma destas opções não for do seu agrado, também pode pegar no Medina, no Pacheco, na Moura Guedes, no Cintra Torres, na Helena Matos, no Carlos Vidal, no João Gonçalves e montar um espectáculo: Freeport Circus – A face oculta dos palhaços
Vinte Linhas 446
Os três meninos brincam com as canas da praia
Estamos no último dia de Janeiro. As ondas do mar na Foz do Lizandro rasgaram por fim a enorme duna de areia que separava as águas verdes e paradas do rio das outras águas azuis e agitadas do Oceano Atlântico.
Uma colecção de fatos de borracha seca ao sol no parapeito de um dos bares da praia enquanto um inglês lê um livro à porta da sua roulotte sentado numa cadeira de lona e completamente descalço, no usufruto completo e feliz do sol de Portugal.
As ondas da maré-alta trouxeram canas secas ao areal quase deserto. Na gramática da Natureza é possível (é mesmo provável) que estas canas tenham sido atiradas ao mar pela ligação rasgada na areia pelo furor das ondas. Entre as bicas escaldadas e os jornais do fim-de-semana, entre as conversas vagarosas e os telemóveis sossegados, três crianças brincam na praia à nossa frente com as canas.
Cada uma pega em duas canas. Parecem cavaleiros da Távola Redonda à procura do Rei Artur. É inevitável. Recordo de imediato o meu neto Thomas Francisco em Greenwich à beira do Tamisa a brincar com as suas canas. Em Outubro perguntei-lhe se ele estava a observar pássaros; ele respondeu que queria era brincar com os paus – como ele chama às canas na margem do rio Tamisa. Mais à esquerda dois rapazes com pranchas de surf cruzam o caminho dos três meninos. São dois tês gigantes no meio do círculo irregular dos meninos com as suas canas. Na ortografia da tarde, os tês do surf na cabeça dos jovens radicais são iguais aos tês das canas levantadas no ar dos três meninos que brincam na praia do Lizandro. É o esplendor do Sol.
Ego-trip
Não gostavas de ter o Primeiro-Ministro, o Ministro de Estado e o Ministro dos Assuntos Parlamentares, em dia de apresentação do famigerado Orçamento, tão assustados com o teu poder que chegassem ao ponto de perder as estribeiras durante o almoço num local público?
Não gostavas de ter um Governo que existisse apenas para te combater?
Não gostavas de adormecer imaginando que o mundo voltava a ser do tamanho do teu quarto?
Palhaçada
Vale tudo para vender um livro.
Gazeta do optimista
– Temos um Parlamento que a qualquer momento manda embora o Governo e resolve logo os problemas todos.
– Temos um Presidente que a qualquer momento manda embora o Governo e obriga o Parlamento a resolver logo os problemas todos.
– Temos um Ministério Público que denuncia qualquer pressão, mesmo que venha de colegas amigos e seja feita em almoços e telefonemas.
– Temos juízes que autorizam qualquer escuta, mesmo que seja ao Primeiro-Ministro e a mesma não seja legal nem ilegal o conteúdo da mesma.
– Temos jornalistas que denunciam todas as manobras do Governo, não se deixando calar por nenhuma autoridade.
– Temos jornalistas que acusam durante anos seguidos os governantes e os partidos de serem corruptos sem que precisem de apresentar qualquer prova.
– Temos uma casta de colunistas que não gosta de ninguém, mas que continua a querer a atenção de toda a gente.
– Temos palonços famosos a berrar que há anónimos a assinarem textos privados que são publicados em meios privados.
– Temos ainda mais 11 meses do melhor 2010 de sempre.
Fala de Carlos Pato a Alves Redol 60 anos depois
Não morri. Sei que vai sair um pequeno livro
com os meus três contos por si guardados.
Em Vila Franca pouca gente sabe do assunto
mas em breve esse livro de contos vai esgotar.
Continuo nas histórias breves que escrevi
e no seu pequeno prefácio onde me recorda.
Sou o Bairro, sou a Charneca, sou a Lezíria
e os sonhos dos meus dois filhos por sonhar.
Não morri. Continuo no olhar dos meus filhos
Clara bebé e João Carlos que não cheguei a ver.
No olhar e nos sonhos por mim transmitidos
entre o rio de Santa Sofia e o Largo do Serrado.
Ainda hoje, tantos anos depois, sobeja azeite
no aroma intenso que se espalha pelas ruas.
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Esquerda, direita, revolver
Esta infografia explica o fenómeno das eternas discussões que nunca convencem qualquer das partes a aderir, ou conceder, à posição adversária. É que de cada lado está um mundo vasto, origem e abrigo de identidades.
Precisamos de um território que se intrometa entre a esquerda e a direita. Precisamos de novas palavras ou de novas definições. Precisamos daquele tipo heróico de inteligência que ousa confiar no adversário.
Palmadas na Palmira
A França, mais uma vez, está a ser o farol da secularidade. A intenção de proibir os véus em edifícios e transportes públicos irrompe vantajosamente equívoca. O resultado é um debate que favorece ambas as partes, a secular e a religiosa. Os seculares dividem-se entre aqueles que realçam as vantagens da uniformidade cívica e os que protegem a cívica individualidade. Já os religiosos, de diferentes credos, unem-se contra um inimigo comum.
O Jugular lidera este debate na blogosfera, apresentando a mais difícil das posições: mulheres que abominam a violência de origem ou capa religiosa a defenderem tradições religiosas que podem violentar mulheres. Contradição? Não, a questão é que suscita mudança de ponto de vista quando aprofundada: consideram uma violência maior a coerção do Estado, a qual ignora que se pode escolher o véu livremente – e também que a sua proibição pode piorar a situação dessas mesmas mulheres ao lhes retirar poder. A posição que advoga a manutenção do statu quo é a mais inteligente, mas não acaba com o problema, pois há igualmente boas razões republicanas para exigir a interdição do véu. O conflito entre secularidade e religião não tem fim, ou só tem um fim: a derrota política da religião.
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